• Nenhum resultado encontrado

A

narradora das memórias nos conta a sua primeira infância. Mas é uma mulher adulta que apresenta uma multiplicidade de infâncias – o que é uma criança, como ela era como criança. Mas, como ela poderia saber “como era” quando criança? A escritora parece estar se referindo a criança que ela desejava ter sido e – como atravessamento no tempo – ela produz esta realidade desejante com a escrita. A criança que atravessa a mulher e a mulher que é – e foi – atravessada pela criança. A menina que Beauvoir desejava ser e também, as forças que agem em seu devir- criança94 como virtualidades que desconstroem seus atuais e/ou os virtuais que se atualizam na criação da escrita do “eu”. Os blocos de infância – e não a memória como _____________

94

Na concepção de Deleuze o devir não está relacionado à idéia tradicional do termo que surgiu com Heráclito e produziu outras formulações em Hegel. Para Deleuze o devir é uma passagem desejante – o próprio desejo não é apenas mera imaginação - que constitui o real (ZOURABICHIVILI, 2004, p. 48).

narração – podem ser definidos como um “método” e disciplina de escrita e leitura que se deslocam infindavelmente no tempo “injetando criança no adulto, ou suposto adulto na verdadeira criança. [...] Não se trata de uma troca artificial de ‘papéis’, trata-se, ainda aí, da estrita contigüidade de dois segmentos longínquos” (DELEUZE e GUATTARI, 1977, p.116).

Beauvoir começa suas memórias contando que, desde o nascimento, a personagem de menina já mostrava sinais de precocidade. Starobinski95 nos ajuda a compreender esta ideia de sinais que se evidencia na escrita como um recurso literário utilizado, em primeira instância, por Rousseau. A mediação da escrita como sinais, na tentativa feita pelo escritor e filósofo suíço, para evitar os equívocos produzidos com a linguagem escrita. Então é a expressão automática destes sinais que garantirá, no decorrer da história, a confirmação ou não da verdade deste “eu” que a escritora busca comunicar sinceramente. Os sinais podem ser institucionais (artificiais), naturais (expressão dos sentimentos no corpo) e acidentais (gratuitos e memorativos). Esta rede de sinais também podem ser exteriores ou interiores – essa ideia de interioridade como introspecção que começa a ser delineada – e aparece por vezes de modo positivo e outras vezes de forma negativa, de acordo com os sentidos que os/as escritores e leitores atribuem a eles.

Assim, novamente podemos aproximar a empreitada de Simone de Beauvoir ao trabalho de Rousseau que teria aprendido com Santo Agostinho – o ser humano não pode ser totalmente claro para si mesmo como o é na relação com Deus. Entre os seres humanos a comunicação imediata de sentimentos e pensamentos é impossível e por isso recorremos aos gestos e aos sinais sensíveis, bem como a uma linguagem convencionalizada da língua. A necessidade da fala e da escrita, que não prescinde do intermédio do ouvido e da visão, se encontra em uma teoria da linguagem que os contemporâneos de Rousseau extraíram de Locke (Starobinski). Afirmaremos, então que a própria ideia já é um sinal de alguma coisa considerada, sendo a palavra _____________

95

Cf. STAROBINSKI, J. Jean-Jacques Rousseau. A Transparência e o obstáculo. Seguido de sete ensaios sobre Rousseau. São Paulo: Companhia das Letras, 1991.

um sinal da ideia ela é tomada com um sinal de um sinal, o que nos indica a impossibilidade de uma comunicação imediata, tanto na vida como na escrita. Portanto, se a escrita anuncia o paradoxo da busca pela comunicação, evidencia também que Rousseau e Beauvoir jamais poderiam ser transparentes e nos contar tudo a respeito de suas vidas. Não porque não o quisessem, mas simplesmente pelo fato de que seria impossível dizer tudo.

[...] em um texto autobiográfico podemos ver o eu–autoral sendo identificado com o eu–textual (o eu do narrador do texto) em processo de potenciação que cria o próprio autor. Philippe Lejeune, apesar de seus equívocos, ainda o grande teórico da autobiografia, denominou esta identificação de “pacto autobiográfico”, ou seja, quando lemos um texto que se apresenta como autobiografia tomamos como um fato que o eu do narrador é idêntico ao eu-autoral. Na verdade esta identificação é uma ficção, mas esta ficção “fixa” algo, vale dizer, cria uma vida. (SELIGMAN, 2007, p.74)96.

