3.3 A PROPAGANDA DO ANTIBIÓTICO ESTREPTOMICINA NA MÍDIA
3.3.2 Indústrias farmacêuticas estrangeiras instaladas no brasil
Em se tratando das indústrias multinacionais que se instalaram em território brasileiro no contexto desenvolvimentista do país, outra grande indústria farmacêutica que anunciava a estreptomicina e demais medicamentos que produzia era a SQUIBB Corporation que foi fundada em 1858 por Edward Robinson Squibb no Brooklyn, Nova York. A indústria farmacêutica serviu como um dos principais fornecedores de produtos médicos para o exército durante a Guerra Civil americana, fornecendo morfina, anestésicos cirúrgicos e quinina.
Após a Segunda Guerra, a fábrica Bristol Laboratories, em 1945, entrou no mercado de antibióticos civis, onde enfrentou a competição da Squibb, que abriu a maior fábrica de penicilina do mundo durante o ano de 1944 em New Jersey. A SQUIBB instalou-se no Brasil em 1944. Em 1989, a Bristol-Myers e Squibb foram unidas para formar a Bristol-Myers Squibb, (BMS) (WONGTSCHOWSKI, 2002).
Diante do exposto podemos constatar que a estreptomicina já era produzida em território nacional com a entrada das multinacionais em solo brasileiro, mas como
vimos nos quadros 3 e 4, a atividade de importação do fármaco se fez presente ainda na década de 1950.
No período de 1945 a 1959, foram encontradas 38 propagandas do próprio laboratório, destinadas ao grande público, uma vez que os anúncios se dão em jornais de grande circulação e não específicos a um determinado domínio ou área técnica. O texto base encontrado nos periódicos sobre o laboratório se apresentava da seguinte forma:
Você verá o nome SQUIBB nas prateleiras de sua farmácia. Nas receitas de seu médico também. Porque SQUIBB é um dos maiores fabricantes do mundo de penicilina, estreptomicina, vitaminas, anestésicos, hormônios e outros medicamentos receitados pelo seu médico para restabelecer e assegurar sua saúde. Desde 1858 os Laboratórios de Pesquisa SQUIBB têm descoberto, aperfeiçoado e produzido medicamentos para melhorar o padrão de saúde e aliviar o sofrimento humano em todo mundo.
SQUIBB Produtos Farmacêuticos (O ESTADO, 28 ago. 1947, p. 5, grifo nosso).
As farmácias que comercializavam o antibiótico estreptomicina da SQUIBB davam referência do laboratório de origem:
Confie à Farmácia Pasteur a sua receita e receberá os medicamentos que o médico indicou para o seu caso, pelo menor preço da praça. A manipulação de fórmulas com esmero e presteza a cargo de profissional competente é a sua garantia. Estreptomicina SQUIBB Cr$ 68,00. Ninguém vende mais barato. Grande estoque de produtos farmacêuticos dos melhores laboratórios do mundo quais de graça. (JORNAL DO COMMERCIO, 22 set.1948, p. 3).
Antes da fusão das indústrias SQUIBB e BRISTOL71 em 1989, este último também produzia, em seus laboratórios no Brasil, a estreptomicina e seus derivados como a dihidroestreptomicina, cuja propaganda se encontra no jornal A Gazeta da Pharmacia:
Diobityl. Associação de penicilina procaina 300.000 u.i., penicilina G cristalina 100.000 u.i. (Pen-aqua) – Dihidroestreptomicina ½ grama. Para veículo aquoso. Todas as vantagens da estreptomicina. Reforçadas pela sinergia medicamentosa inconteste, sem qualquer desvantagem de toxidez. BRISTOL
71 Em 1887, William McLaren Bristol e John Ripley Myers compraram a Clinton Pharmaceutical Company de Clinton, Nova York. Em 1898, decidiram renomeá-la para Bristol, Myers and Company, mas, após a morte de John Ripley Myers, em 1899, William McLaren Bristol trocou o nome para Bristol-Myers Corporation. Em 1943, Bristol-Myers adquiriu a Cheplin Biological Laboratories, e converteu a fábrica para produzir penicilina para as forças aliadas durante a Segunda Guerra Mundial. Após a guerra, a empresa renomeou a fábrica para Bristol Laboratories, em 1945, e entrou no mercado de antibióticos civis, onde enfrentou a competição da Squibb, que abriu a maior fábrica de penicilina do mundo durante o ano de 1944 em New Jersey (WONGTSCHOWSKI, 2002).
