No contexto da economia regional da Sicília, a pesca e a aquicultura representam 0,58% da economia total3, contra 0,17% nas outras regiões italianas do objectivo de convergência (Basilicata, Calábria, Campânia e Puglia) e 0,08% nas regiões italianas não abrangidas pelo objectivo de convergência da UE (MIPAF, 2007; Santulli et Modica, 2009).
O mercado siciliano do pescado e dos produtos da pesca abarca uma multiplicidade de empresas de produção e de distribuição, incluindo empresas de pesca, unidades de transformação, distribuidores e grossistas. Esta fragmentação está a obrigar as empresas a constituir grupos (distritos de pesca) para realizarem economias de escala e conseguirem uma posição mais forte no mercado mundial, criando uma marca e uma imagem fortes, imediatamente reconhecíveis pelos consumidores.
Recentemente, verificou-se uma significativa mudança no mercado, com a valorização de produtos da pesca de “elevado valor acrescentado”, prontos a comer ou vendidos como especialidades gastronómicas. Acresce que se prevê um considerável aumento dos produtos de pescado transformado, como filetes e outras apresentações, num mercado tradicionalmente dominado pelo consumo do pescado “inteiro”.
Observa-se igualmente uma tendência para o aumento do consumo global de produtos da pesca, devido à recente valorização de uma dieta mais saudável e à crescente procura de uma série de produtos (refeições cozinhadas ou parcialmente pré-cozinhadas e saladas de pescado enlatadas) adaptados às novas tendências em matéria de estilo de vida (mais mulheres empregadas, horários de refeições menos regulares, etc., Sprint Sicily4);
Em 2006, o consumo interno de produtos da pesca cifrou-se em Itália em 455 600 toneladas (um consumo médio anual de 20,9 kg por família), com um consumo regional mais elevado no sul do país (37,5%), onde o consumo médio anual foi de 26,3 kg por família. O Sul da Itália caracteriza-se por um elevado consumo de produtos frescos e descongelados não transformados (58,7% do total dos produtos da pesca consumidos na região, o valor mais elevado de todas as regiões de Itália) e por um baixo consumo de produtos conservados e semiconservados (16,1%, a mais baixa percentagem de Itália; ISMEA, 2007).
Não obstante, em termos de transformação, as actividades de conservação são predominantes no sul de Itália. Apesar de uma quebra de 10% na sua actividade, a Sicília tem o maior número de empresas deste ramo (32%) e o maior número de empregos neste sector (27%). No entanto, as empresas sicilianas são mais pequenas do que as suas homólogas de outras regiões (14 empregados em média; Iborra Martin, 2008).
A Sicília é uma das poucas regiões italianas em que o sector das pescas tem uma balança comercial positiva e com um grande potencial ainda não plenamente realizado (Quadro 7, Figura 2). A título de comparação, o défice comercial global do sector em Itália tem vindo a aumentar desde 1995, tendo atingido 3 124 milhões de euros em 2006 (ISMEA, 2007).
3 Tendo em conta o facto de que o produto interno bruto (PIB) por habitante da Sicília é inferior a 75% do valor médio da UE, a Sicília é considerada elegível pela UE para financiamento ao abrigo do objectivo de convergência. Este apoio económico incide também no sector das pescas e da aquicultura.
Quadro 7: Valores do comércio no sector das pesca na Sicília (em milhões de euros) 1998 1999 2000 2001 2002 2003 2004 2005 2006 EXPORTA-ÇÕES 15 579 18 068 21 199 25 286 22 615 14 172 16 293 22 508 22 036 IMPORTA-ÇÕES 15 183 16 796 17 481 22 201 26 062 38 845 18 057 15 220 21 249 SALDO 396 1 272 3 718 3 085 -3 447 -24 673 -1 764 7 288 787 Fonte: www.internationalsicily.com
Figura 2: Evolução da balança comercial no sector das pescas na Sicília
-30000 -20000 -10000 0 10000 20000 30000 40000 50000 1998 1999 2000 2001 2002 2003 2004 2005 2006 EXPORT IMPORT BALANCE EXPORTAÇÕES IMPORTAÇÕES SALDO Fonte: www.internationalsicily.com
Desde 2004, o principal destino de exportação para os produtos da pesca sicilianos é o Japão, que tende a assumir uma importância crescente e que, em 2006, absorveu 53% das exportações (Figura 3). Espanha é o segundo maior destino com 26% – embora a sua importância esteja a diminuir após um máximo absoluto de mais de 70% em 2001, seguida da Grécia (11%) e de França (8%).
