III. COMITÊ PARA DEMOCRATIZAÇÃO DA INFORMÁTICA DO PARANÁ 24
3.3 Trajetória histórica do CDI-PR
3.3.2 Início do CDI-PR
No Paraná, a primeira iniciativa ocorreu através de uma campanha junto à Primeira Igreja Batista de Curitiba em 1997 para encontrar voluntários interessados em organizar um CDI local – era uma idéia trazida pelo carioca Aristóteles Baiense Leite para a cidade de Curitiba. Contudo, a fundação oficial só ocorreu em 15 de abril de 1999 com o apoio fundamental da Sociedade dos Usuários de Informática e Telecomunicações no Paraná (SUCESU-PR) que cedeu espaço e infra-estrutura para a sede, além de fazer ampla divulgação do projeto.
Como poderá ser visto de decorrer do estudo a participação da UFPR foi um dos pontos marcantes e que em muito colaborou para configurar o CDI-PR tal como ele é hoje.
As primeiras Escolas de Informática e Cidadania (EICs)
No dia 22 de outubro de 1998, quase um ano depois das primeiras iniciativas em se criar um CDI local, foi inaugurada a primeira EIC do Paraná, a EIC Monte Horebe, em Itaperuçu, região metropolitana de Curitiba. A escola contou com o patrocínio da Companhia de Cimento Portland Rio Branco que fez a doação dos computadores.
Em 1999 mais cinco EICs foram criadas: uma em Almirante Tamandaré, uma em Guamiranga em parceria com a EMATER, uma na Vila Moradias Pantanal, uma no bairro do Xaxim e uma no bairro da Barrerinha. Foram formados 06 educadores para atuarem nestas EICs. Contudo, a EIC de Almirante Tamandaré fechou meses depois por não contar com uma equipe de trabalho para desenvolver as atividades – Também o CDI, na época, não possuía uma equipe para dar suporte às EICs em seus projetos. O seu trabalho para com as EICs, naqueles tempos, consistia em conseguir doações de computadores, chancelar as licenças dos softwares, ceder material didático disponível e encaminhar pessoas que quisessem atuar como voluntários. Mais tarde outra EIC (do bairro da Barrerinha) fecharia por incompatibilidade com a proposta do CDI-PR.
Parceria com o Departamento de Psicologia da UFPR
Em 1999 a UFPR aproximou-se do CDI-PR através do Programa de Extensão
“Exercitando a Cidadania”. O programa era desenvolvido desde 1995 sob a coordenação da Profª. Milena Martinez. Entre outras atividades deste programa, havia o Projeto de Extensão Vila Moradias Pantanal, coordenado inicialmente pela própria Profª. Milena e mais tarde, em 1997, pela assistente social da UFPR, Dulciléia Rodrigues. Este projeto era composto por vários cursos da universidade e em 1997 também pelo de psicologia que participava com o Projeto de Extensão “Psicologia e Meio Ambiente”, coordenado pela Profª. Norma da Luz Ferrarini Zandoná. Inúmeras ações foram desenvolvidas nesta comunidade e muitos foram os alunos universitários que tiveram ali um campo de aprendizado11.
O contato inicial partiu do Projeto de extensão Vila Moradias Pantanal através de sua coordenadora, pleiteando uma EIC para o Pantanal. A resposta do CDI-PR à requisição foi positiva, contudo, a ONG carecia de recursos humanos, financeiros e de todo tipo de estrutura. Sua equipe era formada basicamente por Aristóteles Baiense Leite e Edgard Spitz Pinel, ambos dedicavam-se ao projeto voluntariamente – havia outras pessoas envolvidas, que demonstravam grande simpatia pelo projeto, mas de pouca participação nesta época.
Diante da necessidade do CDI-PR, a UFPR através do Projeto de Extensão
“Psicologia e Meio Ambiente” assumiu a proposta de realizar um trabalho em conjunto com a ONG a fim de auxiliá-la na organização de material didático e do curso de formação para os educadores da Vila Pantanal e da Igreja Batista da Barrerinha.
