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Indústria local e administração territorial

5. A indústria nos debates parlamentares em torno da cortiça

5.1 Indústria local e administração territorial

A 12 de Junho de 1862, o deputado Joaquim Mendes Neutel290 faz referência a uma representação da paróquia da freguesia de Sines, pedindo para que fosse restituído o concelho administrativo outrora nela sediado. Este fora extinto pelo decreto de Lei de 25 de Outubro de 1855291 e desde esta data passaria a integrar o concelho de Santiago do Cacém292.

285 Concelho de Silves. 286 1 no Barreiro, 1 em Setúbal. 287 Concelho de Silves. 288

1 em Santiago do Cacém, e 1 em Setúbal.

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Concelho de Santiago do Cacém.

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Joaquim Mendes Neutel (1796-1886). Bacharel em Matemática pela Universidade de Coimbra. Fez carreira militar. Primeira vez eleito deputado por Faro em 1838. A parte final da sua carreira política ficou conotada ao Partido Histórico (Mónica, ob. cit., vol. III, pp. 47-49).

291 “Sines que foi elevada á categoria de concelho em 1552 por el-rei o sr. D. Manuel, quando não tinha

metade da população que tem hoje (...)” (Sessão de 12 de Junho de 1862, p. 1639). Em 1855 viria a perder a denominação de sede concelhia, sendo inserida a freguesia no concelho de Santiago do Cacém.

144 Estava aquela população ferida no orgulho, achando que a sua terra tinha condições e capacidade para voltar a ser sede concelhia. Para tentar convencer a Câmara de que assim deveria de ser são apresentados pelo orador vários factores de ordem económico-social, dos quais destaca o crescimento populacional e a existência de um porto comercial onde se situava uma “alfândega menor”293

que dinamizava financeiramente toda aquela região. Segundo Joaquim Neutel, os principais produtos ali comercializados eram peixe, cujo comércio era efectuado através de uma “armação de pesca” existente para o efeito (Sessão de 12 de Junho de 1862, p. 1639). Mas também a cortiça, com a qual saíam mais de 60 navios carregados anualmente de um total de 314 (Sessão de 19 de Janeiro de 1864, p. 172), servindo ainda para alimentar duas unidades fabris ali situadas294.

Passados dois anos desta representação, aquele deputado volta novamente a esta discussão, decorria Sessão de 18 de Janeiro de 1864 (Sessão de 18 de Janeiro de 1864, p. 159). Todavia, foi só durante a sessão do dia seguinte que este orador acrescenta algo de novo em relação ao sector corticeiro, apontando a existência de mais uma fábrica de cortiça, passando aquelas a três, e onde se empregavam durante todo o ano mais de trezentas pessoas (Sessão de 19 de Janeiro de 1864, p. 172). Após esta clarificação faz chegar ao Parlamento um projecto de lei de sua autoria, onde é requerida a restituição daquele concelho, pedindo para ser avaliado pela Comissão de Estatística, o qual foi admitido. Era neste contexto a cortiça usada como argumento de ordem comercial e, sobretudo, industrial para que Sines voltasse a ser de novo sede concelhia295. Durante a Sessão de 2 de Março de 1880, este assunto é trazido de novo ao registo dos diários parlamentares, através de um abaixo-

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Segundo o Annuario Estatisticodo Reino de Portugal de 1875, Sines era considerada uma “Delegação de 1ª classe” da Alfândega marítima de Lisboa. A hierarquia das divisões marítimas aduaneiras era elaborada da seguinte forma: “Alfândega marítima de 1ª classe”, que se localizavam em Lisboa e no Porto (isto no continente), “Alfândega marítima de 2ª classe”, localizadas em Viana do Castelo, Figueira da Foz, e Faro, e que por sua vez se subdividiam ambas as classes em “Delegações”, também elas de 1ª e 2ª classe. Nas ilhas existiam também divisões alfandegárias, todas de 1ª classe (Funchal, Angra de Heroísmo, Ponta Delgada e Horta), estando subdivididas de forma igual àquelas do continente.

