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INFLUÊNCIA DE PRODUTOS TÓPICOS NO pH DA PELE E SUAS

CONSEQUÊNCIAS

O pH da superfície cutânea é afectado de modo significativo por numerosos factores externos; é por isso importante conhecer esses factores aquando da criação de produtos tópicos (Korting & Braun-Falco, 1996). Os produtos tópicos são utilizados como terapêuticas coadjuvantes em muitas doenças dermatológicas, como em alterações da queratinização, por ectoparasitas nos animais domésticos e infecções bacterianas ou fúngicas. Embora raramente estas medicações, quando utilizadas isoladamente, tenham um efeito curativo nestas doenças, elas podem acelerar a sua resolução, ajudar a manter as melhorias obtidas com as terapêuticas sistémicas, aumentar o conforto do paciente ou diminuir a quantidade de medicação sistémica necessária (Matousek et al., 2003). Já em 1960, Jolly et al. (1961) detectaram um aumento no pH médio da pele de um voluntário saudável, após 10 lavagens com um sabão normal. Hoje em dia sabe-se que um aumento no pH da pele do Homem pode ser observado após a limpeza da pele com sabões alcalinos, mas também em menor grau e por um menor período de tempo, após o uso de detergentes sintéticos formulados com o mesmo pH da pele, ou mesmo após lavagens com água da torneira (Schmid- Wendtner & Korting, 2007). Também tem sido demonstrado que o uso de pensos oclusivos e de antibióticos e antisépticos tópicos alteram o pH da superfície cutânea (Ansari, 2009). Muitos champôs e produtos veterinários de uso auricular contêm, para além de medicações antimicrobianas, agentes acidificantes como o ácido láctico ou o ácido acético. Embora estes agentes acidificantes não tenham actividades antimicrobianas bem definidas, a acidificação da pele humana ou dos condutos auditivos dos canídeos cria teoricamente, um ambiente hostil para microrganismos infecciosos. Existem evidências que apoiam a teoria de que um pH cutâneo acídico diminui a sobrevivência de microrganismos na pele. No geral, são obtidas contagens bacterianas mais elevadas em pele com níveis de pH alcalinos. Para além disso, quando são inoculadas bactérias gram-negativas numa pele alcalina, estas persistem durante um maior período de tempo que na inoculação em peles ácidas (Matousek et al., 2003). Foi também proposto por Mason et al. (citado por Matousek et al., 2003) que a relativa alcalinidade da pele dos canídeos, pode ser responsável pela maior tendência para a ocorrência de infecções de pele em canídeos, quando comparados com o Homem ou outras espécies animais.

Matousek et al. (2003) avaliaram a extensão e duração da acidificação cutânea após uma única aplicação de 4 sprays acidificantes, vinagre (ácido acético) e água na pele de 8 cães saudáveis. Os autores detectaram uma diminuição nos valores de base do pH de pele após a aplicação de cada spray, incluindo após aplicação de água, alteração detectada também num estudo realizado no Homem por Gfatter (1997). Estes resultados indicaram que até a água utilizada em banhos pode afectar o pH cutâneo. Os autores concluíram que os efeitos

 

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acidificantes dos 4 sprays teste e do vinagre podiam diminuir os níveis de bactérias da pele; no entanto, os efeitos do vinagre não se demonstraram duradouros. O vinagre não causou uma diminuição no pH para valores inferiores a 4. Os benefícios observados com o uso do vinagre e outros agentes acidificantes pode dever-se a efeitos antimicrobianos não relacionados com a acidificação. Tanto o ácido acético como o ácido láctico demonstraram ter efeitos inibitórios sobre bactérias e leveduras independentemente do pH. Também é possível que o ácido acético cause uma diminuição breve e imediata do pH local suficiente para afectar os microrganismos. Este estudo demonstrou que o pH cutâneo dos canídeos pode diminuir com o uso de agentes tópicos acidificantes (Matousek et al., 2003). Estes autores num estudo em que determinaram os níveis de pH que inibiam de forma óptima o crescimento de M. pachydermatis de origem canina, detectaram que era necessário um pH<4 para que ocorresse inibição do crescimento das leveduras. Os autores, com estes resultados, sugeriram que produtos tópicos acidificantes poderiam ser terapêuticas benéficas para infecções por leveduras nos cães.

As correntes formas terapêuticas para a dermatite atópica, independentemente do tipo, poderiam explorar os resultados de Hatano et al. (2009), que detectaram que a manutenção da acidificação do estrato córneo de murinos prevenia a ocorrência de dermatite atópica, simplesmente por assegurarem um veiculo para as aplicações tópicas tamponizado de modo a obter uma continuada redução do pH do estrato córneo afectado.

