Antes mesmo do Rio Grande do Norte torna-se República, o Vice-Presidente da província, na época, João Carlos Wanderley, quando estava em exercício na Presidência, sancionou a lei de número 169, em 2 de novembro de 1847, que deixava autorizado ao Presidente da Província usar a quantia necessária para comprar e estabelecer uma tipografia na capital. Essa foi a primeira tentativa de criação de uma Imprensa Oficial no Rio Grande do Norte.
Vale lembrar que João Carlos Wanderley é um grande nome da imprensa norte-rio-grandense, tendo fundado diversos jornais e emprestado seu prelo ao jornal A República.
Anchieta Fernandes (2006) cita o 14° Presidente da Província, Frederico Augusto Pamplona, que em 23 de março de 1848 assina o regulamento da primeira tentativa da Imprensa Oficial no Rio Grande do Norte. Fernandes (2006, p. 39) ainda cita o regulamento:
O Presidente da Província, autorizado pelo art. 7 da Lei Provincial n°
169, de 2 de Novembro de 1847, há por bem, para execução da referida Lei, determinar que se observe o seguinte:
REGULAMENTO
Art 1° - A Tipografia Provincial, que em tudo fica sujeira ao Presidente da Província, se comporá dos seguintes empregados:
Um Diretor, que será o Secretário do Governo;
Um Editor, que será o Oficial maior da Secretaria;
Um compositor, um impressor, um distribuidor ou mais, se forem necessários ao juízo do Diretor, com aprovação do Presidente da Província.
Art 2° - Na Tipografia Provincial se publicarão:
1° Uma Folha Oficial, em formato grande, com o título de - Gazeta do Rio Grande do Norte - uma ou mais vezes por semana.
[...]
Art 3° - Na Gazeta do Rio Grande do Norte se publicará:
1° Os atos da Presidência, os da Assembléia Provincial e de todos as mais Repartições públicas, mandados publicar pelo Governo da Província.
2° Artigos científicos, de interesse público, e principalmente os elaborados na Província, e que a ela disseram mais imediato respeito.
Infelizmente nem a lei e nem o regulamento se concretizaram. Fernandes (2006) diz que os tipos, o papel e a tinta foram comprados, porém o prelo nunca foi montado, ao invés disso, o material da tipografia foi comprado anos depois ao Dr. Jerônimo Cabral Raposo da Câmara. O cumprimento da lei é suspenso pela lei de número 193 de 16 de novembro de 1848, apenas um ano após João
Carlos Wanderley e Frederico Augusto Pamplona tentarem organizar a Imprensa Oficial no estado. A lei, de acordo com Fernandes (2006) dizia: “[...] pôr em boa guarda na Tesouraria Provincial todo e qualquer objeto que se tivesse comprado para a tipografia provincial.” Porém, como sabemos, foi vendido anos depois.
Câmara Cascudo (1947), como visto anteriormente, cita um importante jornal que possuía um prelo em 1832, data vista como o início da imprensa norte-rio-grandense, contudo, o autor cita que em 1842 já não havia tipografia na cidade de Natal, contudo, Fernandes (2006) diz que após a não execução da lei que permitia a criação da Imprensa Oficial, em 1848, as leis provinciais continuaram a serem impressas em prelos particulares, principalmente, em Recife, o que faz o Rio Grande do Norte, mais uma vez, voltasse a depender dos estados próximos para a impressão.
Anos após a tentativa falha da fundação da imprensa oficial em 1847, João Carlos Wanderley, como bem dito por Cascudo (1947), tem o seu rentrée em 1878, quando funda diversos jornais, entre eles o Correio do Natal, que de acordo com Fernandes (2006) era um dos jornais da época que tinham contrato para publicar os documentos oficiais da Província. Provavelmente este jornal foi um dos últimos a publicar atos antes da Proclamação da República, visto que o jornal durou até 1889, ano em que é proclamada a República no Rio Grande do Norte.
Pedro Velho, primeiro governador republicano do estado, em pouco tempo torna o seu jornal A República, criado para disseminar os ideais do Partido Republicano, em um órgão oficial do governo. Fernandes (2006) comenta que houve apenas um curto período, em 1891, em que o jornal republicano não foi órgão do governo, no governo de Miguel Castro.
