3 SENTIDO E SIGNIFICADO DO TRABALHO
7.3 A IMPORTÂNCIA DO LOCAL E DOS COLEGAS DE TRABALHO NA VIDA DO
O local de trabalho, na época da revolução industrial, poderia ser considerado até mais importante do que o lar do trabalhador. As pessoas passavam até quase 16 horas de seu dia trabalhando, muitas vezes chegando a dormir no trabalho para terem mais tempo de descanso. (ULRICH, 2010)
Como as mudanças ocorridas na morfologia do trabalho durante a década de 1990, e a década de 2000, a flexibilização do local de trabalho com a chegada do home office e outros arranjos trabalhistas, a importância do local do trabalho foi relativizada em muitos casos, e, nos casos onde o trabalho continua sendo presencial, a imagem projetada sobre o local de trabalho passou, em muitos casos, a ser de um ambiente hostil e competitivo, onde os trabalhadores possuem a sensação de estarem sempre competindo com seus colegas de trabalho. (SENNETT, 1999)
Para os servidores do balcão de atendimento da BCZM, esta lógica ainda está distante de ser uma realidade. Os trabalhadores descreveram seu ambiente de trabalho, em sua maioria, como um local de coleguismo, criação de laços afetivos e um local onde o 'espírito de equipe' prevalece e é incentivado pela chefia.
“Em termos de símbolo, e é por isso inclusive que eu trabalho aqui, é o
local onde se tem, no Rio Grande do Norte, a maior quantidade de conhecimento (…). Mas institucionalmente, e você deve estar focando na
área de processos, né? É muito ruim” (E1)
“A BCZM é um lugar muito bom de trabalhar, uma equipe muito coesa,
eu acho que a equipe da BCZM tem o que a gente chama em outros lugares de 'espírito de corpo'. As pessoas se ajudam, até de outros setores,
até no setor que eu trabalho, ninguém tá ali pra prejudicar ninguém, na medida do possível está sempre se ajudando” (E2)
“Hoje em dia eu acho que a imagem é muito boa, né? Engraçado né? Eu
achava que quanto mais eu me inserisse na instituição, mais eu veria os defeitos, mas não, acho que eu tenho uma imagem muito boa sim, aquela imagem conhecida de servidor público, que não trabalha, que tem aquela letargia, hoje em dia eu vejo que não, assim, eu vejo que é um povo que se incentivado, fazem a biblioteca girar, a biblioteca acontecer.
Essa é a imagem que eu tenho da BCZM hoje em dia como instituição”. (E3)
“É um local muito bom de se trabalhar, já faz parte da minha vida a muito tempo, antes como acadêmica e agora como funcionária, e acho que é um
dos setores mais importantes da universidade” (E4)
“A biblioteca é uma referência né? Pro estado, até pro brasil. Muito organizada. Eu gosto muito daqui, é um ambiente muito bacana” (E5)
“É uma imagem muito boa, mas poderia ser melhor. Eu acho que a BCZM não utiliza ainda todo o poder que pode ter sobre a universidade” (E6)
Torna-se evidente, no discursos dos servidores, que a biblioteca é um local agradável para se trabalhar, de grande importância para a vida pessoal dos servidores e para a instituição, e que é um local onde há uma equipe de trabalho coesa e que se sente motivada ao trabalho. Esta imagem fica evidente nas falas dos entrevistados E2, E3, E4 e E5.
Já no discurso dos entrevistados E1 e E6, a imagem da instituição não é tão positiva. Para E1, apesar de ser um importante local, a maior fonte de conhecimento em forma física no estado do Rio Grande do Norte, o entrevistado dá a entender que o setor não é eficiente como deveria ser, quando afirma que institucionalmente, na “área de processos” o setor é um local
“muito ruim”. Enquanto ao entrevistado E6, apesar de afirmar que a imagem do setor é boa, ele afirma que a imagem que possui do setor “poderia ser melhor” e dá a entender que o local (ou seus servidores) não dão tudo de si, quando afirma que “eu acho que BCZM ainda não utiliza todo o poder que pode ter [...]”.
