Cap II: Quadro teórico
II. 3. Influência, interferência e transferência
No campo da aprendizagem da L2 ou da L3, é necessário, antes de mais, distinguir os conceitos de Influência, Interferência e Transferência, os quais desempenham um papel importante na explicação do processo desenvolvido por quem aprende uma língua estrangeira. Encontrar uma terminologia que abarque inequivocamente a definição do processo que é levado a cabo pelo falante é uma tarefa complicada face à divergência demonstrada pelos diferentes investigadores,
Researchers interested in cross-linguistic influence have several phrases to choose from in referring to the phenomenon, including the following: language transfer, linguistic interference, the role of the mother tongue, native language influence, and language mixing. (Odlin, 2005, p. 333)
A influência surge devido ao conhecimento que o falante possui de outras línguas e que o levam a fazer interferências e transferências. A fronteira existente entre estes dois conceitos nem sempre é muito clara, apresentando-se difícil de definir.
A interferência poderá manifestar-se quando se identificam características de uma determinada língua na produção de outra, “Par interférence, nous entendons l’utilisation des éléments d’une langue dans le discours d’une autre langue” (Mackey, 2013). De um modo semelhante, o Dicionário de Linguística apresenta a seguinte definição, “On dit qu’il y a interférence quand un sujet bilingue utilise dans une langue cible A un trait phonétique, morphologique, lexical ou syntaxique caractéristique de la langue B…” (Dubois, 2002, p. 252). O mesmo autor refere ainda que, para muitos pesquisadores em didática das línguas estrangeiras, esta problemática da interferência está diretamente ligada à do erro. Considera, portanto, que as interferências são desvios produzidos pelos falantes na utilização da língua alvo, originados pelo conhecimento de uma ou mais línguas prévias.
Os dois processos, interferência e transferência, podem estar relacionados um com o outro, havendo mesmo hipótese de ocorrer em simultâneo. Segundo Herdina e Jessner, a transferência resulta da coexistência entre dois sistemas linguísticos, “(…) the coexistence (or perhaps even competition) of two language systems is likely to result in unidirectional transfer (…)” (Herdina & Jessner, 2002, p. 10). Ao mesmo tempo, os sistemas linguísticos das línguas em questão interagem e originam a produção de estruturas incorretas nessas línguas, “(…) the two
language systems are likely to interact with each other leading to largely unpredictable results or deviant structures not related to the structures of either language.” (Herdina & Jessner, 2002, p. 11)
O campo de pesquisa acerca do fenómeno da transferência tem-se alargado nos últimos anos, consequência direta do desenvolvimento da aprendizagem de línguas estrangeiras. A transferência entre línguas foi, numa primeira fase de investigação, vista como um processo nocivo, algo que influenciava negativamente o falante, devido ao facto de provocar um desvio significativo na produção da língua alvo. É neste contexto que se pode encontrar o termo contaminação24, utilizado
normalmente face a uma situação de impureza linguística, “La pureté est la qualité d’un usage de la langue qui serait exempt de toute contamination étrangère ou populaire.” (Dubois, 2002, p. 391). Essa ideia levou a que, em meados do século XX, o ensino das línguas fosse feito sem qualquer recurso ou presença da língua materna. Posteriormente, alguns investigadores, através de estudos sobre a dinâmica de funcionamento do processo de aquisição das línguas, encontraram
24 Embora não se encontre, por exemplo na definição fornecida por Dubois, nenhuma indicação de
que a contaminação linguística representa um fenómeno negativo, “on appelle contamination l’action analogique exercée par un mot, une construction (...), sur un autre mot, une autre construction (...) (Dubois, 2002, p. 115), o termo, por ser utilizado normalmente num contexto de doença, como descrito no dicionário Larousse, “(...) transmission d’une maladie contagieuse (...) propagation d’un mal, d’un vice, d’un défaut (...) (aavv, p. 91), adota de imediato um sentido negativo, remetendo para algo que não é bom. Neste caso, a contaminação de uma língua por características próprias de outra, colide com o imaginário de uma língua pura e imune a influências exteriores. Do ponto de vista da defesa de uma pureza linguística, representa uma poluição que afeta e enfraquece a identidade da língua, retirando espaço à produção das suas próprias palavras. Se, de facto, nos debruçarmos sobre a ocorrência de anglicismos utilizados atualmente na língua portuguesa, o que acaba por se refletir também no discurso dos nossos alunos quando tentam escrever em Francês (por exemplo com a palavra “phone” retirada das composições que servem de base à pesquisa deste trabalho), deparamo- nos com aquilo que se pode considerar como uma “invasão”, ou seja, uma instalação desses vocábulos no discurso quotidiano, a um ritmo acelerado, dando pouca margem para a criação de uma palavra na própria língua que designe a mesma coisa. Estes estrangeirismos são sobretudo termos oriundos do campo da indústria da eletrónica e das comunicações, cujas invenções nascem essencialmente em Inglês e que acabam por ser utilizados na comunicação social, algo que permite uma propagação imediata. Numa clara analogia com acontecimentos históricos, a contaminação tem sido comparada em alguns países a uma espécie de colonização linguística, algo que remete igualmente para uma ideia de ocupação forçada, pouco popular e causadora de danos, neste caso, na língua própria do país em questão, pois existe uma imposição do termo estrangeiro sem respeitar a produção do correspondente na língua em questão. Por outro lado, de um ponto de vista mais liberal, e uma vez que a interação entre línguas é inevitável, esta introdução de estrangeirismos, que em grande parte dos casos são alterados e adaptados às características da língua, também pode ser vista como um enriquecimento, atualizando a língua e adaptando-a às necessidades do seu tempo.
