2. INDICADORES DE DESEMPENHO DE PROGRAMAS DE LOGÍSTICA
2.4 Indicadores aplicados a programas de parceria de logística reversa
2.4.1 Indicadores operacionais internos
2.4.1.1 Indicadores operacionais das cooperativas
A posse de licenças ambientais válidas é um requisito à operação de qualquer
organização, incluindo as medidas mitigadores tangíveis ao manejo dos resíduos sólidos
urbanos. No estudo de Oliveira (2018), a autora avaliou a obtenção de licenças ambientais dos
centros de triagem como indicador de desempenho considerando a quantidade de instalações
que têm licenças ambientais de funcionamento. Dessa forma, ela dividiu os intervalos de
resultados desta métrica e classificando da seguinte maneira:
Muito Ruim: De 0 a 20%
Ruim: De 21% a 40%
Bom: De 41% a 60%
Muito bom: De 61% a 80%
Desejável: De 81 a 100%
Os demais indicadores operacionais serão definidos conforme cada etapa do processo
operacional das cooperativas de catadores.
• Desempenho na gestão da coleta
O primeiro e relevante elemento da logística reversa é a coleta, sendo responsável pela
movimentação física dos produtos usados para outros pontos intermediários que envolvem o
tratamento e/ou recuperação do produto (SASIKUMAR E KANNAN, 2008).
Segundo Oliveira (1982), a coleta dos materiais descartados pelos consumidores é o
elemento mais diretamente ligado à população e seus respectivos julgamentos. O serviço de
coleta deve ser projetado sem que os resíduos sejam acumulados e causem maus odores e a
proliferação de vetores, além de poluição visual. Algumas variáveis a serem consideradas no
planejamento das coletas envolvem: os pontos de coleta, horários, roteiros e equipamentos. A
frequência de coleta deve ser idealizada de modo a otimizar os custos, uma vez que quanto
maior o número de coleta, maior será o custo. Em contrapartida, uma baixa frequência de coleta
causa maior acúmulo de resíduos, o que também poderá trazer problemas sanitários.
Conforme Fidelis (2017) cita, algumas variáveis influenciam diretamente no
desempenho de coleta, podendo citar: área de abrangência da coleta, número de residências
atendidas e quantidade de resíduos coletados. No que diz a respeito do acondicionamento e
segregação dos resíduos, Oliveira (19825apud AGUIAR, 1999) cita que esta responsabilidade
cai sobre a população, o que está diretamente relacionado a questões de educação ambiental. A
separação de materiais pode seguir múltiplos critérios, sendo o mais comum a separação entre
resíduos orgânicos e recicláveis. A divisão também poderá ser realizada em mais tipos de
classificação, a depender de fatores diversos.
A forma de acondicionamento possui algumas normas que podem variar conforme as
regulamentações legais de cada local, podendo ser especificado o tipo de embalagem,
quantidades de volume limitadas, horários de colocação na calçada, entre outros. O
acondicionamento adequado impede a proliferação de animais vetores de doenças, além de mau
cheiro e questões estéticas e de bem-estar (OLIVEIRA ,1982 apud AGUIAR, 1999).
O tipo de veículo a ser utilizado para o transporte de resíduos são diversos: caminhões,
caçamba aberta, entre outros. Porém há uma restrição para os veículos compactadores, que pode
resultar em problemas na triagem, pois alguns itens podem quebrar e então perder seu valor
para reutilização (AGUIAR, 1999).
O indicador mais comumente utilizado para medir a eficiência do transporte refere-se
à quantidade de material transportado por veículo por hora (AGUIAR, 1999):
𝑇𝐶𝐶 = 𝑆
𝑁𝐶 (Equação 1)
Onde:
TCC = Aproveitamento dos veículos (t / veículo h);
S = Quantidade de material coletado (t/mês);
NC = Número de caminhões a serviço do programa.
Após a coleta, os produtos são classificados de acordo com suas características
específicas para possível reprocessamento ou reutilização. Barker e Zabinsky (2008) mostram
5 OLIVEIRA WE. Resíduos sólidos e limpeza pública. In: Philippi Jr. A, organizador. Saneamento do
meio. São Paulo: FUNDACENTRO, 1982. p 81-114
que tal classificação ocorre em locais centralizados ou descentralizados, considerando
trade-offs de cada alternativa.
