1º Indicador da EAC
Educação ambiental como processo amplo e vinculado às esferas social, cultural, histórica, política e econômica com vistas à transformação societária
Para esse 1º indicador, vinculado ao 1º eixo denominado teórico-conceitual, foram analisadas as concepções dos educandos acerca do conceito sobre Educação Ambiental, isto é, suas definições e argumentações acerca do tema. Essas concepções, registradas, nos questionários diagnóstico e final foram comparadas e analisadas com objetivo de verificar o alcance e apropriação do conceito de educação ambiental crítica pelos educandos.
No processo de análise de conteúdo foram estabelecidas como parâmetro para interpretação e discussão dos dados produzidos as duas abordagens da educação ambiental contrastadas por Loureiro (2012): a concepção tradicional e conservadora e a perspectiva crítica e emancipatória.
A primeira pautada em aspectos que privilegiam a dicotomia homem-natureza tendo o ambiente como algo exterior à vida humana e, portanto, desconexo da complexidade que nos envolve e privilegiando a falsa ideologia da dicotomia sociedade-natureza em que os aspectos que constituem a realidade não são comunicáveis: histórico, político, social, cultural e econômico em que estamos inseridos.
Outra característica marcante da perspectiva tradicional e conservadora é a relevância dada aos aspectos comportamentais individualizados e de ações superficiais e isoladas da ação coletiva permeadas dos clichês do tipo “cada um fazer a sua parte” no processo de “conscientização para preservação do meio ambiente” comumente presentes nas práticas educativas, por meio de ações e eventos pontuais como por exemplo: semana do meio ambiente, dia da árvore, dia mundial de limpeza das praias, etc, abordados de forma linear e isolada sem problematizar a raiz da causa da crise ambiental em nossa sociedade, ou seja, o modelo de desenvolvimento imposto pelo paradigma do capitalismo selvagem.
Tais práticas tradicionais e conservadores da educação ambiental, apesar de bem intencionadas, ao serem desprovidas de uma reflexão crítica da realidade em sua complexidade e totalidade, legitimam a reprodução do modelo neoliberal que não leva em conta as ações coletivas e democráticas para solução dos problemas que afeta a todos invariavelmente, mas ao contrário, focando apenas na retórica das atitudes individuais e de caráter higienizador em relação ao caos ambiental em que está imerso o planeta. Essa ideologia conservacionista não busca por mudanças que impliquem na transformação do modelo civilizatório com vistas mudança de paradigmas, mas contribuiu para a manutenção de um sistema que privilegia poucos em detrimento de todos.
Cabe esclarecer que não devem ser desvalorizas as ações e práticas de preservação e uso racional dos recursos naturais, pois isso faz parte de nossa constituição humana e ontológica. Todavia, a ênfase apenas ao ativismo ecológico por si só não nos levará a superação das desigualdades e injustiças ambientais latentes em nossa sociedade.
De modo antagônico à educação ambiental conservadora em sua abordagem, objetivos e interesses se apresenta a educação ambiental emancipatória. Para melhor explicitar tais contradições e disparidades entre ambas concepções foi elaborado o quadro abaixo (Quadro 7), baseado em Lima (2002), expondo cinco contrastes entre os referidos enfoques da educação ambiental que servirão de base para análise de conteúdo dos dados produzidos pelos protagonistas da pesquisa referentes ao primeiro indicador da educação ambiental crítica em tela:
Quadro 7 – Contrastes entre as tendências conservadora e emancipatória da EA
Tendência conservadora Tendência emancipatória concepção reducionista, fragmentada e
unilateral da questão ambiental
compreensão complexa e multidimensional da questão
compreensão naturalista e conservacionista da crise ambiental
atitude crítica ante os desafios da crise civilizatória
(continuação) abordagem despolitizada da temática ambiental politização e publicização da problemática
socioambiental leitura individualista e comportamentalista da
educação e dos problemas ambientais
convicção de que o exercício da participação social e a conquista da cidadania são práticas indispensáveis à democracia e à emancipação socioambiental
separação entre as dimensões sociais e naturais da problemática ambiental
vocação transformadora dos valores e práticas contrárias ao bem-estar público.
Fonte: Elaborado pelo autor adaptado de Lima (2002) 2º Indicador da EAC
Vinculação das ações educativas formais, não formais e informais em processos permanentes de aprendizagem, atuação e construção de conhecimentos adequados à compreensão do ambiente e problemas associados.