No ano de 2000, o Projeto de Extensão Psicologia e Meio Ambiente sofreu uma reestruturação e passou a se denominar “Contribuições da Psicologia para construção da cidadania empregando recursos da tecnologia da informação” e também adquiriu a qualidade de estágio de conclusão de curso para as alunas participantes do projeto de extensão. O projeto previa, além da continuidade das atividades que
11 O Programa de Extensão “Exercitando a Cidadania” tinha duas áreas de atuação, uma no campo e outra na cidade. O programa como um todo envolveu aproximadamente 150 alunos.
estavam sendo executadas na Vila Pantanal, o início da estruturação do Núcleo Pedagógico e uma intervenção no campo da Psicologia Organizacional no CDI-PR.
Desta forma, através do projeto de extensão e do estágio de conclusão de curso, foram organizados os primeiros materiais didáticos próprios, estruturados os primeiros cursos de formação de educadores e realizado um diagnóstico institucional da ONG.
3.3.3 As quatro Fases de Expansão
Optou-se em descrever a trajetória do CDI-PR através de Fases que denominamos de Expansão por ter sido esse seu movimento até o ano de 2003, principalmente no que se refere ao número de EICs. O ano de 2004 já apresenta características diferentes por ser um ano que o CDI-PR optou por dar mais ênfase na consolidação do que já havia realizado, diminuindo assim a criação de novas EICs.
Contudo, este aspecto não será abordado porque este trabalho se restringe a apresentar registros até o final do ano de 2003.
I Fase de Expansão a) Profissionalização
Em 2000, através do CDI-Rio, o CDI-PR recebeu um importante investimento da Avina Foundation previsto para dois anos. Um apoio que possibilitou a dedicação de quatro pessoas na qualidade de funcionários da ONG e a locação de uma sala para ser a sede própria do CDI-PR. Esta fase é destacada pelo início da profissionalização de alguns quadros do CDI-PR.
As contratações foram para as funções de: coordenação executiva, assessoria executiva, coordenação de projetos e técnico de informática. Duas das pessoas contratadas já estavam atuando no CDI-PR (coordenação executiva e técnico de informática) e duas foram advindas de programas de estágio (IEL12 e CIEE13).
12Instituto Euvaldo Lodi.
13Centro de Integração Empresa Escola.
b) Composição do CDI-PR
O Quadro 7 mostra a composição do CDI-PR no ano de 2000.
Quadro 7: Constituição do CDI-PR no ano de 2000.
Núcleos Qtde de
pessoas Função Dedicação como
Coordenação Funcionário
Administrativo/executivo 2 Assessoria Funcionário
Coordenação Funcionário
Projetos 5 Coordenador de EIC (4) Voluntário
Coordenação Voluntário
Técnico Voluntário
Núcleo técnico 3
Técnico Funcionário
Coordenação (2) Voluntário
Pedagógico 10 Educador de EIC (8) Voluntário
Coordenação Voluntário
Marketing e Captação de
recursos 2 Relações institucionais Voluntário
Comunicação 1 Coordenação Voluntário
Relações Humanas 2* Coordenação Voluntário
*Os dois componentes deste núcleo faziam parte de outros núcleos, portanto, não entram na contagem geral dos participantes.
Como o Quadro 7 mostra, 23 pessoas estavam envolvidas diretamente com as atividades do CDI-PR.
c) Planejamento estratégico
Em 2000, a equipe do CDI-PR, elaborou seu planejamento estratégico. Foram 3 meses de trabalho sob a orientação de um consultor em administração que doou seu trabalho ao CDI-PR. Nesta atividade foram definidos a Missão, os Valores e o Plano de Ação da ONG. Este trabalho conjunto proporcionou uma coesão da equipe em torno de seu objetivo e formas de atingi-lo. Tanto a missão, quanto os valores passaram a ser os balizadores que norteavam as decisões e ações a partir dali.
