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2 DIREITO HUMANITÁRIO, DIREITOS HUMANOS, DIREITO PENAL NUMA

4.2 INCOMPATIBILIDADE E ILEGALIDADE: UMA LEITURA DO

O Brasil assinou o Estatuto do Tribunal Penal Internacional no dia 07 de fevereiro de 2000. Após a assinatura, o texto foi submetido à consideração do Congresso Nacional, que o aprovou em 6 de junho de 2002, por meio do Decreto Legislativo nº 112, de 2002226. O instrumento de ratificação foi depositado no dia 20 de junho de 2002 227.

No dia 25 de setembro de 2002, por força do Decreto nº 4.388, o Estatuto de Roma foi promulgado pelo Presidente da República do Brasil, entrando em vigor na data de sua publicação228.

De modo geral, os dispositivos estabelecidos no Estatuto de Roma não acarretam maiores problemas quanto à compatibilidade com o ordenamento jurídico brasileiro,

224

PIOVESAN, Flávia. Direitos Humanos e o direito constitucional. p.83.

225

PIOVESAN, Flávia. Direitos Humanos e o direito constitucional. p.84.

226

JAPIASSU, Carlos Eduardo Adriano. O Tribunal Penal Internacional: a internacionalização do direito penal. p.35.

227

JAPIASSU, Carlos Eduardo Adriano. O Tribunal Penal Internacional: a internacionalização do direito penal. p.35.

228

JAPIASSU, Carlos Eduardo Adriano. O Tribunal Penal Internacional: a internacionalização do direito penal p.35.

dispositivo vigente na Constituição Federal de 1988; a única exceção trata-se da prisão perpétua, que tem gerado discussões entre os autores nacionais229.

A pena de prisão perpétua contida no Estatuto de Roma apresenta algumas disposições que geram dúvidas quanto à compatibilidade com a Constituição Brasileira, constituindo, assim, em um dos pontos que mais tem recebido críticas230.

Considerando as circunstâncias que levaram à inclusão da pena de prisão perpétua no Estatuto de Roma, é imprescindível fazer uma abordagem sobre os debates existentes durante a Conferência dos Plenipotenciários, que tratavam, ainda, a pena de morte como uma das sanções previstas no Estatuto.

Nota-se que, nos Tribunais de Nuremberg e de Tóquio existia a previsão da pena de morte, já nos Tribunais Internacionais mais recentes, criados na antiga Iugoslávia e em Ruanda, a margem judicial foi mais reduzida do que a dos seus antecessores, determinando que a única pena aplicável fosse a privativa de liberdade. Em razão desta falta de paradigmas ou antecessores quanto ao estabelecimento do limite das penas, se deram posições tão dissonantes na elaboração das regras que regem o TPI231.

Ressalta-se que, na Conferência dos Plenipotenciários, havia muitos países tentando entrar em acordo para o estabelecimento de uma Justiça Internacional e não estrangeira. O que todos tinham em comum era o desejo na formação de um Tribunal Penal Internacional para punir os mais graves crimes contra a humanidade232.

Durante os debates feitos nas sessões do Comitê Preparatório para a Conferência de Roma, vários países (como os do norte da África, do Oriente Médio e da Ásia) demonstraram vontade de que a pena de morte fosse mantida como uma opção. Na própria Conferência, os mesmos países apoiaram a inclusão da pena de morte no Estatuto, pois tinham essa pena prevista no ordenamento interno de seus países233.

229

JAPIASSU, Carlos Eduardo Adriano. O Tribunal Penal Internacional: a internacionalização do direito penal. p.202.

230

JAPIASSU, Carlos Eduardo Adriano. O Tribunal Penal Internacional: a internacionalização do direito penal p.194.

231

JAPIASSU, Carlos Eduardo Adriano. O Tribunal Penal Internacional: a internacionalização do direito penal. p.196-197.

232

SILVA, César Augusto S. da. O Tribunal Penal Internacional e os Direitos Humanos. p. 68-69.

