A laicização do conhecimento possibilitou que novas teorias fossem criadas, como a da relatividade. Isso porque entre o último quartel do século XIX e o início da Primeira Guerra, embora as religiões não apresentassem em escala mundial um aparente decréscimo, foi evidente que nos países ocidentais centrais, talvez com exceção dos Estados Unidos, ocorreu um recuo sem precedentes das religiões tradicionais. O processo de descristianização e laicização da sociedade ocorreu com graus de radicalidade, em todos os países de população católica.
O progresso, o avanço da ciência e da razão, assim como o crescimento da secularização, promoveram uma perda no status da Igreja. As lutas emancipatórias promovidas pelos setores oprimidos e mesmo interesses estratégicos de políticos liberais fizeram com que ocorresse uma acentuada descristianização e uma laicização cada vez mais militante379.
O anticlericalismo, dessa forma, tornou-se um problema central da política dos países católicos por duas razões principais: porque a Igreja Católica Romana optara por uma rejeição total da ideologia da razão e do progresso, só podendo, portanto, ser identificada à direita política; e porque a luta contra a superstição e o obscurantismo, mais que dividir capitalistas e proletários, uniu a burguesia liberal e a classe trabalhadora. Eis o eixo de ligação por esses dois pólos antagônicos.
Assim, o anticlericalismo foi incorporado ao programa dos agrupamentos de esquerda e de centro. Em pouco tempo, espalhou-se por toda a Europa e chegou na América. Algumas diferenças são possíveis fazer. A Expressão anarquista anticlerical, era a luta contra os padres, para mostrar as contradições· de suas vidas com as doutrinas que professam; o sacerdócio como profissão, tendo o interesse material como base; a luta contra a influência política da Igreja pela ação direta e pela propaganda extraparlamentar; a denúncia do poder econômico da Igreja, da Igreja como empresa, como auxiliar de exploração capitalista, como fator do crumirismo.
A maior influência dos anarquistas se deu nos países latinos, onde a presença do catolicismo era mais forte. O choque entre duas concepções tão antagônicas foi inevitável.
O radicalismo dos discursos anticlericais cresceu conforme foi aumentando o tom irado dos padres. Toda ocasião era aproveitada para repudiar o cristianismo e os membros do clero.
O Clero Católico, para eles era uma vasta associação religioso-político-social, cujos fins se afastam da civilização contemporânea, cujos membros, pela característica de seus modos de vida, afastando-se da realidade da vida, constituem uma constante ameaça ao progresso e à civilização, à moral e aos bons costumes.
379 GOMES, Angela de Castro. A Invenção do Trabalhismo. São Paulo, Vértice: 1988. p. 107.
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A Bíblia, nesse sentido, era considerada “literatura de dominadores, destinada a celebrar os tiranos e suas leis e a ensinar o povo a resignação e a obediência; a Bíblia expõe o mecanismo da escravidão em termos claros, quase cândidos à luz da hipocrisia democrática moderna!”380
A Igreja era acusada de manter o celibato clerical como um valor importante, embora não fosse sempre cumprido pelos seus membros. A castidade era apontada como uma violação das leis biológicas, contribuindo para a perpetração de hediondos crimes. A denúncia das violações das normas sexuais de abstinência e de comportamentos considerados imorais por parte do clero foi uma característica marcante do discurso anticlerical. Para os anarquistas, muitos padres e freiras relativizavam as prescrições de Roma sobre a matéria de moral sexual.
No púlpito e nas suas conservas com os fiéis até eram capazes de pregar as recomendações da Igreja. Porém, essa misogamia não era cumprida. Na iconografia libertária, os padres e freiras eram freqüentemente representados através de imagens de homens e mulheres obesos, aparentemente bêbados e com olhares concupiscentes.
Na temática anticlerical,381 um outro aspecto importante era a luta a favor da razão, da ciência e do conhecimento e contra o “obscurantismo” medieval da Igreja. Os padres eram acusados de temerem o avanço da ciência, pois isso dificultaria a retórica da superstição impingida por eles. Nos artigos publicados na imprensa anticlerical, era comum a presença de biografias de cientistas, destacando-se as perseguições promovidas pela Inquisição.