Há cerca de 20 anos atrás, Thune et al. (citado por Schmid-Wendtner & Korting, 2007) investigaram os efeitos do uso de sabões alcalinos e detergentes sintéticos na pele de pacientes humanos idosos não atópicos. Quarenta voluntários com pele seca, com pouca ou nenhuma descamação e sem história de atopia completaram o estudo de acordo com o protocolo. Lavaram um braço com sabão alcalino (pH 9.5) enquanto o outro foi lavado com um detergente sintético (pH 5.5) seguido da aplicação de uma loção (também pH 5.5). Nos grupos de controlo foram incluídos indivíduos jovens e adultos de pele saudável. Os valores médios de pH de todos os grupos encontravam-se dentro do intervalo de 4.9 – 6.3. Um aumento ligeiro no pH foi verificado no grupo com pele seca, após uma semana de tratamento, tanto com detergentes sintéticos como com sabões alcalinos (p<0.03). Apesar do uso intensivo de detergente sintético e loção acídicos, os valores de pH das zonas em teste do grupo da pele seca, aumentaram, no entanto, esses valores mantiveram-se dentro do intervalo de confiança dos grupos de controlo. Os autores atribuem este facto ao efeito neutralizante da água e especularam que um prolongamento do estudo por várias semanas levaria a que se verificasse um efeito acidificante.

Gehring et al. (citado por Schmid-Wendtner & Korting, 2007) estudaram os efeitos do pH no impacto que soluções de lavagem tinham na pele. Eles puderam demonstrar que produtos de limpeza de pele de composições idênticas mas variando apenas no pH (4.5, 5.9, 7.0 e 7.5), induziam alterações diferentes na hidratação da pele. Todas as preparações causaram

 

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uma diminuição da hidratação abaixo dos níveis basais, isto após um pequeno aumento inicial. A desidratação verificou-se menos pronunciada e de mais curta duração após a lavagem com as formulações acídicas (pH 4.5 e 5.9) quando comparadas com as formulações neutras e em particular com as preparações a um pH 7.5.

Fluhr et al. (citado por Schmid-Wendtner & Korting, 2007) investigaram recentemente a influência de produtos de pele acídicos nas funções epidérmicas de pacientes sob tratamentos quimioterápicos. Sabe-se que pacientes com cancro frequentemente sofrem de problemas de pele, em especial de xerose, devido aos efeitos directos dos fármacos ou aos efeitos indirectos da doença como má nutrição e anemia. Foi então feito um estudo com o intuito de verificar se o tratamento concomitante com produtos de lavagem e emolientes acídicos (pH 5.5) poderia melhorar de modo significativo a qualidade da pele em pacientes sob tratamento quimioterápico. Foram avaliados vários parâmetros cutâneos como a perda de água transepidérmica (PATE), a hidratação do estrato córneo, o pH da superfície cutânea e os níveis de secreções sebáceas. Além disso, foi feita uma avaliação clínica dos sintomas cutâneos. Após 3 semanas de tratamento, todos os sintomas cutâneos revelaram melhorias significativas. Foi registado um aumento significativo na hidratação da pele nos locais tratados, bem como uma PATE reduzida e um aumento nos níveis de secreções sebáceas. Os autores concluíram que o uso regular de produtos acídicos para a pele podia melhorar a secura e a sensibilidade da pele em pacientes sob tratamento quimioterápico, resultando possivelmente numa melhoria da qualidade de vida.

Uma vez que o pH cutâneo representa um papel integrante na função barreira da pele, põe- se a preocupação das acidificações provocadas da pele causarem irritação cutânea. Estudos recentes (citado por Matousek et al., 2003) demonstraram que a irritação para a pele humana é normalmente devida aos ingredientes dos produtos e não ao pH do produto. Contudo, os cães têm a pele mais alcalina que o Homem sendo por isso necessárias mais investigações sobre a potencial ocorrência de irritação da pele de canídeos decorrente do uso de acidificantes cutâneos (Matousek et al., 2003).

Estudos prévios (citado por Fluhr et al., 2009) mostraram que, em recém-nascidos, o pH do estrato córneo diminui de valores na ordem dos 6/7 para os valores dos adultos (pH 5.0 – 5.5) ao longo de 5 ou 6 dias. Como tal, ao nascimento, a epiderme neonatal apresenta uma homeostase da permeabilidade da barreira diminuída, bem como uma integridade do estrato córneo também diminuída, melhorando em 5 – 6 dias (Fluhr et al., 2009). Estudos recentes (citado por Fluhr et al., 2005) mostraram que o tratamento tópico de animais recém-nascidos com activantes do receptor X do fígado (LXR), pode acelerar a acidificação do estrato córneo, em parte devido ao aumento da actividade da sFLA2. Esta rápida acidificação

mediada pela LXR ocorria associada a uma melhoria, tanto na homeostase da permeabilidade da barreira, como na integridade do estrato córneo. Adicionalmente, nos animais recém-nascidos tratados com activantes do LXR observou-se uma melhoria nas

