habitantes.
E aconteceu naqueles dias que saiu um decreto da parte de César
Augusto para que todo o mundo se alistasse...
E todos iam alistar-se, cada um à sua própria cidade. Lucas 2:1-3
Para o bem cumprimento das ordens do ilustríssimo excelentíssimo senhor general ordeno aos senhores capitães e comandantes de companhia que tenham todo o cuidado quando tirar as suas listas da população indagar escrupulosamente de todo o cabeça de casal, todos os gêneros que lhe produzirão suas manufaturas, especificando aquelas que renderão e aqueles que consumirão com suas famílias, e o que venderão, declarando na casa das observações, de cada cabeça de família como se tem praticado. Tirando os Senhores Comandantes Responsáveis quando me entregar as ditas listas, entregar-me mais um mapa exato e resumido em que se mostre toda produção, consumo e exportação. Paranaguá 12 de maio de 1815. Manoel Antônio Pereira, Capitão mor.204
Como bem lembra Tarcísio Botelho, se a compreensão da dinâmica populacional brasileira no passado passa por uma análise dos dados contidos nos documentos referentes à demografia de uma época, este entendimento não deve prescindir dos condicionantes sob os quais tais indicadores – demográficos – foram elaborados.205
Assim, refletir sobre o surgimento dos censos populacionais proto-estatísticos, implica que se atente, sobretudo, à passagem localizada no setecentos, “de uma arte de governo, para uma ciência política, de um regime dominado pela estrutura de soberania para um regime dominado pelas técnicas de governo, que ocorre em torno da população”.206 Segundo Michel Foucault, este processo está inevitavelmente
204ARQUIVO PÚBLICO DO ESTADO DE SÃO PAULO.Ordem circular no terço das ordenanças das Villa de
Paranaguá e seu distrito. Manuscritos T.C. Ordenanças de Paranaguá, Capitão-mor e outros oficiais subalternos, cx. 64, ordem 304. 1721-1822.
205 BOTELHO, Tarcísio. População e nação no Brasil do século XIX. Tese de Doutorado. Universidade
de São Paulo, 1998.
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articulado às reflexões que resultam na passagem do Estado soberano, fundamentado em Maquiavel, ao Estado de Governo ou de Governamentalidade.
O estado soberano estaria caracterizado pela posse de um território, herdado ou conquistado, porém exterior ao príncipe. O estado de governo, entretanto, manteria relações diferentes com o território e a soberania, acrescentando à sua atuação a ideia de gerenciamento dos homens e das coisas. O fenômeno do surgimento dos censos de população – que ocorre um pouco por toda a parte 207 – não deixa de ter, portanto, relação de dependência para com esta reflexão estabelecida, em torno do ‘governo’, de si mesmo, das almas, das condutas, da população de um Estado.208 Em acréscimo pode se concordar: “por toda parte em que o poder se constitui enumera-se, quantifica- se”.209
Nessa transformação nos modos de governo, observada por Michel Foucault, imbricava-se, portanto, também uma nova maneira, não só de se pensar, mas,
207 As contagens de população estão no horizonte de preocupação dos governantes desde a constituição
dos primeiros estados organizados. Os primeiros recenseamentos ascendem à civilização suméria, de 5.000 a 2.000 anos antes da nossa era, da qual se conhecem listas de pessoas e de bens registrados em pequenas tábuas de argila. Levantamentos de tal natureza passaram a efetuar-se, regularmente, na mesopotâmia, 3.000 anos antes de Cristo. O Egito parece ter sido o primeiro estado a organizar recenseamentos sistemáticos da população, a institucionalizar recenseamentos fiscais desde o terceiro milênio antes de Jesus Cristo e a determinar o princípio da declaração obrigatória, uma vez que no reinado do faraó Amasis II (século sexto antes da nossa era), todo o indivíduo sob pena de morte, era obrigado a declarar a sua atividade e fontes de rendimento. Na China, o primeiro recenseamentos de produções agrícolas data do século XXIII antes de cristo. Na América Latina se tem notícias de que os Incas, por exemplo, constituíam sistemas particularmente sofisticados, permitindo mover e atualizar as estatísticas de produtos através de feixes de corda de diferentes cores. Certamente que ainda não é a estatística no sentido que hoje se entende, como as listas de população não são os recenseamentos atuais. Mas pode se arriscar que as preocupações subjacentes à contagem e ao registro, não estavam tão distantes das que no mundo moderno se encontram na base da estatística moderna propriamente dita. SOUSA, Fernando de. História da Estatística em Portugal. Lisboa : Instituto Nacional da Estatística, 1995. p.7. Com relação à confecção dos primeiros censos no período moderno, certa historiografia, confere destaque ao Canadá colonial. Ali as províncias do Quebece da Nova Escócia levaram à frente dezesseis levantamentos populacionais entre 1665-1754. Em Nápoles e na Sicília ocorreram iniciativas semelhantes ainda no século XVII. Porém, teria sido a Suécia a partir de 1749 a contar com censossistemáticos e periódicos. Em seguida estes levantamentos foram se disseminando pela Europa - Noruega e Dinamarca em 1769, Espanha em 1787, França 1800, Inglaterra 1801. BOTELHO, Tarcísio & PAIVA, Clotilde Andrade & CASTRO, José Flávio. Políticas de população no Período Joanino. In SCOTT, Ana Silvia V. & FLECK, Eliane Cristina Deckman. A corte no Brasil: população e sociedade no Brasil e em Portugal no início do século XIX. pp. 59-89. p.60.
