2. Crianças e meio ambiente
2.4. Infância e pró-ambientalidade
Nós não herdamos a Terra dos nossos pais, nós a estamos tomando emprestada dos nossos filhos
(Anônimo, citado por Pinheiro, 2012)
Uma das motivações de se estudar aspectos que envolvem a percepção e representação de problemáticas ambientais por crianças é justamente a ideia de que talvez com esses estudos seja possível uma compreensão sobre bases motivacionais do compromisso pró-ecológico. Considerando que as representações e descrições que crianças elaboram a partir de sua interação com o meio são as bases do primeiro entendimento de sua relação com a natureza, podemos interpretar como será o amadurecimento dessa relação à medida que essas crianças envelhecerem (Kalvaitis & Monhardt, 2012).
Vários estudos têm demonstrado que quanto maior o tempo que se passa na natureza quando criança, mais pró-ambiental a pessoa será durante o período da infância e, consequentemente, da sua idade adulta futura (Collado, Corraliza, Staats, & Ruiz, 2015; Hinds & Sparks, 2008), fato que pode embasar medidas de educação ambiental. A frequência de contato com a natureza no período da infância está bastante relacionada às atitudes ambientais e comportamentos ecológicos auto relatados em crianças (Collado, et al., 2015). Tais resultados sugerem não só a importância do contato com os ambientes naturais, mas também a relação desse contato com outros fatores que irão possibilitar a adoção do compromisso pró-ecológico no futuro.
Apesar de o estímulo ao contato com a natureza ser uma importante ferramenta para orientar o engajamento pró-ecológico, não é qualquer interação com o meio natural que irá promover esse tipo de compromisso. O tipo de contato com o mundo natural se
torna essencial nesse aspecto, de forma que a relação diretamente proporcional entre comportamentos pró-ambientais e tempo gasto em atividades na natureza só seja encontrada quando se consideram experiências positivas no meio ambiente (Collado, Staats, & Corraliza, 2013).
As crianças, a partir de suas próprias perspectivas e noções de tempo e espaço, elaboram significados para as suas experiências no mundo natural, sendo essa experiência – quando frequente – extremamente significativa e durável até a idade adulta (Chawla, 1999). Por isso, ao considerar experiências e histórias de vida de ambientalistas, numa tentativa de predizer bases do cuidado ambiental, alguns estudos têm percebido um destaque para importantes aspectos como a influência de modelos de compromisso pró-ecológico e experiências significativas na natureza durante a infância (Chawla, 1999; Diniz, 2015; Manolas, Hockey & Littledyke, 2013; Wells & Lekies, 2006).
As referências ao contato com a natureza no período da infância são constantes quando se trata da infância de conservacionistas e naturalistas, sendo essas experiências relatadas como fontes de inspiração precoce, que levam ao ativismo surgido a posteriori (Louv, 2016). Esse contato, cercado muitas vezes da presença de um adulto de confiança que levava a criança para jardins, praças, parques, praias ou qualquer outro espaço que propiciasse o contato com o mundo natural, talvez tenha sido essencial para o desenvolvimento de práticas de cuidado ambiental por parte dos ativistas.
O discurso das pessoas que referem experiências no ambiente natural e exemplos de pessoas significativas como determinantes no desenvolvimento de sua personalidade pró-ambiental está sempre carregado de muita afetividade, tanto em relação às experiências, quanto às pessoas (Chawla, 2007). Não foram quaisquer experiências, nem quaisquer pessoas, essas capazes de delinear toda uma maneira de representar com
o mundo que habitam. É importante salientar, sobre esses modelos de orientação pró- ecológica, o elevado grau de influência que irão exercer sobre as crianças que os cercam. A maneira com que pessoas com posturas pró-ambientais olham para a natureza influenciará a percepção das crianças que com elas convivem. Da mesma forma, se o olhar desse cuidador é de desrespeito e seu comportamento é baseado em consumir da natureza o que ele necessita sem dar nada em troca, a criança processará essa informação e provavelmente repetirá esse comportamento. Peter Kahn (2007) salienta, ainda , que a compreensão da criança acerca de sua interação com a natureza recebe influência do grau de degradação do ambiente que a circunda.
Quando se considera a esfera afetiva, é importante destacar que experiências na natureza têm uma importância única no desenvolvimento infantil (Kahn & Kellert, 2002). O mundo natural é extremamente rico em experiências, principalmente quando se trata de aprender, pensar e observar. Em pesquisas realizadas com crianças (Evans, Brauchle, Haq, Stecker, Wong, & Shapiro, 2007), percebeu-se que a relação positiva com a natureza é geralmente construída na infância, de forma que as crianças possuam certas competências específicas ao se conectar com o meio natural. Chawla (2002) defende que esse sentimento de conexão com a natureza experienciado pelas crianças pode ser um fator crucial para a formação de adultos ambientalmente comprometidos, no sentido de promover uma visão de mundo na qual o homem é apenas uma parte de um sistema muito mais amplo e que precisa funcionar de forma harmônica e equilibrada.
Adultos que passam hoje mais tempo em contato com a natureza, provavelmente foram crianças que experienciaram o ambiente natural também com mais frequência durante a infância (Collado et al., 2015). Apesar de alguns estudos já discutirem que o contato com a natureza, principalmente para as crianças do século atual, que vivem mais
frequentemente em ambientes urbanos, pode evocar sentimentos de nojo e repulsa (Kaplan & Kaplan, 1989), há grandes evidências mostrando que o contato com a natureza pode trazer experiências positivas e agradáveis para o segmento etário infantil, devendo ser estimulado como forma de reforçar o pró-ambientalismo (Collado et al. 2015).
Focar unicamente na experiência na natureza e suas implicações afetivas pode ser tão complicado quanto partir do pressuposto de que apenas a informação estimulará um compromisso pró-ecológico, possibilitando o engajamento em ações de mitigação. É preciso ter cautela ao considerar o tipo de experiência vivenciada pelas crianças no meio natural, levando em conta que as experiências gratificantes são as mais significativas para promover ações de cuidado ambiental.