 

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anomalias estruturais, tanto nas membranas lamelares do estrato córneo, como na densidade dos corneodesmossomas e, consequentemente, uma melhoria na função destas valências. Dados os efeitos benéficos da activação do LXR no pH do estrato córneo e na estrutura e função cutânea, Fluhr et al. (2009) num estudo recente, colocaram a hipótese de o tratamento com um ou mais activantes do receptor activado por proliferadores de peroxissoma (PPAR) poder também acelerar a acidificação neonatal. Os PPAR são membros da mesma subfamília dos receptores hormonais do LXR. Nos animais adultos, o tratamento tópico com activantes destes PPAR, adicionados a culturas de activantes de queratinócitos humanos, estimulam a diferenciação dos queratinócitos e melhoram a homeostase da permeabilidade da barreira. No estudo, o tratamento tópico com 2 diferentes activantes PPARα, o clofibrato e o WY14643, aceleraram o declínio pós-natal do pH do estrato córneo. A base morfológica para a melhoria da função barreira nos animais tratados com PPARα inclui: a mais rápida secreção de corpos lamelares, o aumento da actividade da ß-glucocerebrosidase, a melhoria da integridade do estrato córneo, devido ao aumento da densidade de corneodesmossomas e conteúdo em desmogleína-1 e o aumento da actividade da sFLA2. Os autores concluíram que os activantes de PPARα, podem ser úteis,

enquanto terapêutica tópica, na prevenção de algumas dermatoses comuns dos recém- nascidos.

 

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CONCLUSÃO

A pele situa-se na interface entre a complexa fisiologia do corpo e o ambiente externo, muitas vezes hostil, actuando a barreira epidérmica semi-permeável na prevenção tanto da perda de humidade como da entrada de agentes infecciosos ou tóxicos. É razoável assumir que o pH acídico da pele influencia muitos processos dependentes de pH na epiderme inferior e superior. Doenças inflamatórias de pele comuns no Homem, como a dermatite atópica, exibem uma função de barreira diminuída e estudos recentes sugerem que a complexa resposta celular da epiderme à perturbação da barreira pode agravar, manter ou mesmo iniciar tais condições. Uma ajuda ao restabelecimento da barreira, por exemplo através do uso de produtos de pele apropriados, pode beneficiar o tratamento das doenças de pele (Schmid-Wendtner & Korting, 2007).

Tem sido repetidamente demonstrado que o pH da pele é susceptível a alterações quando se utilizam regularmente preparações de uso cutâneo com um pH maior que 5.5 (Schmid & Korting, 1995). Estes produtos podem ser ajustados a um pH acídico e, como tal, permitir uma limpeza sem dano para o manto ácido da pele. Relativamente à formulação de preparações óptimas de limpeza de pele, tem que se ter em conta que detergentes sintéticos altamente acídicos (pH<5.0) podem ser também irritantes (Schmid-Wendtner & Korting, 2007).

No geral, existem 3 grupos de indivíduos que podem beneficiar em particular do uso de produtos de uso cutâneo sintéticos acídicos:

• Os que têm a pele saudável, mas que frequentemente são sujeitos a banhos. Estes podem manter o seu pH de pele fisiológico através do uso de produtos de limpeza sintéticos acidificados, prevenindo dessa forma, o desenvolvimento de doenças de pele;

• Pacientes com doenças de pele, especialmente com eczema atópico, dermatoses seborreicas, doenças bacterianas ou fúngicas;

• Os que apresentam uma pele sensível, ou seja, com elevado risco para o desenvolvimento de reacções irritativas possivelmente seguidas de dermatite. Estes beneficiam de produtos emolientes a um pH de cerca de 5.5 (Schmid-Wendtner & Korting, 2007).

A reversão do pH anómalo presente nas dermatoses inflamatórias pode não só melhorar a função de permeabilidade da barreira como também reduzir o excesso de descamação, diminuir a colonização de agentes patogénicos e restringir a inflamação (Hachem et al., 2010).

De um ponto de vista prático, é razoável recomendar o uso de produtos dermatológicos sintéticos tendo em conta o seu pH. Quimicamente, um produto chamado de “neutro” tem um valor de pH de 7.0, o que significa que este tipo de produto não é “neutro para a pele”

 

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uma vez que o pH fisiológico da pele do Homem é de cerca de 5.5 (Schmid-Wendtner & Korting, 2007). É necessária uma chamada de atenção do mercado para o facto de o manto ácido representar um papel na preservação da função barreira, para que se enfatize a importância de produtos com um pH baixo (Yosipovitch & Hu, 2003).

 

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