2. Ferida identitária – Esboço de possíveis origens 1 A teia como prisão ou o labirinto sem saída
2.2. Imposição consentida: o controlo do corpo
A identidade pessoal está incarnada no corpo e também ele é sujeito a formas diversas de violência. Os filmes que nos propomos estudar abordam o corpo de formas diferentes e, simultaneamente, complementares. No entanto, neste subcapítulo em particular, optámos por analisar mais pormenorizadamente a obra fílmica de David Cronenberg, por nos parecer que sintetiza problemas fulcrais no que respeita ao corpo na modernidade tardia. Por esse motivo não apenas Spider (2002), mas alguns outros filmes do referido realizador serão analisados no corpo principal do texto. Como refere o realizador canadiano: “tenho uma abordagem muito existencial do corpo humano. Levo o corpo a sério [como se] estivesse na realidade a fotografar a essência dessa pessoa.”192 Mesmo o seu filme mais recente até à data, Eastern Promises (2007), cujo argumento se desenrola em torno de uma família da máfia russa que habita em Londres, através das tatuagens nos membros da máfia russa, ex-presidiários, mostra, simbolicamente, como a identidade pessoal se inscreve directamente na carne, no corpo: as tatuagens feitas nas prisões russas funcionam como currículos criminais.
Poucos realizadores terão conseguido, como David Cronenberg, explorar de forma tão exaustiva e obsessiva os horrores implícitos nos corpos e nas mentes, fundido tão assustadoramente a carne e a máquina, a psicologia e a carne, interrogado de modo tão perturbador a vulnerabilidade e o lugar do humano num mundo actual, profundamente dominado pela presença da electrónica e da mecânica e pelas mais variadas substâncias químicas indutoras de alterações comportamentais.
Os filmes do realizador canadiano focam-se obsessivamente no corpo. O que os torna tão perturbantes é o facto de articularem, de forma visceral, uma política, uma tecnologia e uma estética da carne. As explorações do corpo nos seus filmes vão contra o fundamento dos nossos mitos sociais mais enraizados, no sentido em que o corpo permanece o grande desconhecido, o “continente negro” do pensamento e cultura da modernidade tardia.193 O ser humano da modernidade tardia ocidental vive, em certa medida, num mundo de imagens sexuais cómodas,
192
David Cronenberg Cit. in Gina Piccalo, “Viggo Mortensen no festim nu de Cronenberg”, Y Cinema, Público, 30 de Novembro de 2007, p. 26.
193
131 mas no qual são cada vez mais negados os choques do contacto físico - na era do HIV – e a mistura e transmissão de fluídos corporais.
Tendencialmente, a cultura ocidental da modernidade tardia é mais tradicional e cartesiana do que está disposta a admitir, na medida em que está sempre muito preocupada em negar a materialidade, em manter o pensamento separado das exigências do corpo. Como sugere Michel Foucault na sua História da sexualidade, mantemos frequentemente a estranha ideia de que existe uma outra coisa para além de corpos, órgãos, localizações somáticas, funções, sistemas anatómico- fisiológicos, sensações e prazeres; outra coisa e algo mais, com propriedades intrínsecas e leis próprias.194 Esta “outra coisa” é o resíduo que permanece na modernidade tardia do mito cartesiano de substância pensante autónoma. Uma parte da ideologia contemporânea não rejeitou a noção de subjectividade absoluta de tal modo que reconfigurou a velha fantasia da liberdade dos constrangimentos do corpo nos novos termos de representação sexual, significação social e informação cibernética.
