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2.1 As palavras e seus problemas de tradução

2.1.1 Infografia x computador ou infografia e computador?

Se na maior parte dos países cuja língua pesquisamos ainda perdura a falta de homogeneidade e de padrão em relação ao termo “infografia”, na França, há um pouco mais de precisão. Por conta disso, algumas das primeiras menções ao termo no Brasil ocorreram fora do campo do jornalismo, como na obra coletiva Imagem-Máquina - a

era das tecnologias do virtual, organizada pelo pesquisador André Parente em 1993.

160 Além disso, a autora busca fazer uma diferenciação entre mapas e tabelas e os infográficos: segundo

ela, estes últimos têm a intenção de estabelecer uma narrativa jornalística através da associação “imagem + texto”. Mais à frente, em 2.2.4, voltaremos com calma às considerações feitas por Teixeira.

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Curiosamente, na area de informática e computação, ninguém se refere às imagens de síntese como “infográficos”, mas apenas como “infografia” no sentido de “uma técnica informática de produção de imagens”.

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Valero Sancho chega a comentar ter ido a um congresso de computação gráfica e “infografia” em 1994 pensando que encontraria discussões sobre o uso de gráficos no jornalismo; nada feito (2001: 18).

101 Naquele momento, a informatização da era pós-DOS163 começava a ganhar terreno no Brasil em diferentes espaços (artes, educação, jornalismo etc.) e a geração de imagens através de computadores se expandia para áreas como a publicidade, os videogames, os equipamentos simuladores de realidade virtual e o cinema. Na obra, em momentos distintos, encontramos as mesmas conceituações, como a do artista plástico Julio Plaza.

A criação de imagens com a colaboração da informática se chama infografia, ou computer

graphics. Essas duas expressões de origem francesa e inglesa respectivamente, procuram

harmonizar a produção de imagens com a tecnologia do computador. Aqui, a programação de imagens é feita por impulsos eletrônicos, por cores-luz, por retículas luminescentes e, sobretudo, por programas que reunificam as relações escrita-imagem (PLAZA, 1993: 73).

Em texto de Bettetini, o mesmo paralelismo: “a expressão „computação gráfica‟ – ou infografia – refere-se à produção, por meio de computador, de imagens sintéticas, que, aliás, são fruto de elaborações digitais regidas por procedimentos lógico-matemáticos” (BETTETINI, 1993: 65). Na introdução do livro, André Parente se refere ao termo como “uma disciplina nascente” (PARENTE, 1993: 7) e depois como “máquina de visão”, junto com outras tecnologias (telescópio, microscópio, radiografia, fotografia, cinema etc.) (PARENTE, 1993: 13). E, no glossário da obra, encontramos uma definição de “infografia”: “termo de origem francesa que tem sido empregado mais recentemente no lugar de computação gráfica” (PARENTE, 1993: 285). Não há nenhuma menção a “infografia” como “gráfico de informação” ou similar. Assim, “infografia”, no lugar de “computação gráfica”, designa apenas o conjunto de imagens numéricas, as quais são, do ponto de vista referencial, independentes de uma realidade preexistente (ao contrário das imagens fotográficas, por exemplo).

A ambiguidade do termo “infografia”, tanto no plano acadêmico-conceitual quanto no plano da dicionarização, também ocorre na França. Chappé (2005) lembra da confusão conceitual do termo, em função também de outros dois fatos. O primeiro: “pensar que a infografia é uma técnica recente, datando do surgimento do microcomputador, é um erro. É confundir a ferramenta com aquilo que ela permite realizar: o desenho”164

163 DOS ou Disk Operating System, sistema operacional desenvolvido pela Microsoft para o IBM PC e

que permitia o acesso ao disco e a arquivos de um computador fora do ambiente de “origem”, como ocorria com as versões do Windows anteriores ao sistema operacional Windows XP. O DOS é um ambiente tido por muitos como “hostil”, uma vez que ele 1) é estritamente lógico, sintático e alfanumérico e 2) não faz uso de interfaces ditas “amigáveis”, que são baseadas em imagens, símbolos, uso do mouse ou de janelas múltiplas.

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“Penser que l‟infographie est une technique recente, datant de l‟apparition du micro-ordinateur, est une erreur. C‟est confondre l‟outil avec ce qu‟il permet de réaliser: le dessin”.

