CAPÍTULO II – – DOS ALIMENTOS E DOS ALIMENTOS
2.3. Indícios de paternidade
O artigo 6º da Lei de Alimentos Gravídicos estabelece que havendo indícios de
paternidade, o juiz fixará alimentos gravídicos e, após o nascimento com vida, os alimentos
ficam convertidos em pensão alimentícia em favor do infante:
Art. 6o Convencido da existência de indícios da paternidade, o juiz fixará alimentos gravídicos que perdurarão até o nascimento da criança, sopesando as necessidades da parte autora e as possibilidades da parte ré.
Parágrafo único. Após o nascimento com vida, os alimentos gravídicos ficam convertidos em pensão alimentícia em favor do menor até que uma das partes solicite a sua revisão.78
Assim, percebe-se que não é necessária a comprovação da paternidade, bastando para
a fixação dos alimentos apenas indícios, vez que não é recomendável a realização do exame
de DNA durante o período gestacional, por ser este um procedimento de risco para a vida do
nascituro.
Neste diapasão, Maria Berenice Dias esclarece que é inviável a exigência da
realização do exame de DNA, por ser custoso e por colocar em risco a vida da criança:
Não há como impor a realização de exame por meio da coleta de líquido amniótico, o que pode colocar em risco a vida da criança. Isto tudo sem contar com o custo do exame, que pelo jeito terá que ser suportado pela gestante. Não há justificativa para atribuir ao Estado este ônus. E, se depender do Sistema Único de Saúde, certamente o filho nascerá antes do resultado do exame. 79
Seguindo o posicionamento de Maria Berenice Dias, Ana Maria Gonçalves Louzada
77 GAGLIANO, Pablo Stolze; FILHO, Rodolfo Pamplona. Manual de direito civil; volume único – São Paulo : Saraiva, 2017, pág. 47.
78 BRASIL, Lei nº 11.804/2008. Disponível em: <http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2007- 2010/2008/lei/l11804.htm>. Acesso em: 30 de setembro de 2019.
79 DIAS, Maria Berenice. Pensão para grávidas: legislador foi impreciso e equivocado. Disponível em: <https://www.conjur.com.br/2008-jul-27/pensao_gravidas_legislador_foi_impreciso_equivocado>. Acesso em: 01 de outubro de 2019.
também entende que não é necessária a presença de fortes de indícios de paternidade para a
fixação dos alimentos:
Mas e se a genitora não tiver essas provas, se foi um encontro eventual, poderá o magistrado, apenas com um laudo atestando a gravidez, fixar alimentos? Entendo que sim, uma vez que a experiência forense tem nos mostrado que na imensa maioria dos casos, em quase sua totalidade, as ações investigatórias de paternidade são julgadas procedentes, não se mostrando temerária, a fixação dos alimentos gravídicos sem provas (até porque a lei não exige). Elege-se a proteção da vida em detrimento do patrimônio.80
Desta forma, a gestante deverá juntar à petição inicial elementos que evidenciam que o
réu é o pai do nascituro e que suas alegações são verídicas.
Arnaldo Rizzardo aponta que “são elementos de prova documentos que evidenciam a
convivência, como fotos, endereços comuns, aquisições, e-mails, pagamentos de despesas,
declarações de pessoas sobre a relação de convívio ou namoro.”
81Seguindo os entendimentos anteriores, Douglas Phillips Freitas explicita que cabe a
parte autora apresentar alguma prova de seu relacionamento com o réu, ao passo que a sua
não apresentação por si só não pode ser argumento para a negativa de tutela:
Não há como esperar, em falando do atual sistema dos Alimentos Gravídicos num conjunto probatório de maior complexidade. Salvo as presunções de paternidade que basicamente dispensam qualquer outra prova, deve a parte autora trazer alguma prova de seu relacionamento, mas, deve também, o magistrado, entender que prova de relacionamentos, principalmente os mais efêmeros é de difícil produção, e, sua não apresentação por si só não pode ser motivo de negativa de tutela.82
Sobre o assunto em análise, Rolf Madaleno assegura que:
O juiz deve se ater a indícios fortes, capazes de levá-lo à presunção da paternidade, como ocorre com fotografias, escritos públicos e particulares, bilhetes, prova testemunhal, declarações e depoimentos, sendo presumida a paternidade no caso de a gestante ser casada com o réu e em todas as demais hipóteses ventiladas no artigo 1.597 do Código Civil, mesmo quando rompida a sociedade conjugal e nas situações de inseminação artificial homóloga ou heteróloga, existindo prévia autorização do marido. É ônus da mulher grávida colacionar os indícios que apontem para a alegada paternidade, diante da impossibilidade de ser exigida prova negativa por parte do indigitado pai. Também foi vetada a realização do exame em DNA durante a gestação, diante do risco imposto ao feto com a retirada de material genético.83
Ao explicar o parágrafo único do artigo 6º da Lei de Alimentos Gravídicos, Maria
80 LOUZADA, Ana Mª Gonçalves. Alimentos gravídicos e a nova execução de alimentos, in BASTOS, Eliene Ferreira; LUZ, Antônio Fernandes da (coords.) Família e Jurisdição III. Belo Horizonte: Del Rey, 2010, pág. 40. 81 RIZZARDO, Arnaldo. Direito de Família: Lei nº 10.406, de 10.01.2002. 7ª ed. Rio de Janeiro: Forense, 2009, pág. 776.82 FREITAS, Douglas Phillips. Alimentos Gravídicos – Comentários à Lei 11.804 de 5 de novembro de 2008. 1ª ed. Porto Alegre: Voxlegem, 2009, pág. 93.