No pensamento ocidental, o corpo tem geralmente sido visto como uma afronta à inteligência, um obstáculo tanto para a acção como para o pensamento. O corpo é frequentemente considerado como uma substância passiva à espera de ser trabalhado pela forma articulada do logos. Ou trata-se de algo que precisa de ser contido e regulado e é por isso que é submetido aos cânones da representação. A metafísica tendia a estabelecer dualismos entre a cultura e a natureza, a mente e o corpo, o significado e a presença. No entanto, Gilles Deleuze e Félix Guattari traçam uma contra- tradição, uma reversão filosófica alicerçada nos textos de Spinoza e Nietzsche, entre outros.195 Esta contra-tradição não opõe pensamento e corpo, pelo contrário propõe um paralelismo entre eles, afirmando os poderes do corpo e entendendo a grande opacidade e insubordinação da carne como um estímulo para o pensamento e como a sua condição necessária. De acordo com estas ideias, David Cronenberg refere:
(…) se tivesse continuado o curso, estaria em bioquímica. Nunca me interessei por ciências de hardware. Química era mais interessante porque tinha a ver com o corpo. Não só com o corpo humano mas com o corpo do planeta. Adorava botânica. Adorava a inter-relação de fluidos e plantas, a química
194
Cf. Michel Foucault, História da sexualidade, vol. I, Lisboa, 1994, passim.
195
Cf. sobretudo as obras O anti-Édipo. Capitalismo e esquizofrenia, Lisboa, 1995 e A thousand plateaus. Capitalism
132
das plantas. Essas coisas. Por isso, era a bioquímica num sentido mais amplo que me interessava, porque há bioquímica no cérebro; interessava-me alcançar a base física do pensamento e da imaginação humanos. Penso que era natural tentar reunir estas minhas facetas e integrá-las, por fim, na realização de filmes.196
A propósito desta relação entre corpo e pensamento, Gilles Deleuze refere que no cinema, quando a câmara explora os comportamentos e posturas minuciosas do corpo, então
(…) a narração, no cinema, é como o imaginário: é uma consequência muito indirecta que decorre do movimento e do tempo, e não o inverso. O cinema contará sempre aquilo que os movimentos e os tempos da imagem o fazem contar. Se o movimento receber a sua regra de um esquema sensório-motor, quer dizer apresentar um personagem que reage a uma situação, então haverá uma história. Pelo contrário, se o esquema sensório-motor se desfizer, em benefício de movimentos não orientados, desarticulados, serão outras formas, devires mais do que histórias...197
Assim, consideramos que a principal oposição binária que entra em colapso nos filmes do realizador canadiano é aquela que é proclamada como existindo entre o corpo e a mente, ou entre o pensamento e a matéria. Os processos fisiológicos e psicológicos ocorrem em simultâneo e não podemos afirmar que qualquer um deles possa constituir a causa do outro. David Cronenberg desconstrói o dualismo cartesiano ao estabelecer um entrosamento entre corpos e mentes. Como é referido em Scanners (1981), a telepatia “is the direct linking of two nervous systems separated by space” (CdF); é por isso que a experiência de ser “scanneado” pode culminar em dores de cabeça, narizes que sangram ou mesmo em cérebros que explodem. O argumento do filme centra-se numa experiência científica falhada que, contrariamente ao que se esperava, criou seres humanos com capacidades psíquicas fora do normal: os scanners.
Os processos mentais, sejam eles medos ou desejos, fantasias ou afectos, são directamente registados como alterações corporais. Em Scanners, o pensamento surge apresentado como sendo pura agonia física. O filme é percorrido por grandes planos de faces distorcidas por um enorme esforço de concentração ou uma violenta tensão, que consiste na manifestação visível da violência
196
David Cronenberg Cit. in Luís Miguel Oliveira, Maria João Madeira, David Cronenberg a expressão nua, Lisboa, 2006, p. 17 (itálicos nossos).
