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3 MATERIAIS E MÉTODO

4.2 EDIFICAÇÕES CLIMATIZADAS A PARTIR DE SISTEMA CENTRAL VS EDIFICAÇÕES CONDICIONADAS DE FORMA

4.2.3 Influência da memória térmica

A Figura 51 apresenta a proporção de ocupantes que apresentaram exposição prévia ao condicionamento artificial em ambos os tipos de edificações analisadas. De acordo com as barras da figura, dentre os 2.688 votos coletados, a grande maioria é proveniente de usuários que disseram utilizar ar condicionado de forma rotineira quando estão fora do trabalho (n = 1.913, 71% do total de votos). Entretanto, a proporção de ocupantes com exposição prévia ao condicionamento artificial em ambas as edificações é praticamente a mesma (48% na edificação com sistema central e 52% em edificações com sistemas mistos).

Figura 51. Frequência de ocupantes com e sem exposição prévia na edificação com sistema central (tipo 1) e sistemas mistos (tipo 2).

Na Figura 52 apresenta-se a porcentagem de ocupantes que optariam por estratégias passivas de condicionamento, que é inferior em edificações que operam de forma mista quando comparadas à porcentagem de votos provenientes da edificação que opera com climatização artificial central (39% e 23%, respectivamente). Embora tais diferenças existam, a preferência pelo ar-condicionado como instrumento de climatização ambiental predomina em ambos os tipos de edificações.

Assim, para averiguar se a preferência pelo sistema de climatização está relacionada à exposição prévia ao condicionamento artificial em ambientes internos, as duas respostas provenientes das Figura 51 e Figura 52 foram reunidas e cruzadas entre si; os resultados podem ser observados na Figura 53.

45% 55% 48% 52% 0% 10% 20% 30% 40% 50% 60% 70% 80%

Sem exposição prévia Com exposição prévia

Fre

qu

ên

cia

Edificação tipo 1 Edificações tipo 2

Figura 52. Preferência pela estratégia de climatização em períodos quentes de ocupantes da edificação que opera com um sistema central (a), e edificações que operam com sistemas mistos (b).

a) b)

Na Figura 53a apresentaram-se os resultados entre o cruzamento de votos de exposição prévia e preferência de estratégia de climatização na edificação com sistema central, enquanto a Figura 53b apresenta os mesmos resultados para edificações com sistemas mistos. É interessante notar que a proporção de votos sob a influência da exposição prévia, e que ainda preferem o ar-condicionado como estratégia de climatização em períodos quentes, é maior na edificação com sistema central quando comparadas às edificações com sistemas mistos, onde o ar-condicionado é utilizado de forma esporádica. A proporção de ocupantes que optaram pelo condicionamento artificial como estratégia de climatização quando existe exposição prévia - dentro e fora do trabalho - é muito próxima em ambas as edificações, o que pode sugerir que a preferência pelo condicionamento artificial fora do expediente de trabalho está mais relacionada à influência da memória térmica que ao tipo de edificação que estas pessoas ocupam (considerando que ambos os tipos operam com o condicionamento artificial). 9% 14% 77% 0% 10% 20% 30% 40% 50% 60% 70% 80% 90% 100% Ventilação

Natural VentiladoresVent. Nat. + de Teto Ar Condicionado Fre qu ên cia Estratégia de Climatização 18% 21% 61% 0% 10% 20% 30% 40% 50% 60% 70% 80% 90% 100% Ventilação

Natural VentiladoresVent. Nat. + de Teto

Ar Condicionado

Figura 53. Exposição prévia vs. a preferência pelo sistema de climatização da edificação que opera com um sistema central (a), e edificações que operam com sistemas mistos (b).

a) b)

4.2.4 Discussão

O presente bloco de análises tratou das diferenças (e até semelhanças) encontradas na comparação entre os votos de ocupantes de edificações que operam com diferentes sistemas de climatização ambiental. Foram comparados os dados de sensação, aceitabilidade e preferência térmica e da velocidade do ar, além dos efeitos causados pela exposição prévia e prolongada ao condicionamento artificial em edificações que operam com sistema de condicionamento artificial central, e edificações que operam de forma mista e são controladas pelos ocupantes.

