2.3 PODER E A ORIGEM DO DISCURSO ORGANIZACIONAL INTERNO
2.3.1 Influência do discurso na performance social
Para manter a representação social individual vinculada aos anseios organizacionais, a gerência das produções de sentidos com o objetivo de direcionar os discursos de maneira favorável à aceitação dos públicos internos explicita parte do poder que tenta unir atores sociais e organização. Símbolos, imagens e retóricas constroem uma linguagem que aspira à identificação e busca enaltecer a postura adotada pela cultura organizacional.
Edificando a ordem social por meio de referenciais representativos de uma atividade específica, as organizações contemporâneas exercem também influência cada vez maior sobre as condutas individuais. Ao tentar a identificação dos grupos internos com o cenário que se apresenta, essa burocratização espera naturalizar interesses particulares que não condizem com os objetivos organizacionais. Desse modo, com o movimento de interiorizar o exterior, a materialidade do poder se exerce sobre o próprio corpo dos indivíduos. No caminho emaranhado da manifestação de símbolos inseridos no discurso passam a surgir os significados, visto que estes símbolos precisam ser interpretados, gerados e lidos no contexto social e cultural. Segundo a análise de Silva (2008), o desenvolvimento discursivo da organização pode ser espontâneo, como grande parte das práticas comunicativas de cada ser humano em situação de diálogo, “ou calculada, o que ocorre quando se age
racionalmente com o objetivo de alcançar resultados comunicacionais previamente fixados” (SILVA, 2008, p.8).
Foucault (2002, p.14) assinala que, na construção dos diálogos, tudo se passa como se “os interditos, as barragens, as entradas e os limites do discurso tivessem sido dispostos de maneira a que a sua riqueza seja alijada da sua parte mais perigosa e que a sua desordem seja organizada”. No entanto, o intercâmbio e a comunicação são representações positivas que trabalham no interior desses sistemas complexos de restrição, interpretando tanto aquilo que pode ser favorável à organização, como identificando falhas que não condizem como a temática em jogo.
Para transmitir e tornar universais interesses particulares, as organizações se valem dos processos de comunicação organizacional e, se forem sucedidas, os transformam em divisas que as legitimam em seu ambiente interno. “A organização só atinge o ponto máximo quando comunica, ou seja, quando atinge o outro envolvendo-o numa relação dialógica” (SILVA, 2008, p.9). O estudo desenvolvido por Foucault (2002) sublinha ainda que existe na sociedade uma profunda aversão à distorção do discurso, pelo surgimento de enunciados diferentes daqueles pretendidos. O autor pondera que o receio incide naquilo que pode haver de violento e descontínuo, desordenando o ritual que, mesmo no jogo do diálogo ou da interrogação, precisa ocupar determinada posição e formular determinado tipo de enunciado.
Veículos de comunicação corporativos são espaços centrais de expressão da ritualidade discursiva. As mensagens organizacionais são intensamente arregimentadas pelo processo significativo do discurso empresarial. Sob esse viés, a comunicação nas empresas projeta um público-alvo que precisa se informar enquanto consumidor. Além disso, a contribuição trazida para a comunicação organizacional por Torquato (2012) relata como um dos graves problemas de administração empresarial o fato de se tomar a parte pelo todo nas ações de comunicação. “Situações isoladas, projetos específicos em determinado setor, ângulos especializados são, frequentemente, usados para exemplificar questões genéricas, de interesse amplo” (TORQUATO, 2012, p.178).
A natureza política dos processos dialógicos e relacionais das organizações com seu público interno, ao considerar que estas são relações que individualizam a organização perante os colaboradores, intervém em sua existência e constituição. Mas, ao abarcar as relações humanas, entende-se que o diálogo está muito longe de ser apenas uma troca de informações. “Ele é uma atividade intensa que envolve razão, emoção, arte e vivências. O diálogo é sempre relação” (SILVA, 2008, p.9).
