2.1 ABORDAGEM CONCEITUAL
2.1.4 Indicadores de Sustentabilidade
O aumento dos níveis de produção e de consumo e o uso excessivo de recursos naturais são fatores que podem prejudicar tanto o meio ambiente quanto a existência da humanidade. Nesse sentido, a pressão principalmente da sociedade por organizações mais sustentáveis que busquem minimizar e evitar os impactos ambientais e sociais provenientes de suas atividades está se intensificando mundialmente.
Nesse contexto, a ONU realizou em 1992, no Rio de Janeiro, a Conferência das Nações Unidas sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento adotando a Agenda 21 como um instrumento de planejamento para a construção de sociedades mais sustentáveis (MMA, 2019). Essa conferência foi um dos grandes incentivadores no uso de indicadores de sustentabilidade, onde foi criada a Comissão de Desenvolvimento Sustentável (CDS), sendo responsável pelo acompanhamento do avanço do desenvolvimento sustentável nos países (VAN BELLEN, 2004). Nos primeiros encontros, que ocorreram da CDS, foram abordadas a importância e a necessidade de se criar padrões que auxiliem na medição do progresso da sociedade em relação a sustentabilidade (VAN BELLEN, 2004; MOLDAN; BILHARZ,
1997).
Segundo Hammond (1995), o termo indicador pode ser considerado como algo que possa informar sobre a evolução em direção ao atingimento de uma meta, como também pode ser entendido como algo que deixa mais notável uma tendência ou fenômeno, que não seja possível detectar imediatamente. E segundo Takashina (1999), o indicador representa de forma quantificável as características de produtos e processos, e contribui para a melhoria do desempenho deles. Complementando o entendimento do que é o indicador, o IBGE define como sendo uma ferramenta constituída por uma ou mais variáveis que, associadas de diversas formas, revela significados mais amplos sobre os fenômenos aos quais se refere (IBGE, 2015).
Em 1994, John Elkington criou o tripé de sustentabilidade denominado Triple Botton
Line (TBL) que tem como objetivo examinar os impactos econômico, ambiental e social
(EAS) de uma empresa (ELKINGTON, 1994). Para o mesmo autor, a sustentabilidade é um equilíbrio entre os três pilares abordados anteriormente (ELKINGTON, 2018).
Segundo IBGE (2015), a elaboração dos indicadores de desenvolvimento sustentável, que aborda as dimensões EAS, no Brasil foi inspirado pelo movimento internacional liderado pela CDS. Em 1996, a CDS publicou o documento Indicators of sustainable development:
framework and methodologies, mais conhecido como Livro Azul, no qual apresenta um
conjunto de indicadores com suas respectivas fichas metodológicas e diretrizes para a sua utilização, que serve como referência para os países (IBGE, 2015). Nesse sentido, o IBGE classifica as dimensões da seguinte forma:
a) “Dimensão econômica trata de questões relacionadas ao uso e esgotamento dos recursos naturais, à produção e gerenciamento de resíduos, ao uso de energia e ao desempenho macroeconômico e financeiro do país. É a dimensão que se ocupa da eficiência dos processos produtivos e das alterações nas estruturas de consumo orientadas a uma reprodução econômica sustentável de longo prazo.” b) “Dimensão ambiental trata dos fatores de pressão e impacto, e está relacionada
aos objetivos de preservação e conservação do meio ambiente, considerados fundamentais para a qualidade de vida das gerações atuais e em benefício das gerações futuras.”
c) “Dimensão social corresponde, especialmente, aos objetivos ligados à satisfação das necessidades humanas, a melhoria da qualidade de vida e a justiça social” (IBGE, 2015).
A fim de identificar os estudos que abordam os indicadores de desenvolvimento sustentável nas três dimensões, foi desenvolvida a tabela 2. Essa tabela inclui o tema do trabalho, o autor e o ano da publicação, como também a quantidade de indicadores por dimensão econômica, ambiental e social e consequentemente o somatório da quantidade dos
indicadores das três dimensões. Foram analisados dezessete estudos que possuem relação com indicadores de sustentabilidade.