Dentre os principais resultados encontrados, destacam-se as semelhanças entre a sensação térmica de ambos os tipos de edificações sob os mesmos intervalos de temperatura efetiva padrão (entre 90% e 95% em média, no intervalo de 21°C a 26°C), que são igualmente semelhantes aos resultados de aceitabilidade térmica em ambas as edificações (também entre 90% e 95% em média). No entanto, ao analisarem-se os votos de conforto, e associando-os à sensação térmica, observou-se que o desconforto térmico é mais proeminente na edificação sistema central, e causado em sua maioria pelo frio excessivo (77% de desconforto no ponto -2, 17% no ponto -1, 9% no ponto +1 e 60% no ponto +2). Tais resultados sugerem que os votos localizados entre o intervalo de “levemente com calor” e “levemente com frio”

65% 82% 18% 17% 12% 6% 0% 10% 20% 30% 40% 50% 60% 70% 80% 90% 100%

Sem exposição prévia Com exposição prévia

Fre qu ên cia n=352 n=922 46% 67% 26% 15% 28% 18% 0% 10% 20% 30% 40% 50% 60% 70% 80% 90% 100%

Sem exposição prévia Com exposição prévia n=418 n=991

podem ser classificados como confortáveis e aceitáveis pelos usuários, o que reafirma a teoria de Fanger (1970) e demonstra que a insatisfação térmica pode ser verificada de fato apenas fora do intervalo entre ±1.

Os votos de preferência térmica apresentaram comportamento significativamente diferente daquele observado nas análises de sensação térmica. Enquanto as médias de sensação térmica entre as edificações apontam pequenas diferenças entre os dois grupos (edificação com sistema central tende para “levemente com frio”, enquanto edificações com sistemas mistos tendem para “neutro”), quando questionados a respeito da sua preferência térmica, os ocupantes apresentam temperaturas preferidas que distam cerca de 1,0K entre um valor e outro. Comparar a sensação com a preferência térmica, neste caso, se assemelharia a algo próximo de comparar o que é confortável ao que na percepção dos ocupantes é tido como ideal. Por outro lado, se analisados a partir da preferência térmica, tais votos poderiam resultar em um intervalo de temperaturas mais estreito, limitando a zona de conforto térmico de acordo com as normas e modelos existentes, e consequentemente impactando diretamente no consumo de energia de edificações.

Com relação à velocidade do ar, pouca diferença foi registrada em edificações com sistema central e misto. Um dos principais motivos para tal ocorrência seriam os baixos intervalos de velocidade do ar medidos em ambas as edificações, muito próximo do que se considera “imperceptível”. Entretanto, a preferência por velocidades “mais baixas” na edificação com sistema central, e “mais altas” em edificações com sistemas mistos transpareceu na maioria das análises apresentadas. Como o intervalo de temperaturas operativas é menor na edificação com sistema central, é natural que os ocupantes relatem desconforto causado pelas correntes de ar frias quando a temperatura operativa é mantida em um intervalo mais baixo (22°C a 23°C). Ao mesmo tempo em que a preferência por valores mais altos de velocidade do ar nas ESMs está provavelmente ligada à expectativa dos ocupantes, que esperam por uma brisa mais veloz ao abrir uma janela (mesmo que uma parte destes ocupantes possa ainda reclamar dos inconvenientes causados pela alta velocidade do ar). Uma boa alternativa para edificações com sistemas centrais de condicionamento artificial, e até mesmo espaços com sistemas mistos, seria a utilização de ventiladores de teto, ou sistemas de ventilação que proporcionem maior distribuição de ar, homogeneizando a temperatura interna e redistribuindo o ar refrigerado, como verificado por De Vecchi, Candido e Lamberts (2013). Segundo os autores, ao aumentar a velocidade do ar para um valor próximo de 0,90m/s, o

setpoint interno poderia ser ajustado para um valor dentro do intervalo entre 25°C e 28°C, mantendo assim os mesmos níveis de conforto.

As análises relacionadas à memória térmica dos ocupantes mostraram diferenças insignificantes entre os dois tipos de edificações investigadas, mesmo considerando que grande parte dos votos de edificações com sistemas mistos tenha sido coletada durante a utilização da ventilação natural. A preferência pelo ar-condicionado como estratégia de climatização em períodos quentes se mostrou muito mais relacionada à utilização diária do equipamento que ao tipo de edificação que estes usuários trabalham (central ou mista); embora seja importante destacar que a porcentagem de usuários que prefere a utilização do condicionamento artificial é ainda maior em edificações que operam a partir de um sistema de condicionamento central.

4.3 CONFORTO TÉRMICO E OPERAÇÃO DE EDIFICAÇÕES