5. Entre a eleição do Presidente João Lourenço
em 2017, até aos dias que correm, com maior aber-
tura à comunicação social e à sociedade civil
Com a eleição de um novo presidente, em 2017, foi inaugurada uma nova era na actua- ção das ONG e nas acções de Cooperação para o Desenvolvimento. Em rigor, desde 2014 que o país mergulhou numa crise derivada do colapso das opções de desenvolvimento iniciadas com o fim do conflito. São vários fenómenos ao mesmo tempo. A China já não disponibiliza aquele apoio não condicionado, o FMI assinou recentemente um acordo de assistência técnica e financeira com o Governo e verifica-se uma postura de maior abertura da governação em relação aos cidadãos e aos organismos internacionais. Aquela ideia de “Angola grande” está praticamente ultrapassada e o Governo adoptou uma série de posições defendidas antes pelas ONG, como por exemplo o combate à corrupção e à impunidade, a abertura da comunicação social e do espaço público no geral e a prioridade à agricultura familiar, entre outras.
Esta nova realidade impõe desafios metodológicos ao Governo, que precisa transformar esta vontade política de mudança, para um processo institucionalizado de novas práticas e novas regras. Tal como às ONG nacionais, surgem novos reptos às organizações e agências internacionais presas à narrativa de que os “regimes africanos são todos corruptos”, e por esta essa razão têm dificuldades de perceber os sinais de mudança e a necessidade de adoptar estratégias novas que sejam coerentes com uma sociedade tendencialmente mais aberta.
6. Considerações finais
O percurso das ONG em Angola está ligado aos contornos de edificação do Estado e de organização da sociedade, com avanços e recuos, influências, aliados e obstáculos variados, como se pode inferir do presente texto. Em jeito de considerações finais, apre- sentam-se as seguintes reflexões:
/ O surgimento e expansão das ONG e agências internacionais ocorreu no âmbito de
abertura ao multipartidarismo e às liberdades civis e políticas, mas também da necessidade de enfrentar a crise humanitária decorrente da guerra civil pós eleitoral, em 1992. Apesar do enfoque nas ajudas de emergência, a dinamização de grupos comunitários de natureza diver- sa e as acções de educação para a cidadania contribuíram para a afirmação posterior de uma diversidade de organizações locais, bem como a criação de espaços de diálogo determinantes para a vitalidade da sociedade civil angolana nos tempos que correm.
/ O modelo de desenvolvimento pós conflito, assente numa visão de projectos mega- lómanos e na dependência do petróleo, não se baseou no debate inclusivo sobre os cami- nhos para uma agenda nacional. Pelo contrário, ao acirrar desigualdades sociais estimulou na sociedade posições extremas de contestação e defesa do status quo.
/ Angola é um país com instituições frágeis e fissuras sociais. Neste sentido, a função das ONG enquanto “construtores de pontes de diálogo” é uma dimensão importante para a edificação de um projecto nacional. Nos períodos de maior tensão social, depois da últi- ma eleição do ex-Presidente José Eduardo dos Santos em 2012, a intervenção moderadora de entidades credíveis da sociedade civil foi fundamental para evitar a degradação ainda maior do ambiente político e social. Mesmo que, nem sempre este esforço contou com compreensão e colaboração de ONG internacionais com capacidade e recursos.
/ As agências internacionais têm o desafio de lidar com a sua dimensão e o seu papel no contexto actual. Por um lado, se implementadores directos de projectos com equipas grandes ou, por outro lado, se buscam maior aproximação e fortalecimento das entidades locais. A esta questão adiciona-se a necessidade de uma contínua reflexão sobre critérios mais inclusivos de acesso aos recursos dos principais financiadores, sob pena de se abrir arenas de competição pre- judiciais à necessária complementaridade e colaboração entre ONG locais, do norte e agências.
/ Angola vive um período de mudança, com maior abertura e liberdade. Há um novo ambiente, ainda não traduzido numa nova cultura das instituições. As ONG, nacionais e estrangeiras, bem como as agências e financiadores, têm o desafio de determinar o seu papel no momento actual e lidar com algumas perguntas, como por exemplo: i. como contribuir para que as novas medidas de abertura se transformem em mudanças institucionais? ii. como avançar para uma organização do Estado que reflita as realidades da sociedade angola- na? iii. Como contribuir para o fortalecimento da dimensão associativa das ONG? .iv. como contribuir para mitigar riscos de retrocessos na tendência actual de mais abertura?
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