Mesmo fora do governo, Pedro de Albuquerque Maranhão (Pedro Velho), membro da maior oligarquia norte-rio-grandense na época, tinha uma certa influência no governo, em vista disso, conseguiu um ótimo contrato no governo do Dr. Jerônimo Américo Raposo da Câmara. Fernandes (2006 p. 45) comenta:
[...] contratada por altíssimo preço na época (1$200 réis) a publicação de todos os atos oficiais no referido jornal “A República”, conforme expediente do dia 14 de fevereiro de 1890 publicado em “A República”
de 21 de fevereiro de 1890. Augusto Maranhão (Augusto Severo de Albuquerque Maranhão, o inventor do balão “Pax”) era o testa de ferro, aparecendo como contratante em nome d’“A República”.
Há também outro fato importante citado por Fernandes (2006 p. 46) quando se trata do jornal A República como órgão oficial do governo do estado:
O que até hoje não se descobriu em nenhum documento oficial é a venda do jornal “A República” ao patrimônio do Estado. Terá sido o jornal incorporado gratuitamente, sem nenhuma compensação financeira para Pedro Velho ou para o Partido Republicano? Os documentos da História e das páginas do jornal “A República”
silenciam sobre isso.
A crença maior foi a fusão do jornal com o governo pelo fato de Pedro Velho e sua família terem sido parte da política estadual por diversos anos, visto que Pedro Velho voltou ao governo diversas vezes, assim como seu irmão segundo Anchieta Fernandes (2006), que é criada a Imprensa Oficial, mantendo o jornal A República como órgão oficial e responsável.
Se uniu o útil ao agradável, já que desde o início da República que o jornal A República era o veículo de publicação dos atos do Governo do Estado.
Fernandes (2006) diz que o jornal incluía na primeira página a “Parte Oficial” e os “Atos Oficiais”, com seções e colunas específicas, entre elas, “Tesouro”,
“Polícia”, “Instrução Pública” e “Editais”, enquanto o restante do jornal era reservado para matérias de cunho jornalístico.
Em 20 de novembro de 1932 surgia finalmente o Diário Oficial, separado do jornal A República, já “abrigado sob a ilustração-marca do escudo oficial do Estado” como diz Fernandes (2006). Contudo, quase 3 anos depois de serem separados, em 5 de novembro de 1935, o Diário Oficial se torna parte, novamente, do jornal A República, tornando-se um dos cadernos do órgão oficial.
Em 1972, no governo de Cortez Pereira, a imprensa oficial do Rio Grande do Norte se torna uma empresa de economia mista, ou seja, se torna uma empresa privada, mas com colaboração do estado, neste caso, a imprensa oficial vendia assinaturas e recebia dinheiro dessas assinaturas, assim como recebiam verba do Governo do Estado, visto que os salários eram pagos por tal. Após tal feito do governo, então, o Diário Oficial passa a circular como órgão da
Companhia Editora do Rio Grande do Norte (CERN). A CERN oficialmente acaba em 24 de agosto de 1995, quando se transforma em Departamento Estadual de Imprensa (DEI). Vale salientar, também, que antes de virar CERN, a Imprensa Oficial se chamava Departamento de Imprensa, que data de 1941 até a data que a CERN é criada.
Enquanto o Diário Oficial circula desde seu nascimento sem interrupção, o jornal A República deixa de circular em 15 de março de 1987, segundo Fernandes (2006). O jornal volta a circular no seu aniversário de 100 anos, em 1 de julho de 1989, mas deixa de circular em 27 de fevereiro de 1991, 2 anos depois, nessa época o jornal funcionava apenas como uma folha de quatro páginas, servindo de capa e contracapa do Diário Oficial. Sobre isso, o autor afirma: “A República não circula mais. É hoje uma página virada, mas permanente nos arquivos da memória política e cultural do nosso Estado.”
(FERNANDES, 2006, p. 175).
Então, em 2003, quando o jornalista Flávio Fernandes Lisboa, se encontra no cargo de Diretor Geral do DEI, estabelece um trabalho de modernização administrativa e reformulação do prédio-sede. São nessas obras que são criadas uma área de lazer, um refeitório, um jardim, e finalmente, o Museu da Imprensa Oficial Elói de Souza, em homenagem ao jornalista que um dia fez parte da grade do jornal A República, ex-senador do estado, irmão da poetisa Auta de Souza e do ex vice-governador Henrique Castriciano.
O Museu aproveitou de diversas máquinas do Departamento que não eram mais usadas, máquinas que foram substituídas ao longo do tempo, foi aproveitado o material abandonado para que o Museu nascesse e tudo fosse melhor aproveitado. Todas as máquinas foram um dia utilizadas para imprimir e compor jornais, revistas e outros materiais construídos pelo Departamento Estadual de Imprensa.
