4. CARACTERIZAÇÃO SOCIAL, PRODUTIVA E COMERCIAL DO TERRITÓRIO
4.5 Análise sectorial
4.5.2 Indústria transformadora
Em 1974, as indústrias com mais capital investido e que mais mão-de-obra empregavam eram, entre outras, as de serração de madeira, panificação, preparação de aguardentes, alfaiataria, fabricação de mobiliário de madeira e produção de refrigerantes. No total, a mão-de-obra empregue ascendia a cerca de 515 trabalhadores, dos quais 334 não especializados. (164: 42)
Quadro 4 - X: Evolução das principais produções industriais
Produtos Unidades 1965 1966 1967 1968 1969 1970 1971 1972 1973
De alimentação
Pão kg 927.487 907.956 336.069 459.560 638.998 278.459 301.000 371.177 1.050.000
Óleos vegetais litro 451.540 421.575 78.520 88.800 93.688 104.600 60.000 205.381 100.000
Sal litro 357.718 435.306 30.307 460.544 13.697 10.000 8.039 117.000
Bebidas
Aguardentes litro 34.834 131.093 62.641 65.522 63.292 67.000 60.000 85.000
Refrigerantes litro 138.134 28.000 51.000 40.000
Têxteis
Tecidos de algodão (tais) nº 193 65 100 190 82
De madeira m3 2.339 851 1.188 2.083
Químicos industriais
Alcóol puro e desnaturado litro 69.369 39.050 2.220 34.080 58.300 44.561 5.000 4.800 2.000
Outros produtos químicos
Sabão kg 91.600 171.040 133.200 157.800 161.800 61.000 234.430 169.000
Diversos
Tabaco kg 788 1.000 1.000 4.000
Fontes: (181 a 213) (258) (214) (36 a 38) (156) (164)
a) Os espaços em branco correspondem a dados inexistentes ou não disponíveis.
O apuramento de dados estatísticos relativos às indústrias é globalmente pouco rigoroso e incompleto, tal como o já descrito para todo o sector de produção primária. A generalidade dos valores apresentados na tabela anterior permitem relevar o carácter incipiente que a indústria transformadora de Timor tinha na década de 70 e, mais importante, que houve, quando muito, estagnação, na globalidade do sector industrial a jusante da agricultura, senão mesmo regressão em alguns desses sub-sectores.
A indústria de panificação apresentou uma retracção na década de 60 o que, segundo Calapez, se deve ao facto de um dos grandes clientes, as Forças Armadas, terem passado a produzir o pão para o seu consumo. No entanto, em 1973, a indústria da
panificação teve um pico de produção, não tendo sido encontrada explicação para este facto (214).
Se exceptuarmos este apontamento final do ano de 1973, pode dizer-se que a indústria de produtos alimentares apresentou, na generalidade, uma tendência clara de diminuição da produção, no decurso do período em análise, apesar das oscilações não serem possíveis de explicar.
Para a indústria de extracção de sal, os números reunidos pelos Serviços de Estatística locais, caracterizados por grande oscilação, são considerados incompletos e englobam o sal extraído da água do mar e o salgema de lago (214).
A indústria de refrigerantes (laranjadas e gasosas) estava em 1967, representada por uma empresa em Díli, sendo a única conhecida pelos serviços estatísticos locais. Apesar dos dados patentes (oscilatórios), avaliava-se que a empresa tinha prosperado. Neste ramo industrial, há a referir, em 1967, outra empresa que se dedicava à produção de sumos concentrados e álcool, com uma produção total de 4532 litros, que tinha entretanto desaperecido por volta de 1971 (214).
Em relação à produção de aguardente, observa-se um comportamento da estabilização da produção no final dos anos 60 e início dos anos 70, a que se seguiu uma ligeira tendência de crescimento no final da colonização portuguesa.
A produção de álcool, a partir da seiva da palmeira, era a actividade de três empresas que, segundo os Serviços de Estatística de Timor, tiveram produções muito flutuantes, tendo os seus níveis de produção diminuido acentuadamente nos anos 70.
