No espaço e enredo dos devaneios machadianos, os relatos ficcionais desse autor enfocam e representam, simbolicamente, uma época anterior às grandes transformações cariocas nos aspectos urbanos e sociopolíticos, os quais o deixavam apreensivo quanto ao futuro do Brasil, país em construção numa época de sua transição entre um período de calma e relativa estabilidade para outro tempo de transformações e insegurança quanto ao futuro. Mas Machado de Assis não estava só em sua visão sobre a superficialidade das transformações arquitetônicas cariocas, que imitavam a modernização europeia, em especial a França, país que se destacava na Europa como modelo de progresso e criador de modas e modos de vida para as nações periféricas como a nossa. Outro olhar crítico sobre os aspectos artificiais do modernismo carioca veio de João do Rio, pseudônimo de Paulo Barreto, cuja vida e obra é narrada com leveza e inteligência por Júlia O'Donnell (2008), conforme expus no capítulo anterior.
Para João do Rio, a “cirurgia urbana” atendia somente ao que as elites esperavam, como modelo extraído dos melhores centros urbanos europeus. Faltava agora sua representação ao povo carioca, o que ele se propunha a fazer em suas crônicas. Algumas providências educativas foram tomadas na formação da nova sociedade que se desejava para o Rio de Janeiro, após a produção desses espaços “irradiadores de novos costumes":
Já no início da gestão Pereira Passos, ficou proibida a ordenha de vacas nas ruas, mendigos foram recolhidos, as lojas deveriam apresentar seus produtos em vitrines, e seria punido quem urinasse ou cuspisse nas ruas. A “Liga contra o feio”, liderada em 1908 por Luiz Edmundo, e a “Liga da defesa estética”, comandada por Coelho Neto em 1915, deixavam claro que o crime maior era “enfear” a paisagem da capital que procurava transformar-se na “cidade maravilhosa” (O'DONNELL, 2008, p. 50).
O modelo europeu copiado pela cidade, na gestão de Rodrigues Alves, entretanto, não foi visto com bons olhos por todos os cidadãos cariocas. Entre eles, destaca-se Lima Barreto, “que via com maus olhos a artificialidade dos traços europeus que invadiam o centro da cidade e chegou a apelidar a avenida como ‘mulata apertada em vestido francês” (id.).
Para Paulo Barreto, o João do Rio, havia uma espécie de simbiose entre ele e a rua, cujos costumes serviam-lhe de mote para uma escrita mimética. “O ambiente urbano era, para João do Rio, uma inevitabilidade existencial. E nessa entrega aos olhos e às almas das ruas, (que ele afirmava existirem) o cronista teve sua própria imagem maculada pelas ambiguidades e paradoxos que sua cidade guardava” (op. cit., p 51).
Mais adiante, observa O’Donnell (2008, p. 54) que, com toda a transformação do primeiro período republicano, a obra de João do Rio destacou-se pelos “instantâneos fotográficos da vida mundana” e também por ser “um verdadeiro inventário dos costumes do
grand mond carioca”: “festas em salões, chás, récitas no Teatro Municipal, avenida Central e
cafés”, ou seja, eram retratados, em suas crônicas mundanas, os hábitos de “diplomatas, políticos e escritores, usando cenários e atores como pretexto para descrever os figurinos” dos seus comportamentos. Ao retratar a forma como os espaços sociourbanos eram explorados nas crônicas de João do Rio, de “olho na rua”, diz a autora que
O momento registrado por João do Rio revela-se um ponto crucial da passagem, no Brasil, de relações sociais de tipo senhorial para relações sociais de tipo burguês, marcado pelo individualismo [...]. A nova classe urbana saía dos seus salões e varandas para ganhar as ruas (principalmente a avenida Central e a rua do Ouvidor), numa torrente de estímulos que se alargava noite adentro na incessante coreografia da avenida Central. Pedestres, chauffeurs, automóveis, bondes, bengalas e vestidos se interpunham entre as damas e cavalheiros que, entregues ao fascínio do moderno, faziam viver a República
no âmago do seu projeto: o espaço público. A cidade como causa vencera, por fim, o temperamento ilhota do século XIX. (O'DONNELL, 2008, p. 60).
Fig. 11: Av. Central do início do século XX, citada em crônica de João do Rio. Acesso em 12 nov. 2015
Atento a essas mudanças, com reflexos nas relações sociais do espaço urbano, na virada do século em que nasceu, Machado de Assis expressa, em seus últimos romances, seus desencantos por meio de uma literatura irônica, humorística, mas principalmente saudosista do melhor tempo de sua vida pessoal e social. É isso que busca representar, nos seus devaneios sobre as manifestações psicológicas de seus personagens, em geral mais preocupados com seus problemas pessoais e sentimentais que com as mudanças urbanísticas e mesmo políticas do novo século.
