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2 REVISÃO DE LITERATURA

2.1 Desigualdade e Pobreza

2.1.3 Indicadores Mais Comuns

O conhecimento do tamanho e do tipo da desigualdade e pobreza faz-se essencial aos tomadores de decisão em suas diversas instâncias, pois orienta a definição de políticas públicas específicas. Entretanto, não é fácil se determinar essa dimensão, em virtude, muitas vezes, da inconsistência de dados. A utilização de apenas o fator renda apurado mediante o Produto Nacional Bruto, renda per capita ou crescimento econômico não tem sido suficiente para medir o desenvolvimento. Recentemente outras dimensões têm sido introduzidas nos cálculos desses indicadores, principalmente as sociais.

Na zona rural, tal tarefa é mais complicada. Em busca de uma caracterização mais ampla, organismos internacionais introduziram o uso das “necessidades básicas insatisfeitas” como um indicador da intensidade da pobreza em comunidades e localidades rurais e urbanas, porém, por se tratar de grupos humanos heterogêneos, apenas esse indicador não é suficiente.

O Índice de Desenvolvimento Humano implementado pelo Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento também tem sido aplicado em vários países da América Latina e do Caribe, incluindo-se o Brasil, como indicador de pobreza rural, por combinar variáveis sociais e econômicas, aproximando-se mais da realidade. Outros indicadores têm sido desenvolvidos por

Organizações não-Governamentais, Governos, Universidades, Institutos de Pesquisas etc., sempre na tentativa de incorporar dimensões não cobertas por um ou outro.

ÍNDICE DE POBREZA

No Ceará, o Iplance destacou-se no estudo desse tema. Com vistas a dimensionar o quantitativo de pobres para o estado, utilizou-se de um indicador decomponível para expressar como uma soma ponderada de indicadores, calculados para subgrupos da população, pode responder quem são os pobres e quanto cada grupo contribui para a pobreza. O Índice de Pobreza, chamado simplesmente de proporção de pobres, divide a população por grupos (categorias), atribuindo valores ponderados a cada um. Os grupos foram divididos por estrato amostral, levando-se em consideração os dados de: idade da população, cor, sexo, idade do chefe da família e tipo de família.

LINHA DE POBREZA E DE INDIGÊNCIA

Este conceito tem como ponto central a renda, por ser uma medida de fácil quantificação e rápida comparação entre outros países. Mais comumente usada por institutos de pesquisa e organismos internacionais, a linha de pobreza é um parâmetro com a renda mínima, que visa garantir os custos mínimos de manutenção da vida humana: alimentação, habitação, transporte e vestuário em um cenário onde o governo é responsável pela saúde e educação. Derivada dessa, vem a linha de indigência, a cobrir apenas os custos mínimos de alimentação. Abaixo dessas linhas, as pessoas são consideradas pobres ou indigentes (DIMENSTEIN, 2002). Para os organismos internacionais, a linha de pobreza é medida em dólares americanos. No Brasil, embora seja comum a utilização de múltiplos de salários mínimos, se houver disponibilidade de dados devem-se usar informações sobre a estrutura de consumo das famílias, a partir do custo da cesta alimentar. O valor encontrado visa atender às necessidades nutricionais e calóricas de um indivíduo, e varia entre 2.000 e 2.500 calorias/dia, sendo 2.200 calorias o aceito pela OMS, por corresponder à linha de indigência (ROCHA, 2000).

No entanto, para os cálculos das demais necessidades básicas, o valor é arbitrado, o que diminui a consistência por ser bastante variável, quer seja por região, quer seja por indivíduo, zona rural ou urbana. Os valores arbitrados nem sempre condizem com a realidade, pois, para esse indicador, é necessário um estudo mais detalhado e definição de parâmetro16. Já a LI, neste caso equivalente ao valor da cesta alimentar, segue certo rigor, uma vez que é apurada

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sistematicamente por meio da Pesquisa de Orçamento Familiar realizada pelo IBGE, e segue parâmetros definidos, embora móveis. A Cepal adota este procedimento para o Brasil desde a década de 70 e multiplica este valor por dois, para o cálculo da LP (Idem ibidem).

INDICADORES DA QUALIDADE DE VIDA

A qualidade de vida relaciona-se diretamente com o ambiente onde vivem as pessoas e a ele se associam as demais dimensões. Por esta razão se critica o uso de indicadores meramente econômicos, tipo Produto Interno Bruto, por não registrar, segundo Hauwermeiren (1998), a perda do nível de bem-estar causada pelo crescimento (embora econômico) da contaminação, da violência, das doenças. O PIB não reflete o nível real de bem-estar. Ao contrário, se os gastos defensivos aumentam, o PIB também aumenta, já que esses gastos são atividades econômicas. As indústrias bélicas, de carros blindados, de máscara contra gases tóxicos exemplificam essa afirmação.