233

JAPIASSU, Carlos Eduardo Adriano. O Tribunal Penal Internacional: a internacionalização do direito penal. p.194-195.

Por outro lado, outros diversos países (como os países da Europa e da América Latina, incluindo o Brasil) eram contra a inclusão da pena de morte no Tribunal Penal Internacional, pois a consideravam contra os próprios direitos humanos234.

Para Beccaria235, a pena de morte não encontra subsídios em direito algum. O Estado é que considera útil ou necessária a eliminação desse cidadão. A duração da pena tem mais efeito sobre o homem do que a rigidez do castigo, posto que a sensibilidade humana é mais facilmente atingida pela frequência do que por um abalo violento e passageiro.

Ainda, o mesmo autor defende que: “Uma pena, para ser justa precisa ter apenas o grau de rigor suficiente para afastar os homens da senda do crime·236”.

A partir dessas divergências, os debates foram resolvidos no final da Conferência, graças à paciência e à habilidade diplomática do coordenador na Conferência, o norueguês Rolf Einar Fife 237.

No final dos trabalhos em Roma, decidiu-se pela não inclusão da pena de morte em troca da pena de prisão perpétua. Essa decisão ocorreu em razão de que algumas delegações entenderam que a sustentação desse tipo de pena seria necessária, com o intuito de mostrar àquelas delegações que insistiam na inclusão da pena de morte alguma flexibilidade, para, assim, chegar-se a um acordo238.

Assim, a pena de prisão perpétua foi mantida como manobra política diante dos Estados que insistiram no estabelecimento da pena de morte 239, e está disposta no art. 77, alínea b, do Estatuto do TPI240:

Art. 77 - Sem prejuízo do disposto no artigo 110, o Tribunal pode impor à pessoa condenada por um dos crimes previstos no artigo 5º do presente Estatuto uma das seguintes penas:

[...]

b) Pena de prisão perpétua, se o elevado grau de ilicitude do fato e as condições pessoais do condenado o justificarem;

234

JAPIASSU, Carlos Eduardo Adriano. O Tribunal Penal Internacional: a internacionalização do direito penal p.194-195.

235

BECCARIA, Cesare. Dos delitos e das penas. 11. ed. Curitiba: Hemus, 2000. p. 45.

236

BECCARIA, Cesare. Dos delitos e das penas. p. 47.

237

KREB, Claus. Penas, execução e cooperação no estatuto para o tribunal penal internacional. In: CHOUKR, Fauzi Hasan; AMBOS, Kai (Org.). Tribunal Penal Internacional. São Paulo: RT, 2000, p.126.

238

JAPIASSU, Carlos Eduardo Adriano. O Tribunal Penal Internacional: a internacionalização do direito penal. p.198.

239

STEINER, Sylvia Helena Figueiredo, O Tribunal Penal Internacional, a Pena de Prisão Perpétua e a Constituição Brasileira. In: Escritos em homenagem a Alberto Silva Franco. Brasília: São Paulo: Revista dos Tribunais, 2003. p. 454.

240

JAPIASSU, Carlos Eduardo Adriano. O Tribunal Penal Internacional: a internacionalização do direito penal. p.350.

No que se refere à pena de prisão perpétua, também foi discutida a sua inclusão no Estatuto de Roma 241. Os países que eram contra o encarceramento perpétuo, dentre eles o Brasil, alegavam que tal pena não se justificava sob o aspecto da proteção dos direitos humanos242.

De outro lado, os países que sustentavam a necessidade da previsão da prisão perpétua defendiam que diante da gravidade das condutas estabelecidas como crimes no Estatuto de Roma, não poderiam abrir mão da pena de prisão perpétua243.

Seguem nesse sentido as palavras de Kreb244: “A exclusão da pena de morte e de prisão perpétua significaria a impossibilidade de alcançar-se um consenso”, o qual foi obtido na justificativa da inclusão da chamada revisão obrigatória, prescrita no art. 110 do Estatuto, por meio da qual, no caso de prisão perpétua, após um período de 25 anos de seu cumprimento, o Tribunal a revisará a fim de determinar sua possível redução 245.

