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Influência do direito norte americano: claim preclusion

6 REDIMENSIONAMENTO DA COISA JULGADA: UMA TENDÊNCIA

6.2 Influência do direito norte americano: claim preclusion

No ordenamento estadunidense, há dois institutos ligados diretamente aos limites objetivos da coisa julgada: a claim preclusion e a issue

preclusion. O primeiro define a imutabilidade da resposta jurisdicional dada à causa de

questão prejudicial, (b) legitimidade das partes para discutir a questão prejudicial em caráter principal e (c) explícito enfrentamento da questão na sentença, com a profundidade adequada a uma decisão judicial definitiva. Em seguida, acrescenta: “Respeitados tais requisitos, a expansão da coisa julgada aos motivos não ofenderia o devido processo legal, pois somente haveria coisa julgada na hipótese de ser decidida uma verdadeira questão, em sentido técnico, com a formação de controvérsia quanto ao ponto que se coloque como premissa necessária do julgamento e o conseqüente respeito ao contraditório e aos demais princípios constitucionais do processo. Quanto ao princípio dispositivo, sua adequada conformação deixaria ao arbítrio do interessado a instauração do processo, mas não lhe atribuiria o poder absoluto de delimitar a abrangência da coisa julgada” (Limites objetivos e eficácia

preclusiva da coisa julgada, p. 39 e 40).

231 Nesse sentido: THEODORO JÚNIOR, Humberto. Redimensionamento da coisa julgada, p. 19. 232 THEODORO JÚNIOR, Humberto. Redimensionamento da coisa julgada, p. 19.

pedir e ao pedido; ao passo que o segundo atribui intangibilidade às questões incidentais solucionadas pela sentença233.

A distinção entre ambos os institutos foi formulada pelo juiz Field, no leading case Cromwell v. County of Sac:

“No caso primitivo, o julgamento, se for de mérito, constitui uma barreira absoluta para uma subsequente ação. Esse resultado é alcançado tanto para a demanda controvertida entre as partes, abrangendo não apenas todas as questões que foram levantadas para sustentar o pedido inicial ou a defesa, mas também todas as questões admissíveis que poderiam ter sido suscitadas com o mesmo propósito. Tal demanda ou pretensão, tendo sido decidida por decisão transitada em julgado, não poderá, de forma alguma, ser reapresentada em juízo entre as mesmas partes. Mas, quando a segunda ação entre as mesmas partes tiver por objeto pretensão diversa, o julgamento na demanda primitiva operará como impedimento apenas no que concerne às questões ou pontos controvertidos sobre os quais foi encontrada uma solução”234

.

A claim preclusion corresponde ao primeiro instituto descrito no excerto acima. É ele que confere imutabilidade à sentença, assim como a coisa julgada

233 Nesse sentido: JAMES JR., Fleming; HAZARD JR., Geoffrey C.; LEUBSDORF, John. Civil procedure,

5ª ed., New York: Foundation Press, 2001, p. 684.

234

Tradução livre do seguinte excerto: “In the former case, the judgment, if rendered upon the merits, constitutes an absolute bar to a subsequent action. It is a finality as to the claim or demand in controversy, concluding parties and those in privity with them, not only as to every matter which was offered and received to sustain or defeat the claim or demand, but as to any other admissible matter which might have been offered for that purpose… Such demand or claim, having passed into judgment, cannot again be brought into litigation between the parties in proceedings at law upon any ground whatever. But where the second action between the same parties is upon a different claim or demand, the judgment in the prior action operates as an estoppel only as to those matters in issue or points controverted, upon the determination of which the finding or verdict was rendered”. (excerto do julgamento Cromwell v. County of Sac, citado por JAMES JR., Fleming; HAZARD JR., Geoffrey C.; LEUBSDORF, John. Civil Procedure, p. 676).

material no sistema processual brasileiro. Assim, “o órgão judiciário, ao prolatar uma decisão válida e final, não mais pode se pronunciar sobre o mérito da causa que restou definitivamente decidida”235

. Essa proibição, por razões óbvias, também se estende a outros órgãos judiciais e às partes, que não podem rediscutir a lide em nenhum outro processo.

Os limites da res iudicata de acordo com o instituto da claim

preclusion são amplíssimos: eles se circunscrevam não só à causa de pedir apontada na

inicial, mas a todas as possíveis causas de pedir, fatos e fundamentos jurídicos, deduzidos ou não pelo autor, que decorram do mesmo núcleo fático que deu ensejo à propositura da demanda, incluindo as exceções a serem deduzidas pelo réu, bem como algumas alegações reconvencionais236. O intuito é promover uma fully litigation da situação controvertida237, conferindo às partes envolvidas uma única oportunidade (processo) para solução da lide (one day in court).