Nesse processo, os considerados anticlericais sofreram penalidades, mesmo após a morte, como foi o caso de Voltaire, como publicado em A Lucta: “A Egreja recusou acceitar os seus restos mortaes que se aacham no panteon. Em geral pode dizer-se que se Montesquieu é o pae do constitucionalismo, Rosseau do socialismo, Voltaire o é da incredulidade.”382
Os diferentes tipos de condenações, possibilitou a imprensa anticlerical anarquista, como A Lanterna, vislumbrar que tipo de penalidades poderia ser aplicada, caso ainda tivesse a inquisição. Isso num tempo em que se sabia que a Igreja não tinha o controle hegemônico, mas mantinha suas articulações e sua importância e influência no modo de pensar e agir na sociedade brasileira. Essa era uma forma irônica e debochada de criticar a hipocrisia católica, entretanto algo similar ocorreu na década de 20, em Sobral. A imprensa liberal-democrata em Sobral, foi se configurando anticlerical. Mas nos períodos de crise da seca o discurso liberal apresentava gratidão pelo apoio às vidas da população, na batalha pela sobrevivência dos retirantes da seca que buscavam refúgio na cidade, como se viu no capítulo anterior. Esse “clima” de cordialidade, porém, em outros momentos, foram postos de lado.
380 A Lanterna, 10 de janeiro de 1910.
381 A palavra anticlerical é de origem francesa, aparecendo pela primeira vez por volta da década de 1850.
382 Voltaire. In: A Lucta, Sobral, 18 de março de 1915.
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Era na cidade, em que se substituía a aparência paroquial por uma atmosfera cosmopolita e metropolitana, onde se desenrolavam as mudanças mais visíveis. O grupo católico ultramontano, representado pelo Correio da Semana, criticava essas modificações, opunha-se a esses valores, afirmando: “vida do campo, paz de espírito”.383
Assim como em seus editoriais fazia sempre referências a exemplos a serem seguidos, como o destacado sobre as eleições na França:
os católicos conseguiram uma Victoria que foi uma verdadeira surpreza para o anti clarismo.foi este o resultado: republicanos moderados 249, catholicos da direita 105, total 354. vermelhos 57, socilaistas 78, unificados 65, dissidentes 6. total 206. sendo drrotados o primeiro ministro Painlevé, o raivoso sectário Buisson, autor das leis contra o ensino, Carlos Claumet, perseguidor de freiras e outros sectários maçons e fanáticos.384
Imagens exemplares eram também as de negação dos valores laicos como, na continuidade do artigo:
Cousa interessante. Quando no Rio de Janeiro a imprensa vermelha queimava a sua pelle pela reivindicação da memória de Ferrer, ultrajada pelas grandas allemãs que lhe fizeram em pedaços a sua estatua erguida em uma praça da capital Belga, o Conselho de Bruxelas, por 21 votos contra 9, recusou estabelecer a estatua do famoso agitador espanhol.
O Editorial do primeiro número do Correio da Semana de 1920, ao comentar acerca do Ano Novo, permite compreender as disputas de controle de comportamento: “parece que vivemos numa época de contínuas transições [...] eterna peregrinação pelo caminho da dúvida e da certeza”, mas que nesta transição haverá “um rejuvenescimento religioso, pois a verdadeira religião é eterna.”385
Era um tempo em que o termo novo era uma constante. A incerteza é a dinâmica do mundo liberal, que busca o movimento, a liberdade, as inovações, a racionalidade, que se chocam com a visão de mundo da igreja católica, a qual, sob a corrente ultramontana, buscava construir seus espaços sagrados. Ser moderno era encontrar-se em um ambiente que prometia aventura, poder, alegria, crescimento, autotransformação e transformação das coisas ao redor, mas ao mesmo tempo ameaçava destruir as certezas.
O editorial do Correio da Semana representa esse estado de incerteza, mas ao mesmo
383 Correio da Semana, Sobral, 31 de jan. de 1920.
.384 Idem.
385 Correio da Semana. Sobral, 02 de janeiro de 1920.
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tempo possibilita uma resposta para essa angústia. Há caminho único da certeza e da segurança, proposto pela Igreja católica, que era o caminho da religião, da salvação, do bem-estar e verdade.
