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7. RESULTADOS E DISCUSSÕES

7.6 INFLUÊNCIA DO INTERNAMENTO NO COMPORTAMENTO DO PACIENTE

A Figura 10 demonstra os tipos de tratamento buscados pelos pacientes antes do internamento que serve para análise desse estudo. Observa-se que diversos pacientes já haviam tentado internamento anteriormente, seja voluntário ou involuntário, além de internamentos em comunidades terapêuticas. Apesar de ser critério de exclusão a presença de transtorno mental ou de personalidade, chama a atenção o fato de um terço dos pacientes já tentarem tratamento com apoio de psiquiatra, demonstrando, na contemporaneidade, um menor preconceito e maior popularização quanto as buscas de tratamentos para questões de saúde mental em geral.

Pouco mais de 20% desses pacientes já haviam buscado terapia com psicólogos ou grupos de ajuda mútua (NA – Narcóticos Anônimos). Acredita-se que a gravidade da dependência de cocaína/crack explique a baixa taxa de tratamento extra hospitalares, como CAPS AD e hospital dia.

Figura 10 - TIPOS DE TRATAMENTOS BUSCADOS PELOS PACIENTES ANTES DESTE INTERNAMENTO SEGUNDO OS FAMILIARES ENTREVISTADOS

Fonte: Banco de Dados da Dissertação de Mestrado de Jesus, M.C.A.; 2016.

Compara-se, na Tabela 6, o padrão de comportamento e busca de tratamento antes e após o referido internamento. Observou-se que houve decréscimo de todos os comportamentos conflituosos, sendo que a redução no comportamento transgressor doméstico (66,7% vs 23,3%, p=0,03) foi estatisticamente significante. Quanto a busca de tratamento, percebeu-se que, apesar de não ter havido significância estatística devido ao pequeno tamanho da amostra, houve aumento da procura, principalmente na psicoterapia individual (23,3% vs 53,3%).

Tabela 6 - PADRÃO COMPORTAMENTAL DO PACIENTE ANTES E APÓS O INTERNAMENTO SEGUNDO OS FAMILIARES ENTREVISTADOS

Padrão de Comportamento e tratamento Antes (n=30) Após (n=30) p Comportamento Transgressão doméstica Conflito com a lei Prisão 20 (66,7%) 11 (33,7%) 7 (23,3%) 7 (23,3%) 3 (10,0%) 2 (6,7%) 0,03 0,90 0,42 Tratamento Psiquiatra Psicoterapia individual 10 (33,3%) 7 (23,3%) 14 (46,7%) 16 (53,3%) 0,30 0,20 30,0 20,0 26,7 6,7 13,3 33,3 23,3 23,3 26,7 Internamento Voluntário Internamento Involuntário Comunidade Terapêutica Hospital-Dia Caps AD Psiquiatra Psicólogo NA Tratamento Espiritual Frequência de Tratamento Ti p o d e t ratam e n to

Psicoterapia grupo Autoajuda 3 (10,0) 7 (23,3%) 3 (10,0%) 11 (36,7%) 1,00 0,27

Fonte: Banco de Dados da Dissertação de Mestrado de Jesus, M.C.A.; 2016.

Sobre a redução no comportamento transgressor doméstico, isto parece acontecer com a tomada de consciência dos familiares quanto a mudança de postura e a importância de dar limites aos seus entes durante e após a experiência dos internamentos, responsabilizando-se juntamente ao processo de tratamento do paciente. Com isso, mostra-se um controle familiar por meio do internamento do dependente químico, mas que deixa a desejar no contexto social, já que não ocorre o mesmo em relação à prisão e ao conflito com a lei. Vale refletir sobre o benefício que o Estado poderia ter se investisse melhor no cuidado com os adictos, como o fazem essas famílias. Os melhores meios de abordagem do problema das drogas talvez seriam através do cuidado com o seu “filho social” e a educação emancipadora.

O tratamento para dependência de cocaína e crack tem mostrado resultados encorajadores. No entanto, muitas lacunas ainda permanecem e comprometem o sucesso do tratamento desses indivíduos. Programas de tratamento com base na motivação para a mudança e na aplicação de técnicas de prevenção da recaída têm sido capazes de estimular a abstinência tanto em ambiente ambulatorial quanto de internação. No entanto, tal abstinência não demonstra estabilidade: as recaídas com retorno aos padrões de consumo pré-tratamento chegam a atingir mais da metade dos usuários ao longo de um ano, reduzindo o sucesso para apenas 25 a 30% dos usuários. Todavia, a permanência em tratamento por tempo adequado aumenta as chances do paciente atingir um padrão estável de abstinência. Alguns fatores de boa evolução foram identificados, entre eles a prontidão para o tratamento e para a abstinência completa, predizendo bons resultados, atingindo cerca de 80% dos usuários. A gravidade da dependência, por sua vez, compromete o sucesso terapêutico (RIBEIRO & LARANJEIRA, 2012).