II Fase de Expansão
a) Criação de Novas Escolas de Informática e Cidadania (EICs)
De acordo com o Quadro 8 a seguir, em 2001 foram criadas mais 11 EICs, sendo 5 em Curitiba e 6 na Região Metropolitana. Destas, 2 para atender públicos específicos: necessidades especiais e crianças e adolescentes tutelados. Totalizando 15 EICs ao todo.
Quadro 8: EIC criadas no ano de 2001.
EIC Cidade/Bairro Público
Rio Branco14 Rio Branco do Sul/Centro comunidade do centro CAIC Rio Branco do Sul/Vila São Pedro comunidade do bairro
CADI15 Fazenda Rio Grande comunidade do bairro
Filadélfia São José do Pinhais/Quissisana comunidade do bairro Infraero São José dos Pinhais/Aeroporto comunidade do entorno Divina Misericórdia Curitiba/Santa Helena – CIC comunidade do bairro Pequeno Cotolengo Curitiba/Campo Comprido comunidade do bairro Clube de Mães Vila das
Torres Curitiba/Vila das Torres comunidade do bairro
Prado Curitiba/Prado Velho comunidade da Vila Torres
FEPE16 Curitiba/Jardim Botânico necessidades especiais
ACRIDAS17 Curitiba/Bacacheri crianças e adolescentes tutelados
b) Composição do CDI-PR
O fim do ano de 2000 foi marcado pela saída de duas pessoas do quadro de funcionários. Este momento ocasionou uma avaliação das necessidades do CDI-PR e conseqüentemente a contratação de mais 4 (quatro) pessoas com os mesmos recursos, duas para substituírem os que estavam saindo, e duas para os núcleos pedagógico e captação de recursos, que funcionavam até então somente com voluntários. As novas contratações foram de pessoas que já atuavam na ONG. O quadro 9 a seguir mostra a organização e a constituição do CDI-PR em 2001:
Quadro 9: Constituição do CDI-PR no ano de 2001.
Núcleos Qtde de
pessoas Função Dedicação como:
Coordenação Funcionário
Coordenação executiva 2 Assessora Funcionário
Coordenação Funcionário
Projetos 16 Coordenador de EIC (15) Voluntário
Coordenação Funcionário
Técnico Voluntário
Núcleo técnico 3
Técnico Voluntário
Coordenação Voluntário
Pedagógico 30 Educador de EIC (29) Voluntário
Coordenação Voluntário
Marketing e Captação de
recursos 2 Relações institucionais Funcionário
Comunicação 1 Coordenação Voluntário
Relações Humanas 1* Coordenação Voluntário
*O componente deste núcleo faz parte de outro núcleo, portanto, não entra na contagem geral dos participantes.
14 EIC em parceria com a Secretaria Municipal de Educação de Rio Branco
15 Centro de Assistência ao Desenvolvimento Integral.
16 Fundação Ecumênica de Proteção ao Excepcional.
17 Associação do Cristianismo Decidido.
O Quadro 9 mostra que 54 pessoas estavam envolvidas diretamente com as atividades do CDI-PR, sendo 5 funcionários e 49 voluntários.
c) Patrocínios
No fim do ano de 2001 terminou o patrocínio da Avina que estava previsto para apenas dois anos e chegaram novos patrocinadores: Rivera & De Paola Advogados Associados, Esso Brasileira de Petróleo (patrocínio para criação de 8 EICs), Microsoft Corporation e a Companhia Siderúrgica Nacional (patrocínio para a criação de uma EIC).
d) Nova sede e parceria com a Secretaria Estadual de Educação do Paraná
No ano de 2002 o CDI-PR fez uma parceria com a Secretaria Estadual de Educação do Paraná e passou a ter sua sede nas dependências do CETEPAR (Centro de Excelência em Tecnologia Educacional do Paraná). A nova sede permitiu, além da diminuição de gasto com aluguel, a organização do seu próprio centro de formação.
Até então, o CDI-PR ocupava laboratórios cedidos por outras instituições e a própria sala administrativa, para realizar os cursos de formação de educadores. O nome do centro foi uma homenagem ao fundador do CDI-PR: Centro de Formação Continuada
“Aristóteles Baiense Leite”.
