4. RESULTADOS
4.2. OS DISCURSOS E UMA POSSÍVEL ANÁLISE
4.2.1. TRAJETÓRIA E O PROGRAMA
4.2.1.2. Infância: responsabilidades e renúncias
Os entrevistados ingressaram no Programa no final da infância, entre 10 e 12 anos, característica que ajudou a desenhar uma trajetória marcada por lembranças da infância e adolescência, como segue:
Jonas: Eu era beeem jovem quando eu entrei, então, como toda criança, no começo a gente não faz muuuuitos planos pra um futuro muuuuito distante. Mas a expectativa era...é...conseguir chegar na...na universidade (...).
Os entrevistados constroem uma imagem de si com a utilização do substantivo “criança”
como uma categoria da qual faziam parte, sendo que Jonas sugere que ele, assim como as outras crianças, não fazia muitos planos. A imagem da criança aparece também em momentos relacionado a escolhas:
Jonas: (...) Como toda criança, como todo menino, eu também tinha quando moleque a intenção de ser um jogador de futebol, sempre gostei muito de praticar esporte. E no colégio a gente tinha, no contraturno também...é...como se fosse uma escolinha de esportes. E eu participei disso por um bom tempo, conciliei com o contraturno com os cursos do Bom Aluno enquanto deu, mas quando chegou ali pela 7ª, 8ª série foi impossível ai eu tinha que escolher”.
Erica: (...) na 7ª série eu queria jogar bola na rua, tive que ir pras aulas. Tinha que ir pra aula de manhã, assim... mesmo a contragosto eu ia porque apesar de ser rebelde, sempre ter sido, ainda sim eu fazia as coisas, porque alguém me dizia que era bom, que era importante, que tinha que ir, então eu fazia. Então esse tipo de coisas eu tive que abrir mão”.
Fred: (...) eu tinha essa frustração de moleque mesmo, de não poder ficar com os amigos, de ter que ir pro curso.
Daniela: (...)a gente tinha muito mais responsabilidades do que uma criança comum, assim... vamos dizer, né, que já tinha tudo meio que na mão.
Nesses trechos, as imagens construídas são de crianças que fizeram escolhas a partir de uma imposição, dada a repetição do termo “tinha que” e “tive que”. Erica inclusive trouxe a voz de um terceiro “alguém me dizia que era bom”, e sua sujeição: “então eu fazia”. Os entrevistados relataram uma fase de escolhas que fizeram entre atividades de lazer e os estudos, tendo em vista que estas se mostravam inconciliáveis. Produziram também naturalizações sobre o que era uma criança naquela época; para Daniela significava “uma criança comum (...) que já , tinha tudo meio que na mão”; ela e seus colegas de PBA não eram crianças comuns, pois “a gente tinha muito mais responsabilidades”, então eles eram exceção de acordo com uma certa concepção de infância. Jonas também produz uma naturalização ao dizer que “todo menino”, e se incluir nessa categoria, “tinha
intenção de ser um jogador de futebol”, uma concepção de que diz do contexto social e cultural do país.
Essas situações foram sentidas na adolescência também, conforme segue:
Mônica: primeiro era esse ritmo de se matar de estudar... “nossa queria tá vivendo mais assim”, fase de adolescência mesmo, de ter final de semana, de poder ir no cinema, poder ir no shopping, durante o final de semana o que que eu fiz? Tipo, nada, nada...marcava uma vez por ano de ir, tudo ajudava na verdade, não era só falta de tempo; era falta de tempo. (...) Eu acho que algumas coisas da infância e adolescência, de que quando a gente é criança deveria ser vivido com menos preocupação, eu já tinha desde aquela época, então...hoje eu vejo muito mais coisas boas do que ruins, mas acho que importa a gente colocar que sim, que tem esse ônus, não são só estrelas, né? Então o ingresso, eu lembro, foi muito me marcado por essa sensação de competitividade.