A indústria de saboaria (basicamente a partir do óleo de coco) apresentou uma situação de crescimento da produção entre 1965 e 1968. A grande produção era da responsabilidade da SAPT e, em 1969, houve a transição do processo artesanal para industrial, o que, de acordo com Calapez, paralisou temporariamente a produção,
razão provável para a inexistência de dados de produção. Posteriormente, a produção de óleos vegetais e de sabão sofreu acréscimos notórios em 1972, tendo posteriormente estabilizado em torno das 170.000 toneladas, valores que já tinham sido atingidos na década de 60 (164) (214). Houve, portanto, uma melhoria tecnológica que não foi acompanhada por acréscimos claros e constantes na produção, por razões não apuradas.
As indústrias de corte e serração de madeiras e de carpintaria, exclusivamente viradas para o mercado interno, encontravam-se representadas por algumas empresas de reduzida capacidade, cuja produção oscilou bastante e com pouca expressão (214). A tecelagem de panos era feita com base no algodão produzido extensivamente nas “hortas” timorenses que, depois de fiado, era tingido artesanalmente. Estes panos destinavam-se geralmente a utilização própria, sendo a sua comercialização diminuta, ainda que, muito provavelmente, acima dos valores que foram apurados pelos Serviços de Estatística. (214)
Para além destes valores, existe ainda um conjunto de dados dispersos, relativamente à:
- indústria de descasque de arroz que, em 1969, laborou cerca de 11.440 toneladas, não se conhecendo outros elementos posteriores ou anteriores;
- preparação de tabaco e confecção de cigarros, na década de 60, por via da empresa SIARTA, com produção de baixa qualidade e muito diminuta, tendo-se atingido um máximo de 4 toneladas em 1972. Esta empresa não era considerada viável nos moldes em que a laboração se processava. (214);
- a indústria de artesanato de rota (espécie de verga), tinha características artesanais, no início dos anos 70.
As conclusões extraídas a partir destes números indicam um muito incipiente desenvolvimento industrial, a partir da evolução comparativa do consumo global e
consumo industrial de energia eléctrica, indicador expressivo do crescimento do sector.
Quadro 4 - XI: Consumo de energia eléctrica global e no sector industrial
Unidades: kWh
Ano Consumo global industrialConsumo % consumo industrial
1964 503.491 203.135 40,3% 1965 758.683 245.293 32,3% 1966 915.647 240.512 26,3% 1967 848.028 197.012 23,2% 1968 1.009.310 341.963 33,9% 1969 1.145.343 373.618 32,6% 1970 1.417.293 485.636 34,3% 1971 3.321.000 550.000 16,6% 1972 3.244.562 227.000 7,0% 1973 4.069.000 321.000 7,9% Fontes: (36 a 38) (181 a 213) (214) (258)
Refira-se que o aumento do consumo global só foi possível graças ao aumento do número de centrais eléctricas instaladas em Timor que subiu de 29 (28 térmicas e 1 hidráulica) em 1963 para 34 (32 térmicas e 2 hidráulicas) em 1965. A produção e distribuição estava a cargo da Câmara Municipal de Díli e das Comissões municipais (214) (258) .
Apenas para Díli, único local onde se encontravam instalados contadores de consumo, se torna possível obter elementos discriminados da energia fornecida, para fins industriais e domésticos (214).
Globalmente, os valores apresentados retratam que, após um movimento inicial de crescimento de energia para fins industriais (em termos de Kw/h), observou-se uma grande oscilação do consumo tendo atingido picos de consumo em 1970 e 1971. No entanto, o consumo global (onde se incluem as restantes componentes – consumo doméstico e fornecimento ao Estado) teve um incremento constante e claro, no período de 1964 a 1973, que não foi acompanhado por equivalente tendência no sector industrial, provocando que a percentagem de consumo do sector industrial
tenha permanentemente diminuido passando para abaixo dos 8 % no final da presença portuguesa. Isto significa que, de facto, a expansão do consumo eléctrico em Timor não se deu à conta do consumo industrial nem que essa mesma expansão tenha globalmente contribuido para uma tendência sólida de crescimento do sector industrial.