Na contramão da necessidade humana, o discurso organizacional objetiva consequências e resultados. Processos relacionais ficam relegados ao segundo plano, pois a organização precisa evidenciar uma carga enorme de princípios e dispor ao público interno um vasto cenário de informações, presumivelmente necessárias. Esse mundo organizacional idealizado implica variados enfoques, dentre eles o sustentado por Torquato (2012) de que a cultura empresarial brasileira é alimentada por preconceitos e posições que jamais poderiam aceitar o discurso crítico. “A empresa patrocina uma linguagem de integração, solidariedade, unidade” (TORQUATO, 2012, p.184). Não se permite que aspectos negativos possam ofuscar o esforço que os comunicadores fazem para tornar o ambiente empresarial um espaço de convivência agradável.
Em oposição aos objetivos organizacionais, muitos discursos impostos deslizam facilmente para preconceitos. Nesse sentido, muitas vezes o trabalho interno comunicacional migra para a nostalgia de um mundo idealizado e óbvio, próprio do sistema capitalista, desconsiderando os processos relacionais. Nessa linha de raciocínio, incursionar sobre o que pensa Foucault (2002) abre horizontes para análises a respeito do processo, construção e representação da vida organizacional, com base nos discursos que se impõem, se constroem, se deturpam ou se consolidam. Segundo o autor, há um princípio e rarefação do enunciado que atinge o agrupamento, a unidade e origem de suas significações, no lastro de sua coerência. Suspeita-se que existe, de um modo muito regular, uma espécie de desnível entre os mais diversos discursos.
Os discursos que ‘se dizem’ ao correr dos dias e das relações, discursos que se esquecem no próprio ato que lhes deu origem; e os discursos que estão na origem de um certo número de novos atos de fala, atos que os retomam, os transformam ou falam deles, numa palavra, os discursos que, indefinidamente e para além da sua formulação, são ditos, ficam ditos, e estão ainda por dizer. (FOUCAULT, 2002, p.2)
O perfil estratégico de um discurso organizacional está ancorado no equilíbrio entre o discurso e as ações praticadas. O desequilíbrio não é aceitável. Em uma organização as pessoas temem perder seus postos quando aspectos negativos se tornam aparentes. Outros, como os comunicadores contratados para trabalhar internamente a reputação empresarial, objetivam mostrar que a organização é uma ilha ladeada de paz. No entanto, como argumenta Torquato (2012), é do confronto de posições e do erro que o crescimento pode surgir. Torna- se relevante aceitar a crítica como elemento integrante da busca por eficácia, avaliando essa característica como oriunda das mudanças sociopolíticas, onde as transformações ditam novos comportamentos. “As empresas necessitam da crítica para encontrar caminhos claros. A
locução deve ser aberta. Quando se tem boa intenção, não se deve temer a crítica” (TORQUATO, 2012, p.186).
Pelo exposto, Foucault (2002), por certo, inspira a defesa da importância do outro nas relações organizacionais. Compreender o outro é não apenas vê-lo como quem recebe o discurso interno, mas como aquele que lê e interpreta os textos que a organização sugere. O discurso doutrinário põe também em causa os enunciados, na medida em que, conforme ressalva Foucault (2002), ele vale sempre como sinal, manifestação e instrumento de uma pertença prévia. Sobre essa tentativa de controle, onde os membros sociais podem apresentar resistência ou aceitação, a doutrina liga os indivíduos a certos tipos de enunciação e lhes interdita outro, “mas, em reciprocidade, serve-se de certos tipos de enunciação para ligar indivíduos entre si, e desse modo os diferenciar de todos os outros” (FOUCAULT, 2002, p.11).
O discurso organizacional interno é um determinante importante para a formação da cultura e dos grupos sociais e atua como fator interveniente nas interlocuções entre os sujeitos de um grupo social. Considerada perturbação à doutrina presumida pelas organizações, aspectos negativos disseminados na organização, em suma, são considerados oriundos da comunicação informal, processo este que é visto como uma ameaça ao clima organizacional. Nos bastidores desse mecanismo de relação, a palavra é o conector da interação entre os envolvidos no discurso. O capítulo seguinte pretende analisar este espaço de interação complexo como ambiente propício ao diálogo, e como a relação face a face e a comunicação informal são mecanismos estratégicos que buscam representar os grupos e os indivíduos perante a organização.