• Nenhum resultado encontrado

4 MENSURANDO A INTEGRAÇÃO PRODUTIVA: METODOLOGIA E

4.2 IMPORTÂNCIA RELATIVA DO COMÉRCIO DE PARTES E COMPONENTES

O comércio intraindustrial consiste numa evidência importante de integração produtiva entre os países. No entanto, por vezes isto pode significar apenas o intercâmbio entre bens finais de qualidades ou variedades distintas. A integração produtiva implica no intercâmbio de bens intermediários, que compõem os fluxos intraindustriais, mas não consistem necessariamente na sua totalidade. Portanto, outros níveis de investigação são necessários para destrinchar ainda mais a relação econômica existente entre os países analisados.

Preocupado com o fenômeno da fragmentação internacional da produção, em que diferentes estágios produtivos de um mesmo bem são localizados em mais de um país, Yeats (1998) foi um dos primeiros autores a publicar um trabalho dedicado a investigar IRPC. Porém, antes da publicação da segunda revisão do SITC, não era possível identificar nos dados do fluxo comercial o que se referia ao intercâmbio de partes e componentes, isto é, aos bens intermediários. Com esta revisão do SITC, o sistema de classificação incluiu uma seção (SITC 7) referente a máquinas e equipamento de transportes, que abarca a maior parte dos fluxos de bens intermediários de uma cadeia produtiva, além de alguns bens finais.

O principal objetivo do seu trabalho, como o título sugere Just How Big is Global Production Sharing?, era mensurar o tamanho da fragmentação global da produção e identificar se o mesmo estava crescendo ou diminuindo ao longo do tempo. Para isso, o autor coletou dados de importação de partes e componentes dos países da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) e inicialmente calculou (a) sua participação relativa do saldo comercial de cada produto e do (b) comércio total. O primeiro cálculo pode ser expresso da seguinte forma:

𝐵

𝑗

= (

(𝑂𝑥𝑗−𝑂𝑖𝑗)

𝑂𝑥𝑗

) ∗ 100

(8)

Onde 𝑂𝑥𝑗 representa o valor total das exportações do produto j e 𝑂𝑖𝑗 o valor total das

importações do produto j.

Yeats (1998) propõe que o volume de comércio de partes e componentes seja analisado para vários períodos e vários parceiros comerciais, bem como sua participação relativa à seção de máquinas e equipamentos de transporte (SITC 7) como um todo. Seus resultados indicam que não só o volume aumentou significativamente ao longo dos anos, como também a sua participação relativa. No caso do comércio dos países da OCDE com o resto do mundo, o volume de partes e componentes aumentou de cerca de US$ 84 bilhões em 1978 para US$ 441 bilhões em 1995. Em termos de participação relativa do comércio destes mesmos grupos de países, 26,1% do total do comércio da SITC 7 era de partes em componentes em 1978, que aumentou para 30% em 1995.

Uma outra opção interessante é comparar a importação de partes e componentes com vários grupos de produtos. Yeats (1998) comparou com as importações totais (SITC 0 até o 9), com as importações do grupo de produtos industrializados (que se refere ao SITC 5 até o 8) e com as importações de máquinas e equipamentos de transporte (SITC 7). Enfim, uma vez que um sistema de classificação do comércio internacional diferencia os bens intermediários dos finais, abre-se a possibilidade de investigar com mais propriedade a importância relativa do comércio de partes e componentes, que é um instrumento fundamental para identificar a integração produtiva entre determinados países.

A partir das subsequentes revisões do sistema de classificação SITC, novas subdivisões dos bens intermediários foram criadas. No momento do trabalho de Yeats (1998), que coletou dados para os anos de 1978, 1985, 1990 e 1995, o SITC contava com 44 nomenclaturas a respeito do comércio de partes e componentes. A terceira revisão do SITC desagregou ainda mais estas informações e apresentou 83 nomenclaturas neste sentido. Isto abre novas possibilidades de análise porque mais informação pode ser extraída dos dados.

Dullien (2010) utilizou esta mesma metodologia para avaliar a integração produtiva da União Europeia a partir de uma perspectiva alemã3. O autor coletou dados do comércio internacional com base na terceira revisão do SITC, cujo foco também foi o grupo 7, referentes a

3 Para outros estudos empíricos que utilizaram esta metodologia ver, por exemplo, Athukorala (2006), Flôres Junior (2010) e Miroudot, Lanz e Ragoussis (2009).

máquinas e equipamentos para transporte, que contém 83 nomenclaturas dedicadas às partes e componentes.