A maior parte das importações de produtos da pesca da Sicília é proveniente da União Europeia, nomeadamente de Espanha (37%) e de França (28%), mas também da Grécia (Figura 4). Os dados relativos a 2006 revelam um significativo aumento das importações provenientes de países africanos, como a Tunísia, o Senegal e o Gana.
Figura 3: Tendências nas exportações de produtos do sector das pescas na Sicília Japão 53% Espanha 26% Grécia 11% França 8% Fonte: www.internationalsicily.com
Figura 4: Tendências nas importações de produtos do sector das pescas na Sicília
-{}-Tunísia 14% Espanha 37%
França 28%
A Sicília é a região italiana que assegura mais postos de trabalho associados ao sector das pescas, com 26% dos marítimos e 18% de todas as pessoas empregadas no sector da pesca. Globalmente, o sector da pesca emprega 18 135 pessoas, das quais 10 535 trabalham directamente na pesca marítima e 217 na aquicultura (Figura 5). Existem ainda 105 unidades de transformação na Sicília, que empregam um total de 1 424 trabalhadores (em equivalente tempo inteiro). As actividades conexas (comercialização, serviços portuários e outras) empregam aproximadamente 6 000 (Sprint Sicily).
Figura 5: Emprego na pesca e na aquicultura na Sicília
Pesca marítima Transformação Aquicultura Actividades conexas Fonte: www.internationalsicily.com 33% 1% 8% 58% Sea fishing Processing Fish farming Connected activities
7. AQUICULTURA
Na Sicília, a aquicultura representa cerca de 20% da produção total de Itália, com cerca de 4 000 toneladas anuais (IREPA, 2008; MIPAF, 2007), quase exclusivamente de robalos e douradas, numa proporção média de 54% para 46%5 . São igualmente produzidas quantidades pequenas e variáveis de outras espécies marinhas, como o sargo-bicudo (Diplodus puntazzo), o pargo legítimo (Sparus pagrus), o capatão legítimo (Dentex dentex), o charuteiro-catarino (Seriola dumerili), a corvina legítima (Argyrosomus regius) e o atum rabilho (Thunnus thynnus). A cultura comercial de crustáceos e moluscos está limitada a pequenas explorações de mexilhão nas províncias de Palermo, Messina e Siracusa (Prioli, 2008; ARTA, 2008); contudo, tratar-se-á, na sua maior parte, de estações de depuração de moluscos bivalves. O Centro Piloto Regional para a Aquicultura do Assessorato Agricoltura e
Foreste da Região da Sicília coordena a investigação, o desenvolvimento e a produção a
uma escala piloto da aquicultura de água doce. Esta produção é composta por pequenas quantidades de truta autóctone da Sicília (Salmo cettii) (Schöffmann et al., 2007), truta arco-íris (Oncorhynchus mykiss), espécies eurialinas (Morone spp.) em jaulas no mar e lagostim do rio (Cherax spp.) (ARTA, 2008; Milão, 2008). Prevê-se que este sector conheça um rápido crescimento nos próximos anos, dado o elevado número de reservas de água doce da região.