208 FOUCAULT, Michel. Op. cit. 209 Sousa, Fernando de.Op. cit. p.7.
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principalmente, de se gerenciar a população. Esta começara a se tornar objeto de preocupação de um Estado, que buscava cada vez mais, por meio do aparelho burocrático que desenvolvia controlar, contar, classificar visando àquele que seria o resultado perfeito: a construção de riquezas e o desenvolvimento mercantil.210
No caso da Portugal pombalina 211, esta nova reflexão acerca do contingente demográfico estaria vinculada aos preceitos da Aritmética Política de William Pety, pensador contemporâneo ao Marquês de Pombal, a preconizar que: os homens, sobretudo no que diz respeito ao seu potencial produtivo, consistiam na mais importante riqueza de um Estado.212
Este ideário que se veio narrando até o momento, antes de tudo europeu, encontrava vias de circulação na esteira do comércio. Circulava tanto quanto as mercadorias e chegava também ao Brasil, colônia de Portugal.213 As Listas Nominativas de Habitantes são, portanto, um acontecimento da segunda metade do século XVIII e em todo mundo dominado pelo império português.214
Nessa época, como já se teve oportunidade de indicar, a Capitania de São Paulo estava sob o comando geral do Morgado de Mateus. Conhecedor dos problemas econômicos que afetavam a metrópole e, também, muito identificado com as
210 BURMESTER, Ana Maria de Oliveira. Estado e População: o século XVIII em questão. In Revista da
Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra. Coimbra : 1999. pp 113-151. p.114.
211 No desenrolar do teatro dos poderes metropolitanos, à segunda metade do século XVIII, Sebastião
José de Carvalho e Melo o Marquês do Pombal ascendia ao poder. Principal ministro de D. José I, a ele tem sido reputado um intenso processo de centralização de poder que se verificou naquele reinado. Conforme a historiografia tem observado, tal processo foi marcado por uma série de ações visando a um afastamento da antiga nobreza dos círculos mais imediatos do rei, o controle e, mesmo, o alijamento da influência jesuítica em Portugal e seus domínios, e, finalmente, um enquadre na nova ordem – pombalina – dos demais corpos do estamento social português. Cf. FALCON, Francisco C. A época pombalina. São Paulo : Ática, 1982; FALCON, Francisco C. Pombal e o Brasil. In: TENGARRINHA, José (org.). História de Portugal. 2. ed. São Paulo: EDUSC/ Instituto Camões, 2001. MAXWELL, Keneth. Marquês de Pombal: paradoxo do iluminismo. Rio de Janeiro : Paz e Terra,1996.
212 SANTOS, Antonio Cesar. Vadios e Política de Povoamento na América Portuguesa, na segunda
metade do século XVIII. in ESTUDOS IBERO – AMERICANOS. PUC RS, v. XXVII, no. 3, 2001. p.12 Cf. Principalmente: SANTOS, Antonio Cesar. Para viverem juntos
213BURMESTER, Ana Maria de Oliveira. Op. cit. SOUZA, Fernando de. História da Estatística em
Portugal. Lisboa : Instituto Nacional da Estatística, 1995.
