Canguilhem (2002) assim define o fenômeno da adaptação:
“ (...) abstemo-nos de definir o normal e o patológico simplesmente por sua relação com o fenômeno da adaptação. Durante o último quarto de século, esse conceito tem recebido uma tal extensão – às vezes descabida – em psicologia e em sociologia, que, mesmo em biologia, só pode ser utilizado do ponto de vista mais crítico possível. A definição psicossocial do normal a partir do adaptado implica numa concepção da sociedade que o identifica sub-repticiamente e abusivamente com o meio, isto é, com um sistema de determinismos, apesar dessa sociedade ser um sistema de pressões que, antes de qualquer relação entre o indivíduo e ela, já contém normas coletivas para a apreciação da qualidade dessas relações. Definir a anormalidade a partir da inadaptação social é aceitar mais ou menos a idéia de que o indivíduo deve aderir à maneira de ser(sic) determinada sociedade, e, portanto, adaptar-se a ela como a uma realidade que seria, ao mesmo tempo, um bem.(...)” 81
A questão da normalidade de um indivíduo está atrelada à discussão da capacidade de sua adaptação ao meio. A confirmação da adaptação em geral sinaliza para a sociedade a noção de normalidade de um indivíduo. Permitamo-nos, porém, seguir com as idéias de Canguilhem.
Dirá esse autor que as constantes biológicas que geralmente expressam uma
função normal do organismo em relação ao meio, indicando sua adaptação a ele,
não significam, necessariamente, a idéia da invariabilidade das características que podem ser encontradas no ser humano e que podem ser agrupadas e definidas como normais. A adaptação é sinal de que a normatividade existe, é uma característica da vida, porém o conteúdo das normas às quais ela consegue adaptar- se pode variar.
“(...) As constantes se apresentam com uma freqüência e um valor médios, num determinado grupo que lhes confere valor de normal, e esse normal é realmente a expressão de uma normatividade. A constante fisiológica é a expressão de um estado fisiológico ideal em determinadas condições. (grifamos) (...)” 82
Para Canguilhem a saúde não está em uma norma específica, em uma média, mas na possibilidade de o organismo ser normativo, isto é, na capacidade de ele instituir normas, dependendo das exigências que o meio lhe impõe.
“(...) se com quarenta contrações por minuto um organismo pode satisfazer as exigências que lhe são impostas, é porque é sadio e o número de quarenta pulsações – apesar de aberrante em relação ao número médio de setenta pulsações – é normal para esse organismo.(...)” 83
82 Ibid., p. “135- 136”. 83 Ibid., p. “144- 145”.
A adaptação de um organismo a um meio não necessariamente representa, assim, a melhor expressão de saúde, não representa, por assim dizer, a
normalidade de um organismo, a não ser que esse organismo mantenha preservada
sua capacidade normativa, que é algo maior e inclui a adaptação original. Portanto, desejar, o médico, estabelecer o que é ou não normal, do ponto de vista biológico, e a partir de uma expressão normativa, não se afigura como possível para o autor.
Isso somente se admite se feito pelo próprio indivíduo, único capaz de valorar a relação entre ele, entre suas manifestações biológicas, e as exigências do meio, pois o fará com base em sua subjetividade. Do ponto de vista exterior, precisará haver uma norma geral, com a qual, e apenas desse modo, se poderá fazer uma comparação.
“(...) Goldstein afirma, exatamente como Laugier, que uma média, obtida estatisticamente, não permite dizer se determinado indivíduo, presente diante de nós, é normal ou não. Não podemos partir dessa média para cumprir nosso dever médico para com o indivíduo. Tratando-se de uma norma supra-individual é impossível determinar o ‘ser doente’ (...) quanto ao conteúdo. No entanto, isto é perfeitamente possível quando se trata de uma norma individual.” 84
Se, para Canguilhem, não se pode responder, do ponto de vista da saúde, ao conceito de normal, indagamos, em relação ao Direito, sobre o conteúdo da definição de “criminoso”. O que define esse adjetivo? Entendemos, tal qual o raciocínio do autor, que somente se pode considerar esse termo a partir de uma norma que o defina como tal. Trata-se, da mesma forma como sustentou
Canguilhem, de uma definição, a partir de uma perspectiva externa, “supra- individual”, não particular, e que se relaciona, por isso, a nosso ver, com uma idéia estereotipada.
Queremos afirmar que o conteúdo do termo está em relação contínua com os valores culturais, econômicos, morais e coletivos de uma sociedade. Projeta-se na cultura através do pensamento de uma época. Então, partindo desse ponto de vista, não há essência no ser criminoso, a única essência possível é aquela dos padrões mores da coletividade. São os padrões internos sociais e coletivos que definem a figura do infrator, do bandido, do marginal. A conseqüência é que, preso a isso, o Direito trabalha com uma ilusão. Não pode enxergar, de modo mais real, o sujeito com quem ele trabalha. Não pode ver o adolescente que há no “infrator”. Sem desfazer-se de suas projeções, não enxerga o humano. Trabalha somente com o modelo.