Neste sentido, Mazzuoli246 traz:

De outra banda, o condenado que se mostrar merecedor dos benefícios estabelecidos pelo Estatuto poderá ter sua pena reduzida, inclusive a de prisão perpétua. Nos termos do art. 110,§ 3º e 4º, do Estatuto, quando a pessoa já tiver cumprido 25 anos de prisão, em caso de pena de prisão perpétua, o Tribunal reexaminará a pena para determinar se haverá lugar a sua redução, se constatar que se verificarem uma ou várias das condições seguintes: a) a pessoa tiver manifestado, desde o início e de forma contínua, a sua vontade em cooperar com o Tribunal no inquérito e no procedimento; b) a pessoa tiver, voluntariamente, facilitado a execução das decisões e despachos do Tribunal em outros casos, nomeadamente ajudando-o a localizar bens sobre os quais recaíam decisões de perda, de multa ou de reparação que poderão ser usados em benefício de vítimas; ou c) quando presentes outros fatos que conduzam a uma clara e significativa alteração de circunstâncias, suficiente para justificar a redução da pena, conforme previsto no Regulamento Processual do Tribunal.

E ainda, tal consenso ocorreu, na justificativa de que a pena de prisão perpétua só seria imposta quando fosse justificada pela extrema gravidade do crime, disposto no art. 77, b do Estatuto247.

241

JAPIASSU, Carlos Eduardo Adriano. O Tribunal Penal Internacional: a internacionalização do direito penal p.199.

242

JAPIASSU, Carlos Eduardo Adriano. O Tribunal Penal Internacional: a internacionalização do direito penal. p.199.

243

JAPIASSU, Carlos Eduardo Adriano. O Tribunal Penal Internacional: a internacionalização do direito penal p.199.

244

KREB, Claus. Penas, execução e cooperação no estatuto para o tribunal penal internacional. p.128.

245

KREB, Claus. Penas, execução e cooperação no estatuto para o tribunal penal internacional. p.128.

246

MAZZUOLI, Valério de Oliveira. O Tribunal Penal Internacional e o direito brasileiro. São Paulo: Premier Máxima, 2005. p.73-74.

247

Os autores brasileiros divergem sobre a compatibilidade do Estatuto de Roma em relação à Constituição Brasileira, sustentando, principalmente, que a previsão da pena de prisão perpétua, contida no art. 77 do Estatuto, mostra-se incompatível com o art 5º, XLVII,b, da Constituição248:

Art. 5º [...] [...]

XLVII - não haverá penas: [...]

b) de caráter perpétuo;

Entre aqueles que defendem a incompatibilidade encontra-se o doutrinador Luisi249, que entende que a previsão da prisão perpétua no Estatuto criou embaraços para a ratificação a diversos países250, entre eles o Brasil. Argumentando que em nosso País a pena de prisão perpétua está proibida desde a Constituição de 1934, e finaliza apontando dispositivo constante do art. 5º, XLVII, b da Constituição Federal de 1988 como norma impeditiva da ratificação do Estatuto.

Outro autor que defende este posicionamento é Bitencourt251, sustentando que a pena de prisão perpétua está entre aquelas vedadas pela Carta Magna brasileira, e que essa garantia encontra-se elevada à condição de cláusula pétrea252, não podendo ingressar no ordenamento jurídico pátrio por meio de tratados internacionais e nem mesmo ser objeto de emenda constitucional. Ainda, destaca que o princípio da humanidade, segundo o qual o poder punitivo estatal não pode aplicar sanções que atinjam a dignidade da pessoa humana, é o maior limite para a adoção da pena de prisão perpétua.

Cernicchiaro253 também sustenta a incompatibilidade do Estatuto de Roma com a Constituição pátria, afirmando que é juridicamente impossível introduzir no Brasil, seja pena de morte fora de guerra, seja a prisão perpétua. Acrescenta, ainda, que a aceitação do Estatuto de Roma por parte do Brasil equivale, por via oblíqua, a renúncia à soberania.