Esse segundo indicador da educação ambiental crítica está vinculado ao 2º eixo de análise denominado de método-filosófico que se refere às bases pragmáticas e teóricas sobre as quais se desenvolveu a Sequência Didática aplicada na pesquisa, relacionadas sobretudo à educação formal e não formal.
O 2º eixo tem como engrenagem principal a complementaridade entre os espaços de educação formal e de educação não formal. Este último, manifesto no locus de fronteira adjacente ao primeiro onde estão situadas as três ilhas costeiras de Piúma: do Gambá, do Meio e dos Cabritos, enquanto o primeiro espaço representado pelo Ifes-Campus Piúma em seus limites físicos (salas de aula, auditórios, laboratórios, etc), políticos e pedagógicos (Projeto Pedagógico institucional - PPI, Projeto Pedagógico de Curso - PCC).
Salienta-se que a análise de tais espaços não é circunscrita apenas às possibilidades pedagógicas de seus atrativos naturais, mas sobretudo como espaço de reflexão crítica sobre as contradições socioambientais presentes em seu entorno na perspectiva identificação de práticas e ações que gerem mudança e transformação do status quo presente.
Referenciada nos pressupostos teóricos de Gohn (2010), essa perspectiva de complementaridade pressupõe a ideia de que no processo educativo as propostas e práticas pedagógicas da educação formal não têm hegemonia sobre as ações da educação não formal, tampouco que as atividades executadas na educação não formal sejam apenas acessórias ou apêndices da educação formal. Na realidade ambas se complementam num processo recíproco de troca de saberes e práticas experimentais objetivando conjuntamente o mesmo propósito, isto é, a formação dos sujeitos “ambientalmente alfabetizados” para uma leitura crítica da realidade, exercitando a autonomia e protagonismo na construção do conhecimento e formação para uma a cidadania qualificada com vistas à construção de uma civilização socialmente justa e ambientalmente sustentável.
Portanto, na busca evidências desse 2º indicador da Educação Ambiental Crítica o pesquisador procurou identificar a vinculação das ações educativas formais e não formais (e indiretamente informais) no processo de construção do conhecimento adequados à compreensão do ambiente e problemas associados. Para tanto, utilizou a técnica de análise de conteúdo, isto é, exploração, análise e interpretação dos dados produzidos, tanto nos questionários (diagnóstico e final) quanto nos registros dos diários de bordo, conforme proposto por Bardin (2011).
3º Indicador da EAC
Práxis educativa cultural e informativa, fundamentalmente política, formativa e emancipadora, portanto, transformadora das relações sociais existentes
Neste 3º e último indicador foram analisados os resultados das ações e práticas pedagógicas da SD organizada nos três momentos pedagógicos de Delizoicov, Angotti e Pernambuco (2011) já detalhados na fundamentação teórica: problematização inicial (PI), organização do conhecimento (OC) e aplicação do conhecimento (AC).
A partir da abordagem temática freireana - base de construção da SD aplicada - foram analisados os resultados da práxis educativa a partir dos relatos dos protagonistas da pesquisa no decorrer da ação investigativa.
As concepções dos educandos quanto ao processo pedagógico da instituição, produzidas e coletadas preliminarmente no início da pesquisa (questionário diagnóstico), foram contrastados com os resultados SD aplicada (questionário final), considerando também os momentos intermediários contidos nos registros dos diários de bordo. Tais dados também foram analisados ainda em relação à proposta pedagógica da instituição disposta em seu Projeto Pedagógico Institucional - PPI, bem como no Projeto Pedagógico do Curso Técnico em Pesca Integrado ao Ensino Médio do Ifes Campus Piúma - PPC, locus institucional da pesquisa.
Por meio dos dados apresentados foi realizada uma breve discussão acerca da descrição da proposta pedagógica prevista nos documentos oficiais e a práxis educativa efetivamente desenvolvida no cotidiano escolar. Foram analisados ainda outros aspectos a partir de categorias de análise construídas na perspectiva da vinculação dos conteúdos curriculares com a realidade de vida da comunidade escolar, da articulação entre os conteúdos e a problematização da realidade e por fim, sobre a construção participativa da proposta pedagógica.