• Nenhum resultado encontrado

Impressões sensoriais enquanto processo causal

1.6 Duas teorias que postulam a noção de impressão sensorial

1.6.2 Impressões sensoriais enquanto processo causal

A segunda implicação teórica para Ryle ao lidarmos com a noção de impressões sensoriais, está associada às teorias causais da percepção. Ele escreve:

We learn from optics and acoustics about the transmission of light and sound; we learn from physiology the structure of the eye and ear; we are learning from neurophysiology about the transmission of impulses along the nerve-fibres. When we ask what makes seeing and hearing possible, and what makes them impossible or inefficient, we derive our answers, quite properly, from the relevant stretches of these scientific theories.85

A explicação causal para explicação de processos perceptivos expressa bastante sobre a natureza da linguagem objetiva. Ela tenta indicar-nos uma

84 Ibid., p. 358. Nesta citação quando o autor escreveu “erro de impressão”, refere-se ao exemplo do

em que foi descrito a percepção do erro de gramática, e possivelmente qualificaríamos um erro de gramática um erro de impressão sensorial.

34

elucidação encadeada demonstrando o processo perceptivo no qual se encontraria o que seria a impressão sensorial. A começar pela relação dos sentidos com o que se passa no ambiente gerando tais respostas do organismo, partindo do sistema periférico até o sistema nervoso central, até o cérebro. Explicações do tipo: A luz de uma superfície que chega até a retina ativa neurônios que percorrem uma via até um local no cérebro e efetuam o fenômeno da visão, entre tantos outros exemplos de explicações. Para Ryle, esse modelo de explicação causal do processo perceptivo “opera

naturalmente com noções de propagação, transmissão, impulso, estímulo e resposta, em vez de dados, premissas, evidência e conclusões.”86 Neste outro modo de postular impressões sensoriais, estas não estão associadas ao pensamento, seja no reconhecimento de erros ou pela capacidade de inferir. O dado agora é impresso em nós e um grande processo acontece, “impulsos

através de nós, não como coisas encontradas por nós por algum tipo de descoberta pré-reflexiva.”87

A crítica de Ryle consiste em argumentar que as respostas que essas teorias científicas oferecem sobre o que é sentir sensações, ao nos explicar todo o processo em estágios que passam pela ótica, neurologia, através de impulsos neurais até impressões sensoriais, partem da “concepção cartesiana

de mente e corpo.”88 E deste modo a noção de impressão sensorial é postulada. Em explicações científicas do processo perceptivo noções de impressões sensoriais é um termo aplicado. Ryle lembra que não está a argumentar contra a narrativa da ciência, mas está a criticar o padrão de explicação. As narrativas que tentam explicar a visão, audição, etc., explicam tais fenómenos, diz Ryle, da mesma forma “que um terremoto é explicado

por uma teoria sismológica ou a diabetes é explicada por um certo ramo da patologia.”89 Ele deixa transparecer que importantes questões sobre a percepção são tratadas como “meramente questões causais.”90 O autor reconhece que há questões causais para serem tratadas no processo perceptivo, advertindo: 86 Ibidem. 87 Ibidem. 88 Ibidem. 89 Ibid., p. 360. 90 Ibidem.

35

But not all our questions about perception are causal questions; and the proffering of causal answers to non-causal questions leads to inevitable dissatisfaction, which cannot be relieved by promises of yet more advanced causal answers still to be discovered.91

Como já vimos, Ryle defende que perceber envolve o uso de habilidades, e reconhece a implicação de questões causais, mas há comprometimentos que não são apenas relações causais. Ele escreve:

Checkmating an opponent at chess is certainly a happening, and a happening conditioned by all sorts of known and unknown causes. But the chess-player’s interest is not in these causes, but in the tactics or strategy or sometimes just the luck of which the checkmating was the outcome. It is not the dull physical fact of the arrival of the Queen at a particular square, it is the fact that this arrival constituted the success or victory of the player, which is what is significant for the players and spectators of the game. Similarly, finding out something by seeing or hearing is, so to speak, a success or victory in the game of exploring the world. This seeing or hearing is of course susceptible of a complete and very complex causal explanation, given in terms of optics or acoustics, physiology, neurology and the rest; but the player’s interest is not primarily in the contents of this explanation, but in the exploratory task itself and its accomplishment.92

Compreendemos o quanto a explicação causal está atrelada à explicação da percepção e ação. O jogador de xadrez possui intenção em seus movimentos com as peças para ganhar o jogo, ele pretende realizar uma ação. Cada experiência perceptiva expressa um contexto específico, uma situação, Ryle argumenta: “verbos como ver e escutar não denotam meramente

experiências específicas ou acontecimentos mentais com antecedentes mentais específicos; eles denotam realização de tarefas ou sucesso em empreendimentos.”93

O autor sugere que a postulação de impressões sensoriais com antecedentes causais a exemplo de ver e escutar não são expressões apenas de tipo físico, mas de tipo psicológico. Ver e ouvir são acontecimentos causais, mas não apenas. Primeiro, por que as explicações causais físicas não respondem questões técnicas referentes ao sucesso e falhas perceptuais. Segundo, não se trata de defender que as explicações causais precisassem do componente psicológico, mas este responde a questões causais muito mais que a questões técnicas. O ponto é que quando queremos diferenciar questões em relação a ouvir, não ouvir, ou ouvir erroneamente as ligações causais não

91 Ibidem. 92 Ibid., p. 361. 93 Ibid., p. 362.

36

abrangem a totalidade do fenômeno, há algo mais que apenas relações causais não resolvem, afirma Ryle.94

1.7 Semelhanças e diferenças nas análises da noção de sensação em

Documentos relacionados