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Perante esta sessão, e tendo como certos os dados mencionados, fazemos a seguinte caracterização da indústria corticeira em Sines: 2 indústrias em 1862, 3 em 1864 (Sessão de 12 de Junho de 1862, p. 1632) e 7 em 1880 (Sessão 20 de Março de 1880, p. 653).

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Segundo o site oficial da Câmara Municipal de Sines, em 1914 é de novo restabelecido (Vide: <http://www.sines.pt/PT/Concelho/Historia/cronologia/Paginas/default.aspx>).

145 assinado (E. N.º122 de 20 de Fevereiro de 1880, Sessão de 20 de Março de 1880, pp. 708-710). Nele os argumentos utilizados são os mesmos das Sessões anteriores, não obstante, e no que à importância da indústria corticeira diz respeito, é referida a existência de sete unidades industriais, de um total de três em 1864, demonstrando de forma clara que, além da importância local, uma outra mais abrangente, ao nível dos mercados nacional e internacional (Idem, p. 709).

Durante a Sessão de 17 de Junho de 1885 é apresentado um projecto de lei (N.º138) para elevar de terceira a segunda classe a comarca de Santiago do Cacém, no distrito judicial da relação de Lisboa. Mais uma vez um dos argumentos usados para tentar convencer a Câmara dos deputados seria a importância local do sector corticeiro: “A consideravel riqueza que se tem accumulado e desenvolvido n’aquelle concelho, devida principalmente á producção e ao grande commercio da cortiça (...)” (Sessão de 17 de Junho de 1885, p. 2348). Foi aprovado o Projecto em dois artigos, sem discussão parlamentar.

Segundo o deputado José Júlio Rodrigues, o sector corticeiro e, em especial, a sua indústria estava a debater-se com uma “crise terrível” (Sessão de 14 de Março de 1892, p. 3), sendo necessária, em sua opinião, uma intervenção urgente por parte do Governo. Pedia, neste sentido, ao presidente em exercício, António de Azevedo Castello Branco296, que informasse o Ministro da Fazenda, Oliveira Martins, e o dos Negócios Estrangeiros, Costa Lobo, acerca da sua intenção de debater com ambos as dificuldades e possíveis saídas para aquele sector, cujos “valores enormes” e “riqueza agrícola e fabril” realçava (Ibid.). Apresenta para cimentar a sua posição, duas representações de operários de Grândola297 e de Estremoz298, onde estes declaram o seu

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António Azevedo de Castelo Branco (1842-1916). Bacharel em Direito pela Universidade de Coimbra. Ministro dos Negócios Eclesiásticos e da Justiça do primeiro Governo regenerador de Hintze Ribeiro. Ministro da Marinha e Ultramar por dois meses no segundo Governo de Hintze Ribeiro em 1906 (Mónica, ob. cit., vol. I, pp. 687-688).

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Segundo o Inquerito Industrial de 1890, contava com cerca de 3 unidades fabris, cerca de 8,82% do total do distrito de Lisboa, onde laborariam 34 funcionários, representando 3,58% do total distrital.

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A mesma fonte supracitada, aponta para a existência de 2 unidades fabris neste concelho, representando cerca de 7,69% do total do distrito de Évora, nas quais operavam cerca de 39 operários, cerca de 26,00% do total distrital.

146 descontentamento e incerteza quanto ao futuro do sector, mostrando-se ao mesmo tempo solidários com aquele deputado para que fosse debatido com a maior celeridade possível os resultados de um estudo299 que o próprio havia solicitado aos diversos ministérios incumbidos para o efeito.

