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EVENTOS 37 2.1 APORTES TEÓRICOS: A INDUSTRIALIZAÇÃO COMO

2. INDUSTRIALIZAÇÃO BRASILEIRA: PRINCIPAIS EVENTOS

2.3. INDUSTRIALIZAÇÃO RESTRINGIDA (1933 – 1955)

Em 1933, inicia-se uma nova fase que se estende até 1955. Pode- se dizer que, nesse momento, em contraste com o período anterior, houve industrialização; porém, tal industrialização é considerada restringida. Houve industrialização, pois, nesse período, o núcleo dinâmico da economia torna-se a indústria, existindo forças endógenas para sua reprodução. Porém, tal industrialização é restringida devido à falta de um setor robusto de bens de produção, “que permitiria à capacidade produtiva crescer adiante da demanda, autodeterminando o processo de desenvolvimento industrial” (CARDOSO DE MELLO, 1975, p.90). Assim, apesar do setor industrial conseguir mobilizar forças endógenas para realização de sua produção, livrando-se, portanto, da dependência da economia cafeeira, ainda sofre, em última instância, os limites decorrentes da capacidade para importar devido à falta de um setor de bens de capital internamente constituído.

A crise do café e a Grande Depressão da década de 1930 são consideradas um ponto de inflexão na trajetória econômica do país. Furtado (1959) atribui o menor impacto da crise sobre a economia

brasileira, bem como a rápida recuperação do país à política de defesa do café adotada pelo governo federal em 1931. A partir da compra do excedente da produção cafeeira, tal política possibilitou a manutenção da renda nominal do setor exportador dessa mercadoria em um nível relativamente alto, bem como a demanda. Porém, essa medida intensificou o desequilíbrio externo da economia brasileira, fato que foi corrigido por meio de uma forte depreciação da taxa de câmbio, resultando em aumento dos preços de importação. Essa mudança nos preços relativos, associada, por um lado, à manutenção de um patamar considerável da renda e da demanda, e, por outro, ao fato de existir capacidade ociosa em alguns segmentos industriais do país, bem como ao fato de já existir, nesse momento, algumas indústrias de bens de capital, explicariam o rápido aumento da produção industrial nesse período, tornando-se o fator dinâmico da economia.

Assim, esse conjunto de elementos (manutenção da renda interna, depreciação cambial, existência de segmentos industriais com capacidade ociosa) contribuiu para que os investimentos industriais se tornassem atraentes, gerando condições para a produção no sentido de substituir importações. Como mostra Suzigan (2000), não obstante o fato de que as indústrias mais importantes nesse momento ainda eram as de bens de consumo não duráveis, principalmente têxteis, vestuário e alimentos, os segmentos que lideraram o crescimento da produção foram os que estavam substituindo importações, especialmente de bens intermediários, como cimento, produtos químicos, papel e polpa, produtos de borracha, e, em menor escala, bens de capital. Ademais, embora o início da diversificação da produção industrial que ocorreu na década de 20 tenha tido importância para a produção industrial do início dos anos 30, a expansão industrial verificada nesta última década baseou-se sobretudo em capacidade instalada durante a própria década de 30 (SUZIGAN, 2000).

Assim, em termos gerais, pode-se dizer que a década de 30 inaugura, no Brasil, um momento em que o desenvolvimento industrial ocorre por meio da substituição de importações, fenômeno que se mostrará presente na economia brasileira até 1980, com maior ou menor intensidade em diversas ocasiões distintas. Essa industrialização substitutiva de importações apresenta-se como uma forma de atender ao mercado interno em períodos de restrições e desequilíbrios externos e, em geral, foi apoiada por medidas do governo que visavam proteger a indústria nacional dos concorrentes estrangeiros, tais como as desvalorizações cambiais, o uso de controles e sistemas de licenças de

importação, tarifas alfandegárias e, ainda, o uso de taxas múltiplas de câmbio.

Ademais, a participação do Estado nesse processo mostrou-se presente também de outras diferentes formas, tais como a criação de um aparato institucional expresso por meio de agências governamentais e um corpo burocrático, a criação de empresas estatais e o fornecimento de financiamento público para atividades selecionadas. De fato, o projeto industrializante ganha corpo no período de 1930 a 1945, figurando a industrialização como um dos objetivos prioritários do Estado (DRAIBE, 1985).

Porém, como alerta Suzigan (2000), não antes de 1950 o Brasil experimentou uma política deliberada de desenvolvimento como aquela definida por Hirschman (1968):

uma política deliberada de desenvolvimento é aquela levada a efeito não mais apenas por meio de proteção aduaneira, mas através de uma ampla gamas de instrumentos de política fiscal e creditícia, através de pressões sobre as firmas importadoras estrangeiras para que estabeleçam operações industriais, bem como através de ação direta: o estabelecimento de empresas industriais estatais ou, crescentemente, de companhias ou bancos de desenvolvimento que são então encarregados de promover empreendimentos específicos (HIRSCHMAN, 1968, apud SUZIGAN, 2000, p.41).

De fato, foi no governo de Getúlio Vargas (GV) de 1951 a 1954 que se consubstancia tal política deliberada de desenvolvimento. Nesse período, procurou-se superar pontos de estrangulamento relacionados à estrutura produtiva nacional e avançar na implantação das indústrias de base, de bens de produção pesados e da infraestrutura, destacando-se transportes, energia e comunicações. Embora a preocupação com a industrialização já houvesse sido colocada em 1930, a novidade desse período é que o projeto de industrialização foi pensado “pela primeira vez de forma abrangente e incisiva, uma alternativa global de desenvolvimento do capitalismo no Brasil, integrando seus aspectos mais substanciais num grau de harmonia e compatibilidade” (DRAIBE, 1985, p.182).

Para Arend (2009), a questão principal do projeto varguista dos anos 50 é que a estratégia de desenvolvimento teria como líder a

empresa pública, sendo a participação do capital estrangeiro minimizada na economia nacional, revelando o conteúdo nacionalista dessa estratégia. Apesar de não excluir a empresa estrangeira da atividade econômica em solo nacional, a política industrial visava limitar sua atuação nos setores da economia, controlando seu escopo de atuação, bem como impondo regras mais restritivas quanto às remessas de lucros e royalties, além de conferir às empresas nacionais (públicas e privadas) a prioridade de atuação nos setores-chave da nova dinâmica de crescimento que almejava.

Justamente por essa conotação nacionalista, o projeto de GV encontrou barreiras e oposições quanto às fontes de financiamento. Os recursos necessários à concretização dos projetos industriais propostos seriam provenientes, principalmente, de fontes externas de financiamento, como os advindos do Banco Internacional de Reconstrução e Desenvolvimento (BIRD) e do Export-Import Bank (Ex- Im Bank). Cabe ressaltar que havia preferência pelo financiamento externo público, pois permitiria ao governo brasileiro decidir sobre o uso e direcionamento de tais fundos, em detrimento do IDE privado, os quais passavam pelo crivo das “essencialidades” estabelecidas pela estratégia nacional de desenvolvimento – o governo não considerava necessário atrair investimentos estrangeiros para os segmentos de bens de consumo nem para os setores considerados supérfluos pelo discurso oficial. Como tal posicionamento mostrava-se contrário à livre circulação de capitais internacionais privados, influenciou negativamente as instituições multilaterais e as decisões de empréstimos entre governos (AREND, 2009).