CAPÍTULO IV – A EDUCAÇÃO COMO CONTRIBUTO PARA UM ENVELHECIMENTO BEM-SUCEDIDO
3. A IMPORTÂNCIA DO PROCESSO EDUCACIONAL PARA O BEM ESTAR DO IDOSO
A velhice deve ser encarada como uma fase produtiva e não como uma fase de estagnação. Tal como Simões (2006, p. 101), acreditamos que os idosos representam um potencial ativo, pois contribuem para a resolução de problemas da atual sociedade. Todavia têm sido desprezados, desaproveitados e não nos parece, a curto ou médio prazo, que a sociedade esteja disponível em aproveitar as capacidades de “maturidade” e “sabedoria” dos idosos acumulados ao longo de toda uma existência.
Depois de nos referirmos à maturidade, queremos agora direcionar o interesse para a “sabedoria”. Corroboramos Oliveira (2008, p. 95), que a define como uma característica adquirida através da experiência da vida, permitindo ao ser atingir um equilíbrio entre a cognição e a afetividade, o que lhe dá uma visão global, “essencial da vida”. Para o autor, ser sábio, significa atingir o ponto culminante do pensamento, harmonizando-o com a emoção. Nas palavras de Zimerman (2000, p. 7), implica que “a experiência pessoal, acumulada e elaborada, seja a base para uma existência sábia”. Na linguagem literária de Rubem Alves (2004) este define a sabedoria e:
Sábio não é quem sabe mais que os outros. O Tao-Te-Ching faz uma distinção entre o erudito e o sábio. O erudito é aquele que ajuntou muitos saberes. O sábio é aquele que, saboreando os saberes ajuntados, se dá conta de que muitos deles não têm gosto, ou que têm um gosto que não lhe agrada. O sábio – degustador – livra- se deles. O erudito soma saberes. O sábio diminui saberes. Ele escolhe o que é essencial. Os saberes essenciais são aqueles que nos ajudam a viver. (pp. 76 e 77)
Assim, da mesma forma que a maturidade, nem todos que envelhecem atingem a sabedoria. Pode dizer-se que a maturidade e a sabedoria pertencem aos “anciãos”. Na Bíblia e na Antiga Grécia, o ancião era aquele que atingia um estado de maturidade e significava “pessoa idónea e sábia”, proveniente de uma vida “farta de dias”. Metaforicamente, o ancião representava o fruto maduro que pende, inclina a sua fronte sobre o coração, passando-nos a ideia de querer converter em amor todo o seu saber, o seu vigor e as suas lembranças.
Parece evidente que um dos meios para se atingir uma velhice bem-sucedida, próxima da maturidade e da sabedoria é através do processo de educação contínua. De novo,
recorrendo às ideias de Freire, uma atitude humanista caracteriza-se pelo direito da pessoa, através da educação, como um meio de “empowerment”, isto é, um meio de se capacitar, adquirindo habilidades e competências que lhe permitirão controlar a sua própria vida de forma autónoma, consciente, assertiva e participativa na sociedade, criando-lhes possibilidades e opções.
Nesta linha de pensamento, Derntl e Watanabe (2004) vêm sugerir um modelo de aprendizagem para adultos, voltado para a Promoção de Saúde. Desenvolvido por Knowles3, é uma disciplina especializada em educação, com método e técnicas participativas que levam a pessoa à “tomada de consciência” com base em questões de interesse do adulto. Estes autores descrevem o modelo para a Promoção de Saúde tendo por base a importância da relação do idoso com o profissional da saúde num ato de reciprocidade, igualdade e democracia, onde a participação ativa dos idosos, na gestão da sua aprendizagem, é estruturada pelo diálogo interativo (temos aqui a ideologia de Freire). O modelo assenta na experiência de vida como um eixo fundamental para toda a sua processologia, tendo os seguintes pressupostos:
1º Necessidade de conhecer, onde os idosos devem conhecer a razão de se aprender algo novo, para, a seguir, adotarem novos comportamentos. Este primeiro pressuposto tem analogia, segundo a nossa visão, ao primeiro pilar da educação “aprender a conhecer”.
2º O autoconceito daquele que aprende. Os idosos têm consciência dos seus conhecimentos e sentem a necessidade de serem compreendidos pelos outros. Esta ideia encontra eco no terceiro pilar da educação “aprender a viver juntos”. Para além da compreensão pelos outros, para tomar as suas decisões na sociedade em que se está inserido, deve conhecer o mundo. Pereira (2008) ainda enfatiza este aspeto dizendo que, o conhecer-se a si mesmo é uma exigência de todos os tempos, pois que, sem o conhecimento de nós próprios seria impossível compreender os nossos conhecimentos e as nossas realizações. Aquele que tem consciência de si (autoconsciência) das suas possibilidades, do seu valor e das suas próprias ações, compreende também, o conceito de alteridade. Nas palavras de Pereira, “o eu só o é diante do outro” e acrescenta que “o eu e o outro precisa ser necessariamente
3 Malcolm Knowles (1913 – 1997), foi o diretor executivo da Associação de Educação de Adultos dos Estados
Unidos da América. Knowles desenvolveu uma base conceptual específica para a educação e aprendizagem de adultos através do conceito de andragogia que é a arte ou a ciência de orientar adultos a aprender. Andragogia remete ao conceito de educação voltada para adulto em contraposição à pedagogia, que é a educação voltada para a criança.
O seu trabalho foi significativo na reorientação de educadores de adultos a partir de “educar as pessoas” para “ajudá-las a aprender”.
Contribuiu para o desenvolvimento de noções de educação de adultos informal, andragogia e autodireção. (fonte: Smith, M. K. (2002) “Malcom Knowles, educação de adultos informal, autodireção e andragogia, a enciclopédia
ético”, aspeto este que é justamente abordado por Morin a respeito da Ética do género
humano, no seu sétimo saber.