214 Cf. BELLOTTO, Heloísa L. Op. cit. Ver, também, por exemplo o caso de Moçambique: WAGNER,
Ana Paula. População no Império Português: recenseamentos na África Oriental Portuguesa na segunda metade do século XVIII. Tese de Doutorado. Universidade Federal do Paraná. Curitiba, 2009.
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orientações pombalinas de governo, ao assumir a governança Dom Luiz atuou em diversas frentes. A defesa e consolidação da posse dos territórios sulinos, bem como a preocupação com o desenvolvimento econômico da Capitania paulista, refletido em estímulos à produção agrícola de exportação e à dinamização do comércio, destacaram- se como preocupações centrais de seu governo. Por suas mãos é que seriam, afinal, implementada, a 30 de julho de 1765, as Listas Nominativas quréditos se constituíram no a contabilidade sistemática da população paulista concretizada nas Listas Nominativas.215
Dito isso, variando de acordo com as décadas em que tais listas foram produzidas, alguns objetivos específicos podem ser destacados na confecção das Listas Nominativas de Habitantes, tais como: a busca pelo conhecimento das potencialidades militares do efetivo populacional da colônia em função das disputas territoriais com a Espanha216;o conhecimento da população para melhor manobrá-la de acordo com as conveniências de ocupação do território e, finalmente, uma preocupação de cunho econômico, a busca do aperfeiçoamento na arrecadação de impostos.217
É, justamente, a partir dos anos finais do século XVIII que a confecção desse conjunto censitário sofrerá inflexões adquirindo um sentido predominantemente econômico. Fica marcada uma política de cunho mercantilista voltada para a racionalização da máquina administrativa metropolitana e pela tentativa de incremento da agricultura e do comércio dos domínios portugueses. Tal transformação concretiza-se
215Como é sabido, tal empreendimento seria coordenado pela autoridade local representada pelos Capitães
Mores de cada vila. Cf. MARCÍLIO, Maria Luiza.(b) La ville de São Paulo: peuplement et population, d´aprés lês registres paroissiaux et les recensements anciens 1750-1850. Paris : Presses Universitaires de France, 1973.p. 98 - 99. Como bem lembra Sérgio Nadalin “é possível concluir que não foi simples coincidência, a relativa sincronia entre a melhor organização dos registros paroquiais – batismos, casamentos, óbitos - e o esforço para estabelecer as primeiras estatísticas demográficas da colônia, iniciado na década de 1760. estes dois empreendimentos foram realizados com o auxílio das duas Instituições melhor organizadas no território, a Igreja e a Milícia.”215 NADALIN, Sérgio O. História e
Demografiaelementos para um diálogo. Demographicas vol.I. Campinas : Associação Brasileira de estudos Populacionais,2004. p.30.
216 NADALIN, Sérgio Odilon. (d) A demografia numa perspectiva histórica. Belo Horizonte : ABEP,
1994. p.30.
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por meio de novas técnicas de recenseamento instituídas mediante a Ordem Régia de 21 de outubro de 1797 promulgada por D. Maria I.218
Se o recenseamento populacional passará a ser enriquecido com novos componentes tais como a naturalidade de todos os indivíduos, a ocupação, a produção e, finalmente, as despesas e réditos (rendimentos) anuais das cabeças dos fogos219, uma importante novidade consistiu, justamente, na confecção de mapas gerais que passam a acompanhar as listas. As ordens do capitão-mor Manoel Antônio Pereira, que servem como epígrafe para este item, adequam-se exatamente a essa tendência e geraram parte dos mapas econômicos já utilizados aqui, quando se tentou proceder a um enquadre das atividades desenvolvidas a partir do porto de Paranaguá. Para além das tabelas econômicas, arrolando consumo, importação e preços surgem também os mapas populacionais agregando dados de ordem demográfica, em que são contabilizados os totais de habitantes divididos por idade, sexo, estado civil, cor e condição social.
Contudo, se as intenções e prioridades que orientaram a produção dessa fonte variaram no tempo, importa salientar que a chegada da Corte ao Brasil, em 1808, não teria implicado grandes mudanças nas práticas de recenseamento da população brasileira levadas a cabo até então. Pelo contrário, mediante o fenômeno que Maria Odila da Silva Dias categorizou como a “interiorização da metrópole”, teria ocorrido um reforço dos controles metropolitanos que redundou numa continuidade nos processos de produção dos censos. Até 1830, podem ser notados...
