3 ABORTO DE FETOS ANENCÉFALOS
3.5 Argumentos contra
3.5.3 Inalienabilidade do direito à vida
Uma vez compreendido que desde o instante da fecundação surge o ser humano, imperativo também reconhecer que há uma vida a ser amparada pelo Direito.
A inviolabilidade do direito à vida está prevista no art. 5º da Constituição Federal, sendo este o mais fundamental de todos os direitos, dado que sem ele, nenhum outro direito subsiste, sendo desta forma um pré-requisito à existência e ao exercício de todos os demais direitos.
De acordo com Maria Helena Diniz70, “o direito à vida integra-se à pessoa até o seu óbito, abrangendo o direito de nascer, o de continuar vivo e o de subsistência, mediante trabalho honesto ou prestação de alimentos”.
Trata-se de um direito fundamental de primeira dimensão, que é garantido ao ser humano desde a concepção até a morte, e, portanto, garantido também ao nascituro, sem que se estabeleça distinção de qualquer espécie, ainda que relativa a maior ou menor vitalidade do ser na fase intra ou extra-uterina, com prognóstico de breve duração nesta última ou não. A Constituição protege a vida de forma geral, inclusive uterina.
O direito à vida não é seletivo, não escolhe quem o possui ou não. Também não há tempo mínimo de vida para que possa haver proteção, basta que haja vida.
Com relação à legislação ordinária, não há, no Código Penal, na incriminação do aborto, diferença entre as fases do desenvolvimento do produto da concepção no período intra-uterino. Basta, para a configuração do crime, que a gravidez seja interrompida antes do seu termo normal, ainda que não haja a expulsão do feto. Ou seja, aborto é a interrupção voluntária da gestação, seguida ou não da expulsão do feto, antes da época da sua maturidade. Não há, da mesma maneira, qualquer referência relativa à viabilidade do feto, ou ainda quanto à possibilidade deste possuir vida breve após o nascimento.
De se ressaltar que o tipo penal do aborto foi classificado como crime contra a vida, subclasse dos crimes contra a pessoa, sendo certo que os sujeitos passivos desses delitos são tanto a mulher grávida quanto o feto, que, como já visto anteriormente, possui, como qualquer outro ser humano, direito a que se respeite sua vida.
O principal argumento dos que pretendem a descriminalização do aborto de anencéfalos é a afirmação de que nesses fetos não existe vida, por não possuírem os ossos cranianos, hemisférios e o córtex cerebral, ficando destarte impossibilitados de exercer as funções superiores do sistema nervoso.
No entanto, esses seres humanos possuem organismo com funções vitais, que possibilita seu desenvolvimento no ventre materno e, quando a alcançam, na fase extra- uterina, ainda que de breve duração. Seus sistemas circulatório e respiratório permanecem em funcionamento, bem como as funções do sistema nervoso dos níveis medular e encefálico inferior. Como negar-lhes a presença de vida?
O feto anencefálico é portador de vida e de dignidade de ser humano, pois vida e dignidade são conceitos e princípios, dentro de nosso ordenamento jurídico, inseparáveis. Possui assim a proteção da Constituição bem como das leis civis e penais. A deficiência que o acometeu no período de desenvolvimento fetal não descaracteriza sua natureza humana, presente desde seu surgimento, na fecundação, e acompanhando-o até a morte.
A dita antecipação terapêutica de parto, em realidade constitui uma forma de abortamento voluntário, uma vez que a intenção é interromper a gestação de um feto vivo e em desenvolvimento, em razão da anencefalia, conduta proibida pelo ordenamento penal, por atentar contra a vida de um ser humano.
Na tentativa de legitimar a conduta, argumenta-se ainda que o que causaria a morte do feto não seria a interrupção da gravidez, e sim a sua própria deficiência, que o tornaria inabilitado a sobreviver fora do útero materno. Basta um raciocínio simples para repudiar esta tese. Utilizamos, para demonstrar a fragilidade do argumento, um trecho do parecer do Ministro José Néri da Silveira71 sobre o assunto:
Assim sendo, de concluir-se é que se caracteriza, em realidade, aborto, na interrupção voluntária da gravidez de feto anencefálico, quer isso aconteça com sua expulsão ou extração do útero materno, ou não, verificando-se a morte desse ser humano, como conseqüência direta e imediata da medida adotada para privá-lo da vida. Provocando a interrupção da gravidez, o sujeito ativo do delito atenta contra a vida do feto anencefálico, com o resultado desejado de sua morte, configurando-se, de forma inequívoca, nexo causal. A morte, no caso, não decorre da anomalia encefálica de que portador o feto, mas, sim, da ação de interromper-lhe, de modo eficaz, o normal desenvolvimento fetal, que vinha acontecendo no meio adequado intra-uterino. Se o fundamento à ação interruptiva, como com freqüência é invocado, constitui o fato de ser presumivelmente reduzida a expectativa de vida desse ser humano, ou que poderá inclusive morrer antes do nascimento, tal circunstância, à evidência, não logra amparo, mas, sim, repúdio, da ordem jurídica, ou ética, pois importaria antecipar o óbito humano. Essa conduta, indiscutivelmente, segundo os princípios, implica atentar contra a vida humana. O feto anencefálico, reitere-se é ser humano que vive e se desenvolve no útero de sua mãe, que o gerou. Como admitir- se sua implacável destruição, interrompendo-se, voluntariamente, a gravidez?
Outro argumento baseia-se em situações de gestações patológicas, que ocorrem nos casos de gravidez extra-uterina ou molar. O feto anencéfalo não é uma patologia, como pretendem alguns, e sim possuidor de uma deficiência, que infelizmente não possui tratamento, o que impossibilita o prosseguimento de sua vida extra-uterina. Mas a vida intra- uterina existe, e em alguns casos, ainda que raros, sobrevive por algum tempo fora do útero materno. Não pode ser ele ser discriminado por possuir uma deficiência. Tem o mesmo direito que os fetos saudáveis, e sua vida, ainda que breve, deve ser respeitada e protegida.
Qualquer argumento que utilize como base a inexistência de vida no feto anencefálico, por má-formação do encéfalo ou por considerá-lo uma patologia, está, portanto, equivocado, pois como já exposto, existe vida desde sua concepção, e esta deve ser protegida independentemente de deficiências ou de curta duração. Além disso, o anencéfalo, mesmo não possuindo o cérebro bem formado, é capaz de executar diversas funções, o que nos torna impossível dizer que não é possuidor de vida, ainda que limitada por sua deficiência.