2 FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA
2.6 INDICADORES DE SUSTENTABILIDADE COMO INSTRUMENTOS DE
2.6.1 Indicadores de sustentabilidade: história e principais aspectos
Os indicadores de sustentabilidade surgiram com a necessidade de mensuração dos fenômenos socioambientais no mundo ocidental, a partir da primeira metade do século XX, principalmente nos anos 1970, período que marcou as discussões em torno da agenda ambiental e do conceito de desenvolvimento sustentável, aprofundando os esforços para desenvolver instrumentos que pudessem medir o progresso em direção à sustentabilidade (GUIMARÃES; FEICHAS, 2009).
Veiga (2010) afirma que o debate sobre sustentabilidade tem suas raízes nas ciências: ecologia e economia. Na ecologia, o debate se deu através da compreensão do “equilíbrio” da sustentabilidade ecossistêmica corroborando com a ascensão do conceito de resiliência – a capacidade de um sistema de enfrentar o distúrbio sem afetar a sua estrutura. Essa convergência teórica levou à concepção de comparação entre a biocapacidade de um território e as pressões que são submetidos seus ecossistemas pelo aumento do consumo de energia e suas poluições. Comparação que resultou na formulação do indicador pegada ecológica.
O debate na ciência econômica gerou controvérsias entre concepções distintas. O embate entre “sustentabilidade fraca e forte”, no qual a primeira considera importante a regra de deixar um legado para as futuras gerações de três capitais: o capital propriamente dito; o ecológico/natural e o humano/social. Na contramão está a sustentabilidade “forte” que defende que sejam mantidos constantemente os serviços referentes ao capital natural (VEIGA, 2010).
Uma variante dessa segunda corrente, critica a ênfase nos estoques que ambas vertentes defendem sem se preocupar com o bem-estar social, fato esse que contribuiu para a busca de indicadores que retratassem a realidade, conforme Veiga (2010, p. 39):
Com o mesmo foco nos fluxos que há meio século viabilizou o surgimento e a padronização do sistema de contabilidade nacional, e que permitiu a mensuração do produto anual de cada país, cuja versão interna (PIB) se tornou o barômetro do desempenho socioeconômico. Suas mazelas foram severamente criticadas, especialmente por só considerar atividades mercantis e ignorar a depreciação de recursos naturais e humanos. O que justamente provocou um processo de busca por correções e extensões com o objetivo de transformá-lo em indicador de “bem-estar econômico sustentável”, depois rebatizado “indicador de progresso genuíno”.
Esses debates, juntamente com a preocupação ambiental, proporcionaram a realização de pesquisas que levaram à formulação dos indicadores de sustentabilidade. De acordo com Veiga (2010), o primeiro trabalho a tratar dessa questão foi de Nordhaus e Tobin (1972), que desaprovaram a ênfase dada ao progresso dos indicadores como o PIB e o PNB, considerados um mito que se desfaz quando substituído por uma medida que trate do bem-estar social. Nesse
sentido, os esforços dos referidos pesquisadores se deram no sentido de introduzir uma série de correções no método de cálculo do PIB, visando incluir aspectos relativos ao bem-estar social, chegando à “Medida do Bem-Estar Econômico”.
Nesse âmbito, Veiga (2010) destaca os trabalhos de Daly e Cobb Junior que resultaram no livro: For the Common Good (1989), que propuseram o “Índice de Bem-Estar Econômico Sustentável”, tendo grande repercussão prática, sendo calculado para 11 países (Canadá, Alemanha, Reino Unido, Escócia, Áustria, Holanda, Suécia, Chile, Itália, Austrália e Tailândia). Em 2004, esse índice foi transformado no Indicador de Progresso Genuíno (GPI – sigla em inglês), criado pela ONG americana Redefining Progress.
A publicação do relatório de Brundtland e a realização de conferências relativas à temática ambiental também contribuíram impulsionando pesquisas sobre indicadores de sustentabilidade, sendo os países europeus e o Canadá, os pioneiros no delineamento desses indicadores (QUIROGA, 2001). Porém, os trabalhos com essa temática se intensificaram a partir da Eco 92, com a participação da Comissão de Desenvolvimento Sustentável e outras propostas nacionais que buscavam incentivar o avanço nessa área (GUIMARÃES; FEICHAS, 2009).
De acordo com Veiga (2010), o problema desses índices, criados até o final da década de 1980, é que eles não foram capazes de mensurar a sustentabilidade. Esses indicadores partem dos dados das contabilidades nacionais para se chegar a um índice de bem-estar econômico, mas não chegam a representar um índice de sustentabilidade. Essa situação levou a novas abordagens, conforme mostra Veiga (2010):
a) construção de grandes e ecléticas coleções, ou dashboards; b) índices compostos ou sintéticos, com várias dimensões, cujas variáveis costumam ser alguns dos dados pinçados das mencionadas coleções; c) índices focados no grau de sobreconsumo, subinvestimento ou excessiva pressão sobre recursos.
Nesse ínterim, as pesquisas sobre indicadores passaram a demonstrar a necessidade de agregação de indicadores, proporcionando a formulação de índices que contemplassem as várias dimensões da sustentabilidade (econômica, social, ambiental). Nesse aspecto, Veiga (2010) destaca o trabalho de Lawn (2006), que mostrou a impossibilidade de apenas um indicador revelar simultaneamente a sustentabilidade do processo socioeconômico e o grau de qualidade de vida dele decorrente, reforçando, assim, a importância do estudo de diferentes indicadores no estudo da sustentabilidade.
Nesse aspecto, surgiram diversos indicadores com finalidades específicas: são indicadores ambientais, econômicos, de saúde e sociais, que por si só não são considerados
indicadores de sustentabilidade, mas que têm um potencial representativo dentro do contexto do desenvolvimento sustentável (VAN BELLEN, 2002). Guimarães e Feichas (2009) explicitam a existência de algumas categorias de indicadores: os indicadores sociais, econômicos e ambientais.
Nessa perspectiva, Souza (2011) revela que os índices como IDH, o Indicador Genuíno de Progresso, o PIB, não foram capazes de resolver um problema fundamental que envolve os índices agregados, o encobrimento de informações que impossibilitam visualizar o sistema como um todo, ocultando alguns setores e destacando outros.
Segundo Van Bellen (2002), os problemas complexos do desenvolvimento sustentável requisitam sistemas interligados, através da inter-relação de indicadores ou a agregação dos mesmos, possibilitando a avaliação da sustentabilidade e do desenvolvimento. Assim, apesar dos problemas que envolvem a agregação de indicadores, Van Bellen (2002) recomenda certo grau de agregação, de forma que os dados devem ser separados em grupos sociais ou setores, permitindo que se possa evidenciar os problemas de maneira concisa.
Nesse sentido, é importante compreender que o estudo dos indicadores, a mensuração da sustentabilidade, são temas recentes nas abordagens científicas e que necessitam de maior aprofundamento na elaboração de novos indicadores, avaliação dos atuais, correção, dentre outros aspectos.
De acordo com Marzall e Almeida (2000), apesar da realização de conferências sobre o tema, existem poucos resultados publicados neste campo científico, tendo em vista que a abordagem sobre os indicadores e a sustentabilidade é relativamente recente na comunidade acadêmica, apresentando uma pequena quantidade de trabalhos, além disso, os conceitos e pesquisas estão em fase de experimentação, não estando ainda disponíveis na academia e sociedade. Mediante o exposto, convém descrever os indicadores existentes e empregados na mensuração da sustentabilidade e do desenvolvimento sustentável.