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2.2. CAPACIDADE DE CARGA EM SISTEMAS LITORAIS

2.2.2. Importância de determinação da capacidade de carga das praias

A frequentação das praias começou no século XVIII, sendo inicialmente associada a fins terapêuticos e medicinais e era realizada apenas pelas classes mais abastadas (Vaz, 2008). Só mais tarde, na segunda metade do século XX, esta actividade começou a ser realizada por todo o tipo de turistas, sendo as praias vistas como um local de descanso e os banhos no mar vistos como actividade de lazer e não medicinal.

Ainda hoje, o turismo de sol e praia é muito praticado e apresenta uma grande relevância em termos económicos pela ocupação hoteleira e pelo aumento das actividades de comércio e restauração. As praias, propriamente ditas são agora vistas como locais de descanso e entretenimento onde podem ser praticadas as mais diversas actividades de recreio como desportos, interacção social, contemplação da paisagem, entre outros.

Este tipo de turismo (de sol e praia ou balnear) pode ser considerado como turismo massificado, devendo-se esta designação à elevada concentração de pessoas num local num período específico de tempo (Figura 2.7.).

Figura 2.7. Multidão na praia de Haeundae (Coreia do Sul)

(Fonte: http://www.nuffy.net/misc/pics/crowded-beach-in-world.html)

A imagem apresentada dá uma ideia do que representa o turismo de massas e permite a formulação de questões pertinentes: Que impactes poderá ter este turismo no ambiente

Marta Ribeiro | 17 local?, Que impactes poderá ter este turismo na cultura local?, Poderá este tipo de turismo ser sustentável?

Em Portugal, a região que melhor ilustra esta problemática é o Algarve, que apresentou dificuldades em suportar a afluência de turistas. Um exemplo é a construção da Estação de Tratamento de Águas Residuais (ETAR) de Vila Real de Santo António e Castro Marim. Esta ETAR tem o objectivo de cumprimento da legislação, de tratamento das águas residuais que eram descarregadas directamente no meio receptor e substituir sistemas de tratamento com deficiências de funcionamento (ETAR de Altura, Manta Rota e Castro Marim) (PROCESL, 2001

)

. A capacidade destes sistemas de tratamento era muito ameaçada nos períodos de Verão, o que influenciava a qualidade das águas das praias de Manta Rota e da Lota.

Deste modo, apesar das praias, propriamente ditas, representarem o factor determinante da ocupação das zonas costeiras, considera-se que complementar a determinação da capacidade de carga das praias com o estudo das capacidades de carga dos locais contíguos a estas (como as infra-estruturas de acomodação e suporte) pode contribuir para uma melhor utilização e exploração destes espaços.

Particularizando a capacidade de carga das praias, esta inclui as vertentes física, social e ecológica.

Um factor que influencia a capacidade de carga física é a variação da quantidade de areia das praias. Esta variação, traduz-se, por vezes, em perdas significativas de areia resultantes da acção do vento e da hidrodinâmica, sendo estas acções consideradas as mais importantes comparativamente aos seguintes factores apresentados.

Um outro factor que também pode influenciar a quantidade de areia na praia, embora de modo menos significativo que a erosão eólica e hídrica, é a perda de areia por parte dos próprios utilizadores (Yepes, 2010a). Yepes indica uma perda de aproximadamente 20 a 30 gramas de areia por utilizador, que embora não aparente ser uma grande quantidade, no caso de elevados níveis de utilização pode representar uma perda considerável.

Conjuntamente a estes factores, surge outro que também pode influenciar o espaço disponível, a subida do nível médio das águas do mar. As alterações climáticas provocam um aumento da temperatura global e consequentemente a subida do nível médio do mar. Este acontecimento tem repercussões nas zonas costeiras e principalmente na sustentabilidade das praias marítimas, podendo provocar um avanço da linha de costa para o território terrestre. É esperado que o aumento do nível médio das águas do mar diminua o tamanho das praias, alterando as características das mesmas (Coombes et al., 2009) e diminuindo o espaço disponível para uso balnear.

Assim, admite-se que a capacidade das praias para acomodar fisicamente os veraneantes tem-se alterado e é este cariz variável, flexível e dinâmico que torna necessária a sua

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determinação regular a fim de evitar a sobrelotação das praias e permitir uma melhor gestão do espaço disponível.

Dos inúmeros efeitos da elevada ocupação das praias provocados no ambiente, destacam- se a erosão das dunas, degradação dos recifes de corais, interferência com os ecossistemas marinhos e outros e poluição das águas balneares e da areia. Neste caso, alguns impactes ambientais podem interferir directamente com os utilizadores uma vez que representam um risco para a saúde pública como a qualidade da água e da areia.

Para as alterações provocadas não afectarem irreversivelmente o valor ecológico ou a capacidade de restituição desse valor, as actividades devem ser tais que interfiram o menos possível com os ecossistemas.

A acrescentar aos impactes que se podem verificar a nível físico e ecológico, surgem os impactes sociais nos próprios visitantes e nas populações residentes no local receptor (Saveriades, 2000).

A utilização das praias é sujeita a uma variedade de utilizadores tanto a nível cultural ou racial como de faixa etária, riqueza ou educação. Este facto torna as praias um local de grande interacção social, o que pode originar problemas no que respeita à percepção dos utilizadores. Apesar disso, a escolha das praias por parte dos utilizadores pode depender de factores como o tempo que estes têm disponível e a expectativa que têm quando visitam certa praia. Por exemplo, ao optarem por uma praia do tipo I (praia urbana de uso intensivo), os utilizadores sabem, à partida, que podem contar com um grau de congestionamento superior ao de uma praia afastada de centros urbanos e de cariz mais natural, onde o grau de congestionamento é habitualmente inferior.

O grau de congestionamento ou Crowding effect, também pode representar um aspecto repulsivo na escolha das praias, direccionando os turistas para outros locais. As praias ao serem vistas como espaços de descanso e lazer convém que os utilizadores de sintam bem quando as frequentam. Um número elevado de veraneantes pode representar desconforto ou perda de privacidade.

Embora, a quantidade de utilizadores possa ser um factor a considerar, o comportamento desses utilizadores é igualmente importante. O respeito pelo próximo e a prática de actividades que não ponham em risco a satisfação dos outros veraneantes influencia positivamente a percepção do grau de congestionamento, mesmo que se apresentem valores de utilização elevados.

Assim, a definição de valores de utilização das praias é importante, tanto física, ecológica como socialmente, contribuindo para a preservação dos recursos naturais.

Marta Ribeiro | 19 Muitos estudos foram elaborados no sentido de encontrar uma ocupação ideal para estes espaços. Os resultados obtidos por alguns autores destes estudos variam entre 5 e 25 m2/utilizador (Tabela 2.2.)

Tabela 2.2. Estudos sobre índices de utilização de praias

Fonte: de Ruyck (1997), adaptado por Silva (2002)a e Roca et al. (2008)b

Estudos m2 por utilizador

Andric et al.,1962a 5

ORCC, 1973a 9,2

Foras Fobatha, 1973a, b 10

Florida Recreation and Park Association, 1975a 9,2

Baud, Bovy & Lawson, 1977a 8

Urban Land Instituto, 1981a 14

MOPU, 1984b 4 Alemany, 1984b 5 Sowan, 1987a 15 Ruyck et al., 1997a 6,3-25 Yepes, 1999a,b 5 Blàzques, 2002b 7,5 Roig, 2003b 5-25