– LABOR – SÃO PAULO – SANTO AMARO. (A GAZETA DA PHARMACIA, set. 1951, p. 6).
Outras indústrias farmacêuticas também se estabeleceram no país como a Pfizer72, que chegou no Brasil em 1952, e seus produtos eram anunciados através de seu distribuidor.
Distribuidor Jayme Noya tem a satisfação de comunicar às distintas classes médica e farmacêutica que é nomeado como distribuidor exclusivo dos produtos CHAS. PFIZER & CO. INC. - maiores fabricantes de antibióticos do mundo. Penicilina, Estreptomicina, Dihidroestreptomicina, vitaminas e sais minerais. (DIÁRIO DE PERNAMBUCO, 25 dez. 1949, p. 8, grifo nosso).
A Parke-Davis, hoje subsidiária da Pfizer, também anunciava o medicamento nos jornais: “Estreptomicina. 30g. Parke Davis. Preço reduzido”. (JORNAL DO BRASIL, 03 e 09 jan. 1948, p. 14 e 16), “Produtos de absoluta confiança e de reconhecida superioridade Estreptomicina PARKE-DAVIS & COMPANY” (A GAZETA DA PHARMACIA, abr. 1948, p. 21).
Podemos considerar que a indústria farmacêutica estrangeira, em seus laboratórios em território nacional, anunciava a estreptomicina nos jornais para todos os públicos, reforçando sua marca através de um discurso de competência, atualização e eficácia quanto ao fármaco, ou seja, através da propaganda como forma de comunicação, que tem como objetivo o controle sobre a opinião dos sujeitos. As propagandas em jornais de circulação não dirigida, como O Estado, Jornal do Commercio e Diário de Pernambuco, fazem com que a população tome conhecimento, ganhe familiaridade com as marcas dessas indústrias farmacêuticas que produzem a estreptomicina entre outros medicamentos. Neste sentido, o consumidor do fármaco podia ainda comparar e escolher, de acordo com a orientação
72 Fundada em 1849, no Brooklyn em Nova Iorque, pelos primos e imigrantes alemães Charles Pfizer e Charles Erhart, a Pfizer foi pioneira na produção de antibióticos. Os primos vislumbraram uma grande oportunidade na manufatura de produtos químicos que ainda não eram produzidos na América, pois desse modo teriam uma vantagem competitiva em relação aos produtos importados, que ficavam cada vez mais caros. A indústria de produtos farmacêuticos chegou ao Brasil em 1952.
Ainda este ano a empresa criou a divisão de agricultura com o objetivo de oferecer produtos para saúde animal. A indústria também é conhecida por um dos medicamentos de maior sucesso em toda a história da medicina, a icônica pílula azul, o Viagra, lançado em 1998 e cuja trajetória repercutiu também no comportamento e na desmistificação do problema disfunção erétil.
Atualmente a Pfizer traz em seu portfólio cerca de 100 produtos em diferentes classes terapêuticas para o tratamento de diversas doenças. Globalmente, a companhia tem 46 unidades industriais, distribuídas em 150 países, com a colaboração de 81,9 mil funcionários. (MUNDO DAS MARCAS, 2006).
médica, o laboratório que lhe fosse mais conveniente, seja pelos critérios de confiança no laboratório, eficácia do produto ou preço mais acessível do fármaco.
A produção da droga por essas empresas no Brasil representou o maior o acesso ao fármaco pelos doentes necessitados, possibilitando a escolha de uma marca que fosse de confiança pelo consumidor e também teve seu preço progressivamente mais baixo devido ao fato que não precisava mais ser somente importado.