A centralização permite que a eficiência seja atingida em função de grandes volumes e
por se assimilar a um produto do tipo commodity. A desvantagem deste tipo de localização
refere-se a custo de transporte, que será mais alto devido à maior distância em relação a fonte
de resíduo pós-consumo. Já em centros com maior distribuição geográfica, o material é
identificado antecipadamente e encaminhado imediatamente para a central de disposição de
resíduos, reduzindo assim os custos de transporte (BARKER E ZABINSKY, 2008). Assim,
Sangwan (2017) cita a localização dos locais de disposição de resíduos como um dos
indicadores-chave de desempenho da logística reversa.
Jindal e Sangwan (2015) mostraram que o melhor método de coleta varia em função do
tipo de indústria e volume do material a ser coletado. Tratando-se de materiais pós-consumo
coletados por cooperativas de reciclagem, a coleta pode ser realizada de duas formas (AGUIAR,
1999). No sistema porta-a-porta, os veículos de coleta possuem rotas similares à coleta regular
municipal, passando de casa em casa coletando os materiais recicláveis. No caso do sistema de
entrega voluntária, a população envia seus materiais recicláveis até os pontos de coleta
localizados estrategicamente. Estes pontos podem ser na forma de contêineres em locais
públicos ou em estabelecimentos comerciais, por exemplo.
Um ponto a ser observado refere-se à coleta de catadores e sucateiros informais, não
sendo contabilizados estes resíduos nas estatísticas de coleta. A base de geração de resíduos
inclui apenas a quantidade de resíduo coletada de instituições de limpeza pública e a coleta
seletiva de catadores devidamente licenciados (AGUIAR, 1999).
Independente do transporte utilizado, método ou localização da coleta, um bom
indicador de desempenho citado por Sangwan (2017) é o volume coletado. A partir da
quantidade total de resíduos coletados no mês, a eficiência de coleta pode ser mensurada
envolvendo a mão de obra, calculada a partir da equação 2 (OLIVEIRA 1982 apud AGUIAR,
1999).
𝑇𝑇𝐶 = 𝑆
𝐶 (Equação 2)
Onde:
TTC = Eficiência de mão-de-obra de coleta (t/pessoa. h)
C = número de pessoas que trabalham na coleta (inclusive motorista)
S = quantidade de material coletado (t/mês)
Aguiar (1999) cita a denominada taxa de desvio, elaborada por Wells (1995), na qual é
mensurado o alcance da coleta seletiva de materiais recicláveis. Trata-se de um índice
percentual que relaciona a quantidade de resíduos coletada por meio da coleta seletiva e a
quantidade total de resíduos coletada. Este indicador foi utilizado na tese de Aguiar (1999) e é
obtido a partir da seguinte equação:
𝑇𝑎𝑥𝑎 𝑑𝑒 𝑑𝑒𝑠𝑣𝑖𝑜 (%) = 𝑆
𝑆+𝑅∗ 100 (Equação 3)
Onde:
S = resíduos da coleta seletiva (t/mês)
R = resíduos da coleta regular (t/mês).
• Desempenho na gestão da produção
Ao avaliar a implementação do programa 5S em uma cooperativa de reciclagem, Gomes
et al. (2019) utilizaram as seguintes variáveis para mensuração da produtividade: Número de
cooperados, quantidade de material que entrou na produção e ainda o tempo de realização das
tarefas. No caso das cooperativas, o fluxo interno de produção é dividido nas operações:
o Pré-triagem
Etapa prévia de separação do material que chega na central de triagem até os
equipamentos, havendo a separação de determinados materiais, por exemplo o papelão.
o Triagem
Conforme explana Aguiar (1999) processo de triagem visa separar os materiais a serem
reinseridos no ciclo produtivo antes de encaminhá-los ao tratamento adequado conforme suas
características físico-químicas. Esta tarefa pode ser realizada de forma manual, em mesas ou
esteiras ou através de métodos mecânicos e automatizados (equipamentos magnéticos, peneiras,
separadores balísticos e transporte). Ao redor do local de triagem, geralmente são colocados
objetos de acondicionamento como sacos plásticos grandes, “big bags”, tambores etc.
Para mensurar a eficiência da mão-de-obra de triagem, pode-se utilizar a quantidade
de resíduos triados por pessoa por hora. Neste caso, a produtividade foi calculada a partir do
índice resultante da quantidade de material processado dividido pela quantidade de horas
trabalhadas por pessoa, dados pela equação 4, de Aguiar (1999).
𝑇𝑇𝑇 = 𝑆
𝑇 (Equação 4)
Onde:
TTT = número de pessoas que trabalham na triagem de uma tonelada/mês
T = número de pessoas que trabalham em triagem
S = quantidade de material triado (t/mês)
Oliveira (2006) também atribui a eficiência produtiva como sendo a produtividade
média de materiais recicláveis processados por catador, em quilogramas.