248

JAPIASSU, Carlos Eduardo Adriano. O Tribunal Penal Internacional: a internacionalização do direito penal. p.202.

249

LUISI, Luiz Benito Viggiano. Notas sobre o Estatuto da Corte Penal Internacional. In: COPETTI, André (Org.). Criminalidade moderna e reformas penais: estudos em homenagem ao Prof. Luiz Luisi. Porto Alegre: Livraria do Advogado, 2001, p.47.

250

A caráter de curiosidade, pode-se citar Portugal, Nicarágua e Bolívia entre os países que as constituições vedam as penas perpétuas. (LUISI, 2001)

251

BITENCOURT, Cezar Roberto. Pena de prisão perpétua. In: Revista CEJ/ Conselho da Justiça Federal, Centro de Estudos Judiciários. V.4. N. 11, Brasília: CJF, 2000, p. 41-47.

252

A cláusula pétrea está disposta no art. 60, § 4º, IV da Constituição Brasileira.

253

CERNICCHIARO, Luiz Vicente. Pena de prisão perpétua. In: Revista CEJ/ Conselho da Justiça Federal, Centro de Estudos Judiciários. V.4. N. 11, Brasília: CJF, 2000, p. 37-40.

Nesse mesmo sentido é a posição adotada por Barros, afirmando que a adesão ao Estatuto de Roma extingue a soberania do Poder Judiciário brasileiro254.

De outro lado, há autores que sustentam a compatibilidade do Estatuto de Roma com a Constituição Brasileira. Entre esses, pode-se mencionar a autora Piovesan255, ao defender que a Carta Magna brasileira estabeleceu um regime jurídico diferenciado no que diz respeito aos tratados internacionais de proteção aos direitos humanos, e que, de acordo com ela, os tratados de direitos humanos são incorporados automaticamente pelo direito nacional, passando a apresentar status de norma constitucional. Assim, considerando que o Estatuto de Roma é destinado à constituição de um Tribunal que tem por função a proteção dos direitos humanos, por isso o tratado em nada violaria a Constituição Brasileira.

Faz jus o posicionamento da citada autora, estando de um lado a justiça e o combate à impunidade em relação aos mais graves crimes da humanidade, e, de outro, a hipótese de aplicação da prisão perpétua, deve-se levar em conta do direito à justiça e do combate à impunidade. Registre-se que a autora não se mostra simpatizante ou defende esse tipo de punição, mas que prefere vê-la aplicada a conviver com a impunidade dos autores dos piores crimes contra a humanidade256.

No entendimento de Steiner257, ao formular o rol de direitos e garantias previstos no art. 5º da Constituição Federal, especialmente ao que diz respeito ao sistema penal, o constituinte estava tratando apenas das relações entre o Estado, através de seus órgãos repressivos, e o indivíduo que cometer delitos dentro do território nacional e nas suas extensões. Desse modo, Medeiros258 afirma que: “A proibição constitucional da pena de caráter perpétuo restringe apenas o legislador interno brasileiro. Não constrange nem legisladores estrangeiros, nem aqueles que labutam na edificação do sistema jurídico internacional”.

Ainda, Steiner259 prossegue que:

254

BARROS, Humberto Gomes de. Alienação de soberania. Jornal do Brasil. Rio de Janeiro, 29 maio 2002. Disponível em: <http://jbonline.terra.com.br >. Acesso em: 26 out. 2009.

255

PIOVESAN, Flávia. Direitos humanos e o direito constitucional.p. 83.

256

PIOVESAN, Flávia. Princípio da complementaridade e soberania. Disponível em: <http://www2.cjf.jus.br/ojs2/index.php/cej/index>. Acesso em: 26 out. 2009.

257

STEINER, Sylvia Helena Figueiredo. O Tribunal Penal Internacional, a Pena de Prisão Perpétua e a Constituição Brasileira. p. 453.

