Antes de iniciarmos a discussão proposta no título acima, pensamos que seja necessário conceituarmos o que seja indústria.
Entendemos por indústria – conjunto de atividades produtivas que se caracterizam
pela transformação de matérias-primas, de modo manual ou com auxílio de máquinas e ferramentas, no sentido de fabricar mercadorias. De uma maneira mais ampla, entende-se como indústria desde o artesanato voltado para o autoconsumo até a moderna produção de computadores e instrumentos eletrônicos78. Dividimos a indústria em indústria
extrativa e indústria de transformação.
A indústria de transformação, tal como é designada pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística)79, é classificada de acordo com a produção de bens, quais sejam, bens de capital (máquinas e equipamentos) e consumo duráveis (automóveis,
eletrodomésticos etc.), bens intermediários (matérias-primas para outras indústrias, como cimento, metalurgia etc.) e bens de consumo não duráveis e/ou assalariados (artigos de utilidade individual ou familiar); e de acordo com o tipo de indústria, isto é, indústria
tradicional ou de trabalho intensivo – caracterizada por grande contingente de mão-de-obra, apoiada em tecnologia atrasada; e indústria moderna ou de capital intensivo – caracterizada por serem portadoras de tecnologia sofisticada, com trabalhadores altamente especializados e elevada taxa de investimento por pessoa empregada80.
Mas, não podemos nos reter apenas no conceito, faz-se necessário abordar, mesmo que em linhas gerais, as transformações nos métodos industriais. A atividade industrial acompanha a ação humana desde os tempos mais remotos, sendo responsável pelo processo de sedentarização do homem, através da criação de instrumentos de trabalho para a prática
78 Cf., PAULO SANDRONI. Novíssimo Dicionário de Economia. 5 ed.,. São Paulo: Best-Seller, 2000.
Verbete Indústria, pp., 299/300. Uma definição próxima da referida acima encontra-se na Grand Larousse
Encyclopédique, a saber, conjunto de atividades, de ofícios que produzem as riquezas pela fabricação de matérias-primas. Apud., FRÉDÉRIC MAURO. Pode-se falar de uma indústria brasileira na Época Colonial?
In: Revista Estudos Econômicos. 13:733-744. São Paulo: FEA/USP, pg., 183. Mauro completa tal conceito da seguinte forma: A “fabricação” esta pode ser a transformação das matérias-primas, em particular, das
matérias-primas agrícolas, esta pode ser também sua extração, como é o caso das minas e das explorações florestais. Ibid. Ibidem.
79
Ver IBGE. Censos Industriais.
agrícola. Mais do que isso, o ato de transformar matérias-primas em valor de uso e/ou de troca culminou na formação de uma civilização, a qual Vasquez de Prada denominou de
civilização metalúrgica entre 5000 e 4000 a.C. e que abarcou um grande espaço
geográfico euro-asiático e da zona norte-africana. Tal civilização inicia-se com a indústria do cobre, evoluindo para o bronze e posteriormente para o ferro, cujas atividades industriais moldaram culturas e civilizações que vão desde o Egito Antigo à Idade Média Européia81.
Entretanto, o que nos interessa mais de perto são as transformações nas técnicas industriais as quais se deram na Europa entre a Baixa Idade Média e o nascimento da Época Moderna, período este que marca a gestação de um novo modo de produção, o capitalismo, que se consolida com a Revolução Industrial inglesa no final do século XVIII e início do século XIX. As razões para isso, estão, em primeiro lugar, na hegemonia daquele continente na expansão marítimo-comercial na Época Moderna, que culminou na colonização das Américas, bem como, na formação de um mercado em escala mundial; em segundo, foi a partir das mudanças nas técnicas empregadas na atividade industrial na Europa que surgiu a grande indústria fabril, que culminou no capitalismo.
Marx analisa as transformações na atividade industrial européia até o advento do
sistema fabril em três fases: cooperação, manufatura e grande indústria82. No entanto,
tomaremos como base para a análise das transformações nas técnicas industriais do referido período, o modelo Braudel-Bourgin. Braudel, tomando como referência o esquema analítico de Bourgin83, analisa as mudanças nos métodos industriais em quatro categorias distintas. Segundo ele, qualquer vida industrial, entre os séculos XV e XVIII, entra
forçosamente numa das quatro categorias desenvolvidas por Bourgin84.
