5.4 Oportunidades de Melhoria e Implementação
5.4.3 Inclusão e Corte – Células de One Piece Flow
Na grande maioria dos laboratórios de Anatomia Patológica, existe uma separação física entre áreas funcionais, sendo a Inclusão realizada para um lote correspondente a todas as cassetes. De seguida, o Corte é realizado numa outra sala para todos os blocos resultantes da operação anterior. Este facto contribui para a formação de um grande Stock de blocos por cortar entre as duas salas, que têm de ser transportados em conjunto. Este fator incrementa largamente o TAT dos casos clínicos, visto que o tempo de acumulação de um bloco de um caso entre as duas fases corresponde a tempo que esse caso não avança e, consequentemente, a um atraso no diagnóstico de um paciente.
Além disto, com o transporte inicial de um lote grande de cassetes para a zona de Inclusão ou a acumulação intermédia de blocos por cortar, ocorre manuseamento inusitado de componentes em grandes quantidades. Isto implica um gasto de tempo superior para transporte, assim como a possibilidade de degradação da qualidade dos componentes.
Este parece ser um aspeto ignorado nas aplicações Lean em Laboratórios de Anatomia Patológica descritas na literatura. De facto, existe um paradigma de separação física entre a Inclusão de Blocos e o seu Corte observável em todos os laboratórios descritos na literatura. Assim, uma enorme oportunidade é a junção de todas as operações em Células de Inclusão e Corte, impedindo a formação de Stock intermédio entre as duas fases. Além disto, existe a eliminação de vários passos que constituem desperdício entre as tarefas que realmente acrescentam valor.
No caso do Laboratório de Skövde, era esse o modo como se processavam os casos. O Stock entre Inclusão e Corte representava cerca de 2,5 a 3 Dias de procura diária de blocos, ou seja, um incremento igual ou superior a esses valores para o TAT. De facto, era possível afirmar que o Corte era o Bottleneck do fluxo de Histologia. Além disto, a criação deste Stock impedia que fossem cortados todos os blocos correspondentes à procura diária, devido ao dispêndio de tempo associado à manipulação do Stock e a fases de controlo da qualidade. Assim, a separação de operações não só incrementava o TAT dos casos significava que esse incremento era constante. De modo a responder a este problema, o laboratório recorria regularmente a horas extraordinárias dedicadas apenas ao Corte de blocos, de modo a diminuir o Stock dos mesmos.
Existem duas grandes vantagens da implementação de células que combinem ambas as operações: a redução do TAT e a redução do número de manipulações a que cada bloco está sujeito. Como consequência destas duas resulta a enorme vantagem de desaparecerem as diversas fases de verificação posteriores (devido a resposta imediata a problemas de qualidade que surjam, sem necessidade de realizar qualquer inspeção em lotes). O Fluxo de Inclusão e Corte tradicional é enumerado de seguida.
1. Stock de Cassetes na Máquina de Processamento de Tecidos
2. Transporte até à Máquina/ Estação de Inclusão
3. Operação de Inclusão
4. Acumulação de Stock de Blocos após Inclusão
5. Transporte para Estação de Triagem de Blocos
6. Triagem
7. Acumulação de Stock de Blocos já triados 8. Transporte de Blocos até ao Frigorífico
9. Acumulação de Stock de Blocos no Frigorífico
10. Transporte de Blocos do Frigorífico para a Estação de Corte
11. Impressão de Etiquetas para Slides (Tempo de Espera para que um lote de Etiquetas seja impresso)
12. Operação de Corte 13. Operação de Extensão 14. Etiquetagem dos Slides
Com a implementação de Células de Inclusão e Corte, o número de passos é reduzido drasticamente, originando a sequência descrita de seguida.
1. Stock de Cassetes na Máquina de Processamento de Tecidos 2. Transporte até à Máquina/ Estação de Inclusão
3. Operação de Inclusão
4. Impressão de Slides sem necessidade de Etiquetagem (Tempo de Espera não existente – o técnico realiza a tarefa seguinte enquanto a Impressão decorre)
5. Operação de Corte 6. Operação de Extensão
7. Colocação de Slides em Tabuleiro
Nivelamento da Célula
Existiam alguns aspetos que impediam a criação de Fluxo Unitário nas células de Inclusão e Corte.