Então, no caso de Rousseau como em Beauvoir a memória não pode ser tomada como um reservatório completamente seguro – a despeito de ser capaz de superar os equívocos de uma percepção atual, o que justifica os sinais aparecerem caóticos, a princípio, e se configurem à medida que a memória os revive e lhes atribui sentidos – porque a memória, como os outros sinais é desvelamento de mundos, experimentação da presença da lembrança que não pode ser absolutamente traduzida as outras pessoas e também, interpretações sucessivas de um obstáculo intransponível na busca da verdade psíquica da experiência vivida. Neste sentido, podemos continuar na linha de Starobinski e falar da presença dos sinais na escrita em várias direções, como perseguição angustiada dos sentidos, como aprisionamento, refúgio ao passado e a criação de modelos fixos; e também como expressão de si mesmo, como abertura de possibilidades, evasão, alívio e criação, uma vez que os sinais aparecem e falam, mas não se reduzem a esta fala e tampouco já definiram sua significação.

Ao folhear o álbum de fotografias da família, a escritora experimenta a _____________

96

Cf. SELIGMAN-SILVA, M. Autobiografia como Autoficção. In: Revista Entre Livros, n. 5. Entre Clássicos. São Paulo: Segmento-Dueto, 2007.

personagem de si em processo de criação e desmontagem da imagem fotográfica. A narradora expressa seu olhar com as palavras por meio do exercício da escrita do “eu” que produz a menina bem-comportada, segura, feliz e desastrada que conta os pormenores de sua existência trágica. Esta que nos é bem conhecida, a heroína moderna como anti-heroína burguesa que se dedica comicamente a tornar-se uma pessoa virtuosa.

A imagem que tenho de mim na memória, por volta da idade da razão, é pois a de uma menina bem-comportada, feliz e passavelmente arrogante. Duas ou três recordações desmentem esse retrato e fazem- me supor que bastara bem pouca coisa para abalar minha segurança. (BEAUVOIR, 1983, p.64)

O que abala a segurança da menina/personagem aos oito anos de idade são essencialmente as ocasiões em que o afastamento de seu reduto familiar se fazia necessário ou quando a situação, neste próprio ambiente, era ameaçada, por exemplo, por ocasião das dificuldades econômicas vividas durante o último ano da primeira guerra97, tempo que a escritora chamou de “a era das restrições”. Esta cena retratada por Beauvoir, na primeira parte de suas memórias, pode nos remeter – não por um conhecimento histórico, mas por associações em uma aprendizagem – a algumas passagens descritas no diário da menina judia Anne Frank – especificamente sobre a necessidade de se fazer economias para manter a alimentação diária. Anne ficou escondida, por volta de dois anos, com sua família e outra família de judeus, em um sótão de Amsterdam durante a ocupação nazista na Holanda. A situação da criança judia era muito mais precária que a da personagem de Beauvoir, mas o clima de tensão que as duas grandes guerras provocaram na vida das pessoas pode aproximar – conservando-se as diferenças muito particulares, em cada caso – as experiências vividas por ambas as garotas.

O frio, o apartamento mal aquecido, a falta de carvão e comida, impedia a costumeira alegria nos momentos das refeições. O mundo vai se tornando um lugar _____________

97

Para maiores informações vale conferir: FRANK, A. O diário de Anne Frank. Rio de Janeiro: Record, 1997.

que não é mais seguro e assim a narradora define o florescimento da imaginação nos tempo de guerra. Tanto através dos livros como dos comunicados, das conversas que ouvia em sua casa sobre a guerra, esta lhe aparecia de forma escura, fria, repleta de dor, agonia, sangue e medo. É que muitos amigos/as e parentes a família já havia perdido na frente de guerra. Se em um primeiro momento os alemães lhe apareciam como a encarnação do mal, passara a compreender com o tempo que a vitória fundamental era a paz. Neste ponto podemos nos remeter a relação da escrita com a memória que aparece evocada pelo signo sonoro – os sinos que dobravam na época da guerra, as conversas dos adultos que a menina ouvia sobre este acontecimento nefasto.