A primeira categoria os autores analisam como a constituição de inúmeras e minúsculas oficinas, compostas, em sua maioria de um mestre com dois ou três companheiros, um ou dois aprendizes, ou uma família sozinha. Citam como exemplos os casos do pregueiro, do cuteleiro, do ferreiro estabelecidos nas aldeias; bem como, o
81
Ver VALENTIN VASQUEZ DE PRADA. História Econômica Mundial. 2 vol., Porto: Livraria Civilização Editora, 1972. Vol., 1, pp., 11-69; pp., 71-223.
82 KARL MARX. O capital. Crítica da economia política. Tradução Régis Barbosa e Flávio Kothe. São
Paulo: Nova Cultura, 1988. 5 vol.. Principalmente o Livro Primeiro, Seção IV, Capítulos XI, XII e XIII.
83 HUBERT BOURGIN. L´industrie et le marché. 1924. Apud. FERNAND BRAUDEL. Civilização
material, economia e capitalismo – séculos XV/XVIII. Tradução de Telma Costa. 3 vol., São Paulo: Martins
sapateiro (ou tamanqueiro), o ourives, o serralheiro, a rendeira, o padeiro, o açougueiro, o moleiro, o queijeiro, o destilador de aguardente... Em cada uma dessas unidades elementares, o que os autores denominam de “mononucleares”, as tarefas são “indiferenciadas e contínuas”, a ponto de muitas vezes a divisão do trabalho ser-lhes inatingível. Em suma, esta horda de estabelecimentos de caráter restrito, familiar ou artesanal, quase escapa ao mercado, às normas habituais do lucro.
A segunda categoria caracteriza-se de oficinas dispersas, porém ligadas entre si. São as chamadas fábricas disseminadas por Bourgin. Braudel já prefere denomina-las de
manufaturas disseminadas. São na verdade estabelecimentos que se vinculam à
empresários que adiantam a matéria-prima e paga os salários dos artesãos, os quais, por sua vez, executam uma sucessão de trabalhos que dependem uns dos outros até o acabamento do produto fabricado. O empresário cuida da operação comercial, seja no comércio local, seja no comércio a longa distância. De acordo com os autores, tais estabelecimentos constituíram-se a partir da Idade Média, se disseminando por toda a Europa Ocidental. Exemplos desses estabelecimentos estão na fabricação de têxteis, cutelaria, ferragens, pregaria, serralherias e até lojas de armeiros.
A terceira categoria está ligada ao que os autores denominaram de fábricas
aglomeradas, que nada mais são que manufaturas nos termos preconizados por Marx85. A principal característica deste tipo de categoria é a concentração da mão-de-obra em construções maiores ou menores, o que permite a vigilância do trabalho, uma divisão avançada das tarefas, aumento de produtividade e uma melhoria da qualidade dos produtos fabricados. Segundo Braudel, as manufaturas se constituíram tardiamente, em datas diferentes conforme o ramo de atividade e as regiões. O autor afirma que as forjas a água do século XIV já se enquadram neste tipo de categoria. Mas, não somente esta, as cervejarias, os curtumes e as vidrarias também. Contudo, ainda de acordo com o autor, a maioria das manufaturas estava ligada à atividade têxtil, as quais se multiplicaram por toda a Europa, sobretudo, na segunda metade do século XVIII.
84 Cf., FERNAND BRAUDEL. Op.cit. pg., 259. Para evitar notas desnecessárias nos basearemos a análise das
referidas categorias na obra citada, principalmente as páginas 259-263.
85
Ver principalmente: KARL MARX. Divisão do trabalho e manufatura. In: O capital. op.cit. Seção IV, Capítulo XII, pp., 254-276.
Por fim, a quarta categoria, se constitui em fábricas propriamente ditas. Isto é, a fábrica mecanizada, ou na afirmação de Marx, a indústria moderna. São estas que vão trilhar o caminho da Revolução Industrial.
Estas quatro categorias, mais ou menos sucessivas, mas que, como alertam Braudel e Bourgin, sucedendo-se, as diferentes estruturas não se substituem bruscamente umas às outras, marcam as mudanças nos métodos de produção industrial na Europa. Posto isto, Braudel também rechaça a afirmação de Marx de que houve uma passagem natural da manufatura à “grande indústria”. Na verdade, segundo o autor, isto não ocorreu86. As três primeiras categorias expostas aqui, Braudel, denomina-as de pré-indústria.
