1 O PROCESSO DE ALFABETIZAÇÃO CIENTÍFICA E TECNOLÓGICA
1.3 INDICADORES PARA CARACTERIZAR O PROCESSO DE
A linguagem é um dos elementos essenciais para o pesquisador analisar o desenvolvimento da aprendizagem. Nesse sentido, a importância da “linguagem oral utilizada quando alunos e professor discorrem sobre um tema qualquer. Outros fatores são a escrita e a leitura como formas de apresentar situações e/ou de sistematizar conhecimentos” (SASSERON, 2008, p. 41).
De acordo com as discussões anteriores, no processo de alfabetização é imprescindível que o código escrito possibilite a expressão dos estudantes em torno de determinados saberes. Faz parte do trabalho do professor o incentivo ao diálogo com e entre os educandos para que expressem seus pontos de vista e interajam mutuamente, ao passo que dessa forma possam expressar como estruturam o raciocínio. Rivard e Straw (2000) definem que:
A fala é importante para compartilhar, clarificar e partilhar ideias científicas entre os pares enquanto fazem questões, levantam hipóteses, explicam e formulam ideias; juntos, todos parecem ser importantes mecanismos durante as discussões. O uso da escrita parece ser importante para refinar e consolidar estas novas ideias com os conhecimentos prévios. Estas duas modalidades parecem ser dialéticas: a fala é social, divergente e produtiva, enquanto a escrita é pessoal, convergente e reflexiva. Além disso, a escrita parece aumentar a fixação do conhecimento co-construído ao longo do tempo (RIVARD; STRAW, 2000, p. 588, tradução nossa).
Essas considerações implicam que em sala de aula os educadores devem elaborar tarefas que mesclem tanto a fala como a escrita, pois ambas se complementam. Essa conexão ‘”obtida de diversas fontes [favorece] a construção do conhecimento de maneira mais completa e coerente” (SASSERON, 2008, p. 49). Em sua pesquisa sobre a estrutura da argumentação, essa autora conclui que os sujeitos, participantes do estudo por ela realizado, quando estavam em processo de composição do pensamento sobre determinado assunto científico, demonstraram através da fala, escrita ou expressões pictóricas, elementos que fornecem indícios de construções abstratas. Portanto, a “argumentação é todo e qualquer discurso em que o aluno e professor apresentam suas opiniões em aulas, descrevendo ideias, apresentando hipóteses e evidências, justificando ações ou conclusões a que tenham chegado, explicando resultados alcançados” (SASSERON, 2008, p. 53).
O desdobramento desse processo de argumentação resultou nos Indicadores de Alfabetização Científica, ou seja, uma representação das “ações ou habilidades utilizadas durante a resolução de um problema” (SASSERON, CARVALHO, 2011, p. 102). Quando se propõe situações investigativas para os educandos, Sasseron (2008) destaca a existência de três indicadores para os dados que se constituem. A saber o primeiro bloco se caracteriza em: seriação de informações, organização de informações e classificação de informações. Tais indicadores são definidos por Sasseron (2008) da seguinte forma:
A seriação de informações está ligada ao estabelecimento de bases para a ação investigativa. Não prevê, necessariamente, uma ordem que deva ser estabelecida para as informações: pode ser uma lista ou uma relação dos dados trabalhados ou com os quais se vá trabalhar. A organização de informações surge quando se procura preparar os dados existentes sobre o problema investigado. Este indicador pode ser encontrado durante o arranjo das informações novas ou já elencadas anteriormente e ocorre tanto no início da proposição de um tema quanto na retomada de uma questão, quando ideias são relembradas. A classificação de informações aparece quando se busca estabelecer características para os dados obtidos (SASSERON, 2008, p. 67, grifos da autora).