102 (CHAPPÉ, 2005: 16). O segundo foi o surgimento do tratamento digital das imagens (desenhos, fotos), o qual permitia deformações, colagens e jogos de cores, e fez com que “pouco a pouco tenha se deslocado a noção de imagem de síntese para aquela de imagem criada pela informática ou infografia”165 (CHAPPÉ, 2005: 19. Grifo no original). De Pablos faz observação similar ao afirmar que a infografia jornalística não tem de estar imperiosamente ligada à informática (1999: 18-9). Valero Sancho e de Pablos concordam num mesmo ponto: a infografia nada teria a ver com as animações feitas em computador. Valero Sancho afirma que “nem o vocábulo info vem de informática, nem grafia vem do conceito de animação que hoje se pretende dar-lhe”166 (2001: 25. Grifos no original). E de Pablos chama a essa tentativa de associação entre infografia e animação computacional de “exercício imaginativo” (1999: 18).

Para a espanhola Gemma Ferreres, para se ter uma definição “acertada” da infografia é preciso ter três palavras-chave: informar, gráfico e computador. “O computador para, com ajuda de programas de informática apropriados, integrar agilmente textos, ilustrações, desenhos, gráficos, diagramas etc. em uma unidade informativa autônoma, compreensível e atrativa”167 (FERRERES, 1995: 4). Nessa mesma linha de raciocínio segue a pesquisadora brasileira Ana Paula Machado Velho. Em trabalho sobre o papel da infografia como instrumento de mediação entre cientista e jornalista, ela define infografia (a partir das definições apontadas no citado livro de André Parente) como “um sistema intertextual, produzido no computador, que ganha o suporte do papel jornal e se utiliza das linguagens verbal e não verbal de maneira previamente organizada, para compor a mensagem jornalística impressa” (MACHADO, 2001: 8).

Há variações em torno desse tema. As pesquisadoras argentinas Leticia Borrás e María Aurelia Caritá (2000) falam que a infografia tanto pode ser vista como uma técnica (um conjunto de procedimentos informáticos que permitem a realização de uma infografia) quanto como um produto da informação jornalística traduzida para uma linguagem gráfica com o auxílio de suportes informáticos. Aqui, ocorre simultaneamente a

165 “L‟on a petit à petit remplacé la notion d‟image de synthèse par celle d‟image créée par informatique

ou infographie”.

166

“Ni el vocábulo info viene de informática, ni grafia viene del concepto de animación que hoy se le pretende dar”.

167 “El ordenador para, con ayuda de programas informáticos apropiados, integrar ágilmente textos,

ilustraciones, dibujos, gráficos, diagramas, etc. en una unidad informativa autónoma, comprensible y atractiva”.

103 distinção entre imagens de síntese (imagens criadas por computador) e infografias jornalísticas, mas com uma diferença fundamental (e errônea, a nosso ver): as autoras consideram ambas as possibilidades como produto direto da informática.

Percebe-se que parte da confusão conceitual entre “infografia” e “imagem de síntese” se deve (também) ao fato de que se acredita numa ligação “semântica” entre ambos os termos, graças ao prefixo info, deslocado originariamente da noção de “informação” para a noção de “informática”168

. Sendo assim, como eliminar essa associação entre RGVs e imagens de síntese, que tanto geram ambiguidades conceituais, uma vez que as duas expressões se referem a “objetos” distintos e de finalidades geralmente também distintas? Afinal, as anamorfoses, ou seja, as distorções de imagens que podem ser (também)169 feitas com auxílio do computador, são um exemplo perfeito de imagem de síntese, não de infografia (no sentido de uma representação gráfico-visual). Além disso, é importante lembrar que o fato de infografia jornalística e imagem de síntese serem coisas distintas não significa que uma infografia jornalística não possa ser feita com o auxílio de um computador; significa apenas que não há vínculo único, estreito, lógico e direto entre infografia jornalística e computador; na verdade, há vínculo (necessário) entre imagem de síntese e computador.