A aquicultura siciliana começou no final da década de 1970 em Marsala (Trapani), onde foram introduzidas as tecnologias de produção de juvenis de robalo e de dourada. Esta zona tem uma longa tradição de cultura de peixes, sendo as salinas de Trapani utilizadas desde há séculos para a cultura de espécies piscícolas marinhas, tanto nos canais que conduzem ao mar como nos “depósitos frios” utilizados para as fases iniciais da produção de sal. As salinas ocupam 1 400 ha na costa ocidental da Sicília, entre Trapani e Marsala. Estes ambientes, criados pelo trabalho do Homem, caracterizam-se por peculiaridades significativas, do ponto de vista ecológico, cultural e etno-antropológico, e estão protegidos por duas reservas naturais regionais. Para além da produção de sal, nas primeiras bacias de armazenagem das salinas, onde a salinidade atinge valores máximos de 60‰, são agora cultivados, em regime de produção extensiva, robalos e douradas auto-recrutados (Santulli, 2007; Santulli e Messina, 2008). O rendimento da superfície de 350 ha das bacias de armazenagem é muito baixo (de 50 a 90 t), mas tem um elevado valor económico (18-22 euros/kg) (Santulli, 2007).
Após esta primeira e pioneira fase, nas décadas de 1980 e 1990, estiveram activas nesta zona três explorações interiores, dotadas de estações de produção de juvenis. Após a crise dos preços, todas estas explorações aquícolas foram encerradas e a aquicultura interior quase desapareceu da província de Trapani.
Presentemente, estão activas duas explorações piscícolas, com uma produção anual de 600/650 t (Quadro 8):
uma exploração piscícola instalada nas bacias de uma salina abandonada na proximidade da lagoa de Stagnone (Marsala). Esta exploração dedica-se à produção intensiva e semi-intensiva de robalo, dourada e outras espécies piscícolas, que comercializa directamente na exploração ou no mercado da restauração local;
na província de Siracusa encontra-se uma segunda exploração piscícola. Esta exploração pertence à maior exploração piscícola siciliana e também dispõe de uma unidade de produção de juvenis e de jaulas flutuantes.
Quadro 8. Explorações aquícolas interiores na Sicília em 2008
Província Município Superfície
ha Espécies
Trapani Marsala 65 Robalo, dourada, sargo-bicudo, crustáceos e moluscos
Siracusa Pachino 10 Robalo, dourada, corvina legítima e sargo-bicudo
Fonte: Santulli and Modica (2009)
Após a crise da aquicultura interior na província de Trapani, o eixo da aquicultura na Sicília deslocou-se para o litoral e para a zona ocidental da ilha. Em 2008, estavam activas na Sicília doze explorações aquícolas (ARTA, 2008; Modica et al., 2008 (Quadro 9), que utilizavam diferentes tipos de jaulas flutuantes. Algumas explorações, localizadas numa zona abrigada, utilizam o sistema mais simples de jaulas flutuantes, representado por panos de rede suspensos em círculos flutuantes de plástico; outras, localizadas em zonas mais expostas, dispõem de jaulas flexíveis semi-submersíveis e submersíveis, ou das mais onerosas e mais complexas jaulas rígidas submersíveis como a Farmocean (Modica et al., 2008).
Quadro 9. Explorações aquícolas com gaiolas flutuantes na Sicília em 2008
Província Município Superfície
m2 Espécies
Número de jaulas
Agrigento Lampedusa 7 225 Robalo, dourada 4
Licata 11 206 Robalo, dourada 9
Licata 21 000 Robalo, dourada, sargo-bicudo, pargo
legítimo
17
Siracusa Pachino 249 18 Robalo, dourada, corvina legítima, sargo-bicudo
12
Augusta 250 000 Robalo, dourada 10
Messina Messina 12 000 Robalo, dourada 6
Gioiosa Marea 20 000 Robalo, dourada 6
Lipari 3 000 Robalo, dourada, sargo-bicudo
7
Venetico 10 000 Robalo, dourada, sargo-bicudo
6
Patti 20 000 Robalo, dourada, sargo-bicudo
10
Villafranca Tirr. 150 000 Robalo, dourada, sargo-bicudo
8
Palermo Trappeto 1 500 000 Robalo, dourada, sargo-bicudo, pargo
legítimo
14
Na Região da Sicília, é possível reconhecer duas grandes classes de explorações piscícolas: a primeira é representada por exploração de média e grande dimensão, consolidadas do ponto de vista económico e tecnológico, com uma produção elevada e estável de pescado de alta qualidade; a segunda é composta por pequenas explorações e caracteriza-se por investimentos reduzidos, uma produção limitada e, de um modo geral, dificuldades económicas. Esta situação pode explicar a grande oscilação no número de explorações que tem caracterizado o sector da aquicultura regional (Modica et al., 2008).
