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Início da leitura do texto

No documento CURITIBA 2019 (páginas 67-70)

Essa aula terá como intuito principal realizar a leitura comentada do texto

‘“Resposta à questão: O que é esclarecimento?”’ com os estudantes, lembrando que a proposta dessa aplicação metodológica é que o texto seja lido e discutido integralmente em sala de aula. Nessa aula, assim como nas que se seguirão, os estudantes acompanharão a leitura sendo que essa reflexão será feita de maneira coletiva, pontuando cada conceito e cada situação nova que parecer importante discutir. Os alunos terão a liberdade de, sempre que tiverem interesse em relação ao que está sendo abordado, apresentarem em aula seus questionamentos no momento da leitura do texto e posteriormente a essa leitura. Esse momento inicial é importante, pois os eles estarão conhecendo o texto, e muitos deles estarão tendo contato com um texto clássico de filosofia pela primeira vez. O professor deve ter o cuidado de observar que os estudantes, geralmente, não tem o hábito de ler esse modelo de texto, o que pode gerar em algum momento a desmotivação com relação à leitura. Nessa situação, cabe ao docente, permanecer atento para buscar despertar esse interesse, pois, essa etapa inicial é bastante importante no sentido de fazer com que os estudantes tenham vontade de conhecer mais sobre a filosofia e os textos clássicos filosóficos, bem como o autor em questão.

A seguir, apresentamos o roteiro básico de leitura que foi utilizado no trabalho de leitura e discussão do texto em sala de aula.

Primeiro Parágrafo:“Esclarecimento é a saída do homem da menoridade pela qual ele é o próprio culpado”, essa frase inicial, Kant explica o que é Esclarecimento, que conforme a sua concepção é quando o ser humano sai de sua condição de menor. É importante ressaltar aqui que o termo ‘menoridade’ no texto não tem nada a ver com a menoridade penal com a qual estamos acostumados (menor de dezoito anos), mas sim com a falta de autonomia e de coragem em fazer uso próprio de seu pensamento e de sua razão. Em outras palavras, a menoridade não é uma incapacidade ou falta de condições, sejam elas físicas ou intelectuais, de fazer uso da razão, mas sim a preguiça em fazê- lo sem que outra pessoa conduza esse emprego ou exercício da razão. Podemos dizer que a menoridade seria como uma segunda natureza, uma natureza imposta pelo cotidiano, seria como um vício, algo tornado de certa forma natural, devido ao uso constante no dia a dia. As pessoas que se encontram na condição de menor estão a todo tempo sob a tutela de outrem, agindo no mundo sem ao menos entender o porquê de seus atos e podendo inclusive ser manipulados por isso. Muitas vezes procedem sem sequer dar-se conta de tal situação, simplesmente por estarem habituadas a essa realidade. No caso, o ser humano se torna esclarecido a partir do momento em que resolve abdicar dessa situação de menor, assumindo assim uma condição de maioridade, ou de esclarecimento. “Sapere Aude”. Essa expressão latina significa “atreva-se a conhecer” ou “ouse saber”; ou seja, para que busquemos uma autonomia de pensamento é necessário que encontremos antes de mais nada coragem e ousadia para que a busca pela autonomia realmente se efetive e, dessa maneira, conseguirmos nos livrar do hábito da menoridade. Para Kant, “Sapere Aude” é a máxima do esclarecimento.

Segundo Parágrafo: A maioria das pessoas continua, por opção própria, na condição de menor. Os motivos são simples e bastante evidentes: a preguiça e a covardia são as causas que levam as pessoas a não permitirem a libertação dessa sua condição de menores. Mesmo depois de já terem sido naturalmente libertadas da menoridade, elas continuam a negar essa posição de maiores; pois, assumindo-a, a situação demandaria autonomia e, portanto, responsabilidade. Logo, as condições de menoridade e maioridade no texto não estão associadas a uma ordem cronológica, isto é, a uma questão de idade, como estamos acostumados a identificar, mas sim a uma questão moral. Em uma palavra, a menoridade e a maioridade se referem ao comportamento. É mais fácil ser menor, ou dependente. Na situação de menor não precisamos despender esforço intelectual, espiritual ou até mesmo físico. Se alguém fizer esse esforço de raciocinar por mim, ou seja, se as pessoas assumirem em meu lugar

