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MEDELLÍN E RECIFE NO URBANISMO SOCIAL

2. INFORMALIDADE E URBANISMO SOCIAL EM RECIFE

Após a década de 70, por influência capitalista, na perspectiva de acumulação de capital, os espaços urbanos passaram a obedecer à lógica de mercado, e não necessariamente de moradia, ou seja, a funcionalidade do espaço tinha uma relação direta com o modelo econômico vigente, com o objetivo do lucro dos investidores, havendo uma disputa direta nas contradições de coexistência entre interesses sociais e espaciais do capital e grupos sociais. Santos (1996) afirmava que o espaço era o efeito de um processo social de medidas de força, tendo a base em conhecimentos prévios, numa relação direta entre ação e reação no espaço vivido. A presença dessa complexidade do processo de produção/reprodução do espaço urbano está representada por conflitos que podem ser apreendidos quando se consideram as escalas do seu acontecer: horizontalidades e verticalidades:

As verticalidades são vetores de uma racionalidade superior e do discurso pragmático dos atores hegemônicos, criando um cotidiano obediente e disciplinado. As horizontalidades são tanto o lugar da finalidade imposta de fora, de longe e de cima, quanto o da contrafinalidade, localmente gerada. Elas são o teatro de um cotidiano conforme, mas não obrigatoriamente conformista e, simultaneamente, o lugar da cegueira e da descoberta da complacência e da revolta. (SANTOS, 2006, p. 286)

Baseado no programa pró-moradia no Recife, que utilizou como parâmetro os bairros de Brasília Teimosa, Afogados, Madalena, Torre, Parnamirim e Cordeiro, localizados às

margens do rio Capibaribe, dotados de palafitas como estrutura de moradias, a definição do programa, segundo Castilho (2012), é a seguinte:

Trata-se, assim, de um conjunto de ações urbanísticas, ambientais, socioeconômicas e culturais, cujas ações estão centradas na remoção das palafitas e realocação das famílias residentes para conjuntos habitacionais populares, passando pela inclusão das famílias no Programa de Auxílio Moradia. (CASTILHO, 2012, p. 43)

Não é uma questão apenas de dar a moradia, é necessário ter subsídios e análises socioeconômicas para a manutenção dessas famílias em áreas com menos vulnerabilidade social. Assim, as comunidades remanejadas foram: Arlindo Goveia, 128 famílias realocadas no conjunto habitacional da Torre; José de Holanda, 198 famílias realocadas no conjunto habitacional da Torre; Brasília Teimosa, 450 famílias realocadas no conjunto habitacional do Cordeiro; Vila Vintém II, 198 famílias realocadas no conjunto habitacional do Cordeiro; Padre Miguel, 640 famílias realocadas no conjunto habitacional Padre Miguel; Abençoada por Deus, 840 famílias realocas no conjunto habitacional Abençoada por Deus. Note-se ainda que: 412 famílias foram incluídas no auxílio moradia; apenas 428 foram realocadas no onjunto habitacional Abençoada por Deus; e a comunidade Padre Miguel ainda está em processo de remanejamento em 2008.

No tempo da inserção das mudanças urbanas no Recife, houve uma diminuição drástica de cidadãos em vulnerabilidade social urbana; segundo o IBGE – Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística –, Recife estava abaixo da média regional de domicílios com infraestrutura em áreas de risco.

De acordo com os dados analisados por Souza (2007) sobre a década da implantação do “Recife sem palafitas”:

Enquanto o município de Recife se situa abaixo da média regional quanto ao porcentual de domicílios com inadequação e infraestrutura (44,39%) ele se destaca acima da média da região percentual de domicílios com terrenos não próprios (11,49% Recife e 10,86% RMR), destacando a problemática de acesso à terra urbana e do núcleo metropolitano (SOUZA, 2007, p. 123)

Castilho (2008) mostra as relações diretas entre moradores e conjuntos habitacionais, que possuíam impactos diretamente na vida das pessoas e nos seus deslocamentos para a escola, o trabalho e a moradia. Cita-se:

Conjunto Habitacional, além das relativas ao oferecimento de cursos de capacitação como alternativas em termos de oportunidade de conseguir emprego no mercado de

trabalho local. Esta última era significativa na medida em que muitas pessoas abandonaram suas ocupações anteriores, devido à distância em relação aos seus antigos postos de trabalho – os moradores de Brasília Teimosa, por exemplo, eram pescadores. Para estes, a Prefeitura tinha prometido ônibus para deslocamentos diários, já que a maioria dos moradores não teria condições de arcar com os custos diários relativos a transporte; mas, até a data da entrevista que fizemos com eles, esta promessa ainda não tinha sido cumprida. Diante dessas circunstâncias, às quais se acrescenta o aumento das despesas familiares nas novas moradias – contas de luz, água e taxas condominiais –, alguns vendem, ilegalmente, seus apartamentos e voltam para áreas próximas à sua área de origem, construindo novas moradias precárias. De acordo com depoimentos de lideranças de alguns blocos dos Conjuntos Habitacionais abordados, em média, 30% dos apartamentos estão, atualmente, nas mãos de terceiros. (CASTILHO, 2008, p. 49)

A forma como fizeram os conjuntos habitacionais não levou em conta as relações sociais dos moradores, apenas as questões “visíveis” da cidade do Recife, assim como em tantas outras cidades da América do Sul, na busca por uma padronização após a revolução industrial de cidades com funcionalidades de produção capitalista. No entanto, os moradores não veem vantagem em sair das palafitas, até pelo alto custo de que as organizações urbanísticas necessitam, e muitos deles moravam perto de onde trabalhavam. E ainda há o caso dos pescadores de Brasília Teimosa, cujas casas também têm uma relação direta com seu trabalho; mesmo com alguns “incentivos” dados pelo governo, para eles ainda é um ambiente instável, que permite perguntas como: “Por quanto tempo o ônibus levará até o trabalho?” “Quantas passagens são gastas para chegar ao trabalho ou/e quanto tempo levam, por dia, a ida e a volta ao/do trabalho?” São situações em que os trabalhadores pensam, mas o governo não faz essas reflexões antes da instauração, voltando o debate entre o ideal e o real.

3. REFLEXÕES SOBRE AS MUDANÇAS URBANÍSTICAS EM MEDELLÍN E

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