“os mesmos procedimentos e as mesmas preocupações pragmáticas que orientavam a Coroa portuguesa. Os funcionários encarregados dos censos eram praticamente os mesmos utilizados nos momentos anteriores à independência. Os capitães de ordenanças elaboravam as listas locais contendo a discriminação de todos os habitantes residentes em seus distritos. Depois estas listas nominativas de habitantes eram enviadas aos governos centrais das províncias, os quais se encarregavam de apurar os resultados e, quando, solicitados enviá-los ao Rio de Janeiro.” 220
218 Cf. MARCÍLIO, Maria Luiza. Op. cit.
219 Existe já grande discussão acerca das significações da terminologia Fogo. Para o momento,
entretanto, se quer salientar apenas que este é tomado aqui como um vocábulo técnico-administrativo – característico da estrutura dos censos – significando a casa mais o arranjo socioeconômico dos membros da família. Cf. ARRUDA, Alzira Campos Lobo. Casamento e família em São Paulo colonial. São Paulo : Paz e Terra, 2003. p.238.
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Após 1831, em função das conturbações próprias do contexto regencial, se sucede um período de desorganização na feitura dos maços de população. Trata-se de uma fase de transição dos antigos modelos de censos coloniais para novos formatos.221 Ocorrem mudanças na esfera das responsabilidades acerca da produção dos registros censitários.222 Isso se reflete tanto numa falta de padronização quanto numa falta de regularidade na confecção deles, o que não impede, porém, a ocorrência de diversas tentativas de organização de um grande censo em âmbito nacional. Essas, contudo, só se concretizarão com a realização do censo imperial de 1872223, a partir do qual se inaugura a fase estatística no Brasil, como quer Maria Luiza Marcílio.224
Fontes que encerram uma ampla gama de possibilidades analíticas, as listas nominativas vêm sendo utilizadas pelos historiadores desde fins da década de 1960, tendo como marcos de partida a presença de Louis Henry no Brasil225 e o trabalho seminal de Maria Luiza Marcílio: La Ville de São Paulo: Peuplemente Population. O uso desta documentação, levado a cabo, sobretudo, por investigadores da família e da população, proporcionou mesmo a superação de paradigmas historiográficos.
221Cf. BACELLAR, Carlos de Almeida Prado & BASSANEZI, Maria Silvia B. Levantamentos de
população publicados na Província de São Paulo no século XIX. Disponível em:
http://www.abep.nepo.unicamp.br/docs/rev_inf/vol19_n1_2002/vol19_n1_2002_6artigo_113_129.pdf
Acesso em: 23/02/2011.
222 Os corpos de milícia são extintos cedendo lugar para as guardas nacionais. Os Capitães Mores, antigos
responsáveis pela elaboração dos recenseamentos, são substituídos por funcionários provinciais.
223 Cf. DAUMARD, Adeline& BALHANA, Altiva P. & GRAF, Márcia Elisa de C. História Social do
Brasil Teoria e Metodologia.Curitiba : Editora da UFPR,1984. pp.102-103.
224 Segundo Maria Luiza Marcílio as fontes de natureza demográfica seguem a seguinte periodização:
fase pré estatística: início da colonização até o fim da primeira metade do setecentos; fase proto estatística: segunda metade do século XVIII até 1872, quando se efetua o primeiro recenseamento nacional; por fim, a fase estatística quando, a partir de 1872, os levantamentos censitários de toda a população nacional passam a ter objetivos exclusivamente demográficos e a serem realizados, periódica e sistematicamente, por serviços especializados do Governo, para esse fim. MARCÍLIO, Maria Luiza. Op. cit.