Com o aproximar do fim da Legislatura, José Júlio Rodrigues insta de novo a Câmara os documentos acerca do estado do sector corticeiro, decorria a Sessão de 26 de Março de 1892 (p. 9). Acrescenta que a gravidade era tal que Portugal “corria o risco de diminuir o valor da cortiça” (Ibid.) e de, consequentemente perder a sua indústria.

Responde-lhe o Ministro da Marinha, Ferreira do Amaral, afirmando que a crise operária não estava a ser tão intensa quanto queria fazer parecer. Todavia, reitera que as conclusões do estudo elaborado serviriam para clarificar todas as dúvidas que pudessem existir.

A 1 de Abril do mesmo ano, a questão é de novo suscitada e pelo mesmo interlocutor. Desta vez a contra-argumentar encontra-se Costa Lobo, Ministro dos Negócios Estrangeiros. Após desabafar que o estado económico-financeiro do país não era o melhor, classificando-o mesmo de “desgraçado” (Sessão de 1 de Abril de 1892, p. 16), afirma que, de sua parte, a única coisa que poderia ser feita era negociar com os demais Estados as condições que mais favorecessem o sector corticeiro português. Logo após, Augusto Fuschini intervém no mesmo sentido daquele deputado, aludindo a uma representação dos operários corticeiros da Azaruja300.

Durante a exposição dos valores relativos à contribuição industrial no orçamento de Estado, por parte do ilustre Ministro da Fazenda, Augusto Maria Fuschini, a descrição dos géneros contemplados na “Tabella A” que “comprehende as industrias, profissões, artes ou officios” (Sessão de 15 de Maio de 1893, p. 47) aponta para o pagamento de uma tributação de 30$000 réis sobre cada caldeira que viesse a ser adquirida por uma fábrica de preparar cortiça. Seguidamente, ainda na mesma tabela, é feita referência a que cada

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Já havíamos feito menção durante a análise da Sessão de 24 de Fevereiro de 1892. (Vide p. 79).

147 fábrica de produção de rolhas que empregasse até cinco operários estaria sujeita a um imposto de 25$000 réis, aumentando 2$500 réis por cada operário acrescentado (Idem, p. 50). Já na descrição da “Tabella B (...) cujas taxas influi a ordem das terras” (Idem Ibid.) é apenas apontado que os mercadores de cortiça inserir-se-iam na “Classe 7.ª” (Idem p. 55).

A 27 de Junho de 1893 o Sr. Carrilho, relator do projecto de alteração daquele imposto, apresenta novas alterações para o sector corticeiro. Assim, na “Tabella A”, as fábricas produtoras de rolhas de cortiça compostas até 5 operários veriam o seu imposto reduzido em 5$000 réis, passando assim para o valor de 20$000 réis, sendo no mesmo sentido reduzido o imposto adicional por cada operário acima daquele número, situando-se assim em 2$000 réis. Na “ordem do dia” da Sessão de 8 de Julho daquele ano é referido que o deputado António da Veiga Beirão301 lamentava a falta de tempo para uma análise profunda deste tão importante projecto (de lei n.º 158) cujo tema central era a contribuição industrial. É por ele assinalado o facto de o Partido Progressista, à data na oposição, não estar de acordo com “as linhas geraes do projecto” em análise reconhecendo, todavia, a necessidade imperiosa de se legislar sobre o assunto (Sessão de 8 de Julho de 1893, p. 1).

Posteriormente, é descrita a “Tabella A” e sua abrangência tributária. Neste sentido, apenas se verifica a afirmação da alteração proposta anteriormente no que respeita à tributação proposta das fábricas de rolhas de cortiça que empregassem até cinco operários, que passariam assim a ter de pagar um imposto de 20$000 réis. Já em relação à “Tabella B” é introduzido um novo dado, reportando-se à inclusão na “Parte 1.ª” que compreendia “todas as industrias, profissões, artes e officios” (Idem, p. 20), a “Classe 1.ª” que descreve a ocupação ou ofício de “Banqueiro”, que é caracterizado como sendo um “capitalista, negociante ou mercador por grosso, em quaesquer