Argumenta-se que haveria um ônus para a parte de não dividir em dois ou mais processos a lide decorrente da mesma base fática, pois o instituto da

claim preclusion impediria futuro pedido de declaração sobre a parte remanescente não

deduzida expressamente em uma primeira ação. Por exemplo, A demanda B por danos morais decorrentes de um acidente de carro. Após o julgamento dessa ação, o autor não poderia propor nova demanda para reclamar danos materiais oriundos da mesma colisão, em razão dos limites objetivos da coisa julgada238. Diante desse exemplo, constata-se que a claim preclusion alcança não só o deduzido na primeira ação, mas também o dedutível que foi omitido pelas partes, abrangendo todos os pedidos, causas de pedir e exceções reconvencionais que poderiam ter sido deduzidas e foram omitidas.

235

PRATES, Marília Zanella. A coisa julgada no direito comparado: Brasil e Estados Unidos, Salvador: JusPodivm, 2013, p. 65.

236 JAMES JR., Fleming; HAZARD JR., Geoffrey C.; LEUBSDORF, John. Civil procedure, p. 685.

237 Nesse sentido: VOLPINO, Diego. L’oggetto del giudicato nell’esperienza americana, Padova: Cedam,

2007, p. 170.

238 CASAD, Robert C.; CLERMONT, Kevin M. Res judicata: a handbook on its theory, doctrine and

Em razão da claim preclusion, fala-se que a ação é merged ou

bared239, isto é, vincula as partes e seus sucessores tanto quanto às questões efetivamente debatidas e decididas como quanto àquelas que poderiam tê-lo sido. Quando a sentença for pronunciada favoravelmente ao autor, usa-se a expressão

merged, no sentido de que a claim que foi objeto da decisão se “fundiu ao julgamento”

(merged into judgment).

O raciocínio é o mesmo para o segundo princípio. Por meio da

rule of bar, quando um determinado julgamento é favorável ao réu, fala-se que tal

julgamento barra (bars) a repropositura de uma nova demanda para discutir a controvérsia original240.

A definição dos limites objetivos da claim preclusion imprescindem do conceito de claim ou demand, ou seja, o que se deve entender como pretensão decorrente de determinando acontecimento fático que, obrigatoriamente, deve ser deduzida por inteiro em um único processo, sob pena de preclusão241. Adota- se um conceito extremamente amplo para a claim de modo a abarcar todos os direitos do autor a serem exercitados contra o réu por meio de todos os remédios previstos no ordenamento242. A demanda abrange, portanto, todas as pretensões advindas de um fato ou determinado conjunto de fatos. Essa concepção é chamada de transactional

approach, que, segundo a definição dada no Restatement Second of Judgments,

compreende “all rights of the plaintiff to remedies against the defendant”243-244 .

239 Marília Zanella Prates esclarece que “a divisão entre merger e bar é parte da visão tradicional e mais

antiga sobre a coisa julgada. Na terminologia moderna, usa-se apenas o termo claim preclusion para se referir a ambos os fenômenos” (A coisa julgada no direito comparado: Brasil e Estados Unidos, p. 66).

240 É impossível não notar a semelhança entre a claim preclusion e o efeito consuntivo da litis contestatio do

direito romano, principalmente sob a ótica do autor, em que a demanda se funde ao julgamento proferido (supra 5.1.2).

241 A remissão feita ao conceito de claim para definição dos limites objetivos da coisa julgada, mais uma vez,

denota as origens romanas da claim preclusion, em oposição às raízes germânicas da issue preclusion.

242

SHAPIRO, David L. Civil procedure: preclusion in civil actions, New York: Foundation Press, 2001, p. 35 e 36.

A doutrina não consegue dar uma definição precisa de

transactional. Fala-se que o termo possui conceituação funcional, voltada, de forma

pragmática, para a eficiência e justiça da res iudicata. Casad e Clermont argumentam que se deve verificar se a pretensão deduzida na segunda ação deveria ou não ter sido apresentada para decisão na primeira demanda, levando em conta considerações práticas de conveniência de julgamento e justiça. Recomendam que se considere, outrossim, o escopo do moderno direito processual de maximização da eficiência dos procedimentos judiciais inserida na imposição de que a parte apresente em juízo todas as queixas que convenientemente e de forma justa possam sem decididas conjuntamente no bojo de uma única ação245.

No Restatement Second of Judgments, transactional é definida, também de modo bastante vago, como “natural grouping or common nucleus of

operative facts”, levando o intérprete a conceber o objeto do processo em íntima

conexão com as circunstâncias que constituam o substrato fático da demanda246. Nessa senda, verifica-se que o objeto do processo deve ser o mais amplo possível para abranger todas as causas de pedir ligadas a fatos de ocorrência simultânea ou próxima sob os aspectos temporal e espacial, que tenham se originado da mesma conduta e que seu acertamento possa ser promovido concomitantemente247.

