3 A VIDA QUE SE NARRA NO COTIDIANO
3.1 O indivíduo como performer
Isso significa, então, o entendimento da forma com que o outro constrói quem ele é se torna mais claro. Sendo assim, passa-se a compreender quem se é a partir dos feedbacks dessa relação, pois é uma maneira de se objetivar o self aquém da reflexão necessária sobre si mesmo, que, como já explicitaram Berger e Luckmann (1966) também depende do processo de inter-relação. Essas relações sociais da vida cotidiana possuem “esquemas tipificadores em termos dos quais os outros são apreendidos, sendo estabelecidos os modos como “lidamos” com eles” (BERGER, LUCKMANN, 1966, p. 49). Isso significa, então, que possuímos esquemas trazidos pelo senso comum de como lidar e apreender o outro nas relações sociais e a própria estrutura social é “a soma dessas tipificações e dos padrões recorrentes de interação estabelecidos por meio delas” (BERGER, LUCKMANN, 1966, p.52).
Entende-se, assim, que as tipificações ocorrem a partir dos vários tipos de ultrageneralizações presentes na sociedade. Esses aspectos generalizantes permitem ações categorizadas, que não só facilitam como são essenciais para a vida no corpo social. Através da analogia entre o que já aconteceu e o que virá acontecer com um “objeto” em um determinado espaço e tempo, “classificamos em algum tipo já conhecido por experiência o homem que agora queremos conhecer sob algum aspecto importante para nós e essa classificação por tipos permite nossa orientação” (HELLER, 2000, p.35). Dessa forma, é a partir da tipificação que a vida cotidiana é conduzida pelo indivíduo, que possui, na ultrageneralização, uma maneira de se orientar perante a si e aos outros.
Para lidar com esses esquemas tipificadores, os indivíduos passam a interpretar papéis que mantem as impressões de si na sociedade (GOFFMAN, 2009). Para o autor, as pessoas agem como se estivessem atuando em uma grande peça de teatro, assumindo personagens para representar a si nos mais diversos contextos sociais (GOFFMAN, 2009). Essas máscaras sociais fazem com que o indivíduo conheça a si mesmo e represente este conhecimento aos outros - que também atuam
na vida cotidiana. Dessa forma, são as tipificações que demonstram o que gostaríamos que os outros pensem sobre nós. Sendo assim, por se tratar de relações intersubjetivas de construção de papéis, “quando o indivíduo se apresenta diante dos outros, seu desempenho tenderá a incorporar e exemplificar os valores oficialmente reconhecidos pela sociedade e até realmente mais do que o comportamento do indivíduo como um todo” (GOFFMAN, 2009, p.41).
Entende-se, então, que as pessoas que agem em uma sociedade ultrageneralizada e tipificadora agregam papeis sociais para si, de modo que a socialidade faça sentido para seus agentes. A estes papéis sociais, Jung (1990) credita a nomenclatura persona. A persona faz parte dos conteúdos conscientes pessoais, “é um produto de compromisso com a sociedade: o eu identifica-se mais com a persona do que com a individualidade. Quanto mais o eu identificar-se com a persona tanto mais o sujeito é aquele que aparenta. O eu é desindividualizado” (JUNG, 1990, p.153). Isso significa que, apesar da persona se referir aos códigos de etiqueta que nos constroem como indivíduos, ela representa os anseios da sociedade perante os mesmos, servindo de código de adequação para se viver em sociedade. Ironicamente, então, a persona é tudo, menos indivíduo.
Pensando na contemporaneidade, essa afirmação cabe perfeitamente à lógica da internet, em que, para que alguém ‘exista’ é necessário que essa pessoa se exponha na internet e interaja com os demais usuários de redes sociais. E cada um, para se construir online, precisa pensar nas formas de representar seu eu ao outro. Essas representações submetem aos usuários a criarem personagens de si mesmos, para que possuam uma boa imagem e visibilidade. Esses personagens fazem parte da persona do indivíduo já construída, com o adicional da exposição imagética em rede, o que potencializa o poder que essa persona possui.
É extremamente importante compreender que os atores sociais, quando estão em interação com outrem, primeiramente projetam um conceito de si, que, contudo, não parte de si mesmo, mas de atributos que possam ser interpretados pelos os que interagem consigo. O eu é, então, surgido de uma cena dramática, cena essa que precisa ser acreditada para que seja legitimada (GOFFMAN, 2009). O eu surge de todo o englobamento da representação, do espetáculo; ele faz parte de um sistema teatral real, de um arranjo entre personagem, plateia, cenário e todas as outras formas que residem na atuação.
Doravante ao universo tipificador, que agrega personas e personagens em socialização, os indivíduos passam a ter a necessidade de mostrar a sua melhor faceta dependendo de cada contexto em que vivem, agindo, assim, através do melhor papel que possam desempenhar. Esse desempenho requerido do indivíduo na contemporaneidade é chamado de performance. Ao se pensar em um indivíduo performático, diversos conceitos são postulados, como: o indivíduo artístico, o “alto nível”, o “otimizador”, o “empreendedor de si”, o “estrategista”, o indivíduo instituição, dentre outros aspectos.