Desde logo, é sempre necessário um Stock intermédio obrigatório, criado após a operação de Inclusão, visto que é necessário que os blocos arrefeçam e solidifiquem antes de serem cortados. Para isso, devem ser pousados numa placa de frio, que faz parte do Equipamento de Inclusão. O tempo de arrefecimento de um bloco foi estimado em cerca de 12 minutos. Assim, realizando a Inclusão inicial de um Stock de 20 blocos antes de iniciar o Corte, é possível assegurar que não será necessário qualquer tempo de espera pelo arrefecimento de blocos para iniciar o Corte.
Segundo, os tempos de Corte apresentavam.se como bastante superiores aos tempos de Inclusão, pelo que existia a tendência para haver uma acumulação ainda maior do que a necessária para o arrefecimento de blocos
Como resultado dos aspetos acima referidos, foi necessário nivelar a células, ou seja, introduzir um rácio de um para dois (Duas técnicas no Corte para uma técnica na Inclusão). Os cálculos associados a este nivelamento encontram-se no Anexo H)
Dimensionamento de Capacidade das Células
No Anexo H é também possível observar os tempos médios obtidos para cada tarefa nas células. Estes foram estimados como a média dos tempos obtidos diretamente no Gemba, Com estes tempos, foi possível determinar qual a capacidade que seria necessária para lidar com a procura diária. Assim, foi determinado o número de células necessário: duas Células com três pessoas cada uma. A partir deste número, foi realizado o Planeamento tendo em conta a variação da procura: para dias com a procura menor ou igual à procura média de 550 Blocos/ Dia, um tempo de 4 horas de Inclusão e Corte com duas células a 100% é suficiente. Para dias em que a procura seja superior à média poderá ser necessário estender o tempo dedicado. Assim, para a procura máxima registada seria necessário ter as duas células ativas durante todo o dia para responder à procura. Deste modo, é sempre possível lidar com a procura diária de blocos com duas células, desde que existam técnicas disponíveis para ocupar a célula a 100%.
Assim, foi realizada a implementação de uma destas células em Skövde, de modo a testar eventuais problemas que surgissem. Esta encontra-se representada na Figura 17.
A implementação da Célula teve resultados imediatos, com a redução do TAT Médio (desde a entrada do caso no laboratório até à chegada do caso aos patologistas) de 7,12 Dias para 6,27 Dias. Para os casos cortados na Célula, o TAT Médio situou-se nos 2,5 Dias.
Restrições ao nível de Micrótomos
Para realizar a implementação da junção de operações anteriormente descrita, foi fundamental perceber os problemas gerados pela mesma e a forma de os resolver.
O principal fator que dificultou a implementação das células foi o paradigma associado à atribuição de um micrótomo por pessoa. Cada técnica, para além de possuir um micrótomo que podia ser do tipo rotativo ou de deslizamento, utilizava ainda diferentes especificações, facto que tornava a técnica de corte de cada uma das pessoas verdadeiramente única para todo o laboratório.
Este fator contribuía para que, não existindo sempre a dedicação das mesmas pessoas à célula, fosse necessário alterar as configurações dos micrótomos para cada técnica que realizasse a operação de corte. Assim sendo, existia um grande dispêndio de tempo nos setups com as alterações das pessoas na Célula. Este problema foi parcialmente resolvido com a introdução do novo planeamento, que previa a dedicação de 6 pessoas às células de modo contínuo, por forma a realizar apenas um setup inicial para cada um dos 4 micrótomos utilizados.
A solução óbvia para o problema é, contudo, bem mais simples. Esta passará pela introdução de Standard Work para toda a operação celular, definindo uma só forma de realizar o Corte e um só tipo de Micrótomo para o fazer. Isto permitirá que exista alteração da pessoa que realiza o corte sem que seja necessário um tempo de setup significativo.