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c) Influências do Programa na escola e no trabalho docente

Capítulo 3 Apresentação e análise dos resultados: o Programa EMR, uma análise crítica de seu referencial teórico, sua avaliação e impactos

3.4. c) Influências do Programa na escola e no trabalho docente

Quanto às influências do Programa na escola e no trabalho dos professores, Júlia (professora de Geografia) buscou implementar a proposta de desenvolver atividades de leitura de textos interdisciplinares em algumas de suas salas e disse que os resultados foram positivos. De acordo com as orientações fornecidas pelo Programa, os professores deveriam selecionar alguns textos interdisciplinares e desenvolver atividades de leitura junto a seus alunos, a partir das seguintes estratégias: objetivos da

leitura, levantamento do conhecimento prévio dos alunos, elaboração de hipótese sobre o conteúdo do texto, propostas de atividades que não se limitem à localização de informações e envolvam a reconstrução de sentidos do texto, e produção de um sumário.

Júlia disse que outros professores também colocaram em prática essa proposta sugerida pelo Programa. No entanto, em virtude da falta de tempo e de condições objetivas para a realização de um trabalho mais elaborado e integrado, não houve uma continuidade da proposta e nem mesmo a construção de um trabalho coletivo na escola. De maneira geral, na concepção de Júlia, os professores não modificaram sua rotina em sala de aula, de acordo com as orientações do Programa, mas têm refletido sobre as diversas idéias ali apresentadas.

Fábio (professor de Artes) afirmou não ter acatado as sugestões do Programa, como a realização de atividades fora da sala de aula, pois elas não iriam ao encontro dos problemas que efetivamente enfrenta durante as aulas, como é o caso da indisciplina. Considerou que a implementação das propostas do Programa iria potencializar ainda mais esse problema, o que acabaria prejudicando o trabalho de outros professores e

causaria transtornos à escola. Portanto, contrariando a concepção defendida pelo Programa de que salas indisciplinadas e desinteressadas “transformam-se” pelo desenvolvimento de projetos e atividades mais informais, vinculados à realidade dos alunos e mediante trabalhos em grupo, o professor considerou que ocorreria justamente o contrário.

No entanto, algumas mudanças ocorreram na escola, como foi o caso das HTPC, que passaram a ter mais sentido e estrutura (Fábio, professor de Artes, entrevista), possibilitando a discussão em torno de algumas idéias novas ou mesmo reforçando antigas idéias.

Fábio também observou que o comportamento dos professores no conselho de classe, no final do ano, parece ter sido influenciado pelos temas discutidos no Programa, o que levou a uma maior flexibilidade na avaliação dos alunos. Houve menos resistência em abrir mão de alguns princípios e considerar o que seria melhor para o aluno e para a escola.

Aline (professora de História) não percebeu mudanças na escola em função do desenvolvimento do Programa, o que parece ter sido a opinião geral dos professores.

Ligia (PC) avaliou que a resistência dos professores na 1ª- fase do Programa teria inviabilizado mudanças. No entanto, de maneira geral, o Programa teria favorecido uma maior sistematização dos procedimentos relativos às atividades escolares, o que teria significado um ganho para toda a comunidade escolar.

Ana (ATP) disse que as HTPC tiveram mudanças positivas, como um maior rigor em relação ao horário, à pauta, à organização das atividades, o que teria conduzido ao fortalecimento da cultura de formação na escola. No entanto, a impossibilidade de realizar um acompanhamento mais próximo do trabalho dos PC nas escolas, poderia ter acarretado problemas na efetiva implantação do Programa: O excesso de programas, de políticas pelas quais a gente é responsável, dificulta estarmos mais perto das escolas e dos PC nesse trabalho (Ana, ATP, entrevista). Ana considerou que esse foi um dos aspectos que mais contribuiu para o parco sucesso do Programa. Mesmo assim, na sua concepção, o Programa parece ter propiciado a elaboração de novas concepções da relação ensino-aprendizagem.