São inúmeros os avanços no desenvolvimento de indicadores de qualidade de vida. Usam-se vários processos, porém aqueles a utilizar os dados estatísticos censitários, coletados em intervalos de tempo não muito curtos, não refletem a dinâmica das relações de desigualdade e pobreza. Essas se modificam em resposta a fenômenos físicos, desastres climáticos, crises políticas e/ou econômicas, em intervalos inferiores ao tempo de coleta. Apesar, no entanto, dessas limitações, a homogeneidade e a sistemática nas coletas os fazem mais utilizados por instâncias internacionais e organismos de estudos e pesquisas nacionais.

No âmbito da Academia, muitas vezes são desenvolvidos parâmetros próprios de aferição envolvendo uma ou mais dimensões: psicossomática, social, econômica ou ambiental, com indicadores para habitação, meio ambiente, renda, qualidade de vida etc. Desses, alguns são adotados corriqueiramente, como é o caso do Índice de Gini, que mede a concentração, utilizada normalmente para aferir várias dimensões: renda e terra são as mais comuns. Varia de 0 a 1 e, quanto mais próximo de zero, mais desconcentradas são a renda e a posse da terra.

Ademais, a sistemática de cálculos desses índices é nova, data da década de 90 com o Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento, organismo ligado à ONU. O primeiro relatório anual, o Relatório de Desenvolvimento Humano, apresentado em 1990, passou a ser aceito como referência básica internacional. Nele, os países são classificados de acordo com o desempenho dos indicadores coletados.

Referidos indicadores de desenvolvimento humano permitiram a construção de vários índices, possibilitando a aferição de diferentes aspectos do desenvolvimento humano, o que representou avanço em relação à linha de pobreza por agregar as dimensões sociais.

O Índice de Desenvolvimento Humano, o Índice de Desenvolvimento Ajustado ao Gênero e a Medida de Participação segundo o Gênero são os principais indicadores. O IDH, construído todos os anos desde 1990, mensura as realizações médias do desenvolvimento humano básico num único índice composto e elabora uma classificação dos países; o IDG e a MPG, introduzidos no Relatório de Desenvolvimento Humano de 1995, são medidas compostas que refletem as desigualdades entre os seres no desenvolvimento humano. O IDG mede as realizações nas mesmas dimensões e utiliza as mesmas variáveis que o IDH, tendo em conta a desigualdade na realização entre homens e mulheres, enquanto a MPG mede a desigualdade entre os sexos nas oportunidades econômicas e políticas.

Essas dimensões do IDH, ora expostas, dão a combinação para seu cálculo, a variar entre o valor de zero (pior) e um (melhor). Quanto mais próximo de um, maior será o nível de desenvolvimento humano encontrado para o país, região ou área pesquisada (Quadro 1).

No Relatório de Desenvolvimento Humano de 1997 foi introduzido o conceito de pobreza humana e construído o Índice de Pobreza Humana. Enquanto o IDH afere as realizações médias nas dimensões básicas do desenvolvimento humano, o IPH mede as privações. Esse novo conceito, por incorporar dimensões que ultrapassavam a abordagem meramente econômica, até então amplamente dominante, representou grande avanço e causou profundo impacto na opinião pública, nas comunidades acadêmicas e nos governos do mundo afora.

Quadro 1 IDH, IDG, IPH-1, IPH-2 - Dimensões Iguais, Medidas Diferentes

ÍNDICE LONGEVIDADE CONHECIMENTO NÍVEL DE VIDA DIGNO

PARTICIPAÇÃO OU EXCLUSÃO

IDH Esperança de vida à nascença 1. Taxa de alfabetização de adultos 2. Taxa de escolaridade combinada Rendimento per capita ajustado em dólares PPC _

IDG Esperança de vida à nascença de mulheres e de homens 1. Taxa de alfabetização de adultos, mulheres e homens 2. Taxa de escolaridade combinada de mulheres e de homens

Rendimento per capita ajustado em dólares PPC, baseado nas parcelas de rendimentos auferidos de mulheres e de homens _ IPH-1 Para países em desenvol- vimento Percentagem de pessoas que não devem ultrapassar os 40 anos Taxa de analfabetismo de adultos Privação no aprovisionamento econômico medido por: 1. Percentagem da

população sem acesso a água potável

2. Percentagem da população sem acesso aos serviços de saúde 3. Percentagem de

crianças menores de cinco anos com peso insuficiente _ IPH-2 Para países industria- lizados Percentagem de pessoas que não devem ultrapassar os 60 anos Taxa de analfabetismo funcional de adultos Percentagem de pessoas que vivem abaixo da linha de privação de rendimento (50% do rendimento disponível médio das famílias)

Taxa de desemprego de longo prazo (12 meses ou mais)

Fonte: Gabinete do Relatório de Desenvolvimento Humano - Pnud/ONU.