244

Antes de se consolidar a transactional approach, questões de ordem formal impediam, em alguns casos, a cumulação de pedidos, impedindo a aplicação da regra da res iudicata. Por isso consagrou-se uma visão extremamente liberal dos institutos ligados ao objeto do processo – pleading, discovery and amendment. Nesse sentido: CASAD, Robert C.; CLERMONT, Kevin M., Res iudicata, p. 62 a 68; SHAPIRO, David L. Preclusion in civil actions, p. 34 a 37; e JAMES JR., Fleming; HAZARD JR., Geoffrey C.; LEUBSDORF, John. Civil Procedure, 686 a 688.

245 Res iudicata, p. 66. 246

VOLPINO, Diego. L’oggetto del giudicato nell’esperienza americana, p. 172. CASAD, Robert C.; CLERMONT, Kevin M. Res iudicata, p.67 e 68.

247 Ainda segundo o Second Restatement, o grupo factual que constitui a transaction é definido

“pragmatically, giving weight to such considerations as whether the facts are related in time, origin, or motivation, whether they form a convenient trial unit, and whether their treatment as a unit conforms to the parties’ expectations or business understanding or usage”. No português: “O grupo factual que constitui a transactional é definido pragmaticamente, levando em conta alguns aspectos como se os fatos são relacionados no tempo, origem ou motivação, ou então se eles podem ser convenientemente julgados juntos, ou então se o seu tratamento concomitante é conforme às expectativas das partes, a acordos comerciais ou se é usual” (tradução livre). (excerto do Second Restatement transcrito por CASAD, Robert C.; CLERMONT, Kevin M. Res iudicata, p.67 e 68).

As Federal Rules of Civil Procedure, inclusive, autorizam o autor a cumular tantas pretensões quantas as existentes contra o réu, em uma única ação. Em contrapartida, o juiz é autorizado a separar o julgamento dos diferentes pedidos ou questões caso entenda que sua cumulação poderá prejudicar a igualdade entre as partes, o contraditório e, em última análise, a própria justiça do julgamento a ser realizado.

Em contrapartida, o réu tem igualmente o ônus de propor, em reconvenção, todas as pretensões que tiver contra o autor que decorram do mesmo conjunto de fatos que deram origem à ação ou que tenham ligação direta com o objeto do processo248.

Assim, essa ampliação do objeto do processo foi acompanhada de um consequente alargamento dos limites da coisa julgada, para que estes abranjam todas as circunstâncias de fato e de direito efetivamente alegadas, bem como aquelas que, embora não deduzidas, poderiam ter integrado a fattispecie substancial. Na ótica do ordenamento estadunidense, a demanda é tão ampla que pode incluir: (i) diferentes danos; (ii) diferentes tipos probatórios, (iii) diferentes fundamentos ou teorias jurídicas;

(iv) diferentes remédios processuais; e (v) uma série de eventos relacionados249.

A claim preclusion, portanto, requer do autor enorme cuidado no momento de ajuizar uma demanda, porquanto o julgamento válido e transitado em julgado torna preclusa a parte efetivamente decidida, mas também impede que,

248

É o que se depreende da 13ª regra das Federal Rules of Civil Procedure. No original: “Compulsory Counterclaim. (1) In General. A pleading must state as a counterclaim any claim that—at the time of its service—the pleader has against an opposing party if the claim:

(A) arises out of the transaction or occurrence that is the subject matter of the opposing party's claim; and (B) does not require adding another party over whom the court cannot acquire jurisdiction.

(2) Exceptions. The pleader need not state the claim if:

(A) when the action was commenced, the claim was the subject of another pending action; or

(B) the opposing party sued on its claim by attachment or other process that did not establish personal jurisdiction over the pleader on that claim, and the pleader does not assert any counterclaim under this rule.

posteriormente, se pretenda obter um pronunciamento sobre a parte que poderia ter sido julgada e, no entanto, deixou de ser deduzida pelas partes.

Porém, se novos fatos ocorrerem após a prolação do julgamento, ainda que eles estejam de alguma forma relacionados à já demanda proposta, o autor terá uma nova claim e poderá demandar novamente o réu. Além disso, também são excepcionadas as hipóteses em que alguns fatos ou consequências de determinado fato anterior ao primeiro processo só cheguem ao conhecimento das partes depois do julgamento. Como exemplo, mencione-se a intoxicação de um indivíduo por determinada substância química liberada no meio ambiente. Ademais dos danos imediatos, podem surgir consequências não previsíveis à época. Nesse caso, argumenta-se pela possibilidade de o autor propor uma nova demanda, pleiteado os danos revelados depois da primeira demanda250.