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Informação, opinião e interpretação nas páginas de Comida

5 A VIRADA GASTRONÔMICA

5.2 Folha de S.Paulo: Comida

5.2.2 Informação, opinião e interpretação nas páginas de Comida

Se no Jornal do Brasil optamos por analisar uma só coluna, com 22 anos de duração, na Folha de S.Paulo escolhemos um caderno inteiro, com quase quatro anos de veiculação. Enquanto a coluna do primeiro mescla os gêneros opinativos crítica e crônica, encontramos no segundo uma maior variedade de gêneros jornalísticos, sobre os quais vamos falar brevemente aqui. Deixaremos a crítica e a crônica, os dois gêneros presentes nas colunas de Apicius, para a seção sobre À mesa, como convém, o que não quer dizer que eles não apareçam em Comida.

Para adentrar na questão dos gêneros, é preciso discutir brevemente os conceitos de gênero discursivo, textual e jornalístico. A comunicação, seja falada ou escrita, se dá por meio de gêneros. Quer tenhamos consciência disso ou não, toda a produção textual humana passa por eles. Bakhtin (1992, p. 301), referência na conceituação dos gêneros do discurso, explica que “para falar, utilizamo-nos sempre dos gêneros do discurso, em outras palavras, todos os nossos enunciados dispõem de uma forma padrão e relativamente estável de estruturação de um todo”. Esses tipos relativamente estáveis de enunciados se diferenciam uns dos outros pelo conteúdo temático, estilo e construção composicional:

A utilização da língua efetua-se em forma de enunciados (orais e escritos), concretos e únicos, que emanam dos integrantes duma ou doutra esfera da atividade humana. O enunciado reflete as condições específicas e as finalidades de cada uma dessas esferas, não só por seu conteúdo (temático) e por seu estilo verbal, ou seja, pela seleção operada nos recursos da língua — recursos lexicais, fraseológicos e gramaticais —, mas também, e sobretudo, por sua construção composicional. Estes três elementos (conteúdo temático, estilo e construção composicional) fundem-se indissoluvelmente no todo do enunciado, e todos eles são marcados pela especificidade de uma esfera de comunicação. (BAKHTIN, 1992, p. 280)

Ao falar de estilo, o teórico não quer dizer que todos os gêneros possuem as mesmas possibilidades de expressão individual. Os gêneros literários são os mais propícios a essa diferenciação. Vamos retomar essa ideia adiante, ao analisar os aspectos cronísticos dos textos de Apicius. Como a crônica é um gênero ao mesmo tempo jornalístico e literário, que mescla os dois campos da escrita, ela é mais apta ao exercício livre do estilo do que outros.

Marchuschi (2002) retoma a definição bakhtianiana ao tratar dos gêneros textuais, que toma como sinônimos dos gêneros discursivos. Para o autor, os gêneros são um fenômeno histórico ligado à vida sociocultural: “Fruto de trabalho coletivo, os gêneros contribuem para ordenar e estabilizar as atividades comunicativas do dia-a-dia. São entidades sociodiscursivas e formas de ação social incontornáveis em qualquer situação comunicativa” (p. 1). Isso não significa que eles sejam camisas de força que limitem a criação, pois apresentam maleabilidade e plasticidade, adaptando-se às necessidades cotidianas. “Caracterizam-se muito mais por suas funções comunicativas, cognitivas e institucionais do que por suas peculiaridades lingüísticas e estruturais” (p. 2). Ou seja, trata-se mais de uma questão de função do que de forma – mas isso não significa que ela seja desprezada. Há casos de gêneros em que a forma é determinante. Em outros, até mesmo o suporte pode ser o fator chave para a definição de suas particularidades. Marcuschi defende que são as tecnologias da comunicação e da informação as maiores responsáveis, nos últimos dois séculos, pelo aparecimento de novos gêneros para contemplar as necessidades comunicativas. No caso dos jornais, surgem editoriais, artigos de fundo, notícias, cada um com suas peculiaridades e seus objetivos bem definidos.

É importante distinguir o gênero textual do tipo textual e do domínio discursivo. O tipo textual – como a descrição, a narração e a argumentação – é um construto teórico que pode ser caracterizado por sua natureza linguística e suas relações lógicas, com vistas a atingir determinado fim.