APRÁTICA DE ELABORAÇÃO DE INDICADORES NO BRASIL

Mediante parceria com o Pnud, com o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada e a Fundação João Pinheiro, foi construído o Índice de Desenvolvimento Humano do Brasil e das Unidades da Federação, publicado o primeiro em 1996. Este documento apresentou o IDH e seus componentes desagregados por grandes regiões e por estados, possibilitando mapeamento mais preciso do desenvolvimento humano no país e análise muito mais acurada das disparidades existentes, que não podem ser percebidas ao se trabalhar apenas com as médias nacionais dos indicadores.

Nesta elaboração, utilizaram-se os dados dos Censos. Os avanços conseguidos na determinação desses indicadores permitiram a aplicação dos conceitos e medidas do desenvolvimento humano a unidades geo-político-administrativas ainda mais desagregadas que o nível estadual. Assim, foram criados dois novos índices: o Índice Municipal de Desenvolvimento Humano e o Índice de Condições de Vida.

Esse trabalho, pioneiro no mundo, possibilitou com novos aperfeiçoamentos o cálculo e a análise de índices de desenvolvimento humano para todos os municípios e microrregiões do Brasil, instrumento importante na determinação de políticas públicas de combate à desigualdade e pobreza.

Além dos índices sintéticos (IDH-M e ICV), o projeto gerou um conjunto de vinte indicadores econômicos e sociais de grande interesse, como a renda familiar per capita, os índices de concentração de renda, os indicadores referentes à escolaridade da população e ao atraso escolar. O indicador de trabalho infantil, os indicadores de condições de habitação e de saneamento, a esperança de vida ao nascer e a taxa de mortalidade infantil, por exemplo, são inéditos nesse nível de desagregação, com cobertura completa e homogênea de todo o território nacional.

O Índice de Condições de Vida é uma extensão do Índice Municipal de Desenvolvimento Humano, que incorpora, afora as dimensões longevidade, educação e renda, outros indicadores destinados a avaliar as dimensões infância e habitação. A exemplo do IDH-M, as fontes dos dados para o cálculo destas variáveis são também os Censos Demográficos e, embora utilize os três indicadores gerais do IDH-M, a diferenciação está nos dados micro, os quais são processados, o que permite a elaboração de um indicador mais qualitativo.

OÍNDICE DE DESENVOLVIMENTO MUNICIPAL NO CEARÁ17

Construído pelo Iplance com base na metodologia do IDH-M, teve o primeiro relatório em 1999. Este utilizou dados do Censo parcial de 1996-1997 e seguiu como objetivo mensurar os níveis de desenvolvimento alcançados pelos 184 municípios do estado, a partir da análise de um grupo de indicadores que possibilitaram traçar perfil e hierarquização desses municípios no contexto global do estado e ao mesmo tempo subsidiar decisões políticas que visavam contribuir para a erradicação da pobreza. Assim, colocaram-se à disposição da sociedade, de forma atualizada, “elementos que permitem avaliar resultados das gestões municipais, realizar estudos sobre o poder local e elaborar políticas públicas” (IPLANCE, 1999, p.5).

No cálculo do IDM, selecionou-se um conjunto de 27 indicadores sociais, demográficos, econômicos e de infra-estrutura de apoio. Os resultados foram obtidos com uso da técnica multivariada de análise fatorial, por meio do método de componentes principais, que

possibilita a construção de um índice específico para cada um dos quatro grupos de indicadores, classificados da forma a seguir: 1º grupo - fisiográficos, fundiários e agrícolas; 2º grupo - demográficos e econômicos; 3º grupo - de infra-estrutura de apoio; 4º grupo - sociais. Ao final, inclui-se um índice consolidado de desenvolvimento para cada um dos 184 municípios, que tanto permite comparações entre eles, em termos gerais, como entre os quatro grupos.

O segundo relatório saiu em 2002 com a atualização via Censo 2000. A utilização de metodologia única nas duas versões foi fundamental para as comparações decorrentes das variações, tanto no geral como dentro de cada grupo de indicadores em nível municipal, como se verá mais adiante.