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RESUMO- O patógeno Guignardia citricarpa, agente causal da mancha preta (MPC), é específico de citros, podendo causar lesões em ramos, folhas e frutos. Os frutos cítricos estão continuamente suscetíveis a doença, ficando, essa limitada às condições climáticas prevalentes e disponibilidade de inoculo. O trabalho teve por objetivo avaliar a importância das pulverizações de fungicida cúprico, da fase de queda das pétalas e, até sete meses após, no controle da mancha preta dos citros. Para relacionar períodos de infecção com a fenologia dos frutos foram feitas pulverizações de oxicloreto de cobre (90g Cu++/100 L de H2O) em mistura com óleo mineral emulsionável (0,25%), em intervalos de 28 dias. Os tratamentos consistiram de aplicações seqüenciais com lacunas de aplicações. Avaliou-se para cada período de aplicação, o diâmetro de 50 frutos por planta. Na colheita, avaliou-se a incidência e a severidade da MPC, com auxílio de escala diagramática, em 100 frutos por planta útil, totalizando 1600 por tratamento, e a produção das 4 plantas úteis da parcela experimental. Os resultados da incidência da MPC, obtidos no momento da colheita, demonstraram que mesmo sendo feitas seis pulverizações de cobre a cada 28 dias, 53,3% dos frutos expressaram os sintomas da doença. Quanto à severidade, deixar de se fazer qualquer uma das seis aplicações resulta em valores iguais ao de se fazer as seis pulverizações Os dados mostraram que as infecções precoces interferem na qualidade visual do fruto, porém não na produção. Com o crescimento dos frutos, as infecções interferem negativamente na produção, levando a um aumento na queda de frutos.

3.1. Introdução

O patógeno Guignardia citricarpa, agente causal da mancha preta (MPC), é específico de citros (BAAYEN et al., 2002), podem causar lesões em ramos, folhas e frutos. A doença causa a queda prematura dos frutos (TIMMER, 1999), podendo levar a reduções de até 80% na produtividade em áreas com alta pressão de inóculo, e ausência de controle da doença (KLOTZ, 1978). A MPC afeta praticamente todas as espécies de citros de importância econômica, especialmente as variedades de laranjeiras doces (ALCOBA et al., 2000; AGUILAR-VILDOSO et al., 2002). Exceção faz-se apenas à laranja azeda e faz-seus híbridos, os quais são resistentes (KOTZÉ, 1988), e a lima ácida ‘Tahiti’, a qual é insensível ao patógeno (BALDASSARI et al., 2007).

A expressão dos sintomas nas variedades tardias está relacionada com a época de maturação das variedades, sendo tanto maior quanto mais maduro estiver o fruto (FEICHTENBERGER, 1996; SPÓSITO et al., 2004). No hemisfério Sul, essas condições ocorrem no segundo semestre, o que intensifica os sintomas nas variedades tardias. Altas temperaturas combinadas à intensa radiação solar são condições ambientais que favorecem a expressão dos sintomas (KOTZÉ, 1963; FEICHTENBERGER, 1996).

Os frutos cítricos estão continuamente suscetíveis a doença, ficando, essa limitada às condições climáticas prevalentes e disponibilidade de inóculo (BALDASSARI et al., 2006; ALMEIDA, 2009).

A MPC em seu ciclo apresenta dois tipos de inóculo, os ascósporos, produzidos em folhas cítricas em decomposição e disseminados pelo vento, e os conídios, produzidos em frutos, folhas e ramos fixados à planta e dispersos pela ação da água (KOTZÉ, 1988). Enquanto na África do Sul, aparentemente, os conídios têm importância secundária, para o estado de São Paulo ambas as formas são notavelmente importantes (SPÓSITO et al., 2007).

O controle da MPC baseia-se no emprego de métodos culturais e, principalmente, no uso de fungicidas. Dentre os fungicidas utilizados no controle da doença incluem-se os protetores ou residuais, como os cúpricos (hidróxido de cobre, oxicloreto de cobre e óxido cuproso), os sistêmicos, como os benzimidazóis (carbendazim) e os

mesosistêmicos, como as estrobilurinas (azoxystrobin, trifloxystrobin e pyraclostrobin) (FEICHETENBERGER et al., 2005). Em termos gerais os intervalos de pulverizações com fungicidas protetores são realizados em intervalos médios de 28 dias, e de fungicidas sistêmicos ou mesosistêmicos de 42 dias. Devido ao longo período de suscetibilidade dos frutos, são necessárias várias pulverizações com fungicidas, isoladamente ou em combinação, associados ao óleo mineral ou vegetal. De acordo com ALMEIDA (2009), nas pulverizações com fungicidas deve-se levar em conta o destino final dos frutos, quer seja para o processamento industrial ou o mercado de fruta fresca interno ou exportação.