De forma geral, as mediadoras avaliaram que o Programa deixou muito a desejar, uma vez que as mudanças na prática docente foram insignificantes: ...acredito que o

impacto junto aos professores e na sala de aula foi muito pequeno considerando-se o investimento realizado num programa desse porte (Raquel, supervisora, carta de avaliação). O ganho mais significativo parece ter sido o resgate da HTPC com espaço pedagógico legítimo de formação continuada dos professores, espaço para estudo, debates e reflexão sobre as questões que emergem no cotidiano escolar.

Embora a polêmica e o debate propiciado pelas temáticas apresentadas não tenham sido identificados como influências do Programa na escola e na atuação dos professores, considero que significaram um avanço importante na discussão de questões fundamentais como a função da escola e do professor. Na tentativa de compreender criticamente uma proposta que poderia fragilizar mais ainda o trabalho docente, os professores procuraram formular e explicitar suas idéias, defender seus pontos de vista, discutir diferentes concepções educacionais. No entanto, em decorrência das precárias condições de desenvolvimento do trabalho coletivo na escola, não foi possível a formulação de uma proposta pedagógica teoricamente fundamentada ou mesmo uma crítica bem elaborada das concepções defendidas pelo Programa. Diante da necessidade de fazer frente às idéias do Programa, alguns professores manifestaram a intenção de compor um grupo de estudo:

Esses assuntos que vêm sendo tratados no Programa não me interessam; nós precisamos formar um grupo de estudo no qual os textos a serem lidos sejam por nós definidos, precisamos buscar respostas às nossas questões, não são essas as questões efetivamente relevantes. Não tenho nada contra gincanas, projetos, festas etc... Mas, ninguém discute o trabalho do professor na sala de aula; precisamos resgatar a sala de aula, o trabalho de cada um de nós. (Paulo, professor de Matemática, HTPC).

Ou seja, mesmo que o Programa não tenha correspondido aos anseios docentes, ele instigou os professores a buscar outros referenciais teóricos que pudessem contemplar as questões efetivamente pertinentes, pois logo ficou evidente a insuficiência ou a limitação do material oferecido aos professores:

Se ficarmos presos a isso que é dado, fica difícil de acompanhar o Programa, o material não dá subsídios. Fui buscar as apostilas do meu filho para entender essa questão de gêneros do discurso. (Mariana, professora de Geografia, HTPC).

Neste sentido, o Programa desafiou os professores a estudar, o que já significou uma influência positiva no trabalho docente. Várias discussões que tiveram início durante o desenvolvimento do Programa, como foi o caso da polêmica entre Marta (professora de Química) e Paulo (professor de Matemática) quanto à possibilidade ou não de ensinar química orgânica utilizando bulas de medicamentos, prosseguiram em ocasiões diversas, o que sugeriu um envolvimento radical dos professores com as questões abordadas. Marta afirmou que bula é conhecimento e que daria o mesmo conteúdo mediante uma estratégia diferente. Paulo afirmou que essa abordagem poderia levar à desvalorização do conhecimento, que deveria ser o foco da escola. O cotidiano do aluno, na sua visão, seria uma referência, mas precisaria ser superada.

Lígia (PC) interveio e disse que a intenção do Programa seria propor a ampliação dos gêneros do discurso trabalhados na escola. O fundamental seria mostrar aos professores a necessidade de se explorar um texto em suas múltiplas potencialidades, pois muitas vezes o professor deixa de lado o texto paradidático que acompanha um certo assunto deixando de contemplar aspectos riquíssimos de um certo tema que implicaria numa abordagem mais ampla e interdisciplinar.

Paulo argumentou que a interdisciplinaridade é conseguida pelo aprofundamento do conhecimento: (...) se a matemática for estudada a fundo, lá a gente vai encontrar filosofia, história... o cotidiano é terrível; a escola deve lidar com o conhecimento. (Paulo, professor de Matemática, HTPC).

Esse debate teve desdobramentos (como veremos no item seguinte), prosseguiu em várias outras circunstâncias e certamente gerou repercussões na escola e no processo formativo dos professores, embora seja muito complexo avaliar a dimensão dessa influência.