Benjamin98 trabalha com a referência de Baudelaire, a imagem do trapeiro, para descrever a função do poeta na modernidade – aquela pessoa que trabalha nas grandes cidades recolhendo o lixo urbano, ou seja, tudo o que uma sociedade jogou fora, perdeu, desprezou, conduzindo uma carrocinha ou um carrinho de mão. Engraçado é que em nossos dias já encontramos trapeiros cujos carrinhos têm equipamento sonoro. Então, por onde passam, deixam suas marcas nas músicas que emitem como uma forma de tornar visível à própria existência. A escrita das memórias pode surgir, então, por meio dessa imagem do trapeiro e, ao invés do poeta ou do historiador referidos por Benjamin, pensaremos na escritora que recolhe suas experiências pessoais – tanto as flores virtuosas como os trapos e sucatas que também expressam um coletivo das experiências desprezadas, invisíveis para as sociedades que pretendem esquecê-las – e as transforma em literatura.

Os poetas encontram o lixo da sociedade nas ruas e no próprio lixo o seu assunto heróico. Com isso, no tipo ilustre do poeta aparece a cópia de um tipo vulgar. Trespassam-no os traços do trapeiro que ocupou a Baudelaire tão assiduamente [...] “Tudo o que a cidade grande jogou fora, tudo o que ela perdeu, tudo o que desprezou, tudo o que destruiu, é reunido e registrado por ele. Compila os anais da devassidão, o cafarnaum da escória; separa as coisas, faz uma seleção inteligente; precede como um avarento com seu tesouro e se detém no entulho que, entre as maxilas da deusa indústria, vai adotar a forma de objetos úteis _____________

98

Cf. BENJAMIN, W. A modernidade. In: ________. Charles Baudelaire um lírico no auge do capitalismo. São Paulo: Brasiliense, 1989 (Obras escolhidas. v. 3).

ou agradáveis” (BENJAMIN, 1989, p. 78).

E como na vida as coisas na leitura também nos acometem por meio de um som, por exemplo, como um barulho que nos provoca, um eco, uma música, conversas que se ouvem ou quem sabe um grito, são intensidades, choques que marcam o tempo, mas que também podem rompê-lo e nos obrigar a deixar o ritmo habitual do viver. Desta forma, à medida que nos deparamos com uma bifurcação do tempo – o passado, o presente e o futuro – cada qual em sua diferença, surge como multiplicidade em meio a sensações que nos retiram do ritmo mecanizado dos relógios. Assim passamos a coexistir nas experiências de (re)encontros; quem fomos, quem somos e quem seremos convivem no tempo como uma multiplicidade de experimentações. Em uma das cenas do filme A excêntrica família de Antônia99 ouvimos a narradora dizer “O provérbio está errado. O tempo não cicatriza as

feridas ele apenas alivia a dor e embaça a memória”. Ou seja, o tempo não pode ser

apagado. Ele apenas adquire novas formas como o embaçamento, por exemplo, que não deixa de ser uma das modalidades de aparição do esquecimento.

Talvez a necessidade de recorrermos à arte cinematográfica para dizer o tempo já nos aproxime da ideia que buscamos trazer aqui para concebê-lo nesta prática experimental de leitura. Benjamin também contribui, neste sentido, ao discutir a variabilidade de estímulos na qual somos produzidos com a própria evolução da técnica cinematográfica; a forma e o ritmo das máquinas penetram em nossas sensibilidades. Se a imagem criada pelo pintor é total, a imagem do operador só pode surgir em uma composição de múltiplos fragmentos que se reconfiguram de acordo com outras leis.

Assim, a descrição cinematográfica da realidade é para o homem moderno [...] um aspecto da realidade livre de qualquer manipulação pelos aparelhos, precisamente graças ao procedimento de penetrar, como os aparelhos, no âmago da realidade (BENJAMIN, 1994, p.187)

Há uma outra cena, descrita no primeiro livro de memórias de Beauvoir, _____________

99

em que a narradora também desconstrói seu retratado perfeito de criança feliz, bem comportada e segura. É na aula de ginástica, quando a personagem aparece como uma menina magrinha e timorata, esquerda, medrosa e feia em detrimento de suas colegas que são retratadas como impecáveis, bonitas, bem vestidas e capazes de mostrar apreciável desenvoltura na prática dos exercícios corporais. E por fim, é um dos instantes de afastamento familiar, que ocorreu em virtude de uma viagem feita por Simone – a Villers-sur – com uma amiga de seus pais, que a menina se sente violentada, não apenas pelo fato de estar distante dos pais, mas principalmente pelo afastamento de sua querida irmã – a grande companheira de suas aventuras na infância. A irmã que por outro lado é muitas vezes descrita pela narradora como uma menina tola, “chorona” e dependente. Então, novamente nos deparamos aqui com um jogo de imagens que Beauvoir manipula com a escrita ao colocar retratos fixos das pessoas em movimento para a composição de seu próprio “eu”.