Usamos a expressão gênero textual como uma noção propositalmente vaga para referir os textos materializados que encontramos em nossa vida diária e que apresentam características sóciocomunicativas definidas por conteúdos, propriedades funcionais, estilo e composição característica. Se os tipos textuais são apenas meia dúzia, os gêneros são inúmeros. (MARCUSCHI, 2002, p. 4)

O domínio discursivo, por sua vez, refere-se a uma instância de produção discursiva ou de atividade humana que permite o surgimento de discursos específicos. O discurso jornalístico, por exemplo, origina gêneros como a notícia, a reportagem e a entrevista.

“Constituem práticas discursivas dentro das quais podemos identificar um conjunto de gêneros textuais que às vezes lhe são próprios (em certos casos exclusivos) como práticas ou rotinas comunicativas institucionalizadas” (idem, p. 5).

Os manuais da redação dos principais jornais brasileiros são uma boa fonte de consulta para encontrar definições sobre o fazer jornalístico, às vezes até mais do que outros livros disponíveis sobre a área. Recorramos, então, a eles para realizar este breve levantamento dos gêneros jornalísticos, com foco apenas naqueles que serão úteis à nossa análise. No Manual

da Redação da Folha de S.Paulo, a notícia é descrita como o gênero jornalístico que “relata a informação da maneira mais objetiva possível; raramente é assinada” (FOLHA DE S.PAULO, 2007, p. 72). Ou seja, o jornal não acredita que seja uma meta realista ser 100% objetivo, mas sim que se deve buscar chegar o mais perto possível da objetividade. No entanto, de que informação se trata? Como essa informação deve ser escolhida? Entram aqui os critérios que definem a importância da notícia, descritos abaixo:

a) Ineditismo (a notícia inédita é mais importante do que a já publicada). b) Improbabilidade (a notícia menos provável é mais importante do que a esperada). c) Interesse (quanto mais pessoas possam ter sua vida afetada pela notícia, mais importante ela é). d) Apelo (quanto maior a curiosidade que a notícia possa despertar, mais importante ela é). e) Empatia (quanto mais pessoas puderem se identificar com o personagem e a situação da notícia, mais importante ela é). f) Proximidade (quanto maior a proximidade geográfica entre o fato gerador da notícia e o leitor, mais importante ela é). (FOLHA DE S.PAULO, 2007, p. 44)

Quanto mais critérios determinado fato suprir, maiores são as chances de ele se tornar notícia. A reportagem, muitas vezes, se define em relação à notícia, que pode ser considerada o gênero base do jornalismo. Alguns autores consideram a reportagem um gênero informativo; outros, interpretativo. Vejamos o que diz o manual citado: “Reportagem: traz informações mais detalhadas sobre notícias, interpretando os fatos; é assinada quando tem informação exclusiva ou se destaca pelo estilo ou pela análise” (FOLHA DE S.PAULO, 2007, p. 72). É relevante lembrar que o manual de jornalismo, além de trazer conceitos do ofício, também funciona como instrumento de padronização da publicação. Isso pode ser verificado em relação à questão da assinatura, pois outros periódicos deixam essa opção de assinar ou não assinar seu texto a critério do repórter, independentemente de a reportagem trazer informação exclusiva ou se diferenciar pelo estilo ou pela análise. A análise, aliás, também é considerada um gênero à parte pelo jornal: “Análise: contém a interpretação do autor e é sempre assinada” (FOLHA DE S.PAULO, 2007, p. 71). Por sua vez, o Manual de redação e

estilo de O Estado de S. Paulo, escrito por Eduardo Martins, traz a seguinte definição de reportagem, também sempre relacionando-a ao conceito de notícia e destacando seu teor investigativo e sua tentativa de esgotar os fatos em questão:

A reportagem pode ser considerada a própria essência de um jornal e difere da notícia pelo conteúdo, extensão e profundidade. A notícia, de modo geral, descreve o fato e, no máximo, seus efeitos e consequências. A reportagem busca mais: partindo da própria notícia, desenvolve uma sequência investigativa que não cabe na notícia. Assim, apura não somente as origens do fato, mas suas razões e efeitos. Abre o debate sobre o acontecimento, desdobra-o em seus aspectos mais importantes e divide-o, quando se justifica, em retrancas diferentes que poderão ser agrupadas em uma ou mais páginas. A notícia não esgota o fato; a reportagem pretende fazê-lo. Na maior parte dos casos, a reportagem decorre de uma pauta que a chefia encaminha ao repórter, mas é comum o próprio repórter escolher um assunto e sugeri-lo aos superiores. (MARTINS, 1997, p. 254)