O autor entende por pré-indústria, a indústria rural, quer sob domínio restrito do valor de uso que trabalha apenas para a família ou para a aldeia, ou mesmo, àquela destinada ao mercado, que se vê na parte ocidental da Europa. Esta indústria, apesar de sua originalidade não é um setor com fronteiras nítidas, ficando atrelada a vida agrícola87. É o artesanato, na afirmação do autor, que quando chega o inverno, constitui uma imensa
atividade “industrial” substituindo a agricultura88. A pré-indústria como afirmamos
anteriormente, dominou as três primeiras fases do esquema Braudel-Bourgin, que vai do
século XV ao XVIII. Período este que Marx denominou de período manufatureiro89.
Tal período também foi denominado pela Escola de Gottingen de proto-
industrialização. O conceito de proto-industrialização tomou corpo a partir das pesquisas organizadas no Instituto Max Planck de História, em Gottingen, na Alemanha, na década de
197090. Liderados por Peter Kriedte entre outros e reunindo historiadores de diversas
nacionalidades, sobretudo de países que não estão normalmente associados ao pioneirismo industrial – tais como italianos, alemães, espanhóis, poloneses etc – ficaram conhecidos com a escola da proto-industrialização ou Escola de Gottingen e tiveram impactos importantes em programas de pesquisa de diversos países91.
86 FERNAND BRAUDEL. Op.cit. vol., 2, Capítulo 3, pg., 263. 87 Ibid. pg., 265.
88 Ibid. Ibidem.
89 Ver KARL MARX. Divisão do trabalho e manufatura. Op.cit. pg., 254.
90 A primeira vez que o termo proto-industrialização apareceu foi no estudo de Franklin Mendels sobre a
indústria de linho flamenga, em 1969. Ver: SHEILAGH C. OLGIVIE & MARKUS CERMAN. European proto-industrialization. Cambridge: Cambridge University Press, 1996, pg., 01.
91
Cf., JOÃO ANTÔNIO DE PAULA. História e teoria: sobre a proto-industrialização. In: Revista História
Articulando temas como demografia, alimentação, papel de mulheres e crianças no trabalho, a relação rural e urbano na construção da vida material e social da Idade Média e da Época Moderna e, buscando um diálogo com o marxismo, a Escola de Gottingen propôs um novo olhar para a Europa antes da revolução industrial: a separação entre industrialização e capitalismo. Dentro desse contexto, propõe uma industrialização antes da industrialização capitalista que toma corpo no final do século XVIII e início do XIX, tendo a Inglaterra como a nação líder92.
Em verdade, o objetivo destes estudos é lançar luzes, novos termos, à histórica polêmica discussão sobre a transição do feudalismo para o capitalismo. Propõem uma visão de que o capitalismo é um modo de produção que se estava gestando no interior do continente europeu – notadamente na Europa central e ocidental – e não apenas na Inglaterra. Temos que deixar claro que isto não significa excluir a Inglaterra no pioneirismo à via da industrialização capitalista; e sim, que nos séculos XVI e XVII, particularmente, haviam outros países e regiões na Europa em que o capital mercantil avançado criava as condições para a constituição do modo de produção capitalista. Todavia, como bem alertou Maurice Dobb, quando um país atinge os primeiros degraus na via para o capitalismo, isso
não nos garante que venha a concluir a viagem93.
Ao contrário de Braudel, segundo aquela escola, esta industrialização, que toma corpo no final da Idade Média e se intensifica nos século XVI, XVII e XVIII, já nasceu voltada para a formação de um mercado supra-regional, e quando o comércio europeu se expande além-mar, passou a produzir para o mercado internacional. Embora os autores desta escola apresentem divergências, há um consenso de que se fundou no continente europeu uma indústria rural, que se constituiu importante passo para a transição ao capitalismo industrial, pois destruiu, a longo prazo, a estrutura agrária feudal e seu caráter
de economia natural94. Na afirmação de Peter Kriedte, a partir do século XV o capital
mercantil passa penetrar nos “poros” da sociedade feudal95.
92 Ver principalmente o estudo síntese: PETER KRIEDTE, HANS MEDICK & JURGEN SCHLUMBOHM.
Industrialization before industrialization. Cambridge: Cambridge University Press. 1981.