A repressão surge, assim, como evidente saída para o problema, pois a imagem do homem está acoplada ao estereótipo. Entendemos que a saída está em, justamente, confrontarmo-nos com as nossas projeções massificadas. O adolescente é, antes de tudo, alguém que se adapta, que cumpre um processo no seu desenvolvimento individual. Algo há nesse caminho de humano. Se não conseguimos enxergar esse componente, é porque estamos presos ao unilateralismo da consciência.
O processo de adaptação social pode ser encarado dentro de uma vertente menos racional, não obstante mais verossímil, e não dentro de um padrão que
encara o jovem infrator como alguém que é naturalmente um monstro. O comportamento desse adolescente responde a fatores inconscientes e, ao mesmo tempo, ambientais, relacionados à necessidade de variação de respostas face ao que o meio lhe propõe. Com relação a essa variação, podemos também, aqui, fazer um paralelo com a afirmação de Canguilhem de que “A saúde é uma margem de
tolerância às infidelidades do meio”.
“(...) Ser sadio significa não apenas ser normal numa situação determinada,mas ser, também, normativo, nessa situação e em outras situações eventuais. O que caracteriza a saúde é a possibilidade de ultrapassar a norma que define o normal momentâneo, a possibilidade de tolerar infrações à norma habitual e de instituir normas novas em situações novas. Permanecemos normais, com um só rim, em determinado meio e em determinado sistema de exigências. Mas não podemos mais nos dar ao luxo de perder um rim, devemos poupá-lo e nos poupar. As prescrições do bom senso médico são tão familiares que nelas não se procura nenhum sentido profundo. E, no entanto , é aflitivo e difícil obedecer ao médico que diz: ‘Poupe-se!’. ‘É fácil dizer para eu me cuidar, mas tenho minha própria casa para cuidar’ dizia, por ocasião de uma consulta no hospital, uma dona-de-casa (...) Uma família significa a eventualidade do mari do ou de um filho doente, da calça rasgada que é preciso remendar à noite, quando o menino está na cama, já que ele só tem uma calça, de ir longe comprar pão se a padaria próxima estiver fechada (...) Cuidar-se...(...) como é difícil (...) (...) A saúde é uma margem de tolerância às infidelidades do meio (...) Sua infidelidade é exatamente seu devir, sua história. (...)” 85
A nossa expectativa é de que a Lei possa superar a visão extremamente racional e, com isso, possa trabalhar com o humano. Poderá conseguir esse intento se também ela, a Lei, trabalhar com a possibilidade de superação da unilateralidade de seus referenciais lógicos, categóricos, para tentar incluir, ou adicionar, na sua lógica conservadora e ao mesmo tempo excludente, a perspectiva dinâmica inconsciente que leva um indivíduo ao impulso da socialização.
Se essa Lei se dispuser a praticar o exercício junto com o adolescente infrator, isto é, se sair de sua posição defensiva e se propuser, a seu lado, quebrar o
padrão, então, juntos, poderão encontrar significados plenos para o ato infracional,
entenderão, de forma aberta, os desvios da conduta, dentro de uma visão singular e especial, em que caiba o novo, e, a partir daí, soluções mais eficazes, relacionadas à criatividade, à expansão, e ao movimento, e não unicamente à repressão da conduta.
Entendemos, junto com Canguilhem, que a vida é ativa e normativa, isto é, está sempre em movimento e estabelecendo novas leis ao processo da adaptação. Para existir saúde deve haver, inevitavelmente, a possibilidade da doença. É somente no ato de recuperação de um estado infeccioso do organismo que se pode localizar a saúde. Se o organismo se mantém inerte, os conceitos de saúde e de patologia não fazem sentido. Essa é a conclusão a que chega Canguilhem.
“(...) O homem só se sente em boa saúde – que é, precisamente, a saúde – quando se sente mais do que normal, isto é, não apenas adaptado ao meio e às suas exigências, mas, também normativo, capaz de seguir novas normas de vida. Não foi, evidentemente, com a
intenção expressa de dar aos homens essa impressão que a natureza fez seus organismos com tal prodigalidade: rim demais, pulmão demais, paratireóides demais, pâncreas demais, até mesmo cérebro demais, se limitássemos a vida humana a vida vegetativa. Um tal modo de pensar expressa o mais ingênuo finalismo. No entanto, a verdade é que, sendo feito assim, o homem se sente garantido por uma superabundância de meios dos quais lhe parece normal abusar. Ao contrário de certos médicos sempre dispostos a considerar as doenças como crimes, porque os interessados sempre são de certa forma responsáveis, por excesso ou omissão, achamos que o poder e a tentação de se tornar doente são uma característica essencial da fisiologia humana.(...)” 86
O contrário dessa atividade saudável e normativa que é a vida é a rigidez adaptativa a uma circunstância. Para o autor, a ação de um organismo que se mantém assim sem movimento não representa a saúde desse organismo. O organismo, nesse caso, está restrito a determinadas imposições normativas, incapaz de superá-las. Pode-se até definir esse organismo por normal, mas “(...) o preço
dessa normalidade é a renúncia a qualquer normatividade eventual (...)” 87