Tem sido analisado também, por diversos estudiosos da espacialidade literária, o modo como o Bruxo do Cosme Velho explora o espaço linguístico em sua obra. Roland Barthes é um dos críticos literários que classifica os elementos espaciais em informantes, que agem como operadores realistas e as funções, as quais analisam como a narrativa é articulada. Além do seu hábito em dialogar com o leitor, com os seres animados ou inanimados o escritor utiliza as figuras de linguagem como modo simbólico de interação com a diegese.
Segundo Sena, não há outro autor literário brasileiro como Machado que utilize alusão e citação a outras obras da literatura. E continua, essa pesquisadora, a expor, de modo brilhante sua constatação:
Do Antigo Testamento a Victor Hugo, da Ilíada a Edgar Allan Poe, das Mil e uma noites a Álvares de Azevedo, o universo de Machado de Assis parece infinito. E, o que é melhor, o autor faz dos textos que apropria ferramenta de
trabalho, pondo a citação e a alusão, nem sempre muito precisas ou fieis ao original, a serviço da técnica de narrar: ora funcionam para complementar a caracterização de uma personagem, ora para encadear a trama romanesca, ora para servir ao narrador na sua necessidade de controlar a recepção do leitor. Em sua obra, a citação/alusão é um dispositivo narrativo como outro qualquer, que utiliza com total domínio técnico-artístico. Irônico, culto, conciso discreto, "clássico", Machado de Assis teve, entre outros inúmeros méritos como escritor, este de incorporar na sua ficção os textos dos escritores que leu (SENA. 2015).
Sem dúvida, é grande a quantidade de alusões e citações machadianas em suas obras, em especial as referentes ao sagrado. Isso ocorre em seus poemas, crônicas, contos e romances. O aspectosacro se faz presente em inumeráveis poemas, quando lemos, em muitos dos seus versos, citações vagas ou bem claras de passagens bíblicas como estas: "Eu sou a luz do mundo."; "Eu sou o pão da vida; aquele que vem a mim não terá fome.", "Porque Deus amou o mundo de tal maneira que deu o seu Filho unigênito, para que todo aquele que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna.", "O meu reino não é deste mundo.", que podem ser lidas, respectivamente, no
Evangelho de João, 8:12, 6:35; 3:16; e 18:36 e também nos poemas machadianos.
É o que se percebe nesta primeira estrofe do poema "A luz", inserido no primeiro livro de poesias de Machado de Assis, intitulado Crisálidas (1864), o qual comento abaixo:
Eu sou a luz fecunda, alma da natureza; Sou o vivo alimento à viva criação.
Deus lançou-me no espaço. A minha realeza Vai até onde vai meu vívido clarão.
Mas se derramo vida a Cibele fecunda, Que sou eu ante a luz dos teus olhos? Melhor, A tua é mais do céu, mais doce, mais profunda. Se a vida vem de mim, tu dás a vida e o amor. (ASSIS, 1973, vol. III, p. 32.)
Verifica-se, também, numa leitura atenta dessa estrofe, que o Cristo aqui é substituído pela “natureza”, que alimenta os seres vivos, mas se extingue na duração dessa luz que também se esvai com eles quando não mais houver essa efêmera luz. Vê-se nesses versos também a influência da mitologia grega na produção poética de Machado. No espaço onde houver a "luz da natureza" haverá alimento para a "viva criação". Pode-se observar isso na citação feita pelo poeta a Cibele, que, na mitologia grega, "simboliza a energia encerrada na terra", a deusa "criadora da Humanidade" e da "fecundidade", que simboliza "a fecundidade pela morte" (CHEVALIER; GUEERBRANT, 2006, p. 237). Mas Cibele também está associada a Átis, "o deus morto e ressuscitado periodicamente". A referência ao amor de Cibele simboliza a "sensualidade" (id.). Se pensarmos em termos de um "eterno retorno", como sinaliza a teoria de Nietzsche (2003, p. 300),
em relação à vida, a ressurreição proporcionada pela deusa Cibele, "mãe dos deuses e dos homens" é a representação desse eterno renascer nesse poema. As elucubrações decorrentes daquilo que os versos dizem podem variar, pois os devaneios do seu autor, ao serem analisados sob as óticas da psicologia, da religião e do materialismo, inevitavelmente, acarretam, em suas instigantes contradições, manifestas aporias literárias.