225 No Paraná esta presença marcou época. Uma geração de historiadores egressos da primeira turma do
curso de pós-graduação em História da UFPR, utilizando-se das técnicas propostas por Louis Henry e Michel Fleury, produziram uma série de dissertações de cunho demográfico a partir das listas nominativas de habitantes. Para um panorama acerca desta produção cf: MARCHI, Euclides. et. al. Trinta anos de historiografia: um exercício de avaliação. In REVISTA BRASILEIRA DE HISTÓRIA. v.13, no 25/26,
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Mediante o uso das listas nominativas, Maria Luiza Marcílio demonstrou aquilo que chamou de um crescimento assombroso do contingente demográfico paulista entre 1700-1765.226Tal constatação inclui a autora no rol dos historiadores que marcaram um ponto de virada na historiografia paulista, reavaliando as ideias de que, no período anterior à restauração da autonomia administrativa da capitania, o território estava abandonado à pobreza e à decadência, fustigado pelas migrações em direção às áreas de mineratórias. Nessa mesma obra, analisando o perfil dos domicílios constantes dos maços de população paulistas, a autora demonstrou uma importante incidência de famílias nucleares criticando, a partir disso, certa historiografia que tomava a família extensa e patriarcal como preponderante nas sociedades tradicionais brasileiras.227
Utilizando maços populacionais, entre outras fontes, Robert Slenes indicou, contrariando uma tradição historiográfica que impunha aos escravos condições anômicas de existência, que a estabilidade da família escrava era um fato concreto sem que ao mesmo tempo fossem excluídas as tensões relacionais entre senhores e escravos.228
Argumentando numa mesma direção, porém, num ambiente diverso do analisado por Robert Slenes, caracterizado por reduzida presença de cativos onde senhores e escravos muitas vezes trabalhavam lado a lado, Cacilda Machado, utilizando listas nominativas, apontou que a reprodução da hierarquia local dependia “menos do ilimitado poder senhorial sobre os corpos escravos, que teoricamente a instituição pressupõe, e mais da conformação específica da trama social tecida no confronto das vontades pessoais”.229
226MARCÍLIO, Maria Luiza. 2000. Op. cit. p.72.
227MARCÍLIO, Maria Luiza. 2000. Op. cit. p.191. Fato que não exclui a vigência do patriarcalismo nesta
mesma sociedade. Mesmo as residências nucleares poderiam fazer parte de uma estrutura mais ampla de famílias patriarcais. Ver nessa direção por exemplo: MACHADO, Cacilda. A trama das vontades: negros, pardos e brancos na construção da hierarquia social no Brasil escravista. Rio de Janeiro : Apicuri, 2008.
228 SLENES, Robert. A.W. Na senzala, uma flor. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1999. Cf. MOTTA,
Jose Flavio. Corpos Escravos, vontades livres: posse de cativos e familia escrava em Bananal (1801- 1829). São Paulo : Annablume/Fapesp, 1999.
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Mediante o cruzamento nominativo, em que os maços populacionais também tiveram papel imprescindível, Carlos Bacellar conseguiu mapear, pela primeira vez, a dinâmica da exposição de crianças à porta dos domicílios. Prática que até inícios do oitocentos teria sido a mais difundida no Brasil, mas que restava – ou talvez ainda reste – como a menos estudada.230
Diversos e não menos importantes autores poderiam ser acrescentados à lista iniciada acima. Mas não se trata aqui de alongá-la, seria exaustivo. Para o momento, esses exemplos são utilizados a fim de marcar a virtualidade desta fonte que permite uma rica e diversificada recomposição não só do nosso passado demográfico, mas também numa perspectiva mais microscópica, das diferentes trajetórias da vida dos indivíduos que ali foram classificados.
Entretanto, infelizmente, são pouquíssimos os arquivos brasileiros que podem oferecer este corpo documental aos seus consulentes.231 Não à toa os estudos que acabaram de ser descritos concentraram suas análises em áreas do Sul e do Sudeste brasileiro. Afinal, ao que tudo indica, é no Arquivo Público de São Paulo que se resguarda a coleção mais completa desta série documental.
Do ponto de vista cronológico, a série abrange os anos de 1765 até 1850, lembrando que a partir de 1830 começam a surgir lacunas. Do ponto de vista geográfico, a série comporta todas as vilas da antiga capitania e depois província de São Paulo. Considerando que o Paraná só se desmembrou da Capitania e depois província de São Paulo em 1853, constam da coleção guardada no Arquivo Público do Estado de São Paulo diversos recenseamentos que preservam notícias dos contingentes populacionais de antigas vilas e freguesias que hoje são cidades paranaenses. Entre elas a Vila de Nossa Senhora do Rosário de Paranaguá, atual Paranaguá.
A série de maços populacionais relativos a esta vila, preservada no Arquivo Público do Estado de São Paulo, inicia-se no ano de 1767 e segue século XIX adentro
230BACELLAR, Carlos de A.P.(b) Op. cit.
231BACELLAR, Carlos de Almeida P.(c) Uso e maus uso dos arquivos. In PINSKY, Carla Bassanezi.
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até o ano de 1836.232 Os levantamentos feitos sobre a primeira metade do século XVIII