Quando a triagem é realizada manualmente, a mão-de-obra varia conforme o grau de
separação desejado, ou seja, quanto menor a quantidade de impurezas permitida, maior deverá
ser a mão-de-obra empregada. Este fator implica diretamente na qualidade do produto a ser
recuperado, uma vez que quanto maior a pureza e limpeza deste, melhor será o valor de
mercado deste produto (AGUIAR, 1999).
Nesse sentido, Oliveira (2018) destaca a eficiência da qualidade do material
processado em termos de rejeito e trabalho. Outro aspecto intrínseco a estes indicadores é a
questão ambiental, já que os materiais perdidos nos processos não podem seguir no ciclo
produtivo, devendo ser enviados aos aterros sanitários.
- Rejeito (Kg/hora/pessoa): Porcentagem de produtos retirados do processo produtivo
devido a falha de qualidade da coleta. Está relacionado também à qualidade da coleta, uma vez
que a população poderá enviar materiais não recicláveis sem reaproveitamento para a
cooperativa. Aguiar (1999) cita que a baixa quantidade de rejeitos a serem enviados aos aterros
estão diretamente relacionados a maior diversificação dos produtos. Mota (2012) também
menciona esta relação com o potencial reciclável e preço de comercialização de determinado
produto, o que ocasiona o descarte de alguns materiais pela dificuldade na comercialização
devido à inexistência de comprador ou grandes distâncias deste.
- Retrabalho (Kg/hora/pessoa): Porcentagem de produtos a serem excluídos do processo
produtivo devido à erros humanos, como separação incorreta de materiais.
Segundo Pinto (2016), a qualidade é percebida pelas pessoas de forma singular no que
se refere a cada produto ou serviço. A noção de qualidade vem de cada expectativa, necessidade
ou experiências dos entes envolvidos no processo, e por isso está diretamente relacionada com
a competitividade do mercado no qual determinada organização está inserida.
Em sua descrição, Juran6 (1991 apud PINTO, 2016) divide o significado da palavra
qualidade em dois sentidos. O primeiro possui vertente na questão produtiva, sendo equivalente
a ausência de falhas. Já quando relacionado a clientes, qualidade está diretamente ligada à suas
necessidades e satisfação destes com o produto ou serviço.
Paladini7 (2011 apud ZANCHETT; PALADINI; GABRIEL; 2018) cita que a produção
de qualidade engloba diversas variáveis, relacionadas a elementos que possam vir a existir
interna e externamente à organização. Desta forma, a avaliação da qualidade é um processo
frequente e constante, que requer métodos quantitativos, precisos e apropriados à dinamicidade
dos processos.
o Prensagem
A prensagem dos materiais triados tem como objetivo reduzir o volume ocupado pelos
mesmos, e consequentemente aumentar a eficiência de transporte até a unidade de
processamento do material (AGUIAR, 1999).
o Armazenagem
Local onde os materiais são colocados para então aguardar o embarque para serem
comercializados.
Ressalta-se que entre as etapas citadas, os materiais podem ser transferidos de forma
manual ou por meio de equipamentos como paleteiras e empilhadeiras, o que implica na
produtividade da operação de forma global.
Conforme explana Oliveira (2018) evitar contaminação ambiental e prejuízos à saúde
dos cooperados, as cooperativas de reciclagem devem possuir um sistema de coleta e
tratamento de lixiviados ou algum método que evite tal contaminação. Esta coleta deve ser
realizada onde os resíduos são triados e no local de deposição dos rejeitos, para que então estes
materiais sejam encaminhados ao aterro sanitário. Esse indicador é binário, ou seja, a presença
deste sistema é totalmente desejável, enquanto sua ausência é considerada muito ruim.
Outras métricas atreladas a operações internas aplicáveis às cooperativas são: tempo de
ciclo de máquina, capacidade de armazenamento, gerenciamento da capacidade de transporte
(BANSIA et al., 2014; KAPLAN E NORTON, 1997).
6 JURAN, J. M. Controle da qualidade: conceitos, políticas e filosofias da qualidade. São Paulo: Makron, 1991.
7 PALADINI, E. P. Gestão estratégica da qualidade: princípios, métodos e processos. 2ª. Atlas, 2011.
No documento
UNIVERSIDADE DE SÃO PAULO ESCOLA DE ENGENHARIA DE SÃO CARLOS MARINA JUNQUEIRA NICOLETTI
(páginas 36-42)