No entanto, Dullien (2010) calcula a importância relativa do comércio de partes e componentes, isto é, comparado ao PIB de cada país, não do setor externo como fez Yeats (1998). Isto porque ele observou que de acordo com a formulação original, o resultado pode ter um viés dependendo da etapa produtiva que um determinado país esteja inserido na cadeia de valor, pois poderá ser observado um valor elevado de exportações se fizer parte das etapas iniciais ou de importações se for responsável pelas etapas finais; ou ainda um valor significativo de ambas, caso esteja em etapas intermediárias. Dullien (2010, p. 167) explica melhor esta diferença:

Ao relacionar esse índice com o PIB, ao invés de compará-lo com o valor total do comércio exterior do país, pode-se mensurar a importância relativa da rede de produção para a economia. Caso se relacionasse o comércio de componentes e peças com o valor total do comércio exterior, um país que é de forma geral muito fechado e ainda mais fechado para bens finais do que para produtos intermediários apresentaria um nível elevado, apesar de os benefícios esperados em razão da integração serem bem pequenos. Isso também significa que o índice RITP seria menor para um país no qual o valor agregado da industrialização (em relação ao PIB) estaria perdendo importância em decorrência do crescimento mais rápido de outros setores, como o de construção ou de serviços.

Dullien (2010) selecionou as 83 nomenclaturas (independentemente da quantidade de dígitos, desde que se refira à bens intermediários) referentes a partes e componentes contidas no SITC 7, revisão 3. Em seguida, separou os dez códigos com maior participação do comércio internacional da União Europeia. Em terceiro lugar, o autor calculou o índice IRPC para cada um destes dez códigos para países selecionados. Finalmente, para cada país, somou os índices IRPC de cada código para obter o índice total daquele ano. O cálculo foi feito anualmente a partir de 1995 até 2007 para a maioria dos países selecionados, mas, alguns tinham disponibilidade dos dados somente a partir de 1999.

Flôres Junior (2010) argumenta que para o caso dos países latino-americanos, em que não existe uma variedade de dados tão ampla quanto no caso dos países europeus4, é possível adaptar esta metodologia e incluir na análise não só o comércio de partes e componentes, mas também os bens considerados semiacabados. Isto porque os bens semiacabados também são incorporados como insumo das indústrias e nem todos fazem parte do grupo 7 do SITC e, além disso,

4 Yeats (1998) e Feenstra (1998) utilizam além do SITC as fontes Outward Processing Trade e Offshore Assembly Programme (OAP), que disponibilizam dados mais detalhados sobre o comércio internacional que só estão disponíveis para os Estados Unidos e para a União Europeia.

determinados estágios de produção utilizam, inclusive, mais os bens semiacabados como insumo do que as peças e componentes.

Para identificar o estágio de produção dos dados do SITC, é necessário reclassificá-los com base no seu uso a partir do sistema Broad Economic Categories (BEC). Lemoine e Unal-Kesenci (2004) propuseram uma classificação em três estágios de produção dos códigos do BEC: (a) bens primários (I); (b) bens intermediários) e (c) bens finais. O grupo (b) pode ser dividido em duas categorias, bens semiacabados (II) e partes e componentes (III); enquanto o grupo (c) se divide em bens de capital (IV) e bens de consumo (V). O Quadro 5 sistematiza esta classificação.

Quadro 5 - Correspondência entre os Estágios de Produção e os Códigos BEC Estágio de Produção Código BEC Descrição BEC

Bens Primários

111 Alimentos e bebidas básicos, destinados principalmente à indústria

21 Insumos industriais básicos

31 Combustíveis e lubrificantes básicos

Bens Intermediários

Bens Semiacabados

121 Alimentos e bebidas elaborados, destinados principalmente à indústria

22 Insumos industriais elaborados

321 Combustíveis e lubrificantes elaborados - carburantes 322 Outros combustíveis e lubrificantes elaborados Partes e

Componentes

42 Peças e acessórios para bens de capital 53 Peças para equipamentos de transporte

Bens Finais

Bens de Capital 41 Bens de capital (exceto equipamentos de transporte) 521 Equipamento de transporte industrial

Bens de Consumo

112 Alimentos e bebidas básicos, destinados principalmente ao consumo doméstico

122 Alimentos e bebidas elaborados, destinados principalmente ao consumo doméstico 51 Veículos automotores de passageiros 522 Equipamento de transporte não industrial

61 Bens de consumo duráveis 62 Bens de consumo semiduráveis 63 Bens de consumo não duráveis Fonte: Flôres Júnior (2010, p. 77)

O passo seguinte é observar a correspondência entre os códigos do BEC e do SITC para distinguir o conteúdo do comércio bilateral entre as cinco categorias definidas. Esta tarefa pode ser feita com base nas tabelas de correspondência entre os vários sistemas de classificação do comércio internacional disponibilizadas pelo departamento de estatísticas das Nações Unidas.

Esta metodologia permite extrair mais informação dos dados sobre o comércio internacional e contribui com a análise da integração produtiva entre países, na medida em que ela

implica um maior intercâmbio de bens intermediários. No entanto, ela também apresenta limitações. Carneiro (2015) destaca que nesta abordagem o estágio de produção dos bens é definido em função do seu uso principal, que é determinado pela sua natureza e não pelo seu uso efetivo. Trata-se de um detalhe relevante porque muitos produtos podem ser utilizados tanto no processo produtivo quanto como bens finais, como é o caso dos combustíveis.