Berenice Dias afirma que nada impede o juiz de estabelecer um valor direcionado à gestante
durante a gravidez e fixar alimentos à criança após o seu nascimento:
Quando do nascimento, os alimentos mudam de natureza, se convertem em favor do filho, apesar do encargo decorrente do poder familiar ter parâmetro diverso, pois deve garantir ao credor o direito de desfrutar da mesma condição social do devedor. De qualquer forma, nada impede que o juiz estabeleça um valor para a gestante, até o nascimento e atendendo ao critério da proporcionalidade, fixe alimentos para o filho, a partir do seu nascimento.84
Igualmente, Rolf Madaleno aclara que:
Isso porque os alimentos gravídicos, de regra, não devem levar em consideração no período gestacional a condição social do alimentante. Contudo, nada obsta que estes alimentos possam ser revisados depois do nascimento, agora sim, também considerando o padrão social, econômico e financeiro do alimentante, desde que haja iniciativa processual para a revisão dos alimentos que deixam de ser gravídicos com o nascimento do credor e se convertem em pensão alimentícia e esta é associada à condição social do alimentante.85
Sobre a possibilidade da fixação dos alimentos gravídicos com base na existência de
indícios de paternidade já decidiu o Egrégio Tribunal de Justiça de Minas Gerais:
EMENTA: AGRAVO DE INSTRUMENTO - DIREITO DE FAMÍLIA - ALIMENTOS GRAVÍDICOS - FIXAÇÃO - TRINÔMIO NECESSIDADE
POSSIBILIDADE- RAZOABILIDADE.
-Com o advento da Lei nº 11.804/2008, especificamente das disposições contidas em seu artigo 6º, para a concessão de alimentos gravídicos, basta a existência de indícios da paternidade, indícios esses que foram demonstrados no caso em análise.
- Mesmo com base apenas nos elementos superficiais e iniciais que formam o instrumento probatório dos autos, os alimentos devem ser fixados na proporção das necessidades do alimentado e dos recursos da pessoa obrigada, nos termos do §1º do artigo 1.694 do Código Civil. (TJMG - Agravo de Instrumento-Cv 1.0390.17.002956-0/001, Relator(a): Des.(a) Dárcio Lopardi Mendes , 4ª CÂMARA CÍVEL, julgamento em 09/11/0017, publicação da súmula em 14/11/2017)86 (grifei)
EMENTA: AÇÃO DE ALIMENTOS GRAVÍDICOS - INDÍCIOS RELEVANTES DA PATERNIDADE - CABIMENTO - VALOR - FIXAÇÃO - CRITÉRIOS - BINÔMIO 'NECESSIDADE-POSSIBILIDADE' - DISTRIBUIÇÃO DO ÔNUS DA PROVA. JUSTIÇA GRATUITA - DEFERIMENTO - RECURSO
PARCIALMENTE PROVIDO.
- Presentes indícios relevantes da paternidade, são devidos alimentos gravídicos a perdurar até o nascimento da criança, após o que a obrigação fica convertida em pensão alimentícia em favor do menor, até que uma das partes solicite a sua revisão.
84 DIAS, Maria Berenice. Pensão para grávidas: legislador foi impreciso e equivocado. Disponível em: <https://www.conjur.com.br/2008-jul-27/pensao_gravidas_legislador_foi_impreciso_equivocado>. Acesso em: 01 de outubro de 2019.