258

MEDEIROS, Antônio Paulo Cachapuz de. O tribunal penal internacional e a constituição brasileira. Disponível em: < http://www.dhnet.org.br/dados/cartilhas/dh/tpi/cartilha_tpi.htm.>. Acesso em: 25 out. 2009.

259

STEINER, Sylvia Helena Figueiredo. O Tribunal Penal Internacional, a Pena de Prisão Perpétua e a Constituição Brasileira. p. 454.

As normas de direito penal da Constituição regulam o sistema punitivo interno. Dão a exata medida do que o constituinte vê como justa retribuição. Não se projetam, assim, para outros sistemas penais aos quais o país se vincule por força de compromissos internacionais.

Medeiros260 registra estar convencido da compatibilidade em virtude de que:

[...] sustenta que a colisão entre o Estatuto de Roma e a Constituição da República, no que diz respeito à pena de prisão perpétua, é aparente, não só porque aquele visa a reforçar o princípio da dignidade da pessoa humana, mas porque a proibição prescrita pela Lei Maior é dirigida ao legislador interno para os crimes reprimidos pela ordem jurídica pátria, e não aos crimes contra o Direito das Gentes, reprimidos por jurisdição internacional.

Tem-se, ainda, como argumento, no sentido que o próprio texto constitucional, no mesmo rol de direitos e garantias dispostos no seu art. 5º, traz a previsão da exceção da pena de morte para os crimes militares cometidos em tempo de guerra, nos moldes do inciso XLVII, a. Logo, a legislação pátria, no dispositivo constitucional, prevê pena muito mais severa do que a trazida pelo Estatuto de Roma para algumas figuras típicas análogas261.

Ainda, nesse posicionamento, o autor Mazzuoli262 dispõe que o art. 7º do Ato das Disposições Constitucionais Transitórias já registra que o Brasil “propugnará pela formação de um tribunal internacional dos direitos humanos”, indicando que a incompatibilidade entre as disposições do Estatuto do TPI e a Constituição brasileira é ilusória, seja pela razão de que a existência de um tribunal internacional de direitos humanos assegura o princípio da dignidade da pessoa humana, mas também pelo fato de o texto constitucional brasileiro ser dirigido, como já dito, ao legislador pátrio, não atingindo os crimes cometidos contra o Direito Internacional e sancionados pela jurisdição do TPI.

Segundo Mazzuoli263:

[...] não obstante a vedação das penas de caráter perpétuo ser uma tradição constitucional entre nós, o Estatuto de Roma de forma alguma afronta a nossa constituição, mas ao contrário, contribui para coibir os abusos e as inúmeras violações de direitos que se fazem presentes no planeta, princípio esse que sustenta corretamente a tese de que a dignidade da sociedade internacional não pode ficar à margem do universo das regras jurídicas.

260

MEDEIROS, Antônio Paulo Cachapuz de. O tribunal penal internacional e a constituição brasileira.

261

STEINER, Sylvia Helena Figueiredo. O Tribunal Penal Internacional, a Pena de Prisão Perpétua e a Constituição Brasileira. p. 456.

262

MAZZUOLI, Valério de Oliveira. O Tribunal Penal Internacional e o direito brasileiro. p.73.

263

Por sua vez, Ramos264 sustenta que o Estatuto de Roma constitui norma de proteção aos direitos humanos e destaca a primazia dos direitos humanos na Constituição de 1988, afirmando que a compatibilização entre o Estatuto do TPI e a Constituição brasileira poderá ser encontrada mediante aceitação da compatibilidade entre as normas constitucionais e a normatividade internacional de proteção aos direitos humanos como presunção absoluta.

Enfatiza, ainda, o autor que a solução está em:

[...] uma interpretação da Constituição conforme os tratados de direitos humanos nos casos de conflito aparente entre as normas de tratados e as normas constitucionais. Este tipo de interpretação, longe de ser contrária à soberania do Estado-nação, cumpre os desígnios estabelecidos pelo próprio legislador constituinte pátrio, que estabeleceu uma Constituição cujo espírito é a promoção dos direitos humanos.