Portanto, durante o processo de ensinar-aprender Ciências é necessário estabelecer situações desafiadoras aos alunos, de modo que apenas a explicação de noções e conceitos científicos não são suficientes para que uma investigação ocorra em sala de aula. O segundo bloco de indicadores referentes à estruturação do pensamento denomina-se raciocínio lógico e raciocínio proporcional. Acerca destes indicadores, Sasseron (2008) assim os define:
O raciocínio lógico compreendendo o modo como as ideias são desenvolvidas e apresentadas. Relaciona-se, pois, diretamente com a forma como o pensamento é exposto. E o raciocínio proporcional que, como o raciocínio lógico, dá conta de mostrar o modo que se estrutura o pensamento, além de se referir também à maneira como variáveis têm relações entre si, ilustrando a interdependência que pode existir entre elas (SASSERON, 2008, p. 6, grifos da autora).
A análise de certas situações em sala de aula, podem ainda envolver cinco indicadores denominados, levantamento de hipóteses, teste de hipóteses, justificativa, previsão e explicação constituindo o terceiro bloco. Esses indicadores podem ser constituídos em conjunto. Por isso demanda atenção sobre o discurso
dos alunos para sua correta interpretação. Esses indicadores são assim definidos pela autora:
O levantamento de hipóteses é outro indicador da AC e aponta instantes em que são alçadas suposições acerca de certo tema. Este levantamento de hipóteses pode surgir tanto como uma afirmação quanto sob a forma de uma pergunta (atitude muito usada entre os cientistas quando se defrontam com um problema). O teste de hipóteses trata-se das etapas em que as suposições anteriormente levantadas são colocadas à prova [...] A justificativa aparece quando, em uma afirmação qualquer proferida, lança-se mão de uma garantia para o que é proposto [...]O indicador da previsão é explicitado quando se afirma uma ação e/ou fenômeno que sucede associado a certos acontecimentos. A explicação surge quando se busca relacionar informações e hipóteses já levantadas (SASSERON, 2008, p. 68, grifos da autora).
Esses indicadores são importantes para identificação das habilidades dos alunos para resolver determinado problema científico, indo desde a busca de relações mais elementares sobre a situação, até complexas construções mentais para sua interpretação. A elaboração desses indicadores é recorrente entre os pesquisadores do ensino de Ciências, a exemplo de Ramos e Sá (2013) que desenvolveram uma sequência de aulas com alunos do Ensino Médio, envolvendo estudos sobre flutuabilidade, densidade, empuxo, pressão, superfície de contato entre outros. A identificação dos Indicadores de Alfabetização Científica nesse trabalho foi buscada em falas e desenhos dos educandos. Com base no trabalho de Sasseron (2008), Ramos e Sá (2013) concluem, sobre estudo realizado, que um indicador não inviabiliza o aparecimento do outro. Deste modo, utilizaremos a sistematização dos indicadores formulada por estes últimos autores, como se encontra no quadro 02.
Indicador que não necessariamente prevê uma ordem a ser estabelecida, mas pode
Ocorre quando se busca conferir hierarquia às informações obtidas.
Indicadores para estruturação do
Raciocínio Lógico
Compreende o modo como as ideias são desenvolvidas e apresentadas. Isso está diretamente relacionado à forma como o pensamento vai sendo exposto.
pensamento Raciocínio Proporcional
Mostra como se estrutura o pensamento e a maneira como variáveis têm relações entre
Coloca à prova as suposições anteriormente levantadas (pode ocorrer tanto diante da manipulação direta de objetos quanto no nível das ideias).
Justificativa Quando em uma afirmação qualquer proferida é apresentada uma garantia para o que é proposto.
Previsão É explicitado quando se afirma uma ação e/ou fenômeno que sucede associado a certos acontecimentos.
Explicação Quando se busca relacionar informações e hipóteses já levantadas (relacionadas a justificativa para o problema).
QUADRO 02: INDICADORES DE ALFABETIZAÇÃO CIENTÍFICA FONTE: RAMOS; SÁ, 2013, p. 131
Assim, esses indicadores serão utilizados para interpretação dos dados constituídos na pesquisa desta dissertação, a partir da implementação de uma unidade didática sobre o tema “Vida Saudável”, que terá enfoque no terceiro capítulo em diante.
É fundamental agora, na próxima seção, passar a discutir sobre os pressupostos de ACT estabelecidos em alguns documentos oficiais da Educação Básica brasileira e local.
1.4 PRESSUPOSTOS DA ALFABETIZAÇÃO CIENTÍFICA E TECNOLÓGICA EM