2.3 Décima primeira crônica
3.1.2 Informalidade: documentos, estatutos, leis, regimentos etc
Para não nos restringirmos a um único tema, faz-se importante desenvolver nossa argumentação com outros exemplos. Grande parte dos acontecimentos comentados na série esteve relacionada a diversos fatos bastante, outros menos, pontuais na sociedade fluminense. Por serem muitos e díspares, evitamos agrupá-los sob um mesmo nome, como pareceu mais
175 Como dito anteriormente, tal comparação para se pensar o “debate público” brasileiro é referencia a um artigo
ainda não publicado de Edu Teruki Otsuka; o qual, por sua vez, também traz a outra referência que usamos para pensar a questão: HABERMAS, Jürgen. “The Public Sphere: An encyclopedia article (1964)”. In: New German Critique, No. 3. (Autumm, 1974), p. 49-55.
significativo no caso da “questão servil”, fato facilitado pela própria preponderância do tema na imprensa da época.
Por isso, para não cairmos em uma desnecessária generalização, acreditamos que a sequência final das três últimas crônicas da série, de qualidade bem inferior à média dos textos anteriores, possa exemplificar essa abordagem machadiana sobre a matéria social mais difusa, cuja abordagem comum parece ser: a dificuldade ou a impossibilidade de enquadramento dos elementos da sociedade fluminense sob uma legislação ou sob regras formalmente postuladas. Tal sub-recorte se justifica por: além de marcar um ponto de vista similar sobre a sociedade fluminense, e exemplificar a queda de qualidade no encerramento da série, ele pode, principalmente, ser contraposto ao pressuposto de conciliação das crônicas de abertura da Gazeta de Holanda, antes já expostas.
Por exemplo, na crônica no. 46, o tema proposto, pela segunda vez na série, é um fato
recorrente na imprensa: a não participação dos acionistas do Banco do Brasil nos processos administrativos da instituição. Pela leitura do texto, vemos que Malvolio é aqui personificado como um dos acionistas indiferentes em relação à administração do Banco, e que defende seu alheamento da terceira convocatória reclamando sobre a obrigatoriedade de sua presença, alegando não ser um “escravo branco” submetido às regras da instituição da qual obtém parte de seus ganhos.
Eu, acionista do Banco Do Brasil, que nunca saio, Que nunca daqui me arranco, Inda que me caia um raio, Para saber como passa O Banco em sua saúde, Se alguma coisa o ameaça, Se ganha ou perde em virtude, Li (confesso) alegremente, Li com estas minhas vistas, O anúncio do presidente Convocando os acionistas. […]
Mas eu pergunto, e comigo
P eQ uN ã[ … B aD oP aO [ .R eM aP aS ó[ .P oN aU
Por se tratar de um regulamento dos acionistas, haveria duas possibilidades de conduta: ou cumpri-lo ou desacatá-lo, o que acarretaria em punição; porém, não é o que ocorre. “Cumprir” ou “desobedecer” o regulamento não são exigências em seu sentido pragmático, pois a conduta desviada não acarreta punição, uma vez que, “no fim de cada
semestre”, o “dividendozinho” do acionista estaria garantido. Assim, Machado contrapõe ironicamente ao regulamento do Banco, cujo saldo positivo dos acionistas foi amplamente noticiado à época, a abstenção ociosa e despreocupada do elemento social que tem seu retorno financeiro garantido.
Na crônica seguinte, Malvolio comenta o decreto publicado pela Câmara Municipal determinando a proibição da prática do “entrudo” durante o carnaval de 1888. Sabe-se que o entrudo engloba toda uma variedade de brincadeiras carnavalescas, que, no Rio de Janeiro passou a ser praticado a partir do final do século XVIII. É provável que Machado de Assis se refira não ao entrudo genérico, mas ao “entrudo popular”, brincadeira não de todo pacífica que ocorria nas ruas da cidade, e cuja principal característica era o lançamento de toda sorte de líquidos ou pós durante as festas de carnaval. A partir da década de 1830, uma série de proibições já haviam se sucedido na tentativa frustrada de extinguir a versão popular da brincadeira, porém, como se vê, tais proibições, até então, jamais extinguiram totalmente a prática.177 Assim, o argumento de Malvolio nesta crônica é apresentar o reiterado decreto, o
que equivaleria à expectativa de resolução do problema do entrudo, mas, conforme o pseudônimo complementa, argumenta que a “mesma inútil postura” da polícia jamais conseguiria ter sucesso.
Não, amiga lei. O entrudo Desapareceu um dia Entre calções de veludo, Carnavalesca folia. Reapareceu mais tarde; Vingou por bastantes anos, Com estrondo, com alarde, Triunfos grandes e ufanos. Chega a polícia de novo
E T rF i M aO D aE n E S eA
Outro exemplo de crônica que problematiza a aplicação da legislação sobre as práticas sociais é a última crônica da série, no. 48. Nesta, Malvolio cita diversos casos de pessoas sem
recursos que foram presas e aguardavam julgamento por muitos meses após serem detidas
177 Cf. FERREIRA, Felipe. O livro de ouro do carnaval brasileiro. Rio de Janeiro: Ediouro, 2004. A recorrente
tentativa de proibição do entrudo era assunto tão antigo, que Machado de Assis já havia desenvolvido, e o desenvolveria ainda, argumento similar sobre o mesmo tema em outras séries. Por exemplo, H15D, 15/02/1877;
(não pudemos comprovar se verídicos), e, por fim, conclui sua crônica argumentando da seguinte forma:
Ora, com franqueza, vale, Ser criminoso em tal era? Uma peça de percale Paga tão comprida espera? Um tabefe, uma rasteira, Mesmo uma canivetada,
Pagou de alguma maneira A espera desesperada; Portanto, e vistos os autos, Dou de conselho prudência, E digo aos homens incautos Que inda o melhor é a inocência.
Trata-se de uma crônica simples, com argumentação simples, em que, mais uma vez, a ação policial que regularia a sociedade por meio da justiça é contraposta a um dado da realidade: detidos pela polícia cumprem tempo de prisão preventiva maior que o determinado por lei. Machado representa aqui, por meio deste Malvolio, a voz cínica e cética que conclui que seria mais aconselhável se manter fiel à ordem postulada do que se submeter à justiça da corte, que parece ser, na prática, injusta.
Assim, nesse encerramento “menor” da série Gazeta de Holanda, Machado de Assis também volta à abordagem mais relevante ao longo dos 48 textos: a relativização de uma norma social postulada por meio da contraposição clara do quão recorrente e normatizado, na prática, é aquilo considerado desvio, na teoria. No caso das três últimas crônicas, essa tematização acaba explicitada pelo recorte escolhido pelo cronista: não se tratam de regras ou valores sociais descartados retoricamente ou em abstrato, mas de regulamentos, decretos, regimentos e leis oficiais e documentadas (com valor institucionalmente estabelecido e reconhecido) cuja desobediência, porém, se mostrava a norma social corrente.