Tecidas essas considerações e colhidos os posicionamentos doutrinários a envolver a incompatibilidade e a ilegalidade da pena de prisão perpétua no TPI face à Constituição brasileira, passemos, pois, às conclusões.

264

RAMOS, André de Carvalho. O estatuto do tribunal penal internacional e a constituição brasileira. In: CHOUKR, Fauzi Hasan; AMBOS, Kai (Org.). Tribunal Penal Internacional. São Paulo: Revista dos Tribunais, 2000, p.266.

5 CONCLUSÃO

A instituição do Tribunal Penal Internacional é um grande marco na sociedade, no sentido de apurar e punir os mais graves crimes praticados contra a humanidade e que podiam ficar impunes, configurando um amplo avanço em relação à proteção dos direitos humanos. Sua função é muito importante para o futuro da humanidade, pois objetiva punir e retirar do convívio social os responsáveis pela prática dos mais bárbaros crimes, não se admitindo seu esquecimento. Vale também para que não se repita o que aconteceu no século XX, caracterizado por grandes violações aos direitos humanos, como guerras e ditaduras.

O Estatuto de Roma, advindo de um tratado multilateral, respeita o princípio da legalidade e da complementaridade, bem como estabelece um devido processo legal, revestido de respeito e apto a fazer com que o Tribunal Penal Internacional supere as críticas impostas aos seus Tribunais antecessores, já que está preceituado de constituição prévia e de tipificação dos comportamentos, bem como se constitui com a participação de vários países em sua Corte.

Trazendo proteção às vítimas e testemunhas e exercendo seu papel de sancionador de condutas que atentam a humanidade, o TPI mostra sua natureza de norma de direitos humanos.

O Brasil registra expressamente a proteção à pessoa humana como pilar da sua Constituição, pautando- se na prevalência dos direitos humanos. E, ainda, nosso país é uma nação favorável e que propugna a formação de um tribunal internacional dos direitos humanos, como estabelece o art. 7º do Ato das Disposições Constitucionais Transitórias do Brasil.

Desse modo, a Constituição brasileira, ao escolher os direitos humanos como princípio fundamental a reger o Estado brasileiro, tanto nas relações internas quanto nas internacionais, procura promover a cooperação internacional. Mas, o mais importante, procura, acima de tudo, garantir a proteção da pessoa humana, da mesma forma que o Tribunal Penal Internacional também o faz.

Não resta dúvida que o maior interesse da humanidade hoje, onde o indivíduo se sente constantemente ameaçado, é que os autores das mais graves condutas que atingem a coletividade sejam exemplarmente punidos.

É nesse sentido que o Tribunal Penal Internacional inaugura um novo sistema de justiça penal, que tentará buscar a construção da paz e o fortalecimento da dignidade humana. Na elaboração desta monografia, a metodologia empregada foi a da pesquisa teórica, baseada em pesquisa bibliográfica, tendo como método de abordagem o dedutivo, que parte do geral e desce ao particular, fazendo, para tanto, uso da doutrina, de tratados, leis, artigos e sites oficiais da Internet.

REFERÊNCIAS

AMBOS, Kai; DE CARVALHO, Salo (Org.) O direito penal no estatuto de Roma: leituras sobre os fundamentos e a aplicabilidade do tribunal penal internacional. Rio de Janeiro: Lúmen Júris, 2005.

AMBOS, Kai. Impunidade por violação dos direitos humanos e o direito penal

internacional. Revista Brasileira de Ciências Criminais. São Paulo. v.12. n.49. julho/agosto, 2004.

BARRAL, Welber. Tribunais internacionais: mecanismos contemporâneos de solução de controvérsias. Florianópolis: Fundação Boiteux, 2004.

BARROS, Humberto Gomes de. Alienação de soberania. Jornal do Brasil. Rio de Janeiro, 29 maio 2002. Disponível em: <http://jbonline.terra.com.br >. Acesso em: 26 out. 2009.

BECCARIA, Cesare. Dos delitos e das penas. 11. ed. Curitiba: Hemus, 2000.