197
133 sentida pelo “scanner” e por quem está a ser “scanneado”. Estes planos são normalmente acompanhados por ruídos corporais tal como batimentos cardíacos e respiração intensa. Longe de exprimirem o que se esconde nas profundezas da alma humana, essas fisionomias distorcidas confrontam-nos com uma situação na qual não parece existir alma ou ser interior. A emoção ambivalente e o choque traumático são materializados e desenvolvem-se na superfície do corpo. Esta é também a base do sistema de “psychoplasmics” do Dr. Hal Raglan em The Brood (1979). Através de uma série de psicodramas manipulativos este psiquiatra induz os seus pacientes a exprimirem ao máximo os seus sentimentos de raiva e dependência psicológica. O resultado é uma série de deformações físicas grotescas. Um antigo paciente que ficou com cancro linfático lamenta- se nestes termos: “Raglan encouraged my body to revolt against me, and it did.” (CdF)
Neste filme, David Cronenberg reverte certas ideologias que entenderiam o cancro e outras doenças como consequências da repressão. A revolta do corpo sucede como uma expressão directa de sentimentos, e não como um sintoma patogénico derivado da sua repressão. As transformações fisiológicas não representam ou simbolizam conflitos psicológicos escondidos, elas são a arena na qual esses conflitos não podem mais ocultar-se. David Cronenberg afirma mesmo que o objectivo principal do seu filme é mostrar o que não se pode mostrar, dizer o que não pode ser dito de outra maneira.198 De facto, nem mesmo as misérias e sofrimentos dos protagonistas dos seus filmes podem ser definidos em termos de carências ou faltas. Nola Carveth (The Brood), Max Renn (Videodrome, 1983), Seth Brundle (The Fly, 1986) ou Spider (Spider) não sofrem de desejo não preenchido, mas sim de plena satisfação corporal levada ao excesso. Cada um deles, à sua maneira, torna-se prenhe de um futuro nascimento que se revela monstruoso, como demonstraremos ao longo deste subcapítulo.
Os pressupostos de “normalidade” e de ser “saudável” estão enraizados na negação ou expulsão da monstruosidade. A profunda ambivalência de muitos pressupostos em relação a todas as formas de nascimento e incorporação é a fonte do “horror” patente nos filmes de David Cronenberg. Daí surgir o pânico perante a sua visão do corpo, as suas transformações e perturbações, a bizarra intensidade das suas sensações físicas. Mas, simultaneamente, podemos considerar esta visão do corpo também irónica. Tanto o humor como o horror estão enraizados na
198
Cf. David Cronenberg Apud Steven Shaviro, The Cinematic Body, Vol. 2 – Theory out of Bounds, Minneapolis, Londres, 1993, p. 130.
134 recusa de David Cronenberg em idealizar a carne humana, este realizador apresenta o corpo na sua obscenidade e monstruosidade primordial. Quando observamos, por exemplo, os processos de transformação corporal pelos quais passa Seth Brundle em The Fly, - de homem vai-se transformando, progressivamente, em mosca - não podemos interferir em nada nessa transformação, mas também não conseguimos manter face a essa situação uma distância confortável. Não temos acesso ao conforto da objectividade ou do controlo. A fascinação mistura- se com o nojo. A nossa resposta não deixa de ser profundamente ambivalente.
Ao insistir na palpabilidade do corpo e realçando o subjacente desconforto da cultura ocidental com a corporalidade, David Cronenberg opõe-se ao modo como o cinema main stream de Hollywood policia, captura e regula o desejo, precisamente ao fornecer modelos de satisfação assépticos – basta recordar os diversos filmes que se baseiam em narrativas lineares e nos quais o casal protagonista termina sempre feliz e rodeado de filhos. Por exemplo Shivers, The Parasite
Murders (1975), no qual um parasita fálico e com características de excremento transforma os
habitantes de um condomínio de luxo num bando de maníacos eróticos violentos, ao invés de consistir numa rejeição paranóica da revolução sexual dos anos 60, parece antes consistir exactamente no que ela foi: um estilhaçar das ideias burguesas de sexualidade e moralidade.
Por outro lado, as relações entre prazer e poder nos filmes de David Cronenberg são complexas e subtis. Seth Brundle (The Fly), Johnny (The Dead Zone, 1983) e Max Renn (Videodrome), por exemplo, experienciam novas formas de afecto até ao ponto em que perdem o controlo sobre o que está acontecer com o seu próprio corpo. Porém, resultaria demasiado simplista afirmar que o seu prazer seria uma recompensa pela sua perda de poder. Ambos estes desenvolvimentos devem entender-se em conjugação com uma mutação na própria forma da subjectividade. As transformações psicológicas e físicas estão continuamente a ocorrer a uma velocidade que excede a capacidade humana para as assimilar ou compreender através do logos.