evidências de que a transferência podia ter consequências positivas. Cuq define-a como um conjunto de processos psicológicos que facilitarão a aquisição de novas habilidades ou competências, “(…) transfert désigne l’ensemble des processus psychologiques par lesquels la mise en œuvre d’une activité (…) sera facilitée par la maitrise d’une autre activité similaire et acquise auparavant (…)” (Cuq, 2004, p. 240). Dubois, na sua definição, aponta para os conceitos de filtragem e modificação de particularidades, “La fonction de transfert est l’effet de filtrage qui se manifeste par la modification des particularités acoustiques de diverses sources sonores participant à l’émission de la parole. ” (Dubois, 2002, p. 490). Alguns autores procuram isolar o conceito, tentando restringi-lo ao processo em questão, de forma a atingir uma definição cada vez mais objetiva, contudo, a referência a implicações da língua prévia sobre a língua alvo está sempre presente, “Transfer is the influence resulting from the similarities and differences between the target language and any other language that has been previously (and perhaps imperfectly) acquired” (Odlin, 2005, p. 333). O termo transferência abrange um conjunto de mecanismos que constituem a influência exercida por uma língua na aquisição de outra, “Transfer is here used in a wide sense, corresponding to cross-linguistic influence. It thus covers the many different ways in which one language may influence (the learning of) another.” (Ringbom, 2001, p. 30).
Existem inúmeras divergências no que toca à adoção do termo mais apropriado, “No single term is entirely satisfactory, however, and linguists have often noted various problems” (Odlin, 2005, p. 333) Deste modo, ao longo deste trabalho, no sentido de simplificar a referência ao processo pelo qual o falante utiliza as características de uma língua na produção de outras, e também porque se trata da terminologia utilizada pela maioria dos autores, adotaremos a designação de transferência.
Transferências entre línguas
No processo de aquisição da L3, há que ter em conta uma dimensão mais complexa do processo de transferência, devido ao facto de implicar conhecimentos prévios da L1 e da L2. Segundo Cenoz, A L1 e a L3 podem influenciar-se mutuamente, assim como esse processo também pode ocorrer entre a L2 e a L3. Não obstante o papel importante desempenhado pela língua materna, vão aparecendo indicadores da comunidade cientifica, que tem vindo a debruçar-se mais atentamente sobre este fenómeno, apontando a existência de razões objetivas para que essa transferência se produza, atribuindo cada vez mais importância ao papel desempenhado pela L2, “studies that have directly focused on L3 acquisition provide ample evidence that prior L2s actually have a greater role to play” (Hammarberg, 2001, p. 23). Uma das primeiras razões para justificar essa transferência está relacionada com a maior proximidade que possa existir entre a L2 e a L3, e sobretudo se for mais distante da L1, “influence from L2 is favoured if L2 is typologically close to L3, especially if L1 is more distant” (Hammarberg, 2001, p. 22). Esta questão da proximidade entre as línguas, para justificar uma maior utilização da L2 na aquisição da L3, parece ser consensual na opinião de vários autores. Ringbom refere que: “The extent of L2-transfer in phonology and grammar largely depends on the psychotypological relation between L2 and L3.” (Ringbom, 2001, p. 59). Por seu lado, Cenoz destaca a importância da estreita relação entre as línguas como condição no momento de selecionar a língua a partir da qual se faz a transferência,
Among these factors linguistic typology has proved to be influential in the choice of the source language. Speakers borrow more terms from the language that is typologically closer to the target language” (Cenoz J. , 2001, p. 8).
Se para medir o nível de transferências linguísticas existentes na aquisição da L2 se dava atenção à proficiência apresentada pelo indivíduo nessa mesma língua, também é consensual que a aquisição da L3 requer que se repare, não só no nível de competência apresentada nessa língua, mas também nas outras duas, o que complexifica ainda mais a questão (Cenoz J. , 2001). Por outras palavras, A transferência da L2 para a L3 torna-se mais significativa se o aluno evidenciar um grau de conhecimentos elevado na primeira língua estrangeira “L2 influence is
favored if the learner has a high level of competence in the L2 (…)” (Hammarberg, 2001, p. 23).
A utilização recente da L2 por parte do indivíduo, faz com que seja mais facilmente ativada essa língua. Desse modo, surge a tendência para a transferência a partir da L2 no momento da utilização da L3, “learners are more likely to borrow from a language they actively use than from other languages they may know but do not use.” (Cenoz, Hufeisen, & Jessner, 2001, p. 10). Cenoz acrescenta ainda outro fator passível de explicar a transferência da L2 para a L3, nomeadamente o contexto específico em que ocorre a comunicação, os seus interlocutores e o assunto que é tratado. Por fim, como referem Hammarberg e Cenoz , há também que ter em conta a questão do estatuto, ou status atribuído à L2 por parte do indivíduo. A língua materna (L1) pode ter um status de língua não estrangeira para o falante e por isso não ser ativada quando confrontado com outra língua estrangeira (L3). A partir desse momento, o sujeito afasta involuntariamente a língua materna, pois a supremacia da L2 impõe-se para chegar à L3, “learners tend to use the L2 or languages other than the L1 as the source language of cross-linguistic influence (…)” (Cenoz, Hufeisen, & Jessner, 2001, p. 9)
Dado que a transferência entre as línguas estrangeiras ocorre a vários níveis e abrange os vários domínios, “the type of linguistic information that can be transferred from one or more non-native language to another, (…) lexis, phonetics and phonology, morphology and syntax” (De Angelis, 2007, p. 41), convém esclarecer que neste estudo, a atenção estará voltada para a transferência lexical em concreto.