Conforme Ribeiro & Laranjeira (2012), os usuários de cocaína e crack são bastante heterogêneos, dotados de padrões de desenvolvimento, nível socioeconômico, formação educacional e cultural distintos. Envolvem-se em contravenções e apresentam complicações psiquiátricas com mais frequência. Tudo isso dificulta e complica a elaboração de um plano universalmente eficaz de tratamento. Apesar das respostas terapêuticas existentes deixarem muitas perguntas sem resposta, a maioria dos pacientes em tratamento melhora seu desempenho no trabalho e nas relações familiares, afastando-se da criminalidade e apresenta menos complicações psiquiátricas. Além disso, apesar da falta de estabilidade, a probabilidade de

abstinência aumenta no decorrer dos anos; este é um processo crônico, capaz de produzir resultados benéficos.

Seguem diferentes relatos dos entrevistados sobre a percepção deles a respeito da evolução dos pacientes após o último internamento no serviço:

Não mudou! As coisas permaneceram da mesma maneira. Porque acho que mesmo depois do último internamento, eu acredito que ele não tenha melhorado não. Eu acho que ele continua no mesmo processo, ele não tem se ajudado de dizer: - "Não, eu realmente não vou fazer assim". Ele sabe, mas ele não consegue executar. É isso atrapalha muito, porque ele está no convívio com a gente de forma globalizada, não só no relacionamento familiar, mas no relacionamento como empresa, então tudo isso atrapalha muito. Talvez se ele vivesse no mundo dele, se ele tivesse um mundo particular, talvez a gente não tivesse tão inserido em tudo isso. Então, às vezes, é isso que a gente passa para ele: - "Se você quer ser tão diferente, vá viver uma vida diferente, sem envolver as outras pessoas. Porque aí, as outras pessoas só vão saber notícias!”. Então... nós vamos viver mais tranquilos, entendeu?! Acredito que nós vamos viver mais tranquilos (S., irmã, 45 anos, casada).

Mudou tudo! Sei que agora ele é um "homem de família", uma pessoa é um cidadão. Isto se reflete em mim como esposa dele e também para o nosso filho. Claro que nada é perfeito. A gente acha que sempre pode melhorar mais. Mas, poxa! Quero sonhar tendo o dia de hoje, é o que temos para hoje! (B., esposa, 28 anos, união estável).

Mudou porque eu tenho mais tranquilidade. Estou mais tranquila, hoje eu já saio de casa sem estar angustiada, não fico ligando para ele para saber aonde está. Vou para qualquer lugar e não dou telefonema para saber. Eu digo assim: - “Se precisar de qualquer coisa, ligue para mim”. Não para dizer: - “Minha mãe só fica ligando para saber aonde estou e fazendo o quê”. Eu estou deixando ele a vontade. Tanto é, que agora ele se preocupa comigo: - “Minha mãe, porque não vai para a casa de fulano de tal?!”. Daí eu falo: - “Não se preocupe comigo não!”. Ele fala: - “Vá para aonde a senhora quiser! Eu fico aqui de boa, fique tranquila”. E realmente tem acontecido isso. Viajo, fui para São Paulo, passei uma semana lá e voltei mais feliz ainda porque cheguei e encontrei a casa do jeito que eu deixei, ele como eu deixei. Ele só ligava para dizer: - “Oh, tô indo para a Igreja, viu?! Meu pai mandou um dinheiro aqui, vou fazer as compras, vou arrumar as coisas”. Pronto, cheguei em casa, tudo tranquilo. Aí é uma tranquilidade que não tem dinheiro que pague, né?! O que está bem melhor na minha vida é isso, é tranquilidade! (A., mãe, 50 anos, casada).

Mudou sim... mudou pelo entendimento que eu tive do que era a vida de um adicto. E do que a família, os familiares adoeciam. Porque eu não entendia isso como uma doença. Depois da Vale Viver que eu compreendi que a gente adoece junto com o adicto. Então, o internamento dele fez eu entender que o usuário de droga é doente e o familiar também adoece consequentemente com o problema dele (M., irmão, 30 anos, casado).

É... mudou porque eu vi que é uma coisa que a gente tem que conviver com aquilo, saber como conviver, entendeu?! Não vai mudar nada. Sei de muita gente que deixou, né?! Mas se ele deixou ou não deixou, não significa que a gente não deva continuar vivendo. A pessoa parar de usar ou não a droga não significa o sucesso do tratamento. O que vale a pena é a mudança dos familiares que convivem com o dependente químico. A gente precisa aprender como lidar com aquilo e não se prejudicar, entendeu?! Antigamente era horrível, eu sofria muito com ele, pensando eu que ia dá jeito, e não é assim! (M.L., mãe, 50 anos, casada).

Interessante observar as mudanças de atitudes, ganhos no

amadurecimento/equilíbrio/fortalecimento emocional e autoconfiança dos familiares durante e após o internamento dos seus entes, independente dos mesmos estarem abstêmios ou não. Percebe-se que a maioria das famílias foi mais beneficiada com a internação pelo maior aprendizado sobre o tema (como lidar com o dependente químico e a adoção de novas posturas em relação ao mesmo), experienciando a melhora do sossego, tranquilidade, liberdade, independência, condição financeira e qualidade de vida em geral. Já a minoria, aborda que nada mudou na sua qualidade de vida, pois continua recebendo os impactos negativos do dependente químico (desorganização, irresponsabilidade, manutenção do uso), presença de preocupação e de codependência. Para finalizar, seguem as discussões dos preditores de desfecho pós tratamento dos pacientes.