Finalmente, devemos ter em mente que nem todas as RGVs geradas por computador são chamadas (ou passaram a ser chamadas) de “infografias”. Um exemplo são as histórias em quadrinhos: geradas por computador, elas continuam sendo chamadas pelo mesmo nome, ainda que Edgar Silveira Franco proponha chamar os quadrinhos produzidos para a Internet e/ou gerados por computador de “HQtrônicas” (2004: 169-71). Já Anselmo Gimenez Mendo faz apenas a oposição entre HQs impressas e HQs na web (2008: 63- 4). Na área da cartografia, fala-se em “cartografia multimídia”, “atlas digitais”, “cartografia digital”, não em “infografia” (RAMOS, 2005). Finalmente, na Estatística, a pesquisadora portuguesa Ana Alexandrino da Silva fala no redesenho de gráficos feitos em computador, como os executados com o auxílio do Assistente de Gráficos do Excel e que apresentam imagens que, “por serem muito vistas, são cansativas e podem repelir o leitor” (2006: 58); também aqui não há outra denominação para os gráficos

168 Vale lembrar que “informática” significa “informação automática de dados”. 169

As anamorfoses já eram comuns quando do surgimento da perspectiva artificial, por volta do século XV, por exemplo.

104 estatísticos feitos no computador. Ao que parece, o fascínio pelas novas possibilidades de manuseio da imagem, limitadas até então, fizeram com que a expressão “infografia” pudesse equivaler generalizadamente a toda e qualquer animação ou manipulação da imagem e/ou gráficos feitas por equipamentos informáticos.

Isso não significa que estamos desconsiderando o papel da computação e das imagens de síntese, em particular nas simulações de determinados fenômenos, em áreas como a científica; nestes casos, a bem da verdade, nem se fala em “infografia” (qualquer que seja o seu sentido). Pickover (1994) lembra que, em 1986, a National Science Foundation promoveu nos Estados Unidos um encontro para discutir sobre gráficos, processamento de imagens e computadores com alta capacidade de processamento de dados170. A partir de 1987, começou-se a falar em ViSC (Visualization in Scientific

Computing), tornando-se o termo scientific visualization mais comum na área. Pickover

define a visualização científica como a arte de tornar visível o não visto (PICKOVER & TEWKSBURY, 1994: 2). Ainda que nem toda visualização científica possa ser considerada uma representação gráfico-visual esquemática (porque parte da sua preocupação inicial é estritamente visualizar algo, e não explicar e/ou descrever

esquematicamente nada sobre esse algo), é preciso lembrar que sempre é possível (e

muitas vezes, necessário) gerar uma representação gráfico-visual a partir dessas visualizações. Uma coisa é a visualização científica, que gera imagens impossíveis a olho nu, outra é a possibilidade de se gerar RGVs a partir dessas imagens, e ambas não devem ser confundidas, ainda que possam ser complementares171. Apesar de os computadores de última geração serem auxiliares importantes para a compreensão de determinados fenômenos, através da geração de imagens de síntese, é preciso não esquecer que a busca pela visualização científica, assim como o uso de articulações esquemáticas, é muito anterior ao surgimento e desenvolvimento da informática. Como vimos em 1.5, o período do Renascimento e da adoção da perspectiva artificial viu surgirem imagens desenhadas que buscavam dar conta de determinados aspectos da realidade, em particular imagens com funções técnicas e taxonômicas. Com o progressivo desenrolar da ciência moderna e de várias áreas (Química, Física etc.) que

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No original, “workstations”, ou seja, 1) o local de trabalho de um usuário, com um terminal, impressora, modem etc., e 2) um micro ou minocomputador poderoso que pode ser utilizado sozinho ou conectado a uma rede de comunicação (COLLIN, 2001: 444).

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A bem da verdade, na ciência, quase sempre é preciso denominar e explicar textualmente algo que nunca se viu ou que se está vendo pela primeira vez ou ainda algo que se estava buscando.

105 precisavam desse tipo de visualização, que não se baseava nem em objetos concretos (representações) nem em artifícios retóricos (alegorias iconológicas), surge o que Manfredo Massironi denomina de “hipotetigrafia”.

Poderemos definir toda esta vasta produção cognitivo-comuinicativa com o termo de

hipotetigrafia, entendendo por este termo o produto gráfico que contribui para dar forma

visiva a hipóteses formuladas para explicar o comportamento e o funcionamento das condições naturais intuídas ou observadas experimentalmente e das quais constitui um modelo explicativo (MASSIRONI, 1996: 140-1. Grifo no original).