Mônica produz naturalizações do que seja a adolescência “mesmo”, que é “ter final de semana, de poder ir no cinema, poder ir no shopping”, mas que ela não podia, pois faltava tempo para isso. A entrevistada retrata essas situações como um “ônus, não são só estrelas, né?”, pois ela considera que “algumas coisas da infância e da adolescência (...) deveria ser vivido com menos preocupação”, remetendo também à ideia apresentada anteriormente por Daniela a respeito de muitas responsabilidades. Mônica vai construindo e reconstruindo a imagem que tinha ao ingressar no PBA, movimentando sentidos entre as palavras “ônus, estrelas, coisas boas e ruins” até chegar na
“sensação de competitividade”. Então o que se tem são crianças não-comuns, falta de tempo para lazer e alguns ônus, como a competitividade, sendo essa aa mesma entrevistada que mencionou a palavra “aposta” anteriormente. Essa sensação foi relatada por outras pessoas também no decorrer do Programa também:
Mônica: (...) então a trajetória foi nesse sentido, eu me lembro sempre competindo com alguém, sempre tendo que ser melhor que alguém.
Fred: eu nunca fui um aluno empenhado, eu sempre...todo pessoal em volta, assim, sempre correndo atrás e estudando, e chegava no colégio e “pô, passei o dia inteiro estudando ontem”...e eu simplesmente não consigo fazer isso, não conseguia fazer. (...) Todo pessoal chegava e falava “po ontem eu estudei matemática por 2 horas”, outro falava “ai eu estudei história por 2 horas”, eu nunca tive costume de chegar em casa e abrir um livro e estudar. E as minhas notas eram sempre da média pra cima, era o necessário. Se eu tivesse me empenhado um pouquinho, um pouco de empenho...com certeza eu me destacaria.
Erica: Quando eu vejo, vou lá, parece que virou agora crianças superdotadas, porque como a concorrência é muito grande pras crianças entrarem, as crianças que tão lá são efetivamente muito, muito, muito boas, no sentido de tirarem notas e tudo (...).
Daniela: (...) eu tinha uma pressão muito grande na minha cabeça, sabe, pra mim era minha vida que tava ali, eu não podia perder o projeto, sabe? Então eu ficava bem estressada pra tirar as notas.
Flávio: Sempre fui o melhor aluno da minha classe, às vezes disputava o primeiro lugar com outros dois em algum bimestre, mas no final sempre ficava em primeiro.
Quando passei a ter maior contato com os demais bons alunos (nos cursos de inglês, matemática, redação, etc) vi que eu não era o único “bom aluno”... e que outras pessoas também podiam ser melhores que eu... parece engraçado, mas esta foi a primeira frustração.
Os discursos dos entrevistados denotam o clima vivenciado por eles dentro do Programa, “eu me lembro sempre competindo com alguém”, “sempre correndo atrás”, “a concorrência é muito grande”, “disputava o primeiro lugar”, “tinha uma pressão muito grande na minha cabeça”
configurando uma relação de disputa pelo melhor desempenho acadêmico e para não “perder o projeto”. Fred afirmou que fazia o que “era o necessário” para se manter dentro da média de nota, que era 7,0 em todas as disciplinas, mas que se ele se empenhasse um pouco mais poderia ter se destacado; então atender aos requisitos não bastava, era necessário mais. Érica faz menção a
“crianças superdotadas”, enfatizando o desempenho intelectual dos atuais participantes. Vale dizer que o Programa atualmente tem uma parceria com uma instituição que atende a pessoas com altas habilidades. Nesses discursos um sentimento que aparece relacionado também é o de “frustração”, relatado por Flávio, pois ele descobriu que “outras pessoas também podiam ser melhores que eu”.
Competitividade, desempenho, pressão, medo de perder e frustração são algumas das marcas que se configuram na subjetividades dos entrevistados.
Assim, a trajetória dos egressos é marcada pela divulgação do programa, o processo seletivo, pelos sentidos que atribuíam ao Programa ante ao ingresso e pelas imagens que constroem de si nessas representações, sobre serem reconhecidos como bons alunos, porque há alunos que não são bons; e como crianças e carentes, sendo a carência vinculada a poucos recursos financeiros “com muito custo as contas fechavam no final do mês”. Os requisitos para entrar no Programa produzem subjetivações, ser “realmente uma boa aluna” e ter bons comportamentos, e nisso constrói-se também a imagem inicial de bom aluno: aquele que tira boas notas. Então, ser bom aluno é algo anterior ao Programa, pois para ingressar já é preciso ser.