III Fase de Expansão a) Criação de novas EICs
O Quadro 10 a seguir apresenta mais 9 EICs criadas em 2002. Uma na cidade de Palmeira, três em Araucária, 1 em São José dos Pinhais e quatro em Curitiba, sendo que duas para público específico (meninos em situação de risco e terceira idade).
Totalizando 24 EICs ao todo.
Quadro 10: EICs criadas no ano de 2002.
EIC Cidade/Bairro Público
Assoc. de Moradores da Vl. Rosa Palmeira/Vila Rosa Comunidade do bairro Escola Mun. Ceci Cantador Araucária/Jardim Alvorada Alunos da escola Assoc. de Moradores Jd.
Alvorada Araucária/Jardim Alvorada Comunidade do bairro Panificadora Comunitária Araucária/Jardim Pequim Comunidade do bairro
CCEP18 São José dos Pinhais Comunidade do bairro
A Mão Cooperadora19 Curitiba/Vila Lindóia Comunidade do bairro
Assoma20 Curitiba/Guabirotuba Meninos em situação de risco
Integrar-UFPR21 Curitiba/Centro Terceira idade
Bairro Novo Curitiba/Bairro Novo A Comunidade do bairro
b) Constituição do CDI-PR
Em 2002 o CDI-PR contratou novos funcionários para o núcleo de projetos sociais, para o núcleo de marketing e captação de recursos e para o núcleo pedagógico.
O Quadro 11 mostra a organização e forma de constituição do CDI-PR em 2002. Conforme este quadro, 56 pessoas estavam envolvidas diretamente com as atividades do CDI-PR.
Quadro 11: Constituição do CDI-PR no ano de 2002.
Núcleos Qtde de
Comunicação 2 Assessor de imprensa Voluntário
Relações Humanas 1* Coordenação Voluntário
*O componente deste núcleo faz parte de outro núcleo, portanto, não entra na contagem geral dos participantes.
18 Conselho Comunitário de Execução Penal, pertencente à Segunda Vara Criminal de São José dos Pinhais.
19 Obras Sociais e Educacionais da Igreja de Deus no Brasil.
20 Associação de Meninos de Curitiba.
21 Projeto pertencente ao Programa Integrar do Departamento de Psicologia da UFPR, coordenado pela Profª Drª Yara Bulgacov.
IV Fase de Expansão a) Criação de novas EICs
No ano de 2003 foram criadas mais 08 EICs, conforme o Quadro 12 abaixo, totalizando 32 EICs ao todo.
Quadro 12: EICs criadas no ano de 2003.
EIC Cidade/Bairro Público
Assoc. de Moradores Sto. Antônio Curitiba/Pinheirinho Comunidade do bairro Assentamento do Contestado Lapa/Assentamento Comunidade do assentamento Assoc. de Moradores Vila Macedo Piraquara Comunidade do bairro
Escola Est. Protásio de Carvalho Curitiba/Itatiaia Professores e alunos da escola Paróquia N.S. de Nazaré Curitiba/Boa Vista Comunidade do bairro
Clube de Mães Vila Audi Curitiba/Vila Audi Comunidade do bairro
Shopping Jd. das Américas Curitiba/Vila Uberaba Alunos das escolas do entorno e comunidade
Sadia Paranaguá Comunidade do bairro
b) Nova sede
Em 2003 houve a mudança de governo e a parceria com o CETEPAR foi encerrada. O CDI-PR precisou de uma nova sede e conseguiu uma no Centro Internacional de Tecnologia de Software (CITS) na Cidade Industrial.
c) Patrocínios
Chegaram mais dois novos patrocinadores (Unimed e HSBC) através do projeto Adote uma EIC.
d) Constituição do CDI-PR
O CDI-PR recebeu uma novo componente para o núcleo de relações humanas.
E a função de assessoria pedagógica foi substituída pela de assistente para os núcleos pedagógico, projetos e técnico.