A literatura permite-nos diversos enfoques sobre as possibilidades interpretativas dos significados, que podem mudar, num processo diacrônico de entendimento do seu conteúdo, mas cujos significantes permanecem os mesmos. Isso ocorre para além da visão da Estética da
Recepção proposta por Jaus, que considera o leitor tão importante para a obra como o autor. Mas,
de acordo com Foucault (2001), muito mais importante do que o tempo da criatividade literária é o espaço de sua criação. Daí a possibilidade de serem sempre apreciadas as grandes obras culturais e literárias, mesmo sendo provenientes de um escritor em seu tempo, com "certa cor local", como afirma Machado no "Instinto de Nacionalidade". A mimese literária dos bons autores, quando trabalhada com arte, graça e estilo, qual ocorre com o escritor destas pesquisas, permite-nos a associação dos nossos com os seus devaneios na recriação da realidade, característica própria dos bons ficcionistas de todos os tempos e lugares. Foi com esse entendimento, que ele escreveu, no trabalho crítico citado:
Não há dúvida que uma literatura, sobretudo uma literatura nascente, deve principalmente alimentar-se dos assuntos que lhe oferece a sua região; mas não estabeleçamos doutrinas tão absolutas que a empobreçam. O que se deve exigir do escritor, antes de tudo, é certo sentimento íntimo que o torne homem do seu tempo e do seu país, ainda quando trate de assuntos remotos no tempo e no espaço (ASSIS, 1973, v. III, p. 804).
Nas suas crônicas, é rica a presença de citações, em especial de galicismos, por Machado de Assis, como lemos em seu relato sobre o nascimento da crônica: "Resvala-se do calor aos fenômenos atmosféricos, fazem-se algumas conjeturas acerca do sol e da lua, outras sobre a febre amarela, manda-se um suspiro a Petrópolis, e la glace est rompue5: está começada a crônica" (In:
História de 15 dias, 1º nov. 1877). Tal procedimento era comum, no século XIX e início do século
XX, em virtude da grande influência da cultura francesa sobre a produção literária dos nossos escritores.
No conto A parasita azul, o narrador faz esta citação: "Os adversários do rapaz, sabedores das circunstâncias em que lhe foi oferecida a candidatura, não deixaram de dizer em todos os tons
5 la glace est rompue: em francês, literalmente, significa "o gelo foi quebrado", ou seja, foi afastado o
que ele vendera o direito de primogenitura por um prato de lentilhas" (ASSIS, 1974, v. II, p. 191). Alusão à história bíblica dos irmãos Esaú e Jacó, em que aquele vendera a este sua primogenitura, em troca de um prato de guisado de lentilhas, após Esaú chegar do campo cansado e faminto (Gênesis, 25:29- 34), ou seja, trata-se de mais uma alusão bíblica.
Por fim, encontramos nos romances de Machado os recursos da alusão e da citação como formas de exploração do espaço linguístico. Em Dom Casmurro, cap. 68, lemos a seguinte citação: "Montaigne escreveu de si: ce ne sont pas mes gestes que j'escris; c'est moi, c'est mon essence". Ou seja, "não são os meus gestos que escrevo; sou eu, é a minha essência". Nesse mesmo capítulo, comentando a perda do trem quando socorreu um cego com a doação de uma bengala, o narrador cita este bordão: Voilà mes gestes, voilà mon essence. "Eis os meus gestos, eis a minha essência". Essas reflexões do narrador decorreram dos acontecimentos relatados no capítulo anterior, em que sua mãe, muito doente e temendo morrer, mandou buscá-lo no seminário. O encarregado da missão foi o agregado José Dias, que deixou o rapaz assustado em virtude de não lhe contar nada, durante o percurso para casa sobre o real motivo de seu chamado.
A casa de Mata-Cavalos ficava "além da dos Inválidos, perto da do Senado. Enquanto caminhavam, Bentinho teve um pensamento do qual se arrependeria mais tarde: "Mamãe defunta, acaba o seminário". Foi o remorso por essa ideia que o fez lembrar, no capítulo seguinte, os versos de Montaigne, que também o levaram a lembrar, no final do capítulo, de um gesto caridoso em compensação à sua consciência atormentada pelo irreprimível desejo de se ver livre do seminário caso a mãe morresse.
Ainda arrependido pelo mau pensamento e temeroso de ficar órfão de mãe, no domingo seguinte foi à missa e, na saída, encontrou-se com Sancha, amiga de infância de Capitu. A moça pede ao pai, que a acompanhava, para perguntar a Bento Santiago pela saúde da mãe deste, que lhe responde que a mãe estava convalescendo da doença. No futuro, Sancha viria a desposar Escobar, Bentinho casar-se-ia com Capitu e os casais tornar-se-iam grandes amigos.
As atitudes dos personagens machadianos refletem as transformações sociopolíticas de sua época. Seus hábitos religiosos, como a frequência às missas, traduziam a ascendência moral que a Igreja possuía sobre as pessoas, à época. Assim também, as mudanças sociopolíticas, com a modernização do Passeio Público, o surgimento de grandes editoras e o embelezamento da cidade do Rio de Janeiro, que expulsou para as periferias as famílias proletárias e urbanizou a então Capital do Brasil, as lutas abolicionistas e republicanas.
Tudo isso está presente nas crônicas, contos e romances do Bruxo do Cosme Velho. Veremos a seguir como também o espaço psicológico é trabalhado pelo escritor em alguns dos seus últimos romances.