Para José Marques de Melo (2003), são quatro os gêneros do jornalismo informativo: a nota é um relato de acontecimentos em configuração; a notícia é um relato de um fato já ocorrido; a reportagem é um relato ampliado de um acontecimento; e a entrevista é um relato que privilegia um protagonista do acontecimento. Empiricamente, discordamos apenas da definição de nota, já que ela nem sempre trata de acontecimentos em configuração, como é comum acontecer, por exemplo, em colunas sobre os bastidores da política e da economia. Em nosso corpus, as notas aparecem para trazer informações rápidas e breves, como se fossem pequenas notícias. Como os dois gêneros opinativos que fazem parte da nossa pesquisa serão analisados na seção sobre Apicius, não vamos mencioná-los aqui. No entanto, vale a pena trazer à discussão a diferenciação entre gênero informativo e opinativo proposta pelo autor:

Os gêneros que correspondem ao universo da informação se estruturam a partir de um referencial exterior à instituição jornalística: sua expressão depende diretamente da eclosão e evolução dos acontecimentos e da relação que os mediadores profissionais (jornalistas) estabelecem em relação aos seus protagonistas (personalidades ou organizações). Já no caso dos gêneros que se agrupam na área da opinião, a estrutura da mensagem é codeterminada por variáveis controladas pela instituição jornalística e que assumem duas feições: autoria (quem emite a opinião) e angulagem (perspectiva temporal ou espacial que dá sentido à opinião). (MELO, 2003, p. 65)

Entretanto, é muito importante lembrar que mesmo os gêneros opinativos são embasados em informações – afinal, trata-se de jornalismo também. Não é porque um gênero

é opinativo que ele vai prescindir de apuração e de pesquisa. É o que ressalta o Manual da

Redação da Folha de S.Paulo: “Na Folha, os gêneros opinativos e interpretativos devem ser fundados em informações confirmadas” (FOLHA DE S.PAULO, 2007, p. 72). O Manual

geral da redação publicado em 1984 e vigente na época do caderno Comida assim definia o verbete crítica especializada:

Um jornal é respeitado em parte pela qualidade das opiniões que seus críticos emitem. A crítica jornalística começa quando a obra de arte termina. Não há normas para a boa crítica, exceto que ela deve “iluminar” a obra de arte, decodificando-a para o leitor. O crítico da Folha não tem compromissos com os artistas; seu compromisso é com o leitor. (FOLHA DE S.PAULO, 1984. p. 30)

O mesmo manual avisa que a Folha aceita convites formulados aos seus jornalistas para viagens, desde que isso que claro para o leitor: “A Folha tem como norma não esconder de seus leitores que o jornalista viaja a convite e com estadia paga e por quem. Procedimento análogo, no sentido de nada ocultar ao leitor, é adotado em casos de textos cuja produção resultou de convites para espetáculos ou eventos” (p. 26).

No caderno Comida, detectamos a presença de seis gêneros. Entre os informativos, estão a reportagem (às vezes trazendo em anexo um boxe mais analítico e interpretativo, sempre assinado), a notícia e a nota. Grosso modo, vamos chamar de reportagem os textos que se referem a fenômenos mais amplos e de notícia os textos que se referem ao que for mais factual. Entre os opinativos, a crítica e o guia, em forma de verbetes. Aliás, podemos considerar que o guia é uma espécie de nota meio informativa e meio opinativa, pois, apesar de seu texto ser breve e primordialmente descritivo, a nota numérica ou em forma de estrela concedida pelo crítico lhe impõe certo juízo de valor. Aparece também, por fim, um gênero não jornalístico, a receita, porém sempre ligada a algum gênero jornalístico no texto do qual faz parte, ao contrário do que acontecia antes da virada gastronômica. Raramente, há também pequenas entrevistas pingue-pongue como complemento de notícias ou reportagens.