Por mais que os frutos estejam suscetíveis durante todo seu desenvolvimento, dois fatores convergem para que a grande descarga de inóculo ocorra, em ordem decrescente, desde a queda das pétalas até aproximadamente sete meses. O primeiro fator é a queda acentuada de folhas (fonte de ascósporos) no inverno, no Estado de São Paulo. Com o início da primavera ocorre o florescimento nos citros e havendo coincidência entre as folhas em decomposição no solo produzem e dispersam a médias e longas distâncias os ascósporos. O segundo fator é o climático no estado de São Paulo o período chuvoso se estende, em média até abril. Como há necessidade de água para liberação dos ascósporos das folhas em decomposição e dos conídios produzidos em frutos sintomáticos e ramos secos, esse fator limita a doença. Tendo em vista essa situação, o trabalho teve por objetivo avaliar a importância das pulverizações de fungicida cúprico, da fase de queda das pétalas e, até sete meses após, no controle da mancha preta dos citros.

3.2. Material e Métodos

O experimento foi conduzido em pomar comercial da laranja doce ‘Valência’ enxertada em limão Cravo, com 8 anos de idade, em espaçamento de 7 x 4 m, localizado no município de Mogi Guaçu, SP. Para relacionar períodos de infecção com a fenologia dos frutos, foram feitos pulverizações de oxicloreto de cobre (90g Cu++/100 L de H2O) em mistura com óleo mineral emulsionável (0,25%), em intervalos de 28 dias.

Os tratamentos consistiram de aplicações sequenciais com lacunas de aplicações (Tabela 1).

Tabela 1: Tratamentos com oxicloreto de cobre (3,6 kg/2000L) + óleo mineral emulsionável a 0,25% (v/v) no controle da mancha preta em frutos de laranjeira doce ‘Valência’. Mogi Guaçu, SP, 2008/9.

Tratamentos Época de aplicação a 2/3 pc 28 d 56d 84d 112d 140d 1 - X X X X X 2 X - X X X X 3 X X - X X X 4 X X X - X X 5 X X X X - X 6 X X X X X - 7 X X X X X X 8 - - - - - - a

- : ausência de aplicação; b X: realização da aplicação.

Cada parcela experimental foi constituída por 8 plantas na linha de plantio, sendo as quatro plantas centrais consideradas para as avaliações. O experimento foi conduzido em blocos ao acaso, com 4 repetições por tratamento. Entre os blocos deixou-se uma linha de bordadura, para evitar a contaminação das parcelas vizinhas devido à deriva dos produtos durante as pulverizações.

Avaliou-se, para cada período de aplicação, o diâmetro de 50 frutos por planta. Na colheita avaliou-se a incidência (porcentagem de frutos sintomáticos) e a severidade da MPC (porcentagem da casca lesionada), com auxílio de escala diagramática (SPÓSITO et al., 2004), em 100 frutos por planta útil, totalizando 1600 frutos por tratamento. Avaliou-se a produção das 4 plantas úteis da parcela experimental. As médias foram comparadas pelo teste de Tukey a 5% de significância, utilizando o programa AgroEstat Sistema para Análises Estatísticas versão 1.0 (BARBOSA & MALDONATO JUNIOR, 2010).

3.3. Resultados e Discussão

Os frutos cítricos cresceram desde a queda das pétalas até 140 dias de desenvolvimento, 20,43 % da sua área, passando de 3,8 mm para 54,7 mm de diâmetro (Tabela 2). Esse crescimento é decrescente, ocorrendo o maior crescimento relativo nos primeiros 28 dias, com uma expansão do fruto de 846,1%. Esse crescimento descontínuo pode interferir no controle químico da doença. Os produtos sistêmicos, mesosistêmicos e protetores, em frutos, atuam da mesma forma, protegendo os frutos, pois nestes não há sistemicidade de produtos no flavedo. Portanto, esse crescimento excessivo pode deixar espaços descobertos a medida que o fruto se desenvolve, e levar à infecção pelo patógeno, mesmo obedecendo os intervalos recomendados para aplicação de cada produto.

Tabela 2: Tamanho de frutos de laranjeira ‘Valência’ desde a fase de 2/3 de queda de pétalas até 140 dias. Mogi Guaçu, SP, 2008 e 2009.