Por exemplo em The Fly, as racionalizações de Seth Brundle relativamente ao seu estado estão sempre longe das actuais e visíveis mudanças que ocorrem no seu corpo. Ele coloca uma série de explicações ideológicas como possibilidade de compreensão da mutação do seu corpo – uma estranha nova forma de cancro, uma forma humana mais aperfeiçoada – porém, cada uma dessas explicações é desacreditada perante as suas contínuas transformações físicas. Finalmente, ele é compelido a admitir que sofre de uma doença com um propósito inerente a si mesma e no
135 qual ele não pode interferir. De facto, ele é excluído da sua própria metamorfose. A subjectividade humana não pode reconhecer ou absorver o ser de uma mosca. Deste modo, os movimentos que transformam Brundle em “Brundlefly” são necessariamente indesejados e passivos. O desejo e a sensação estão tão longe de ser reduzidos à autoconsciência que, na sua maioria, são incompatíveis com ela. É esta passiva imersão na turbulência corporal que marca o limite do poder humano. A violenta metamorfose do corpo está fatalmente distante da asserção da iniciativa pessoal e das tecnologias manipulativas de controlo social. “Brundlefly” nasceu de uma estranha fusão sem esperança de retrocesso.
Uma viagem como esta através do corpo não pode ser conscientemente desejada, pois aproxima-se precisamente de uma condição na qual a vontade já não pode comandar. Embora Seth possa desejar o que quiser, a sua necessidade de se re-humanizar é irredutível. Mas a sua desesperada tentativa com vista a preservar a sua identidade face a uma transformação monstruosa é também um comportamento que se relaciona com o seu desejo de conformidade com as normas sociais. Seth não consegue distinguir a sua sobrevivência da sujeição às definições, socialmente impostas, do que significa ser-se “humano”, “masculino”, e assim sucessivamente. E por isso tenta evitar que Verónica, a namorada, faça um aborto ao feto proveniente de uma paternidade geneticamente alterada e tenta forçá-la, pelo contrário, a fundir-se com ele, criando um novo modelo de família nuclear. Estes aspectos sugerem que a identidade e vontades pessoais estão inextrincavelmente interrelacionadas com forças de dominação e de controlo social.
Não existe nada de utópico ou relacionado com qualquer forma de redenção neste processo. “Brundlefly” não é uma nova identidade ou uma nova espécie; é, literalmente, um monstro, uma singularidade. Seth está livre do controlo social apenas no sentido em que não pode fazer parte de nenhuma sociedade. No entanto, outro dos seus sonhos falhados seria equilibrar os dois lados da sua natureza, tornando-se o primeiro insecto político. Mas o processo que consiste na sua transformação em mosca é um processo sem fim, sempre a afastá-lo cada vez mais de qualquer comunidade, de qualquer identidade. Seth começa por não conseguir teletransportar matéria orgânica viva, porque não compreende a carne. Durante o filme, ele é crescentemente compelido a aceitar o fardo da materialidade biológica que se torna incapaz de dominar ou compreender. O seu corpo é atravessado por forças físicas e submetido a transformações cada vez mais intoleráveis.
136 No final do filme, ele já está familiarizado com a carne viva ao ponto de se fundir com a máquina que o alterou. Este novo corpo, esta massa de metal e carne misturados constitui um fardo demasiado grande para poder ser suportado. Seth rasteja e implora gestualmente a Verónica: a morte é a única forma de libertação daquele processo desesperado, daquele inferno da incorporação. À medida que a carne se torna insuportável, torna-se também irrecuperável. As extremidades do sofrimento não podem, por fim, distinguir-se das do prazer. A intensidade corporal é, neste sentido, um Outro em relação ao poder, um excesso que o perturba, um acrescento de que o poder nunca pode apropriar-se ou controlar.
Este sentimento de estranheza perante um outro que somos, simultaneamente, nós mesmos aparece expresso em Fernando Pessoa:
Quem sabe para que forças supremas, deuses ou demónios da Verdade em cuja sombra erramos, não serei senão a mosca lustrosa que poisa um momento deante d’elles? Reparo fácil? Observação já feita? Philosophia sem pensamento? Talvez, mas eu não pensei: senti. Foi carnalmente, directamente, com um horror profundo [...], que fiz a comparação risível. Fui mosca quando me comparei a mosca. Senti-me mosca quando suppuz que me o senti. E senti-me uma alma à mosca, dormi-me mosca, senti-me fechado mosca. E o horror maior é que no mesmo tempo me senti eu. Sem querer, ergui os olhos para a direcção do tecto, não baixasse sobre mim uma régua suprema, a esmagar-me, como eu poderia esmagar aquella mosca. Felizmente, quando baixei os olhos, a mosca, sem ruído que eu ouvisse, desapparecera. O escriptório involuntário estava outra vez sem philosophia.199
Após o que referimos, podemos constatar como estas afirmações poderiam ter sido ditas por “Brundlefly”.