Tabela 2 - Estudos sobre indicadores de sustentabilidade
Fonte: Elaboração própria
Econômica Ambiental Social Total 1 Objetivos do desenvolvimento sustentável e
condições de saúde em áreas de risco
Djonú et al .
(2018) 1 12 13 26
2
Sustentabilidade urbana na região
metropolitana de Santarém, Pará, Brasil nos anos 2000 e 2010
Ferreira; Vieira
(2018) 0 9 0 9
3 Ranking de competitividade dos estados
Centro de Liderança Pública
(CLP, 2018)
7 4 27 38
4
Ecovilas Brasileiras e indicadores de desenvolvimento sustentável do IBGE: uma análise comparativa
Belleze et al .
(2017) 2 5 4 11
5
Evolução dos indicadores de desenvolvimento socioeconômico nos municípios paranaenses que recebem royalties da Itaipu Binacional
Schlindwein et
al . (2017) 4 0 5 9
6
Indicadores socioeconômicos e a desertificação no alto curso da bacia hidrográfica do rio Paraíba
Alves et al .
(2017) 1 1 4 6
7 Barômetro da sustentabilidade aplicado ao município de Moju, Estado do Pará
Cardoso et al .
(2016) 3 4 20 27
8 Barômetro da sustentabilidade dos estados da Amazônia
FAPESPA
(2016) 6 7 14 27
9
Saúde ambiental e desenvolvimento na Amazônia legal: indicadores socioeconômicos, ambientais e sanitários, desafios e perspectivas
Viana et al .
(2015) 3 7 12 22
10 Indicadores de desenvolvimento sustentável -
Brasil IBGE (2015) 11 19 21 51
11 Indicadores de Desenvolvimento Sustentável -
Brasil: análise e contribuições Souto (2013) 11 20 19 50
12 Indicadores de sustentabilidade: proposta de caminho a seguir
Feo; Machado
(2013) 10 10 10 30
13 Política social e desenvolvimento no Brasil Castro (2012) 6 4 16 26
14 Desempenho do Índice de Desenvolvimento Socioeconômico gaúcho em 2008
Zuanazzi; Wink
Junior (2011) 2 2 8 12
15
Índice de Desenvolvimento Sustentável Local e suas influências nas políticas públicas: um estudo exploratório no município de Alagoa Grande - PB
Macedo;
Candido (2011) 7 6 13 26
16
Indicadores de sustentabilidade: em busca de um modelo de integração e de diferenciação estratégica para a gestão empresarial
Hourneaux Júnior
et al . (2010) 4 4 4 12
17 Avaliação de desenvolvimento territorial em quatro territórios rurais no Brasil
Waquil et al .
(2010) 7 6 6 19
Dimensão
A partir do referencial teórico dos indicadores de sustentabilidade, apresentado na tabela 2, foi possível identificar os principais indicadores abordados em cada uma das dimensões. A lista dos indicadores está representada na tabela 3.
Tabela 3 - Indicadores mais abordados nos estudos
Dimensão Indicador
Econômico
Extrema pobreza (%) Índice de Gini
Produto Interno Bruto (PIB) per capita Renda per capita
Taxa de atividade (% - 18 anos ou mais) Taxa de trabalho infantil
Ambiental
Acesso à água Coleta de lixo (%)
Emissões de CO2
Esgotamento urbano (%)
População em domicílios com água encanada (% da população) População em domicílios com banheiro e água encanada (% da população)
Social
Abastecimento de água e esgotamento sanitário inadequados (% pessoas)
Acesso à energia elétrica (%) Acesso à internet (%)
Déficit habitacional total Densidade demográfica Esperança de vida ao nascer
IDEB anos finais do ensino fundamental IDEB anos iniciais do ensino fundamental
IDHM - Índice de Desenvolvimento Humano Municipal Inserção econômica dos jovens
Número de leitos hospitalares por 1.000 habitantes Número de unidades de saúde
População total
Prevalência de desnutrição total (Subnutrição e desnutrição no primeiro ano de vida)
Taxa de analfabetismo Taxa de desemprego
Taxa de evasão escolar no ensino fundamental (%) Taxa de evasão escolar no ensino médio (%)
Taxa de frequência escolar (% de 6 a 17 anos na escola) Taxa de mortalidade infantil (%)
Taxa de urbanização
Como pode ser observado na tabela 3, a dimensão social possui uma variedade maior de indicadores sociais. Na maioria dos estudos analisados, dez dos dezessete, os indicadores dessa dimensão foram subdivididos em temas para melhor compreendê-los, sendo os mais comuns: saúde, educação, infraestrutura, dados da população. Para as dimensões econômica e ambiental, essa subdivisão não se configurou como representativa para os estudos analisados, pois se apresentou em apenas quatro dos dezessete estudos analisados.