3ª A experiência daquele que aprende é fundamental para o indivíduo que envelhece, pois a sua experiência de vida tem uma importância e referência nas suas aprendizagens futuras (segundo pilar da educação “aprender a fazer”).
4º A disposição para aprender em que os idosos só aprendem o que sentem necessário, útil e prático para enfrentarem esta fase da vida (quarto pilar da educação “aprender a ser”).
5º A motivação para aprender significa que os idosos sentem motivação para aprender aquilo que os ajudará a realizar tarefas ou lidar melhor com os seus problemas (segundo e quarto pilares da educação), reforçando a ideia de que a “motivação” é um fator determinante para a aprendizagem dos idosos.
Obviamente que tal modelo, voltado para a Promoção de Saúde, procura atingir competências de autonomia, independência, autocuidado e capacidades funcionais para a saúde do idoso. Achamos curioso nesta metodologia de um modelo que, sendo da medicina da saúde pública, contém em si os quatro pilares da educação, onde se encontram implícitos os seus pressupostos educativos e/ou pedagógicos, que vem enriquecer e validar o nosso projeto com o qual reafirmamos a importância do processo educativo para o bem-estar do idoso, com o fim de promover a capacitação social.
Este enfoque vai ao encontro do que Neri (2005, p. 15) afirma ser importante nos processos intelectuais para o bem-estar e autonomia dos idosos, do ponto de vista social e económico, uma vez que a velhice disfuncional acarreta altos custos para os Estados. A autora aponta ainda a educação como uma forma de manter a integridade nos processos intelectuais como um dos meios de dar continuidade aos mecanismos de autorregulação da personalidade do indivíduo e como uma forma de determinar a boa qualidade de vida.
Além deste modelo apresentado para a educação na Promoção de Saúde, Cachioni e Neri (2005) falam da importância de um programa educacional dentro das UTIs, que têm por finalidade proporcionarem uma nova rede social para os idosos e de satisfazerem as suas necessidades e preocupações de ordem moral, estética, intelectual e cultural “oferecendo oportunidades de compensação e enriquecimento cognitivo, de integração e reconhecimento social, de satisfação” (Ibidem, ibidem, p. 41). As UTIs apresentam-se, ainda, como um espaço onde o contacto intergeracional é frequente já que, na sua maioria, muitos formadores são bem mais novos do que os formandos, onde se privilegia a realização de pesquisas, tais como o desenvolvimento deste nosso projeto, cuja maior finalidade é o de melhorar o bem-estar
subjetivo de cada idoso que aceitou trabalhar e colaborar connosco. A nossa ação educativa/pedagógica está assente numa pedagogia dialógica/participativa onde as experiências de vida e as capacidades cognitivas são relevantes para o desenvolvimento do mesmo estudo.
Desta forma, o processo educacional ao longo da vida e uma educação para o envelhecimento visam a aquisição de atitudes e comportamentos que favorecem a adaptação do idoso em relação a si e à sociedade em que está inserido, contribuindo para a formação de uma autoperceção positiva (Monteiro & Neto, 2008). A educação para idosos é entendida como um instrumento de “promoção social” que visa uma forma de manter corpo e mente ativos por meio de atividades educativas. As UTIs trabalham com este objetivo e têm como base o conceito de educação permanente, o que pressupõe a atualização de saberes e culturas através da troca de experiências, da relação interpessoal e integração “viver e saber”, da aquisição de competências para melhor compreender a si, os outros e o mundo. É sobretudo aqui, neste último aspeto que procuramos desenvolver a nossa ação educativa/pedagógica.
Monteiro e Neto (2008, p. 56) abrem-nos um leque de contributos que a educação pode fornecer à terceira idade:
1- aspetos relativos ao bem-estar, quando a atividade está voltada para a promoção
de saúde;
2- desenvolvimento pessoal, no sentido de manter e desenvolver novas habilidades e
competências pessoais e sociais;
3- aspetos sociais, no sentido das atividades estarem voltadas para um espaço
educacional, cultural, participativo e produtivo na sociedade, além da promoção e ampliação de novas redes sociais;
4- conhecimentos/compreensão, quando a atividade está voltada para a aquisição e
atualização de informações e saberes que se tornam veículos para o desenvolvimento do sentido reflexivo-crítico.
A educação também pode ser vista como uma ação cultural para a conscientização do sujeito. De acordo com as ideias de Freire, a ação educativa para idosos deve ser uma ação cultural, na medida em que se aplica a relação dialógica crítica e a relação de ajuda para que o processo educacional se emancipe no sentido de “libertação” do “eu” para a “tomada de consciência”. Segundo Silva (1990),
A ação educativa é cultural e opõe-se à redução ideológica […], porque procura criar instrumentos de defesa contra o “conhecimento falso” induzido pela manipulação ideológica e procura respeitar a articulação das dimensões cognitivas, afetivas, […] ativas da vida humana. (p. 112)
O que Silva propõe acima, é procurar criar estratégias que capacitem o idoso para se defender “contra as cegueiras e erros dos conhecimentos”, das ilusões, e das quais falámos anteriormente, segundo os pensamentos de Edgar Morin. Silva, nesta citação, defende ainda uma ideologia que respeite o ser como pessoa em todos os níveis: cognitivo, afetivo, emocional e humanista, ou seja, o ser humano holístico.
A conquista do conhecimento é um tesouro pessoal e intransferível que se multiplica quando partilhado. A luta por adquiri-lo pode ser vista como um empreendimento que aumenta ao longo da vida.
4. AS HABILIDADES SOCIAIS E AS COMPETÊNCIAS DA TERCEIRA