Anchieta Fernandes (2006) destaca as máquinas presentes no museu, no tempo da criação do livro. A primeira é uma máquina grampeadora da marca Miruna, que era utilizada para grampear livros, revistas e cadernos, até os dias atuais, versões mais novas das máquinas, e até algumas das mesmas versões são usadas nas impressões feitas pelo departamento, a presente no museu foi adquirida na década de 1960. Há também uma máquina de corte e vinco da marca Monopol, fabricada na Alemanha, e enviada na década de 1950, a
máquina era utilizada para serviços de corte, fabricação de envelopes, capas e vinco de livros, caixas e cartões. Uma máquina de impressão da marca Bromberg, fabricada na Alemanha e adquirida na década de 1940, também é uma das atrações do museu, é uma máquina de impressão de pequeno porte, utilizada em impressão de pequenas tiragens, como cartões de apresentações, e demais modelos de cartões, funciona até os dias atuais. A máquina funciona até os dias atuais, e com o material necessário, ainda pode imprimir, ela utiliza os tipos móveis clássicos.
Há também uma máquina cantoneira, adquirida na década de 1950, que é utilizada para fazer cantos redondos em fichários, formulários e etc. Se destaca também a máquina guilhotina Guarani, fabricada na Alemanha, ela era utilizada para cortes de diferentes tipos de papéis, usados nas impressões gráficas e acabamento de livros, revistas, jornais e formulários em geral, adquirida nos anos 1950, atualmente são usadas máquinas mais automatizadas e seguras, visto que a máquina presente no museu é de uma tecnologia antiga e não segura, tendo sido desativada após causar acidentes (uma das histórias contadas pelos funcionários do museu para explicar a importância da segurança nas máquinas de impressão) e só reativada quando o Museu nasceu.
Além disso, há uma outra guilhotina, do tipo facão, usada manualmente, da marca Krause e também fabricada na Alemanha, ao contrário da máquina de guilhotina da Guarani, a guilhotina facão é usada para papéis mais grossos, como papelão para encadernação e capas duras de livros e coleções de jornais, sem contar o fato dela ser manual e não automática como a citada anteriormente.
Fernandes (2006) cita algumas máquinas presentes no museu que não possui especificação de marca ou origem, são eles, um prelo manual, utilizada para prova de serviços gráficos para efeito de revisão, consiste em uma chapa onde se coloca os tipos móveis, cobertos pela tinta e pelo papel, e um rolo que é usado para passar por cima do papel e imprimir, antigamente, antes das máquinas automáticas, era o prelo que era utilizado para a impressão final.
Há no museu a impressora tipográfica Marca Heidelberg, de fabricação alemã, adquirida da década de 1970, impressora de palhetas e formato 8, utilizada nos serviços de impressão e numeração de formulários, nota fiscal, fichas, talões etc.
Figura 7 - Impressora tipográfica marca Heildelberg
Fonte: Museu da Imprensa
Além disso, duas grandes máquinas se destacam no museu, a máquina impressora rotoplana Machinery, de fabricação inglesa e adquirida na década de 1930, o museu foi “construído” em volta dela, uma vez que é uma máquina muito grande e pesada, para ser retirada do local é preciso muita mão de obra, ela era usada especificamente para impressão de jornal. O impressor colocava a chapa tipográfica e a tinta na parte de baixo, e subia em um palanque, onde ia colocando o papel na impressora, rolos giram dentro da máquina, levando o papel e prensando contra a chapa e jogando no final da impressora. Segundo Fernandes (2006), apenas quando as impressoras rotativas tipográficas foi que a rotoplana passou a ser usada para impressão de livros, tendo que imprimir página por página, revistas e formulários de grande formato.
Figura 8 - Máquina impressora - Rotoplana dupla rotação
Fonte: Museu da Imprensa
A outra máquina é a Linotype (ou linotipo), de fabricação alemã foi adquirida na década de 1930, ela era utilizada para a composição de linhas-blocos com o auxílio de matrizes reunidas por meio de um teclado, considerada a precursora histórica do teclado do computador. Com o chumbo derretido na própria máquina ela criava as linhas completas, o que facilitava a impressão, diminuindo a composição manual dos tipos móveis, na época de sua criação (por Ottmar Mergenthaler em 1884, na Alemanha) foi considerada uma revolução para a impressão.