Também na Sicília, as cadeias de supermercados são a força dominante da produção da aquicultura (Modica et al., 2008), sendo este mercado acessível apenas às maiores explorações. Só estas conseguem satisfazer as exigências das grandes superfícies em termos de constância do tamanho, qualidade e disponibilidade do pescado produzido. Os produtores sicilianos estão a começar a negociar com organizações de dimensão muito superior às da sua região, nomeadamente através da cooperação entre os produtores. Noutros mercados europeus, as cadeias de retalhistas que vendem diversos produtos dominam cada vez mais o mercado retalhista e o mercado dos peixeiros que comercializam o pescado nos mercados tradicionais perde terreno. Na Sicília, a maior parte da produção das explorações mais pequenas é comercializada no mercado local pelos canais tradicionais (retalhistas especializados, peixeiros nos mercados e grossistas), que tiram partido da preferência expressa dos consumidores pelos produtos locais em relação aos produtos importados.
O mercado da restauração assume particular importância na Sicília. Todavia, a crescente procura parece ser satisfeita por pescado miúdo produzido localmente ou por pescado importado relativamente barato. As importações não ostentam, normalmente, qualquer marca e a sua qualidade é, ao que se sabe, muito variável, devido aos longos períodos de transporte e à manipulação a que os produtos são sujeitos após a captura. Esta situação incentiva os esforços envidados por algumas explorações sicilianas no sentido de melhorar a imagem dos produtos locais através de programas de garantia da qualidade. Os aquicultores sicilianos estão empenhados em tornar o pescado obtido por aquicultura na região facilmente identificável, através da marcação individual dos peixes com a indicação do local de origem e da marca da exploração, pois sabem que, num contexto de intensa competição, a identificação de um produto com uma marca pode ser uma estratégia vencedora (Monfort, 2006).
A procura regional de juvenis de robalo e de dourada é satisfeita por duas estações de produção de juvenis (Quadro 10). As duas estações de produção de juvenis sicilianas exportam mais de 10 000 000 de juvenis por ano. Além disso, participam em programas de investigação com vista a desenvolver a tecnologia de reprodução para novas espécies autóctones. O charuteiro-catarino constitui um dos principais objectivos, dadas as suas características biológicas e comerciais particularmente favoráveis.
Quadro 10. Estações de produção de juvenis de espécies eurialinas na Sicília em 2008
Província Município Número de juvenis
Siracusa Pachino 16/18 000 000 Agrigento Lampedusa 7/9 000 000
Fonte: Santulli and Modica (2009)
Em 2001, iniciou as suas actividades no golfo de Castellammare, Trapani (Quadro 11), a primeira exploração com jaulas flutuantes dedicada à engorda de atum rabilho em Itália,
seguida, dois anos mais tarde, da exploração de San Pier Niceto, Messina. A engorda do atum rabilho é uma tecnologia de aquicultura especial, que se desenvolveu rapidamente no Mediterrâneo em resposta à elevada procura do rico mercado japonês, que exige atum de alta qualidade, com um elevado teor de gordura, para sushi e sashimi. O atum com qualidade para sashimi representa apenas 30% das capturas, pelo que o período de engorda nas jaulas satisfaz as exigências do mercado japonês, mesmo no período em que o atum selvagem está mais magro, garantindo uma produção estável e consistente em períodos mais favoráveis (Messina, 2009). Esta tecnologia não pode, contudo, ser considerada “cultura”, dado que os peixes não são gerados nem criados em cativeiro (Ottolenghi, 2008; Messina, 2009).
Quadro 11. Explorações de engorda de atum na Sicília em 2008
Província Município Superfície m2 Número de jaulas Situação
Trapani Castellammare del Golfo
122 500 6 Activa
Messina San Pier Niceto 480 000 10 Activa