A partir da internet, a performance se alastra como um fenômeno. Um dos exemplos mais imponentes é o de Gabriel Goffi, um ex-jogador de poker que possui uma empresa online de alta performance, chamada High Stakes Academy5, onde ministra um curso de alta performance chamado Moving Up, o qual ensina os seus alunos a aprimorarem seu cotidiano de modo que vivam suas vidas da maneira mais produtiva possível. Além dele, existem diversos outros indivíduos que utilizam das redes sociais online como um ambiente de performance, como as famosas blogueiras fitness e seus corpos perfeitamente esculpidos a partir dos moldes de padrões estéticos que elas mesmas, a partir de seus perfis, ajudam a perpetuar.
Com isso, entende-se performar como um misto de arte com o pleno governo e controle do self. Arte porque é dela que vem a raiz da performance, como os dançarinos teatrais, que fazem verdadeiros espetáculos com sua desenvoltura artística; governo e controle do self pois este estilo de vida é pautado nas exigências mercadológicas e liberalistas da sociedade contemporânea.
O individualismo contemporâneo invoca, então, a relativização de todo tipo de instituição e grandes projetos e passa a responsabilidade da condução da vida para seu autocentramento. Dessa forma, a pessoalização dos espaços públicos torna-se inevitável, e temas que deveriam ser da esfera pública são tratados como se fossem da esfera privada; o indivíduo, consequentemente, se torna o governador de si mesmo, (EHRENBERG, 2010) subvertendo para si o poder que deveria ser centrado em instituições como o Estado e partidos políticos. Além de autogovernado, o indivíduo passa a agir como uma empresa, aos moldes neoliberais.
De agora em diante, é a essa postura que nos convida a emprezarização da vida, postura que define um tipo de ator inteiramente individualizado, que deve encontrar em si mesmo as próprias referências, sendo, ao mesmo tempo, a questão e a resposta, puro indivíduo. Nessa situação o outro figura
como padrão de medida, polo de uma relação de concorrência, de confronto ou de competição (EHRENBERG, 2010, p. 167).
Ao procurar nos indivíduos as respostas sobre a condução da própria vida, o ser humano torna a convivência com o outro acirrada. Consoante a isso, suas ações são compostas plenamente para que isto ocorra de fato. “O comportamento global dos homens transforma-se quando eles estão colocados diante do público, diante de seus olhos e diante de seu julgamento” (HELLER, 2000, p.90). A preocupação com o julgamento faz com que o indivíduo se comporte como se estivesse em uma espécie de corrida da performance, a qual quem cruzar primeiro a linha de chegada ganhará como prêmio final um misto entre sucesso e felicidade, inalcançável aqueles que não atingirem o primeiro lugar.
Ao pautar-se na ação pessoal em detrimento da ação coletiva, a performance evoca que o indivíduo é o senhor de si mesmo e que suas vontades pessoais são suficientes para pautar os desejos do outro e do coletivo. Esta é uma dicotomia bastante interessante, já que a construção de papéis sociais e personas é pautado em um perfil pessoal que tem origem coletiva. Assim, retrata-se “[...]uma simples máscara da psique coletiva, máscara que aparenta uma individualidade, procurando convencer aos outros e a si mesma que é uma individualidade, quando, na realidade, não passa de um papel” (JUNG, 1990, p.32). Há, então, um choque de conceitos, demonstrando que o individualismo é um produto da insatisfação da coletividade com o que sempre viveu.
É dessa forma que celebridades da web se tornam os novos símbolos a se seguir em detrimento de ideais. São pessoas, e não instituições, e estas pessoas, a partir de seus estilos de vida, ditam o que alguém tem que ser para executar o melhor papel perante a sociedade. O modelo de papel não vem mais, então, de coisas exógenas. Quanto mais indivíduo, melhor. É, dessa forma, que o ideal de autonomia é intrinsecamente ligado ao de performance. Só se é performático quando se tem plena capacidade de governo de si e a aptidão de dar conta dos pesos da responsabilidade da existência.
Entramos, portanto, na era do indivíduo comum, em outras palavras, uma em que não importa quem deve expor-se à ação pessoal a fim de produzir e de mostrar sua existência em vez de se apoiar sobre instituições que agiriam em seu lugar e falariam em seu nome. É essa modificação geral das formas que assume a relação de um com o outro, numa sociedade que valoriza não importa qual indivíduo, fazendo-o suportar os pesos de responsabilidades inéditas (EHRENBERG, 2000, p. 172).
Nas redes sociais online, então, percebemos que o indivíduo comum busca performar sua vida pessoal da melhor maneira possível. Editando os momentos em que considera mais importantes para que o outro perceba, a performance demonstra alguém capaz de compactuar com o ideal de todos os outros, somando-se à carcaça da autenticidade. A persona, na verdade, é una e se traveste no papel social da autenticidade por meio da performance: a partir dos melhores ângulos e as melhores viagens, tudo aparentemente é aproveitado da melhor maneira possível e vivido com intensidade.