Figura 9 – Máquina Linotype
Fonte: Museu da Imprensa
Outrossim, as máquinas citadas e presentes no acervo do museu, também foram utilizadas para impressão de diversos livros, além do jornal. Os livros em seu total eram de autores potiguares, sem distinção de gênero literário, foram impressos desde ficções até biografias de personagens bairristas de Natal.
Alguns dos exemplares impressos nas máquinas do acervo estão disponíveis para leitura dentro do próprio museu. O Departamento decidiu imprimir livros, panfletos, santinhos e etc, quando se tornou uma empresa de economia mista, usando a gráfica não só para imprimir o Diário Oficial e A República, como para imprimir pedidos particulares.
Destaca-se ainda que O Museu da Imprensa Oficial Eloy de Souza conta com diversas decorações, também, como fotos do fundador do jornal A República, Pedro Velho, e do jornalista que dá nome ao local, além de diversas placas com o nome de todos os diretores do Departamento Estadual de Imprensa, que não é atualizado há alguns anos devido ao orçamento baixo para o Museu. Em algumas prateleiras também se destacam itens pequenos e antigos, utilizados por jornalistas, como máquinas fotográficas, telefone, gravador e até mesmo máquinas de datilografia, a maioria desses itens datam da década de 1970 e 1980.
O Museu é o único do tipo em todo o Rio Grande do Norte, assim como o único da Imprensa Oficial no estado e possivelmente um dos únicos do país, ele nos mostra um lado da história do nosso estado que não conhecemos e não aprendemos na escola, todas as máquinas apresentadas nela foram um dia usadas para a impressão do jornal A República, o Diário Oficial e para outros materiais, como livros, revistas e formulários, após a mudança para economia mista, quando passaram a pegar serviços externos de gráfica.
Figura 10 – Imagem de Eloy de Souza
Fonte: Museu da Imprensa
4.1 Discussões
Por meio da entrevista estruturada foi possível identificar que a supervisora do Museu da Imprensa Oficial Eloy de Souza, Rosane Macedo atua desde 2004, estando há 40 anos no Departamento Estadual de Imprensa (DEI), tendo exercido anteriormente as funções de Secretária, no Setor Jurídico, Auxiliar Administrativo, responsável pelo Arquivo Fotográfico da República, Auxiliar Administrativo, no Setor Comercial, e Supervisora, no Setor de RH.
Como supervisora, Rosane diz que faz de tudo um pouco, desde trabalhos como guia, orientando os visitantes pelo museu e explicando cada máquina e suas funções, planeja as atividades que ocorrerão no âmbito do museu, requisita materiais e serviços necessários para a manutenção e suporte do museu, e também serve como uma representante maior do museu.
Rosane trabalha no Museu desde a sua fundação, em 13 de novembro de 2004, de acordo com ela, o Museu foi criado com o objetivo de preservar e contar a história da Imprensa Oficial do Rio Grande do Norte. Como já dito, a imprensa é iniciada com a criação do jornal A República em 01 de setembro de 1889, e segue até os dias de hoje com a edição do Diário Oficial do Estado, que também faz parte do acervo do museu.
No tocante à importância do Museu da Imprensa Oficial Eloy de Souza na história cultural do estado do Rio Grande do Norte, Rosane considera muito importante, pois através do seu acervo há uma verdadeira viagem no tempo, observando as dificuldades de se fazer comunicação impressa nos tempos em que a tecnologia não era tão avançada quanto hoje em dia.
Segundo Rosane, seu maior desafio e também sua maior dificuldade, é pensar no amanhã, por isso ela se esforça em garantir que o acervo e os documentos possam servir de fontes para as pesquisas futuras.
Infelizmente o museu não é um dos mais visitados do estado, mas Rosane afirma que iniciativas já foram tomadas para que o número de visitantes aconteça, principalmente nas redes sociais do museu, também com a incorporação de estagiários da área de Designer, Biblioteconomia e História, que tem acrescentado diversas ideias e ferramentas para desenvolver um melhor trabalho.
Quando aberto a outras considerações, foi possível identificar que a supervisora Rosane está muito realizada em trabalhar no museu, pois pode compartilhar do que sabe da história da imprensa oficial norte-riograndense, onde ela revive um passado que fala um pouco de sua memória profissional.
Por meio das respostas obtidas no tocante a experiência e atuação profissional da entrevistada foi possível evidenciar a sua relevância como parte importante deste trabalho. Visto a participação dela na organização, estruturação e criação do Museu da Imprensa Oficial Eloy de Souza.