Além disso, uma distinção importante é o fato de que cada vez mais seja o jornalista o

responsável pela produção do material infográfico. A informatização das redações

permitiu não apenas incrementos na editoria de Arte, mas também no próprio fazer jornalístico; a prática da RAC (reportagem assistida por computador), por exemplo, admite que o repórter tabule seus dados em uma planilha (como o programa Microsoft Excel) e produza os seus próprios gráficos estatísticos172. Se antes a redação tendia a usar gráficos e tabelas produzidos apenas por órgãos governamentais e institutos de pesquisa especializados, hoje é cada vez mais comum que o repórter “substitua” o estatístico, por exemplo. Isso é um fato importante, se lembrarmos que a maioria das primeiras informações gráficas feitas para os jornais geralmente não eram produzidas nem por jornalistas, nem por profissionais da visualização de dados (cartógrafos, estatísticos etc.), mas sim por desenhistas e artistas gráficos (obviamente há exceções)173.

Para finalizar este tópico, se pretendemos evitar a ambiguidade entre objetos designados pela expressão “infografia”, devemos pensar nas seguintes possibilidades:

- adotar o termo “infografia” para apenas um dos objetos em questão (a representação gráfico-visual ou a imagem de síntese);

172

Sobre a RAC e métodos de investigação baseados na informática e Internet, ver, por exemplo, LAGE, Nilson. A Reportagem – teoria e técnica de entrevista e pesquisa jornalística. Rio de Janeiro: Record, 2001, pp.153-68, e SANTORO, Daniel. Técnicas de Investigación – métodos desarrollados en diarios y

revistas de América Latina. México, Fondo de Cultura Económica, 2004, pp. 113-9.

173 Alberto Cairo vai além e diz até a história recente da imprensa a feitura desse material estava a cargo

desses artistas visuais, uma vez que a informação gráfica nasce no jornalismo como “arte”, não como jornalismo, pois visava não à informação, mas sim ao impacto visual. Para Cairo, esse fato não é um demérito em si mesmo, mas, ao condicionar a tensão entre tendências estetizantes (“arte”) ou analíticas (informação), levou a que muitas redações vissem a prática da infografia com certo desdém (CAIRO, 2008: 50).

106 - adotar o termo “infografia” para ambos os objetos, desde que se especifique apenas

um deles com algum tipo de complemento (“infografia jornalística”);

- adotar o termo “infografia” para ambos os objetos, desde que se especifique a ambos com algum tipo de complemento (“infografia jornalística”, “infografia computacional”);

- não adotar a expressão “infografia” para nenhum dos objetos;

- adotar o termo “infografia” para ambos os objetos e deixar que o contexto no qual o termo é usado se encarregue de desambigualizá-lo.

Além disso, se se admite o uso da expressão “infografia” na esfera jornalística, fica faltando ainda definir o que deve e o que não deve ser contemplado pela expressão. Vamos por partes.

1) adotar o termo “infografia” para apenas um dos objetos em questão. O problema é

que a expressão já é usualmente usada em ambas as esferas (jornalismo e informática), ainda que se possa usar, respectivamente, as expressões “gráficos informativos e/ou explicativos” e “computação gráfica”, por exemplo. De qualquer modo, “infografia” já é um termo recorrente e dificilmente o seu uso em alguma dessas áreas cairá em desuso174.

2) adotar o termo “infografia” para ambos os objetos, desde que se especifique apenas um deles com algum tipo de complemento. Tal adoção só fará sentido se for adotada em

situações onde não seja possível identificar, a priori, do que se trata. Um evento acadêmico e/ou profissional cujo nome seja, por exemplo, “Futuro da Infografia”, não dirá muita coisa sobre o objeto de sua discussão. Mesmo algo como “Jornalismo, Informática e Infografia: novos rumos da imagem” também soará vago ou amplo. Por outro lado, identificações como “Práticas de Infografia Jornalística” ou “A Computação Gráfica e a Infografia no século XXI” permitiriam uma menor ambiguidade em relação ao seu objeto.

3) adotar o termo “infografia” para ambos os objetos, desde que se especifique a ambos com algum tipo de complemento (“infografia jornalística”, “infografia

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computacional”). Vale aqui o mesmo tipo de raciocínio anterior; além disso,

dificilmente se falaria em “infografia jornalística” dentro de uma redação de jornal ou em “infografia computacional” numa empresa de animação 3D. O habitus de cada profissão e/ou esfera de saber já introjetou o sentido da expressão dentro de cada área profissional175.

4) não adotar a expressão “infografia” para nenhum dos objetos. Conforme dito

imediatamente acima, os ambientes profissionais de cada área já se habituaram ao uso da expressão “infografia” dentro de sua esfera; assim, não faria sentido deixar de lado o termo, exceto se viesse a ser substituído por outra expressão aceita pela comunidade em questão a médio e/ou longo prazo. Como vimos, na área científica fala-se desde fins dos anos 1980 em “visualização científica”, expressão já utilizada em outras línguas, como o português176. A diferença, aqui, é que a visualização científica se utiliza tanto dos princípios da visualização através dos recursos da computação gráfica quanto da necessidade de visualizar esquematicamente seus resultados.