a responsabilidade de pensar, de refletir ou de questionar ficarei isento dessas demandas e, consequentemente, da responsabilidade de que essas atitudes dependem. Portanto, ao fazer uso de nossa razão sob a tutela de alguém, mantemo-nos sob o hábito da menoridade. A maioria das pessoas considera que a passagem para a maioridade é perigosa e trabalhosa; logo, seria mais fácil deixar que os tutores, ou seja, aquelas pessoas que estão à frente das grandes massas e que de alguma maneira exercem influência sobre outras pessoas, assumissem a direção, poupando assim seres humano preguiçosos e covardes de se colocar a pensar. Esses tutores, por sua vez, assumem essa postura de maneira positiva, ou seja, de bom grado, pois sabem que controlar pessoas demanda poder. Os tutores utilizam-se inclusive dos exemplos das pessoas que procuram buscar a sua própria autonomia e às vezes cometem erros como modelo daquilo que não se deve fazer, aproveitando-se da situação para amedrontar ainda mais as pessoas que já não querem sair dessa “condição de conforto”, apontando apenas para os riscos que a busca por autonomia pode oferecer. Para Kant, esse “risco” não é assim tão grande, pois os erros são fundamentais para o aprendizado no cotidiano e, após cometermos determinados erros, começaríamos, enfim, a conquistar a nossa autonomia.

Terceiro Parágrafo:A menoridade é difícil de ser descartada individualmente pelas pessoas, porque ela tornou-se algo como que natural. Isso porque é um hábito tão arraigado que parece realmente constituir parte da natureza humana. Isso é tão evidente e frequente que as pessoas até se acostumaram com ela de tal forma que muitas vezes se julgam incapazes de fazer uso de seu próprio entendimento ou razão. O que pode refletir numa condição permanente de menoridade, pois essas pessoas simplesmente não conseguem imaginar-se sem tal vício. Portanto, para essas pessoas, seria algo bastante inseguro tomar para si a responsabilidade de tomar as próprias decisões. Kant diz que seria como um salto sobre o fosso para essas pessoas, mas comenta que esse fosso não seria assim tão perigoso e que o exercício de saltar sobre ele promoveria uma condição diferente daquela de menoridade. Embora poucos homens tenham conseguido “saltar”, ainda assim tentaram e, utilizando-se do exercício individual de seu espírito, finalmente se asseguraram em suas próprias ideias e concepções, revelando assim que, embora a autonomia seja uma situação nova, ela é também uma condição necessária para sairmos da condição de menoridade.

Quarto parágrafo:Para que as pessoas se esclareçam, é fundamental a liberdade e, mesmo entre os próprios tutores, sempre encontraremos “livres-pensadores”

<Selbstdenkende> que, após terem conseguido se libertar do peso que é ser menor, farão

com que as pessoas com as quais convivem experimentem fazer uma revisão moral sobre si próprias, o que pode levar estas pessoas a uma autonomia de pensamento, ou seja, à maioridade. Se isso não ocorre, as pessoas que anteriormente se encontravam sob a tutela dos tutores ainda se submetem a permanecer sob esse jugo, quando muitas vezes são incitadas por outros tutores menos esclarecidos, mas detentores de poder, inclusive de persuasão. Devido a esse problema, o público chega muito lentamente ao esclarecimento.

A revolução seria insuficiente para promover uma reestruturação na maneira de pensar, pois, para Kant, a obediência, além da liberdade, são os caminhos para que possamos desenvolver a nossa autonomia. A proposta do esclarecimento é uma transformação na maneira de raciocinar. Segundo Kant, a obediência às normas é fundamental para que haja esclarecimento, pois a desobediência nada mais é do que uma transformação nas relações de força, não faria transformações intelectuais e nem livraria os homens da menoridade. Além disso, dentro das próprias revoluções, surgiriam novos preconceitos que, assim como os antigos, serviriam de correntes para aprisionar as pessoas que não possuem o hábito de pensar por si.

No documento CURITIBA 2019 (páginas 67-70)