93 MAURICE DOBB citado por PETER KRIEDTE. Camponeses, senhores e mercadores. A Europa e a
economia mundial – 1500/1800. Tradução de Maria Assunção Pinto Correia. Lisboa: Teorema, 1980. pg.,
142.
94 SHEILAGH C. OLGIVIE & MARKUS CERMAN. Op.cit. Capítulo 1, pp., 01-11. 95
PETER KRIEDTE. Camponeses, senhores e mercadores. A Europa e a economia mundial – 1500/1800. Op.cit. pg., 7.
De acordo com Mendels, a proto-industrialização é a primeira fase da industrialização, fase esta que precede e prepara a moderna industrialização. Durante esta fase, a força de trabalho agrícola passou a trabalhar na indústria rural, particularmente nos momentos de entre-safra, marco importante, segundo o autor, para a libertação da população da base dos recursos agrários. Isto posto, a proto-indústria criou um mercado, em que a indústria rural e a agricultura estimulavam a especialização das regiões e o incremento do comércio no interior da Europa96.
Mendels analisa também que a proto-indústria quebrou os mecanismos de regulação da sociedade agrária tradicional (feudal), a partir da destruição do sistema de herança e outros controles institucionais, os quais regulavam o crescimento populacional de acordo com os recursos econômicos disponíveis. Desta forma, o advento deste tipo de indústria criou condições para o crescimento demográfico na Europa e foi condição importante para a generalização do trabalho, acumulação de capital, surgimento de empreendedores e incremento da agricultura comercial e dos mercados, abrindo as possibilidades para a posterior criação da indústria fabril97.
Os argumentos de Mendels foram retomados em outros estudos, particularmente, aqueles de viés demográfico, como os estudos de David Levine, que discute a proto- industrialização como um revolucionário comportamento demográfico, cujas conseqüências foram a criação do proletariado como força de trabalho98.
Já os estudos de Peter Kriedte et alli partem do pressuposto que a proto- industrialização entendida como o desenvolvimento de regiões rurais em que uma grande parte da população vive em parte ou totalmente ligada a atividade industrial doméstica voltada para o mercado regional ou internacional, constituiu-se num processo de transformação do qual passou a sociedade agrária feudal européia em direção ao capitalismo industrial99.
Diferentemente de Mendels, os autores analisam a proto-industrialização como a segunda fase da transição do feudalismo para o capitalismo. A primeira é a fase de bifurcação entre dois tipos de estrutura agrária: a produção agrícola comercial e a produção
96 Cf., SHEILAGH C. OLGIVIE & MARKUS CERMAN. pp., 01/02. 97 Ibid. Ibidem.
98 Ver principalmente: DAVID LEVINE. Family formation in a age of nascent capitalism. New York:
para a subsistência. Desta forma, tal fase foi o primeiro passo para a desintegração do feudalismo. Com efeito, segundo eles, ao criar as condições para a agricultura comercial, também estimulou a produção doméstica industrial no campo, propiciados pelo crescimento dos mercados regionais e internacional100.
Dentro desse contexto, uma vez criada a indústria doméstica ou a proto-indústria, esta passou por 3 estágios, no processo da transição do feudalismo ao capitalismo. Os autores enfatizam que estes estágios não podem ser vistos como uma visão rígida: 1 – Kaufsystem (sistema artesanal); 2 – putting-out system; 3 – manufaturas101.
Entretanto, os autores concordam com Mendels no que toca à relevância das conseqüências demográficas da proto-industrialização. Segundo eles, a proto-indústria gerou crescimento populacional no continente europeu, que por sua vez, contribuiu para a desagregação da estrutura feudal102.
Em resumo, para Escola de Gottingen é uma industrialization before
industrialization, porque, além de fomentar uma agricultura mercantil, de provocar
crescimento demográfico, de criar as condições para o assalariamento; enfim de destruir os laços do Antigo Regime, pautou-se por uma diversificação setorial os quais são causa e efeito da constituição de uma rede mercantil no continente europeu e de uma divisão regional do trabalho que envolveu não somente a especialização agrícola, como também especialização manufatureira. São estas, rede mercantil, crescimento demográfico, divisão social e regional do trabalho, principais conseqüências para a definição da proto-
industrialização. Além disso, para aqueles autores, se este setor de transformação está
predominantemente no campo, não exclui as cidades, já que as manufaturas – estabelecidas nas vilas e pequenos burgos – foram importantes fatores para o crescimento urbano europeu da Época Moderna103.