Os “monstros” de David Cronenberg são, deste modo, formas de alteridade que não podem reduzir-se à economia do Eu, mas que também não podem ser identificadas como simplesmente um Outro. A autonomia está ausente. Um parasita não faz parte do Eu mas também não está completamente separado dele; é algo do qual o sujeito não consegue separar-se, mas que, simultaneamente, não consegue integrar na sua personalidade. A alteridade insinua-se no Eu como uma incontrolável e nova potencialidade do seu corpo e ele é passivamente investido por forças que
199
137 não consegue recuperar como suas. As fronteiras entre o Eu e o Outro são quebradas e a ferida provocada pela alteridade é incurável. O sujeito é afectado e compelido a experimentar algo que é, irredutivelmente não-Eu: outras mentes (Scanners); outros estados mentais (Naked Lunch, 1991 e
Spider); imagens media (Videodrome e eXistenZ, 1999) e até o inhumano (The Fly).
Nos filmes de David Cronenberg o corpo é o lugar das mais violentas alterações e dos mais intensos afectos. Ele é continuamente refeito e subjugado, e durante este processo experimenta sensações extremas de horror, prazer e dor. Neste sentido, o realizador é um literalista do corpo. A carne aparece menos rígida, mais fluída e aberta à metamorfose do que geralmente gostamos de pensar. As extrapolações biotecnológicas de David Cronenberg registam esta perturbante ambiguidade e plasticidade. Ao ser polimorfo, o tecido vivo tem a capacidade de atravessar todas as fronteiras, de desfazer a rigidez da articulação simbólica e função orgânica. Novas transformações no corpo quebram as tradicionais oposições binárias entre mente e corpo, matéria e mente, o Eu e o Outro, imagem e objecto, natureza e cultura, orgânico e mecânico, feminino e masculino, humano e não humano. De facto, o desfazer de todas estas distinções, a todos os níveis possíveis, é o grande princípio estrutural de todos os filmes de David Cronenberg. Este vai ao ponto de confirmar a um entrevistador que os seus filmes são tentativas falhadas de redesenhar o corpo humano.200 Numa outra entrevista, o realizador refere:
It’s very difficult to say where the ideas for my films come from. Sometimes, it’s a character, or it can even be a title or an image. It could be a conceptual thing. I’ve gradually come to realize the body is the first fact of human existence for me. So my imagery tends to be very body oriented. I think I’m interested in transformation as well, but not in an abstract spiritual sense or at least not at first, but in a very physical sense. Rabid [1977] was about the spread of disease, and in a way Shivers was as well. How a whole city is finally almost brought to its knees by a sexually
200
Cf. David Cronenberg Cit. in David Breskin, Inner views. Filmmakers in conversation. Expanded edition, Nova York, 1997, p. 241. Nessa mesma entrevista refere: “To me, the ‘talking head’ is the essence of cinema. If you look at a baby, the most fascinating thing to a baby, a newborn, is the human face. The baby will look at your face and watch your face move and want to touch it; it gives a whole other insight into what a face is. We get very used to them, but in fact, it’s a fantastic head, and what it’s talking about is fantastic, then you can’t have anything better. It’s the best! So I’m not afraid of it. I’m not afraid to sit on a close-up and let it happen. If you’ve got the right face saying the right things at the right moment, you’ve got everything cinema can offer.” Cf. Idem, Ibidem, p. 245 (itálico do autor). Também para Ingmar Bergman, como observámos no subcapítulo anterior, o rosto e o grande plano são estruturais na sua obra cinematográfica. Mais adiante neste subcapítulo retomaremos as aproximações entre David Cronenberg e Ingmar Bergman.
138
transmitted disease. Shivers basically had the same plot, only it took place in one high-rise apartment building. 201