Outro ponto de análise é o discurso sobre o que era ser são. Enquanto a ciência estudava, criava conhecimentos sobre o transformar o corpo humano, para torná-lo cada vez mais saudável; a igreja católica propunha a fé como saúde, o que representaria o caminho da felicidade. O que estava em questão era o engendramento das relações históricas a partir da multiplicidade de representações que as classes sociais elaboram nas suas disputas, produzindo aí um sentido na história que não está definido a partir de nenhuma “realidade” preexistente
E esse turbilhão moderno se alimenta de muitas fontes: grandes descobertas nas ciências físicas, com a mudança da imagem do universo e do lugar que o homem ocupa nele, rápidos e catastróficos crescimentos urbanos, que valorizam e confirmam a importância dessas fontes para a sociedade.
Em 1922 Deolindo Barreto foi acusado de ter difamado Cristo. Por essa ofensa o Bispo condenou seu jornal, passando a ser pecado a sua leitura. Os ânimos ente o jornalista e o Bispo estavam exaltados. E A Ordem assim se pronunciou:
É preciso que se saiba que Sobral e o seu povo por suas tradições de honra e civismo pelo sagrado matrimonio de suas crenças e de sua moral, jamais poderão ser transformados no paraíso pagão dos ímpios, dos desbrados, dos ignorantes e dos caluniadores. Interpretando o sentimento do povo sobralense, aqui deixamos impresso contra este ato degradante que envergonha á nossa civilização e avilta nossos costumes.386
Após oito anos de publicação de A Lucta, os representantes de Deus lhe impuseram uma punição, a condenação do seu jornal.
386 Notícia de primeira página contra Deolindo: o Nosso Protesto. In: A Ordem. Sobral, 06 de outubro de 1922.
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A MALDIÇÃO DO JORNAL
Dom José Tupynambá da Frota, por mercê de Deus e da Santa Sé Apostólica
Bispo de Sobral
Sendo o bi-hebdomadario intitulado “A Lucta”, que se publica nesta cidade, sob a direcção e redacção do Snr.
Deolindo Barretto nestes ultimos tempos summanamente offensivo á consciencia catholica do povo pelos seus erros contra á fé, pela sua linguagem immoral e pelos insultos dirigidos aos ministros sagrados e á propria dignidade Episcopal, Nós, em virtude da Nossa Auctoriedade Ordinaria, Proscrevemos e Condemnamos o dito bi-hebdomario “A Lucta”e Prohibimos expressamente aos Fieis desta nossa Diocese que o assignem ou leiam sob pena do peccado mortal.
Palacio Episcopal de Sobral, 9 de Outubro de 1922.
José, Bispo Diocesano
A temporalidade desse conflito era recente, como o documento representa com a expressão “nestes últimos tempos”. Logo, nem sempre foi assim. Havia um diálogo entre esses homens de pensamentos discordantes. Entretanto chegaram há um tempo de intolerância.AIgreja no alto da hierarquia confere ao código de honra um caráter sagrado. Virtude, honorabilidade e pureza eram componentes do código que a Igreja administrava, e que foi o cerne do ataque a Deolindo Barreto.
Revigoram o tribunal inquisitorial, que era um ato de humilhação, segregação social e preconceito ao diferente. Essa foi a arma utilizada pelo Bispo Dom José em no sertão brasileiro.
Uma inquisição na República? Era uma idéia no lugar, era momento de controlar o inimigo, o rebelde, o desordeiro. Mais que isso, era preciso manter o poder, instituir uma memória, ensinar quem deveria ser seguido e obedecido.
Por que o jornal? De todos os objetos da pesquisa histórica, o jornal é o que mantém as mais estreitas relações com o estado político, a situação econômica, a organização social e o nível cultural do país e de sua época. É um arquivo do cotidiano
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construído no calor da hora.387
O que o Bispo quis foi tirar do cotidiano esse veículo que expunha as divergências, acabar com o espírito discordante da época. E conseguiu concretizar esse desejo em 1922. O poder de julgar, de segregar algo ou alguém que representava uma ira, um desejo de vingança e de reparação de mal, justificaria essa condenação. Era o caminho para colocar o outro no caminho da verdade e salvação. Fazer com que o outro fosse sentenciado, cumprisse a pena para ser absolvido. Teria que cumprir a sentença. A religião ensinava virtudes escravizantes, obediência, humildade, autonegação, perdão e conformismo.
Mas nesse momento não era tempo de perdoar. Condenou para purificar. Afinal o bispo estava “a mercê de Deus e da Santa Sé Católica”. Ao perder a vontade este seria o caminho da purificação, obediência e salvação. Não era por sua vontade, mas estava representando os designos de Deus, do ser supremo. Era um ato político, mas o teor da condenação não se queria político, mas moral.