5) adotar o termo “infografia” para ambos os objetos e deixar que o contexto no qual o termo é usado se encarregue de desambigualizá-lo. A princípio, seria a proposta menos

arriscada. Aqui, porém, como já advertimos, falta um aspecto a ser resolvido: se na área de computação gráfica a expressão “infografia” já admite um referente bem definido (as imagens geradas por computador), o mesmo ainda não ocorre no âmbito do jornalismo. Como veremos adiante (tópico 2.2), não existe uma unanimidade em torno do uso da expressão “infografia” em algumas línguas e autores, tampouco unanimidade em torno de qual objeto ela designa. A problemática da expressão e do objeto ligada ao jornalismo é nosso próximo ponto de discussão.

175 Usamos o termo habitus em nossa pesquisa na ótica bourdieusiana, conforme exemplificam Clóvis de

Barros Filho e Luís Mauro Sá Martino: “o habitus profissional é a matriz comum das práticas de todos os agentes que vivem e viveram nas mesmas condições sociais de existência profissional. Graças a essas disposições comuns, decorrentes de uma percepção comum de mundo socialmente forjada (...) e interiorizadas ao longo de trajetórias no mesmo universo, cada profissional, obedecendo ao seu „gosto pessoal‟, concorda, sem saber ou perceber, com muitos outros levados a agir em condições análogas” (2003: 136).

176

Não deixa de ser curioso que a expressão scientific visualization surja quase ao mesmo tempo em que o termo infographics: por volta de 1987.

108 2.1.2 Infografia e jornalismo

15 de setembro de 1982. Foi o dia em que o jornal USA Today chegou às bancas norte- americanas com algumas propostas diferentes, conforme seu então editor-sênior, John Walter, em 1987: 1) fazer do USA Today um jornal nacional (e não regional ou local); 2) mostrar que os jornais impressos não estavam morrendo; 3) fazer frente à televisão; e 4) imprimir um jornal colorido (e não em preto e branco) (WALTER, 1988: 11-3). Entre os pilares dessa “revolução jornalística”, estava o uso de textos curtos (menores do que os tradicionais), de cores (os jornais, até os anos 1980/1990, eram geralmente impressos em preto e branco) e, principalmente, uma progressiva mudança no tratamento da informação jornalística (figura 16). O USA Today adotou uma nova política editorial, priorizando o uso de gráficos (mapas, tabelas, quadros estatísticos) para complementar os textos escritos. Esses recursos já eram utilizados pela imprensa eventualmente, mas é preciso lembrar que, ao longo do século XX, os jornais se basearam firmemente nos sistemas textual e icônico, apenas (ou seja, textos escritos, desenhos e fotografias).

Figura 16 – capas do jornal The Sun e da primeira edição do USA Today, respectivamente, 1982

O surgimento do USA Today foi visto muitas vezes por alguns otimistas apenas como uma tentativa de encarar a TV, mas também percebido pelos pessimistas como uma espécie de derrota do jornalismo impresso, que havia construído até então a sua credibilidade com base nas informações textuais, com desenhos e fotografias ocupando muitas vezes um lugar de destaque secundário. Poucos tinham noção, na época, de que o jornalismo se encaminhava para novas formas de tratamento da informação, baseado em desenhos informativos de diversas naturezas (tabelas, mapas, gráficos etc.), os quais

109 eram chamados em geral de “gráficos”. Ao longo dos anos 1990, o termo “gráfico” passou a ser substituído por “infografia” (ou “infográfico”), para designar que uma dada informação (jornalística, cientifica, histórica) podia ser tratada graficamente, ou simplesmente, que pode ser uma informação gráfica.

A maior parte dos autores que estuda as infografias e os demais tipos de RGV nas suas relações com o jornalismo impresso contemporâneo177 tende a estabelecer outro marco histórico, além do surgimento do USA Today. Esse marco é o início da década de 1990, durante a Guerra do Golfo, quando os jornais não dispunham de fotografias sobre o conflito bélico e se viram obrigados a utilizar gráficos explicativos no lugar das tradicionais imagens de guerra, alguns fazendo isso inclusive em suas capas (figura 17).