Este ambiente de trabalho positivo, onde a competição não está presente e onde há um 'espírito de equipe' parece vir atrelado a estabilidade que é intrínseca ao servidor público, dando sensação de conforto aos servidores, já que seus trabalhos não são ameaçados pelo desempenho de seus colegas, e criando um clima de ajuda mútua entre os trabalhadores:
“[...] eu antes de trabalhar aqui tinha carteira assinada, e tinha aquela coisa de “ah, eu posso não estar empregado próxima semana”, e aqui não tem isso… mas eu acho que isso deia a gente confortável pra fazer um bom trabalho […]. Eu acho que a equipe da BCZM tem o que a gente chama em outros lugares de ‘espírito de corpo’. As pessoas se ajudam, até de outros setores, até no setor que eu trabalho, ninguém tá ali pra prejudicar ninguém, na medida do possível está sempre se ajudando” (E2)
A importância de um ambiente de trabalho agradável para a geração de sentido no trabalho está presente no trabalho de Tolfo e Piccinini (2007), onde a justiça no ambiente de trabalho, o acolhimento por parte dos colegas e igualdade de esforços são descrito como fatores positivos na criação de sentido no trabalho. Já em trabalhos como o de Gui (2002), Shimizu e Ciampone (1999) e Pereira (2014) o ambiente de trabalho é visto como fonte de falta de sentido no trabalho devido ao estresse e aos atritos entre os trabalhadores.
Outro fator considerado importante pelos servidores entrevistados foram as relações afetivas no ambiente de trabalho, descritas por praticamente todos os servidores como um dos fatores que dá sentido ao trabalho na instituição e que ameniza fatores negativos do trabalho.
“Eu me dou bem com todo mundo. Eu acho que não chega na perfeição né? Mas chega naquele ponto em que as pessoas até expõem seus problemas e é tanto que as festas de fim de ano que a gente faz são ótimas. Com meus colegas.. A relação é ótima, assim. Eu sou uma pessoa que me dou muito bem, não tenho essa dificuldade. Tenho verdadeiras amizades com meus
colegas de trabalho. E com a chefia, também me dou muito bem.. eu tenho tanta facilidade de gerar uma amizade até com meus chefes” (E3)
“É bom… Um ambiente agradável, as pessoas que trabalham comigo, principalmente no meu horário, são muito colaboradores. Todo mundo se
dá bem.. a gente vive num certo equilíbrio emocional que faz com que as coisas sejam feitas de maneira adequada”. (E4)
“É bom, não é ruim não… O chefe, e os colegas, são pessoas boas,
compreensivas, não ficam lhe pressionando, não ficam muito no pé. Eu
gosto muito das pessoas, e eu não tenho nenhuma raiva, nenhuma mágoa, eu procuro entender eles… A maioria bem mais jovens do que eu, mas eu me dou bem e gosto muito deles”. (E5)
“O ambiente de trabalho é muito bom, meus amigos são muito
tranquilos, nunca tive problemas com nenhum deles. A relação é ótima, me dou superbem, a gente brinca muito, mas na hora de trabalhar a gente se
dá bem e é muito profissional. Tem muito respeito. (E6)
O coleguismo entre os trabalhadores também foi um ponto crucial nos discursos dos entrevistados por Morin, Tonelli e Pliopas (2007). A relação de amizade no ambiente de trabalho foi citada como um dos fatores que fazem o trabalho possuir um sentido. A relação positiva e feedback positivo da chefia também foi citado como um fator importante para os entrevistados.
Em outros estudos com servidores públicos, em especial na pesquisa realizada por Souza e Moulin (2014), a criação de laços afetivos também é citado como um dos fatores de maior importância no ambiente de trabalho, muitas vezes até entre os servidores e os usuários. Os entrevistados afirmaram terem sido criados laços ‘familiares’ com os colegas de instituição. (SOUZA; MOULIN, 2014).
Estas visões diferem das encontradas em estudos como os de Bosi (2007) e Shimizu e Ciampone (1999), onde a relação de trabalho entre os servidores entrevistados é pautada por uma sensação de sobrecarga de uns em relação a outros, além de um clima de competição e falta de cooperação entre os trabalhadores. (BOZI, 2007; SHIMIZU; CIAMPONE, 1999).