SOBRE AÇÃO E ORGANIZAÇÃO SINDICAL
2.3 IMPRENSA SINDICAL E FALA COMO PARTE DA AÇÃO
27 trabalho, o Estado e o sindicalismo e de que forma esse conjunto constrói as relações entre sindicatos e Estado.
2.3 IMPRENSA SINDICAL E FALA COMO PARTE DA AÇÃO
Além dos dados de institutos de pesquisa, a imprensa sindical, a fala dos dirigentes e a ação sindical constituem a base empírica de informações coletadas para a realização da pesquisa. A fala e a imprensa são os objetos de estudo os quais estão inseridos na gama de ações desenvolvidas pelo sindicalismo bancário de Curitiba e acredita-se darem conta de ajudar a responder as questões apontadas na dissertação.
Imprensa sindical
Parte-se do princípio de que os sindicatos “têm na sua imprensa, o veículo oficial de comunicação com a categoria estendido aos seus interlocutores sociais. Ela transmite o posicionamento político da instituição na estrutura sindical do país e, juntamente com a filiação, a capacidade de luta e a negociação, integra o quadro da ação sindical”
(ARAÚJO, 2004, p.3). Essa imprensa expressa uma voz diferente da supressão ideológica da classe dominante e tem por objetivo ser instrumento da luta dos trabalhadores. Por isso, caracteriza-se por ser a expressão das contradições sociais sobre o ponto de vista da classe operária organizada em sindicatos, constituindo um discurso próprio, como acredita Araújo (1991) que, em seus trabalhos, identifica a imprensa sindical como um meio sui generis de ação sindical. Suas conclusões partem da observação de que a imprensa sindical é o resultado do acúmulo de experiências fruto das mobilizações operárias e da necessidade de propagandear, através de enunciados, as idéias defendidas pelo sindicato que o produz.
Constitui, por isso, parte da ação sindical.
Para aprofundar o debate, a autora conclui que a comunicação é colocada como expressão objetiva da ação social, mas ao mesmo tempo ocorre de forma subjetiva. A imprensa sindical é a representação das contradições sociais, na qual há uma intersubjetividade no processo de comunicação que possibilita a troca de mensagens, pois há um reconhecimento tanto de quem a emite quanto de quem a recebe.
Se a imprensa do Sindicato dos Bancários se enquadra na categoria imprensa sindical, não é simplesmente pela sua ligação ao Sindicato, mas porque ela traz elementos característicos de uma comunicação específica. A partir do procedimento metodológico proposto para o presente trabalho, busca-se “avaliar a imprensa sindical emitida a partir de uma instituição social onde as relações intra e inter-classes exprimem-se em mensagens
28 elaboradas por indivíduos que as orienta pela força estrutural dos fatos e situações históricas vividas” (ARAÚJO, 1991, p. 50). São esses elementos que compõem os veículos do Sindicato dos Bancários de Curitiba, ou seja, o jornal Folha Bancária e a Revista dos Bancários. A partir deles é que se desenvolveu uma análise do discurso, na busca de dados que ajudam a aprofundar o tema proposto.
Fala de dirigentes
Por fala, entende-se o relato oral de pessoas registrado em gravação e transcrito em documento sobre determinados aspectos da realidade. O depoimento dos dirigentes e ex-dirigentes sindicais tornou-se fundamental para o trabalho. Os dados empíricos coletados contribuíram na complementação das análises do discurso e para trazer informações factuais que só eles vivenciaram e que só eles poderiam contar. Por constituir parte da ação sindical é que a imprensa sindical não pôde ser utilizada, apenas ela unicamente, sob o risco de realizar um estudo com uma base de dados empíricos deficitário para dar conta do objeto. Por esse motivo, as falas dos dirigentes, extraídas das entrevistas também compõem o leque de informações que foram utilizadas no estudo ora apresentado.
Para compreender o significado do relato como fonte de informações relevantes toma-se que “Atos da fala acionam convênios que regulam institucionalmente as relações entre sujeitos, atribuindo a cada um um estatuto na atividade da linguagem”
(MAINGUENEAU, 1989, p. 30). Falar implica em posicionar aquele que fala sobre algum aspecto da realidade. Este posicionamento estabelece-se em relações sociais, direcionando-as e guiando o próprio processo de fala. É uma atividade humana que permite ao indivíduo se comunicar com o outro e intervir no mundo objetivo a partir do outro, transformando-se, dessa forma, em sujeito. Por este motivo, a fala pode ser compreendida como parte da ação. Ao contrário da imprensa, ela é mais carregada de subjetividade, é mais espontânea e, por isso, os cuidados metodológicos sobre as informações dispostas devem ser maiores.
Aqueles que foram selecionados para a tarefa são pessoas que viveram ou vivem momentos caracterizados anteriormente por ação sindical. O grau de intervenção ou de influência na gestão a qual participam ou participaram foi levado em consideração para a seleção dos entrevistados. Cada um, a sua maneira, teve uma participação em momentos determinantes para os rumos do sindicalismo bancário. O que se buscou com os relatos não foi a análise dos argumentos, mas a complementação do estudo elaborado com questões pontuais, baseada na visão particular dessas pessoas que vivenciaram momentos chaves para o sindicalismo bancário de Curitiba.
29 Seguindo as orientações de Garret (1974), Minayo (1999) e Thiolent (1985), realizaram-se entrevistas que buscaram na experiência de vida desses sujeitos mais elementos que contribuíssem para aprofundar o debate sobre a relação sindicato/Estado. A forma como as entrevistas foram estruturadas segue um roteiro que visou apreender o ponto de vista dos atores sociais, a partir do que se pode considerar como entrevista não-estruturada. As perguntas elaboradas seguiram a ordem de um questionário, porém, não de forma fechada. O ritmo da conversa foi imprimido na relação entrevistador/entrevistado.
A cada entrevistado as perguntas foram desenvolvidas de forma diferente, sempre buscando explorar a vivência particular de cada um. Todas as sete entrevistas realizadas foram gravadas em sua íntegra e transcritas também em sua totalidade. A tarefa permitiu a disposição dos relatos escritos e uma análise complementar sobre a ação sindical. Os procedimentos metodológicos adotados para as entrevistas, assim como os utilizados na
análise dos impressos estão dispostos de forma diluída no decorrer dos próximos capítulos.
30 CAPÍTULO 3 – A RELAÇÃO SINDICATO/ESTADO