85 MADALENO, Rolf. Curso de Direito de Família. 4ª ed. Rio de Janeiro: Forense, 2011, pág. 883.
86MINAS GERIAS, Tribunal de Justiça de Minas Gerais - TJMG - Agravo de Instrumento-Cv
1.0390.17.002956-0/001. Disponível em: <
https://www5.tjmg.jus.br/jurisprudencia/ementaSemFormatacao.do?procAno=12&procCodigo=1&procCodigoO rigem=24&procNumero=333782&procSequencial=1&procSeqAcordao=0>. Acesso em: 01 de outubro de 2019.
- O parágrafo 1º, do artigo 1.694, do Código Civil de 2002, estabelece que os alimentos devem ser fixados na proporção das necessidades da reclamante e dos recursos da pessoa obrigada, ficando ao prudente critério do juiz arbitrar o valor da pensão alimentícia, atendidas as circunstâncias do caso concreto. Em se tratando de alimentos gravídicos, os mesmo critérios se impõem: a necessidade da gestante e a possibilidade do alimentante - suposto pai -, conforme previsto no artigo 2º da Lei 11.804/08.
- "Vem se consolidando o entendimento de que, em demandas alimentárias, se inverte a divisão tarifada dos encargos probatórios (CPC 333). Ao autor cabe tão-só comprovar a obrigação do réu de prestar-lhe alimentos. É o que diz a lei (LA 2º): o credor exporá suas necessidades, provando, apenas, o parentesco ou a obrigação de alimentar do devedor. Não há como impor ao alimentando a prova dos ganhos do réu, pessoa com quem não vive, muitas vezes, nem convive, o que torna quase impossível o acesso às informações sobre seus rendimentos." (Maria Berenice Dias) - É de se deferir a gratuidade de justiça à parte que afirma não ter condições de pagar as custas do processo e os honorários de advogado sem prejuízo próprio ou de sua família, na hipótese em que não houver fundadas razões para se suspeitar da sua capacidade financeira, e, mais ainda, quando não lhe houver sido oportunizado fazer contraprova, no intuito de confirmar o seu estado de hipossuficiência. - Recurso parcialmente provido. (TJMG - Apelação Cível 1.0431.13.004960- 1/001, Relator(a): Des.(a) Eduardo Andrade , 1ª CÂMARA CÍVEL, julgamento em 27/01/2015, publicação da súmula em 04/02/2015)87 (grifei)
EMENTA: AGRAVO DE INSTRUMENTO - DIREITO DE FAMÍLIA - ALIMENTOS GRAVÍDICOS - ART. 6º DA LEI Nº 11.804/2008 - COMPROVAÇÃO - FIXAÇÃO - BINÔMIO NECESSIDADE/POSSIBILIDADE. - Com o advento da Lei nº 11.804/2008, especificamente das disposições contidas em seu artigo 6º, para a concessão de alimentos gravídicos, basta a existência de indícios da paternidade, indícios esses que foram comprovados no
caso em análise.
- Mesmo com base apenas nos elementos superficiais e iniciais que formam o instrumento probatório dos autos, os alimentos devem ser fixados na proporção das necessidades do reclamante e dos recursos da pessoa obrigada, nos termos do §1º do art. 1.694 do Código Civil. (TJMG - Agravo de Instrumento-Cv 1.0024.12.333782-6/001, Relator(a): Des.(a) Dárcio Lopardi Mendes , 4ª CÂMARA CÍVEL, julgamento em 14/03/2013, publicação da súmula em 19/03/2013)88 (grifei)
Ante ao exposto, conclui-se que havendo meros indícios de paternidade o juiz deverá
fixar os alimentos gravídicos a favor da gestante solicitante, visando salutar as necessidades e
as despesas da gravidez, a fim de garantir que o nascituro nasça com vida e com saúde.
87MINAS GERIAS, Tribunal de Justiça de Minas Gerais - TJMG - Apelação Cível 1.0431.13.004960-
1/001. Disponível em:
<https://www5.tjmg.jus.br/jurisprudencia/ementaSemFormatacao.do?procAno=13&procCodigo=1&procCodigo Origem=431&procNumero=4960&procSequencial=1&procSeqAcordao=0>. Acesso em: 01 de outubro de 2019. 88MINAS GERIAS. Tribunal de Justiça de Minas Gerais - TJMG - Agravo de Instrumento-Cv
1.0024.12.333782-6/001. Disponível em: <
https://www5.tjmg.jus.br/jurisprudencia/ementaSemFormatacao.do?procAno=12&procCodigo=1&procCodigoO rigem=24&procNumero=333782&procSequencial=1&procSeqAcordao=0>. Acesso em: 01 de outubro de 2019.