Época Diâmetro médio (mm) Superfície média (mm2) Crescimento (%) Somatória (%) 2/3 pétalas caídas 3,8 45,8 - - 28 dias após PC 11,8 433,7 846,1 846,1 56 dias após PC 26,0 2123,7 389,6 4532,5 84 dias após PC 37,0 4300,8 102,5 9281,6 112 dias após PC 46,2 6708,5 55,9 14533,4 140 dias após PC 54,7 9413,7 40,3 20434,4

Os resultados da incidência da MPC, obtidos no momento da colheita, demonstraram que, mesmo sendo feitas seis pulverizações de cobre a cada 28 dias, 53,3% dos frutos expressaram os sintomas da doença (Tabela 3). Os únicos tratamentos que diferiram significativamente da testemunha foram o T6 (sem a sexta aplicação) e o T7 (seis aplicações). Portanto, para a incidência, a sexta aplicação não resulta em incremento no controle da MPC. Entretanto, deixar de fazer qualquer uma das cinco primeiras aplicações (até 112 dias após a queda de pétalas) resulta em incidência da MPC igual a se não fizesse nenhuma aplicação. Esse dado é importante para quem produz frutos para o mercado de fruta fresca, onde a incidência é um fator limitante. As seis aplicações de oxicloreto de cobre mais óleo mineral imulsionável resultaram em

46,7% de frutos sem sintomas da doença em uma área em que a não aplicação resulta em 99,3% dos frutos com sintomas da MPC. Mesmo controlando quase 50% da doença, o não controle total pode ser atribuído a dois fatores: a) os frutos sofreram infecção após o período de cobertura (168 dias) e/ou b) no processo de crescimento dos frutos, durante as pulverizações, abriram-se espaços desprotegidos nos frutos os quais propiciaram a infecção do patógeno e expressão dos sintomas.

Quanto à severidade, deixar de se fazer qualquer uma das seis aplicações resulta em valores iguais ao de se fazer as seis porém se diferencia significativamente da testemunha (Tabela 3). No caso da severidade, está bem demonstrado que a grande diferença entre os tratamentos e a testemunha deveu-se à infecções após o período de cobertura das aplicações fungicidas (168 dias).

Tabela 3- Resultados de porcentagem de severidade, porcentagem de incidência da mancha preta do citros e produção.

Tratamentos Caixas/pé (40,8 Kg) Severidade (%) Incidência (%) T1 (Sem a 1) 4,8 a 3,8 ab 4,1 ab 3,5 b 3,4 b 3,7 ab 4,7 a 3,2 b 1,91 a 2,11 a 2,65 a 1,70 a 1,28 a 1,17 a 1,27 a 7,68 b 78,0 ab 84,3 ab 84,5 ab 80,0 ab 81,0 ab 53,0 a 53,3 a 99,3 b T2 (Sem a 2) T3 (Sem a 3) T4 (Sem a 4) T5 (Sem a 5) T6 (Sem a 6) T7 (6 aplicações) T8 (testemunha)

Médias seguidas por letras iguais, minúsculas nas colunas não diferem entre si (Tukey, p>0,05).

Os dados de incidência e severidade obtidos no experimento corroboram com a epidemiologia da MPC. Os ascósporos dispersos em grandes quantidades a partir da

até 180 dias (KOTZÉ, 1963), por serem dispersos pelo vento são responsáveis por aloinfecções, e portanto, no incremento da incidência da doença, enquanto que, os conídios formados em frutos sintomáticos e ramos secos, dispersos por água a curtas distâncias, são responsáveis por autoinfecções, e portanto, no incremento da severidade da doença (SPÓSITO, 2006). Portanto, não há uma relação direta entre a incidência e a severidade da doença, provavelmente, por que cada uma delas tem como um tipo de inóculo responsável.

Quanto à produção, apenas os tratamentos T1 (sem a primeira aplicação) e o T7 (seis aplicações), diferiram da testemunha (Tabela 3). Os dados mostraram que as infecções precoces interferem na qualidade visual do fruto porém não na produção. Com o crescimento dos frutos, as infecções interferem negativamente na produção, levando a um aumento na queda de frutos.

Segundo SCALOPPI (2010), há correlação negativa entre a distância dos sintomas de MPC ao pedúnculo, com a queda dos frutos. Ou seja, infecções tardias tem maior possibilidade de se expressarem próximos ao pedúnculo e ocasionar a queda precoce dos frutos. Infecções precoces, devido ao longo período de incubação e o crescimento acentuado dos frutos nesse período (Tabela 2), faz com que as lesões se expressem longe do pedúnculo não levando a queda dos mesmos.

O controle químico da MPC deve ser direcionado para o propósito da produção dos frutos cítricos. O conhecimento de como a doença interfere na sintomatologia dos frutos e em sua produção é de fundamental importância para um controle mais eficaz sem prejuízos para o produtor e ambiente.

3.4. Conclusão

Para a incidência, realizar seis aplicações de fungicida não resulta em incremento no controle da MPC, mas não realizar uma das cinco primeiras aplicações (até 112 dias após a queda de pétalas) resulta em incidência da MPC igual a se não fizesse nenhuma aplicação.

Para severidade não é necessário realizar as seis aplicações de fungicida no controle da doença.

Infecções precoces interferem na qualidade visual do fruto e com o desenvolvimento do fruto as infecções interferem negativamente na produção, levando a um aumento na queda de frutos.

3.5. Referências

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