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Francisco António da Veiga Beirão (1841-1916). Formou-se em Direito em 1862. Lente de Direito Comercial no Instituto Industrial e Comercial em 1886. Membro do Tribunal de Haia, em 1905, por nomeação do Governo. Foi filiado no Partido Reformista. Teve maior notoriedade e projecção no Partido Progressista. Foi Ministro da Justiça em 1886, 1897, e 1910. Ministro interino da Marinha em 1897, e dos Negócios Estrangeiros em 1898. Foi Presidente do Governo de 22 de Dezembro de 1909 a 26 de Junho de 1910, no penúltimo Governo da Monarquia (Mónica, ob. cit., vol. I, pp. 363-365).

148 objectos ou generos” (Ibid.). Por negociante de grosso, ali inserido, era considerado aquele que fazia negócio de importação ou exportação ou tivesse grandes estabelecimentos empregando mais de dez pessoas. Já a definição de mercador por grosso era a seguinte: “o que compra mercadorias para as vender, de ordinario, aos mercadores por atacade ou miudo, embora no mesmo estabelecimento, tambem venda para consumo” (Ibid.), acrescentando ainda que seria igualmente inserido neste grupo quem “compre e venda cortiça em grandes porções” (Ibid.). Era neste contexto evidente a importância da cortiça enquanto produto de negócio, interno e externo, ao ponto de ser acrescentado um subponto dentro do ofício de Banqueiro.

Após a apresentação daquelas tabelas, o deputado Frederico Laranjo intervém considerando ser pouca a redução proposta para a indústria corticeira. Afirma que a cortiça tinha várias aplicações e que o país tinha a necessidade de as aprender. Não obstante, faz referência à evolução positiva da indústria corticeira portuguesa que, em 1877 e 1878 tinha 22 indústrias e, dez anos volvidos, os números situar-se-iam em 35 unidades industriais302. Esta evolução por si só iria garantir ao Estado uma maior colecta de impostos, não sendo assim necessário aumentá-los. Segundo aquele deputado, em 1893, as taxas aplicadas eram de 19$656 réis para as fábricas que tivessem até cinco operários e de 1$965 réis por cada operário a mais. A última proposta do Governo iria apenas “arredondar” os números da tributação em vigor àquela data, não vendo assim grande inconveniente da sua aplicação (Idem, p. 46). A 26 de Fevereiro de 1896 surge de novo a discussão sobre o imposto directo da contribuição industrial, com a aprovação por unanimidade de um novo projecto (n.º 9), tendo como relator José Lobo. Referente à cortiça, apenas se verificaram duas alterações e ambas na “Tabella B”, distinguindo aqui da anterior, o grupo onde se iria inserir o negociante por grosso de cortiça. Para o efeito foi incluído na “Classe 2ª” da “Parte 1.ª”, que compreendia todas as profissões, artes ou ofícios que pudessem formar grémio, sendo para aquele

302 As palavras de Frederico Laranjo apoiam os números descritos no Inquerito Industrial de 1881,

relativamente ao número de unidades fabris existentes. Considerando os valores do Inquerito Industrial

de 1890, que refere a existência de 117 unidades fabris, e comparando com as palavras proferidas por

149 efeito criada a actividade de “Negociante”, separando-se assim da ocupação de “Banqueiro” onde estava incluída. A outra alteração é notada na “Classe 9ª”, onde vem inserido o ofício de mercador de rolhas de cortiça, ao passo que anteriormente estava inserido na classe sétima (Sessão de 26 de Fevereiro de 1896).

Durante as sessões 2, 3 e 6 de Março de 1896, a discussão continuou na especialidade, sem serem apresentadas diferenças substanciais em relação à influência daquela contribuição no sector corticeiro.

5.2 Segurança Industrial: o exemplo das fábricas de