2 APRENDIZAGEM ORGANIZACIONAL E COMPETITIVIDADE
2.7 Caracterização da AO
2.7.1 Indivíduo como sujeito da AO
A adoção do indivíduo como sujeito da aprendizagem organizacional remete a um dos pontos heterogêneo e de divergência na literatura: a diferença conceitual entre aprendizagem organizacional (AO) e aprendizagem individual (AI). A principal crítica de autores que
defendem a ênfase nos processos individuais que integram uma organização é a tendência de reificação do conceito de organização como entidade capaz de aprender. Considerando essa crítica, este trabalho adota conceitos distintos, apesar de relacionados, para os termos aprendizagem organizacional e aprendizagem individual. Em ambos, o sujeito é o indivíduo, porém os processos, a natureza do conteúdo, os resultados, assim como possíveis motivações e incentivos para a aprendizagem são distintos, mesmo que se apresentem relacionados no contexto organizacional.
A principal relação entre os dois conceitos, segundo a perspectiva deste trabalho, é que a aprendizagem individual é um dos tipos de processos constitutivos da AO. Ou seja, para uma organização adquirir conhecimentos e habilidades que formam suas competências, sua capacidade de fazer ou de exercer determinada atividade, são necessários vários processos de aprendizagem individual, por parte daqueles que trabalham na empresa, tomam decisões ou executam rotinas.
Complementando essa perspectiva, a aprendizagem individual é entendida como o principal tipo de processo que integra o conjunto de processos da AO. Essa condição é fundamentada na interpretação de que a aprendizagem individual é essencial e indispensável para que a AO ocorra.
Essa visão também é fundamentada na percepção de que a AO não se limita à soma das aprendizagens individuais. Além da aprendizagem individual, existem outros processos também individuais que integram a AO, por exemplo, o processo criativo referenciado na proposta teórica de criação de conhecimento na organização (NONAKA; TAKEUCHI, 1997).
[...] como o conhecimento pessoal de um indivíduo se transforma em conhecimento organizacional valioso para a empresa como um todo [...]. Dentre outros exemplos deste tipo de transformação podem estar o insight de um [...] pesquisador, gerando uma nova patente, ou a experiência de longos anos de um funcionário de uma loja, resultando em original processo de inovação. Embora utilizemos a expressão criação do conhecimento "organizacional", a organização não pode criar conhecimento por si mesma, sem a iniciativa do indivíduo e a interação que ocorre dentro do grupo. O conhecimento pode ser amplificado ou cristalizado em nível de grupo, através de discussões, compartilhamento de experiências e observação. (NONAKA; TAKEUCHI, 1997).
Seguindo a mesma perspectiva, a expressão aprendizagem "organizacional" não significa, necessariamente, que a organização aprende sem a iniciativa do indivíduo ou sem a
interação que ocorre nos grupos. Fleury, A. e Fleury, M. (2001a) sugerem a distinção de níveis em que a AO pode ocorrer:
Sem querer antropormofizar o conceito de aprendizagem organizacional, é possível distinguir entre os vários níveis em que esse processo ocorre:
- nível do indivíduo: o processo de aprendizagem ocorre primeiro no nível do
indivíduo, carregado de emoções positivas ou negativas, por meio de caminhos diversos;
- nível do grupo: a aprendizagem pode vir a constituir-se em um processo social e
coletivo; para compreendê-lo, é preciso observar como o grupo aprende, como combina os conhecimentos e as crenças individuais, interpretando-as e integrando-as em esquemas coletivos partilhados; estes, por sua vez, podem constituir-se em orientações para ações; o desejo de pertencer ao grupo pode constituir um elemento motivacional ao processo de aprendizagem;
- nível da organização: o processo de aprendizagem individual, de compreensão e
interpretação partilhados pelo grupo, torna-se institucionalizado e expresso em diversos artefatos organizacionais: estrutura, regras, procedimentos e elementos simbólicos; as organizações desenvolvem memórias que retém e recuperam informações (FLEURY, A.; FLEURY, M., 2001ª, p29).
Considerando a AO que ocorre no contexto competitivo, um quarto nível pode ser sugerido: o nível as relações interorganizacionais, que se configuram em uma cadeia de suprimento. Neste nível, os processos de aprendizagem individual, de compreensão e de interpretação partilhadas pelo grupo, neste caso formado por pessoas de diferentes empresas, torna-se institucionalizado e expresso em diversos artefatos organizacionais compartilhados pelas firmas integrantes da cadeia ou de uma rede de firmas. Os artefatos são similares à aprendizagem no nível organizacional, com a diferença de serem acessíveis no nível da rede: estrutura, regras, procedimentos e elementos simbólicos; além de memórias, desenvolvidas pelo conjunto integrado de firmas, em que são retidas informações que podem ser recuperadas, inclusive informalmente. Outro aspecto a considerar é que se a rede integra firmas de uma região, uma parte da sociedade pode se beneficiar com a capacitação e especialização conjunta.
Complementando a distinção entre o significado de AO e AI, argumenta-se que em uma empresa podem ser observados processos de aprendizado individuais que não estejam relacionados diretamente com a aquisição de conhecimentos úteis e de valor pa ra a organização e, dessa forma, não estariam no escopo do conceito adotado neste trabalho. Tais processos são entendidos como aprendizagem na organização e não aprendizagem da organização como uma coletividade, com determinada atuação em um espaço da sociedade. Como exemplo de processo de aprendizado individual que ocorre na organização sem
necessariamente resultar na aquisição de conhecimento organizacional pode ser a noção (do senso comum) de "experiência de vida" pessoal, onde as pessoas aprendem como tratar determinado conflito de interação social.
Não significa que tais aprendizados pessoais não tragam benefícios para a atuação da empresa, ou não possam ser associados à aquisição de conhecimentos organizacionais em situações futuras. Porém, se não resultam em conhecimento organizacional, não são considerados no escopo dessa pesquisa, o que não diminui a importância desses aprendizados individuais isolados para o desenvolvimento das empresas.
As características e mecanismos da AO associados ao indivíduo como sujeito podem ser identificados a partir das seguintes propostas e modelos teóricos detalhados posteriormente ainda neste capítulo: o modelo de processo de aprendizado de Kolb (KOLB e outros, 1991), criação do conhecimento organizacional (NONAKA; TAKEUCHI, 1997) e concepção de aprendizagem situada na prática social (ELKJAER, 2000). Percebe -se que além do indivíduo, as características e mecanismos de AO também se apresentam relacionadas à interação social que integra as ações pessoais às competências da empresa.