Deolindo Barreto não aceitou esta punição. Não acredita na Igreja como tribunal.
E sabendo que a sociedade não pode juridicamente tolher ação individual, quando ela não perturba ou tolhe os direitos e ação de outrem ou de outros , continuou a publicação do seu jornal. Escrevendo agora que era o mais lido e que seguia o código penal, logo não estava ilegal e afirmava: “Bissemanário independente, político, noticioso de maior circulação no interior do Ceará. Decano da imprensa cearense, é o único nesta cidade que tem a responsabilidade definida pelo Código Penal da República”.
Esse excerto aparece em todos os exemplares no ano de 1923. E como atividade comercial A Lucta precisava dos anunciantes388 e dos leitores, com assinaturas ou com compras avulsas de seus números. Mantinha um significativo número de anunciantes, mas em tempo de condenação e de represálias, para que não circulasse mais, sentiu-se obrigado a adotar algumas medidas:
Aos nossos anunciantes pedimos o obséquio de não emitirem vales postaes a nosso favor contra agência desta cidade que nunca tem saldo para satisfazer o pagamento, e, para recebermos um, temos que dar diversas viagens.
Mandem-nos, pois, em carta fechada, com valor declarado, que muito nos penhorarão389.
A condenação fez alterar a relação entre consumidor e proprietário. O pagamento seria feito apenas com dinheiro, já que a outra forma, os vales postais, estava sob o poder do
387 Termo emprestado Galvão, quando discute a Guerra de Canudos, a partir de publicações diárias em todos os jornais da época. No calor da hora concentrou-se no estudo daquilo que os vários jornais diziam sobre os episódios da conflagração. Ver: GALVÃO, Walnice Nogueira. No calor da hora. São Paulo: Ática, 1996.
388 Sobre a propaganda como quesito de sobrevivência de jornal, ver: xxxxx 389 AOS Nossos Anunciantes. A Lucta, Sobral, 08 de mar. de 1924.
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grupo político do poder. Assim os “vales” acabavam sendo um instrumento de controle sobre a economia e a vida do seu negócio. E sem recurso não poderia continuar sendo produzido e circulando.
Deolindo Barreto não reconheceu a condenação e continuou trabalhando, afinal ele acreditava num “cidadão ideal”, que teria suficiente orgulho para recusar-se a ser intimidado pela autoridade, e humildade bastante para reconhecer que também é limitado em sabedoria e em capacidade para ser absolutamente indiferente390. Essa condenação humilhante, queria desonrar o proprietário do jornal. Que tipos de reações, gestos, estratégias foram articuladas?
Deolindo Barreto reagiu se defendendo e decidiu publicar um documento que guardava desde que entrou na arena jornalística, como gostava de afirmar: “a carta de agradecimento” do, então, padre Tupynambá, que só lhe elogiava, intitulada A Melhor Defesa, que publicou repetidas vezes nos anos de 1922 e 1923391:
Tenho, com interesse, acompanhado a luta que V. Sa. tem enfrentado em prol de nossa terra e dos direitos que o povo tem; felicito-o pelas vitórias obtidas, segundo o número dos combates travados”. “Sem lisonja, admiro o seu coração que brilha ainda mais no meio da borrasca, e folgo em afirmar-lhe que as simpatias crescem em redor do seu nome; louvo-lhe a independência com que comenta em seu jornal certos atos e certos homens às vezes pouco corretos ou incoerentes e, sobretudo, gosto de ver a rigidez do seu caráter sisudo e franco”. “Quanto a mim, asseguro-lhe que a minha gratidão a sua nobre pessoa será eterna. V.
Sa. tão somente teve a gentileza de dispensar-me uma defesa nas pequeninas dificuldades criadas por ocasião do célebre ‘caso da loteria’, o mais escandaloso havido nesta muito leal comarca”. “Quando as páginas de um jornal se quiseram enobrecer com o enxovalhamento do meu nome, somente V. Sa. teve a coragem de dizer ‘o caso como o caso foi’, embora desabassem por isso os céus e se lhe preparassem futuros dissabores. 392
E conclui, pedindo a Deus que ele viva durante muitos anos. O que parecia ser uma aliança em 1914, não se confirmava; a gratidão não foi eterna, pois o jogo político havia mudado. Nesse documento, o jornalista era a pessoa mais amiga e cristã; o caráter independente e crítico do seu jornal lhe foi útil por mostrar o abuso de poder do “outro”, do seu rival. Mudou o conceito quando o abuso de poder denunciado passou a ser também o da Igreja.