O Quadro 13 mostra a organização e constituição do CDI-PR em 2003.
Quadro 13: Constituição do CDI-PR em 2003.
Núcleos Qtde de
pessoas Função Dedicação como:
Coordenação Funcionário
Coordenação executiva 2 Assessoria Funcionário
Coordenação Funcionário
Assessoria Voluntário
Projetos 32
Coordenador de EIC (30) Voluntário
Coordenação Funcionário
Técnico Voluntário
Núcleo técnico 3
Técnico Voluntário
Coordenação Funcionário
Pedagógico 47 Educador de EIC (46) Voluntário
Coordenação Voluntário
Marketing e Captação de
recursos 2 Relações institucionais Funcionário
Coordenação Voluntário
Comunicação 2 Assessor de imprensa Voluntário
Coordenação Voluntário
Relações Humanas 2* Assessoria Funcionário
*Um dos componentes deste núcleo faz parte de outro núcleo, portanto, não entra na contagem geral dos participantes.
Conforme o Quadro 13, 89 pessoas estavam envolvidas diretamente com as atividades do CDI-PR.
IV. A PARTICIPAÇÃO E O PRINCÍPIO EDUCATIVO SOB A ÓTICA DA PSICOLOGIA SOCIAL COMUNITÁRIA
Nossa proposta consiste em analisar os atores do CDI-PR na perspectiva da Psicologia Social Comunitária que adota, também, uma abordagem sócio-histórica e crítica para estudar e compreender indivíduos e grupos, partindo de pressupostos epistemológicos do campo marxiano, considerando o homem “como produto e produtor da história individual e coletiva” e como “um importante ator social nos embates e conflitos presentes nas relações de classe” (FREITAS, 2001, p.75). Além disto a Psicologia Social Comunitária, também, dá especial atenção aos trabalhos desenvolvidos em comunidades, buscando sempre a produção de conhecimento científico que dê suporte às intervenções que, de fato, propiciem a construção da consciência crítica e a ação organizada em direção à emancipação dos indivíduos (FREITAS, 2001).
A psicologia social comunitária traz em sua trajetória diversos trabalhos e práticas psicossociais desenvolvidos em comunidade desde a década de 60, contudo, com significativas diferenças nas orientações teórico-metodológicas que demarcam diferentes campos de atuação. Freitas (2001, p.82) destaca os aspectos que caracterizam os trabalhos de intervenção psicossocial em Psicologia Social Comunitária:
“É um trabalho que busca resultados que impliquem em ações voltadas para alguma mudança concreta nas condições da comunidade e nas relações existentes”
(FREITAS, 1996b; SANDOVAL, 1997; apud FREITAS, 2001, p.82);
Há “um compromisso político do profissional com os setores desfavorecidos da população dirigido à transformação das suas condições de marginalidade e exclusão sociais” (FREITAS, 2001, p.82);
“A construção de processos de conscientização figura como um dos objetivos centrais” (FREITAS, 2001, p.82);
“A necessária relação e dependência entre investigação/pesquisa e produção de estratégias de ação para a realidade investigada, os trabalhos da psicologia social comunitária referem-se a uma proposta de ação e de intervenção psicossocial
comprometida, necessariamente, com a produção de conhecimento” (FREITAS, 2001, p.83);
Domínio, por parte do profissional, “sobre os processos e fenômenos psicossociais relativos à construção psicossocial do homem, dentro dos aportes de uma Psicologia Social, crítica e histórica, de fundamentação marxista” (FREITAS, 2001, p.82-83). Neste aspecto, a Psicologia Social Comunitária trabalha com as seguintes categorias:
- a) “concepção de sociedade e de homem sócio-historicamente construído”
(FREITAS, 2001, p.83);
- b) “ideologia, consciência e identidade, a fim de entender como os indivíduos participam em um processo coletivo de produção e reprodução das suas condições de existência” (FREITAS, 2001, p.83);
- c) “interações, relações cotidianas e processos grupais, objetivando captar os processos que tornam os aspectos da realidade mais impactantes para o indivíduo e que se refletem na sua consciência, indicando possibilidades maiores ou menores de ações individuais e coletivas” (FREITAS, 2001, p.83);
- d) “expressões e construções culturais e populares, manifestadas através da linguagem, dos códigos ético-culturais, da emoção e afetividade, identificando-se as condições concretas favoráveis aos processos de participação e mobilização das pessoas” (FREITAS, 2001, p.83).
