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SENTIMENTO MÃE↔PAI ARGUMENTOS

6. IMPLICAÇÕES SUBJETIVAS DO REVELAR DA PATERNIDADE

6.1 A FORMATAÇÃO DA FAMÍLIA POPULAR: O QUE O CONTROLE DENUNCIA

“A identificação da maternidade com a reprodução biológica nega que o mais importante na reprodução humana não é o processo de concepção e gestação, mas a tarefa social, cultural, simbólica e ética de tornar possível a criação de um novo sujeito humano” (S. Tubert, 1996, apud PORTUGAL, 2001, p.3).

Os dados sociais das mães-participantes desta pesquisa indicam sua condição de vida, explicitando que há um perfil claramente delineado de aderência ao procedimento de averiguação de paternidade tutelado pelo Estado. Apesar de o procedimento ser extensivo a todos com Certidão de Nascimento sem a referência paterna, e não direcionado a uma parcela específica da população, é a classe pobre que na maior parte das vezes atende à intimação. Importante ressaltar, que não há nenhum indicativo de uma maior incidência da ausência paterna em famílias pobres.

Dados contextualizados com a condição socioeconômica do Estado, diante dos números expressivos de pobreza, o atendimento à intimação é maior entre as famílias pobres, isso porque são encontrados em maior proporção no Estado? Como indicarem os dados, ou suspeita mais forte, as famílias populares mantém uma relação de maior submissão com a justiça. Expondo que, mais que controlar e garantir o direito de filiação, mecanismos como este também denunciam a condição de vida das mães alcançadas pelo judiciário a alegarem a paternidade de seus filhos.

O debate sobre as condições em que se exerce a maternidade e a paternidade no cenário social, econômico e cultural é relevante, pois torna visível o movimento de responsabilização da família de maneira unilateral, sem, contudo, dispor de um aparato mínimo que sustente os lugares de pai e mãe, assim como são requeridos.

O que está em questão é a dimensão política, do cuidado, da inclusão social, do desenvolvimento humano, da perspectiva de vida, que muitas vezes passa longe diante de tantas ausências, mas que não cansa de alimentar a luta diária pela sobrevivência. Da ilusão da inclusão com a retórica da participação social, limitadas por seus próprios mecanismos, à muleta dos programas de transferência de renda que camufla um modelo de crescimento excludente.

Pensar a maternidade e a paternidade é, de certo modo, discutir como se constrói uma cidadania social e política que prioriza a vida, o cuidado, pensando as formas de garantir as condições necessárias ao seu exercício. Refletindo melhor, estamos na contramão, em vez de criar condições ao exercício da parentalidade, a requeremos com a criação de leis e mecanismos diversos, intervindo sem considerar as condições de possibilidade.

O caminho percorrido pela averiguação de paternidade no Brasil e mais especificamente em Alagoas pode ser um retrato fidedigno deste movimento. A mulher historicamente busca descolar sua imagem da maternidade, algo que por muito tempo permaneceu inscrito no corpo social. Depois de todo o movimento de liberação sexual, agora, está fadada a ser mãe? Pensando as diversas possibilidades de prevenção hoje disponíveis, isso seria verdade? A notória negligência estatal no tratamento da contracepção e do planejamento familiar aponta para uma cumplicidade. Seria essa outra forma de colar a figura da mulher com a de mãe, possibilitando um retorno e, de certo modo, o retraimento da mulher a esse lugar?

“[...] não sabeis que vosso filho saltou para dentro da vida? Saltou para dentro da vida ao dar o seu primeiro grito; [...] Da sua formosura já venho dizer: é um menino magro de muito peso não é. Mas tem o peso de homem, de obra de ventre de mulher” (MELO NETO, 2009)

Mas, que mulher é essa? Que gera um filho não planejado e sem a paternidade reconhecida? É o que iremos discutir na análise das entrevistas com as mães intimadas a alegarem quem é o pai de seu filho. Uma primeira tabela diz respeito aos dados sociais básicos, coletados no sentido de montar o cenário no qual as histórias apresentadas se desenrolam. Foram realizadas 13 entrevistas, com uma diversidade de histórias, ao mesmo tempo em que apresentam universos sociais bastante próximos, o que permite situar o contexto em que o procedimento alcançou grande repercussão e aderência, a família popular alagoana.

A formação econômica, social e política de Alagoas têm raízes profundas no modo de implantação da atividade canavieira. Do século XVI ao século XX, a história de Alagoas tem como núcleo a história da agroindústria do açúcar. A monocultura da cana-de-açúcar, por sua

própria natureza, exige terras férteis e só é economicamente viável, quando cultivada em grandes extensões. Ela é responsável pela consolidação do padrão elevado de concentração da posse da terra, que por sua vez gerou na sociedade alagoana, uma grande desigualdade social, um baixo nível de emprego e um excessivo grau de analfabetismo (LIRA, 2007). Esse modelo de política econômica conservada ao longo dos anos mantem a desigualdade.

As mães entrevistadas na pesquisa se encontram na faixa etária entre 18 e 33 anos, em período reprodutivo. Os dados sociais, apresentados na Tabela 1 abaixo, contemplam ainda: idade, escolaridade, profissão, bairro de residência, Estado Civil e quantidade de filhos. Dados que falam, e ampliados com outros indicadores que apresentaremos, situam no lugar no qual a pesquisa se desenvolve. Importante ressaltar que os nomes descritos a seguir são fictícios, no sentido de preservar o anonimato das participantes da pesquisa.

Tabela 4 – Dados Sociais das Participantes da Pesquisa

Fonte: Elaborada pela autora.

Elementos como Educação, Renda e Longevidade integram o IDH – Índice de Desenvolvimento Humano, o ultimo foi publicado em 2013 pelo Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento, tomando como base os dados do Censo demográfico do IBGE de 2010. No gráfico a seguir é possível visualizar que nos três dados, tomados como base para IDH, Alagoas está sempre abaixo da média nacional, com uma discrepância ainda maior quando a referência específica é a Educação, o que se configura uma pista de outros elementos desse contexto sociopolítico.