O jornalista se sentindo um representante cidadão democrata, conquanto receba com espírito esportivo a vitória justa dos outros, mostrou-se implacável para com aqueles que agem ilicitamente. Tais qualidades de espírito e caráter não são muito comuns, mas constituem o
390 ROCKEFELLER, F. B. O Poder da idéia democrática. Trad. Luiz Fernandes. Rio de Janeiro: Record, 1963.
p. 18.
391 Publicou nos dias: 11 de outubro, 07 de dezembro, 16 de dezembro, 30 de dezembro de 1922; 17 de janeiro e 07 de fevereiro de 1923.
392 A Melhor Defesa. In: A Lucta. Sobral, 27 de outubro de 1922.
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segredo, o mistério íntimo de uma florescente democracia.393 E sua postura anticlerical foi se acirrando. E mantendo a publicação do jornal amaldiçoado, o editor se move entre regras cujos extremos são o lucro e a honra. Ele acreditava nas leis, no Estado, não na Igreja como poder de julgamento e manteve-a, em não se curvar.
Interessante notar que o consumo do jornal amaldiçoado foi mantido. Isso por que quando uma sociedade enfrenta um período de crises, todos os cidadãos querem saber se todas as notícias pagarão por elas. 394 E ele continuou sua prática em defesa da honra.
Para preservar a honra e a dignidade, há de se pensar que o homem se vê pelos olhos dos outros porque ele não se distinguia dos outros.395 Manter a honra, desonrando o outro é emblemático das relações sociais em disputas. Assim, Deolindo Barreto teria que ser desrespeitado, afinal por um dos componentes da honra: a respeitabilidade. Esta é a característica de uma pessoa que necessita da outra para aprender sua própria identidade, e cuja consciência é uma espécie de interiorização dos outros, porque estes preenchem para ele o papel de testemunha e juiz.396
Condenar o jornal era condenar seu diretor-proprietário ao ostracismo. Afinal seria desonroso dirigir um jornal condenado. O Bispo instituiu um tempo em que a leitura de um jornal era pecado mortal. Isso representa um tempo de medo, de segregação e autoritarismo religioso, e segregação social, humilhação. Isso porque a imprensa era mais um instrumento de idéias políticas do que de informação geral. Os jornais são políticos e os jornalistas também. A ação de comunicar é, antes de tudo, uma ação política.
Voltando ao objetivo do catolicismo ultramontano, condenar o jornal era o caminho para coibir circulação de idéias críticas. A trajetória da história da imprensa, em diferentes momentos, apresenta variadas formas de controle de idéias.397 Era uma quebra de honra. Era transferir ao leitor a potencialidade do assassinato. Uma maldição que recairia sobre seus leitores. Não proibiu a confecção do jornal, mas o seu consumo. A sociedade seria responsável pelo cumprimento da pena: não leia.
Que cidade se apresenta nesse momento? Uma cidade em processo de condenação, de hereges, tanto o jornalista como os moradores-leitores, uma caça “ao demônio”. Queria-se com isso um morador obediente ao clero, temente a Deus. A demolatria figurava o imaginário e as representações sociais dessa vida urbana. 398
393 ROCKEFELLER, F. B.. O Poder da idéia democrática. Trad. Luiz Fernandes. Rio de Janeiro: Record, 1963.
394 SODRE, Nelson Werneck. História da imprensa. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1966.
395 DUMONT, Louis. Homo hiererarchicus: o sistema das castas e suas implicações. São Paulo: Edusp, 1997. P. 44 396 BOURDIER, Pierre. O desencadeamento do mundo: estruturas econômicas, estruturas temporais. Soa Paulo: Perspectiva, 1979.
397 Ver: ANDRADE, Jéferson de. Um jornal assassinado. Rio de Janeiro: José Olympo, 1991; GALVÃO, Wal-
397 Ver: ANDRADE, Jéferson de. Um jornal assassinado. Rio de Janeiro: José Olympo, 1991; GALVÃO, Wal-