“No trabalho em comunidade a dimensão das relações cotidianas e dos atores sociais (individuais e coletivos – envolvidos nos pólos dessas relações) tem uma importância delicada para o sucesso e continuidade das práticas psicossociais em comunidade” (FREITAS, 2001, p.83). Implicadas nestas duas dimensões, Freitas (2001) destaca outras duas, a conscientização e a participação, que seriam intimamente dependentes, sem que haja uma relação direta e proporcional.
Uma vez que faz parte de nossos objetivos com esta pesquisa identificar, junto aos atores do CDI-PR os motivos que os levaram a participar desta ONG, o que os mantêm participando e de que forma é esta participação, bem como, o que a atividade nesta ONG repercute em suas vidas, iremos, a partir de agora, apresentar
aspectos teóricos referentes a alguns estudos sobre os processos de participação presentes no arcabouço teórico da Psicologia Social Comunitária.
4.1 Processos de Participação
Montero (1996) salienta que participação é uma palavra comum e uma ação de significado transparente, compreensível a todos. Contudo, Montero (1996) ressalta que não há concordância entre os dicionários e os textos especializados. O dicionário define participação como: (1) ação e efeito de participar; (2) comunicar; (3) tomar parte em alguma coisa. Esta forma de entender a participação é bastante restrita para Montero (1996) que defende que a participação é “uma relação de mútua transformação, onde o participante constrói e modifica o fenômeno do qual participa, e é transformado por ele” (MONTERO 1996, p.7). Cita Carmona (1988; in:
MONTERO, 1996, p.8) que fala de participação como “um direito através do qual se pode alcançar a realização; como condição para a liberdade, pois permite decidir; e como uma mudança de relação, referindo-se ao equilíbrio de forças sociais e ao poder”.
Montero (1996, p.8) ressalta o caráter fundamental da participação nas ações comunitárias:
A participação tem um caráter fundamental nas ações desenvolvidas em um grupo ou comunidade, ou não poderiam receber o qualificativo “comunitárias. (MARTÍN GONZÁLES, 1988; in: MONTERO, 1996, p.8)
O comportamento participativo tem sido considerado como chave para a autogestão na solução de problemas e na satisfação de necessidades. (ARANGO & VARELA, 1988; in:
MONTERO, 1996, p.8)
Mas é em Carmona (1988; in: MONTERO, 1996, p.10) que Montero (1996, p.10) absorve o aspecto mais interessante da participação: seu caráter rebelde por
“introduzir mudanças em situações de desigualdade e exclusão vistas como o modo natural de ser das coisas, (...) uma forma do cidadão exercer os seus direitos e de cumprir os seus deveres, de apropriar do espaço público, já que constrói este espaço”.
Carmona (1988; in: MONTERO, 1996, p.10) vai além e define participação também como uma forma de subversão, “mas uma subversão que não conduz, necessariamente,
ao dramatismo das revoluções, no entanto, seus efeitos podem ser equivalentes”. Fala de uma subversão de todos os dias, de gota a gota:
Una subversión de la gota a gota. A veces homeopática y por tanto más profunda, más radical. Es la subversion semejante a la que se opera en nuestras células durante el proceso de maduración; que todo lo transforma, pero cuyos cambios sólo percibimos cuando ya están constituídos frente a nuestros ojos. (CARMONA, 1988; apud MONTERO, 1996, p.10)
No estudo sobre estes processos de participação, Montero (1996) identifica diferentes graus de participação que variam muito de acordo com a relação existente
No estudo sobre estes processos de participação, Montero (1996) identifica diferentes graus de participação que variam muito de acordo com a relação existente