Desta forma, devemos distinguir o conceito de pré-indústria abordado por Braudel do conceito de proto-industrialização. Esta diferença está, pois, Braudel entende por pré-
99 Cf., PETER KRIEDTE, HANS MEDICK & JURGUEN SCHLUMBOHM. Op.cit. Introduction. pg., 06. 100 Ibid. Ibidem.
101 Idem. Putting-out system ou Verlagssystem – sistema de produção no qual os artesãos trabalham em seu
domicílio para um mercador-empresário, e com os seus próprio instrumentos de trabalho, mas com matérias- primas e adiantamento de salário fornecidos pelo comerciante. Ver FERNAND BRAUDEL. Op.cit. vol., 2, Capítulo 3, pg., 276. Também: PAULO SANDRONI. Op.cit. Verbete Putting-out system, pg., 506.
102
PETER KRIEDTE, HANS MEDICK & JURGUEN SCHLUMBOHM. Op.cit. pg., 06.
indústria, grosso modo, as indústrias e as técnicas industriais que antecederam a industrialização capitalista, as quais, ao contrário do processo de industrialização, faltavam as “indústrias pilotos” ou “de ponta”, responsáveis, através da concentração de capital, lucros e mão-de-obra, de gerarem os efeitos de encadeamento tanto nos setores vizinhos como no conjunto da economia. Ou seja, para o autor, é pré-indústria porque falta coerência, é uma indústria desconjuntada; não faz pender na sua direção toda a economia, e sim, é dominada por aquele conjunto, que pelas suas oscilações dá à pré-indústria aspecto hesitante. Ademais, Braudel afirma que é pré-indústria porque não é um setor de fronteiras distintas; nem predominantemente agrícola, nem predominantemente industrial; não está predominantemente voltada para subsistência, nem predominantemente para o mercado; não está predominantemente voltada para o mercado regional-nacional, nem para o mercado internacional104.
Ao contrário, a Escola de Gottingen está preocupada em articular toda a estrutura produtiva com as categorias sociais e demográficas para concluir que, não obstante a indústria ser o carro-chefe da economia da Época Moderna, e sim, subordinada à agricultura, foi fator importante para transição para uma nova sociedade européia, pois a partir das transformações em suas técnicas criou-se as condições para a gênese de uma economia de mercado. Mais do que isso, a proto-industrialização para aquela escola é antes de tudo um estímulo, as pré-condições para o processo de industrialização capitalista.
Em suma, é a luz das transformações nas técnicas e métodos industriais que se deram na Europa que vamos analisar a origem da indústria no Brasil e, particularmente em Minas Gerais. Mais uma vez, não é ocioso reafirmar que partimos da experiência européia, pois a formação econômica e social brasileira é reflexa da expansão do capitalismo naquele continente. A nosso ver, desde já, a indústria que se desenvolveu no Brasil e em Minas Gerais, tanto no período colonial, como ao longo do século XIX – com exceções que falaremos em momento apropriado – deve ser entendida nos termos da pré-indústria definida por Braudel, não se consubstanciando numa proto-industrialização nos termos da
Escola de Gottingen.
104 Sobre o aspecto da diferença entre os conceitos preconizados por Braudel e a Escola de Gottingen,
consultar: GERALDO BEAUCLAIR MENDES DE OLIVEIRA. A pré-indústria fluminense: 1808/1860. op.cit., pp., 05-12.
2.1 – A indústria mineira no período colonial
Pode-se falar de uma indústria instalada no Brasil no período colonial? Tanto Braudel como Mauro afirmam que sim. Segundo os autores, a própria produção açucareira que domina a vida econômica dos séculos XVI e XVII na colônia, pode ser considerada um tipo de indústria105.
Mauro nos alerta que antes do século XIX, o termo indústria era empregado num sentido muito mais geral, envolvendo toda a atividade, mesmo o comércio e a agricultura. Todavia, para uma análise da atividade industrial do período colonial, tomaremos a definição abordada anteriormente, ou seja, a transformação de matérias-primas em bens, seja como valor de uso ou mercantil. Assim, seguindo a direção de Mauro, incluímos então
na indústria tudo que não é agricultura, nem comércio106. Ademais, não é ocioso lembrar