3 ABORDAGEM APLICADA DA RESPONSABILIDADE SOCIAL NAS
ORGANIZAÇÕES
3.1 AVALIAÇÃO DAS AÇÕES DAS EMPRESAS EM SUSTENTABILIDADE
Assim como há preocupação da sociedade em consumir produtos e serviços de empresas consideradas sustentáveis, os investidores também seguem com essa tendência de investir em empresas que sejam socialmente e ambientalmente responsáveis, sustentáveis, além de serem rentáveis. Nesse sentido, os fundos de Investimentos Socialmente Responsáveis (ISR), selecionam empresas que geram lucro para participarem de carteiras, mas que tenham também um foco na preservação e mitigação de impactos ao meio ambiente, que possuam práticas de responsabilidade social e que sejam éticas (REZENDE; SANTOS, 2006).
Dessa forma, em 2005 no Brasil, a Bolsa de Valores, Mercadorias e Futuros de São Paulo (BM&FBOVESPA), primeiramente financiado pela International Finance Corporation (IFC), criou o Índice de Sustentabilidade Empresarial (ISE) para ser uma referência para os investimentos socialmente responsáveis e cujo o objetivo é promover um ambiente de investimento que seja compatível com as exigências e demandas sustentáveis da sociedade contemporânea e incentivar a responsabilidade ética das organizações (BM&FBOVESPA, 2019).
O ISE é um índice que mede o retorno de uma carteira teórica composta por ações de empresas que possuem comprometimento com a sustentabilidade empresarial e com a responsabilidade social. Participam da seleção para a carteira do ISE as empresas que detêm
as 200 ações com maior liquidez na bolsa (BM&FBOVESPA, 2019). A carteira do ISE de
2019 é composta por 28 empresas de 12 setores, como pode ser observado na tabela 4:
Tabela 4 - Carteira ISE 2019
AES Tiete CCR Ecorodovias Fleury Lojas
Americanas Telefônica
B2W Cemig EDP Itaú
Unibanco Lojas Renner Tim
Banco do
Brasil Cielo Eletrobras Itaúsa MRV Weg
Bradesco Copel Eletropaulo Klabin Natura
Braskem Duratex Engie Light Santander
O ISE auxilia no entendimento do comportamento das empresas no que se refere a sustentabilidade, distinguindo-as em relação ao desempenho organizacional nas dimensões econômica, ambiental, social e de mudanças climáticas (BM&FBOVESPA, 2019). Baseado nessa carteira, foram selecionadas quatro empresas para avaliar de que forma atuam nos temas relacionados a responsabilidade social e investimento social privado: Banco do Brasil, CEMIG, Natura, Engie. Essas empresas estão na lista das 100 organizações mais sustentáveis do mundo no ano de 2019, segundo a revista canadense Corporate Knights (COPORATE KNIGHTS, 2019). O ranking é realizado a partir da análise anual dos dados financeiros, relatórios de sustentabilidades e entrevistas com algumas das 7.500 empresas avaliadas, aproximadamente, que representam 21 países diferentes (MEIRELES, 2019).