Apresenta-nos sua irmã caçula que se chama Hélène, mas a quem ela se refere como “minha irmã” ou pelo seu apelido Poupette, ao acentuar sempre sua diferença em relação a ela e a seus pais que nos conta – amava acima de tudo. A narradora justifica-se. Dizia amar o pai – Georges de Beauvoir – porque ele contava- lhe histórias e também lia com ela. A mãe – Françoise – dizia amar pela beleza e porque a ajudava nos deveres de casa da escola e com a vida espiritual, já que a filha mais velha estava se tornando tão fervorosamente cristã quanto sua mãe. Sempre acompanhava a mãe nas constantes visitas que fazia à igreja.

Na primeira parte do livro um de suas memórias Beauvoir nos mostra uma menina que, mesmo inquieta desde a mais tenra idade, sempre se esforçou para agradar os adultos, especialmente seus pais. Cobiçava este universo do qual se sentia excluída e ao mesmo tempo questionava. De qualquer modo, empenhou-se em agradar os mais velhos – para se aproximar do que ela denominava o “mundo dos adultos”.

Entre outras coisas, na busca de agradar os adultos e ao mesmo tempo experimentar o próprio agrado em sua vida, à menina dedicou-se em exibir um acentuado patriotismo. Ajudava a mãe e a tia Hélène a cuidar dos soldados franceses

que conseguiram retornar dos campos de batalha da primeira grande guerra. Foi quando passou a confeccionar bandeiras com os dizeres “viva a França”.

Em tempo de guerra, tinham-me dito, os indivíduos matam outros indivíduos: para onde fugiria eu? No correr do ano papai me explicara- me que a guerra significa a invasão de um país por estrangeiros e eu pus-me a temer os numerosos japoneses que então vendiam leques e lanternas de papel nas praças. Mas não eram eles. Nossos inimigos eram os alemães. (BEAUVOIR, 1983, p.29)

Como fez Rousseau e de forma semelhante George Sand, para citar outra mulher que no século XIX conseguiu destaque no campo literário, Beauvoir delimitou claramente em suas memórias as diferenças que se tornam expressivas nas inúmeras fases de nossa vida – a infância, a juventude, a maturidade e a velhice – e de suas passagens em nossas vidas no plano da escrita. No trecho acima Beauvoir nos oferece um exemplo clássico do que consideramos o “pensamento infantil”. Geralmente a criança considera tudo o que os adultos lhe contam com “a verdade” que pode ser transportada e generalizada para todas as circunstâncias da vida. Em seu penúltimo livro de memórias Balanço Final a escritora afirma:

A transfiguração poética da infância que o século XIX burguês realizou é uma mistificação: a criança nada tem de poético; mas é verdade que o mundo tem, para ela, uma estranheza fascinante [...]. O inconveniente é que sua imagem e seu próprio ser ligam-se a outra pessoa que ela toma por essencial, ao passo que a si própria por não-essencial. (BEAUVOIR, 1990, p.13)

É neste sentido que Beauvoir trabalha com a ideia de que a criança é um ser alienado, uma vez que se encontra envolvida em um mundo, em um tempo, em um espaço e também em uma forma de linguagem que é recebida dos adultos. Os adultos são considerados – o padrão – praticamente uma espécie de deuses para as crianças porque todas as coisas que as rodeiam levam a sua marca misteriosa. No ensaio de 1949, O segundo sexo: a experiência vivida, a escritora retoma a questão:

A magia do olhar adulto é caprichosa; a criança pretende ser invisível, os pais aceitam o jogo, procuram-na às apalpadelas, riem e depois bruscamente declaram: “Tu me aborreces, não és invisível”. Uma frase

mundo tão incerto, tão imprevisível como o universo de Kafka, titubeia- se a cada passo. (BEAUVOIR, 1980, p.11)

Em nosso estudo é interessante considerar a multiplicidade das infâncias que a escritora compõe ao criar “sua” vida na variabilidade do uso das palavras no tempo e na forma que deixam escapar uma coletividade menor que se agencia. Agenciamento que funciona coma uma espécie de limpeza; limpar o dado absoluto que encerraria uma única infância possível. A infância desejada por Beauvoir é também a de uma busca que o poeta Fernando Pessoa definiu como limpar a tinta com que nos pintaram os sentidos. Certamente foi também por isso que Pessoa criou tantos heterônimos na dissolução deste “eu” já anunciada por Kierkegaard.