CAPÍTULO 01 – LINGUÍSTICA FUNCIONAL CENTRADA NO USO (LFCU)
2. Conceitos básicos, processos e princípios da LFCU
2.3. Informatividade
Segundo Furtado da Cunha et al., (2013) o princípio da informatividade diz respeito ao conhecimento que os interlocutores compartilham, ou supõem compartilhar, no momento da interação verbal. Esse princípio, do ponto de vista cognitivo, preconiza que uma pessoa comunica-se a fim de informar o interlocutor sobre alguma coisa do mundo externo ou do seu próprio mundo interior, pretendendo exercer algum tipo de monitoramento da atenção, ou ainda, provocar algum tipo de alteração nas atitudes e/ou ações deste interlocutor.
Sendo assim, o locutor busca fazer uso de uma determinada quantidade de informação julgada necessária, supondo que seu interlocutor já disponha ou não de um determinado conhecimento ou informação. Além disso, esse locutor visa atingir alguns
objetivos comunicativos e se esforça em orientar/direcionar o ponto de vista do seu interlocutor. De acordo com Givón (2001, p. 7-8), o falante/escrevente conta com o repertório linguístico disponível (léxico-gramatical) em suas múltiplas possibilidades de organização e codificação textual.
Tradicionalmente, o princípio da informatividade tem se voltado para a verificação do status informacional dos referentes nominais. Dessa maneira, um sintagma nominal (SN) pode ser classificado como dado, novo, disponível e inferível (FURTADO DA CUNHA, 2008).
Um referente pode ser dado, ou velho, se ele já tiver aparecido no texto (i. e., referente textualmente dado/velho) ou se estiver disponível em uma determinada situação de fala (nesse caso, referente situacionalmente dado/velho), como os próprios participantes do discurso: falante e ouvinte.
Um referente é novo quando é introduzido pela primeira vez no discurso, conforme os exemplos retirados do corpus 1, em Provérbios 31:10:
7 – NTLH:
“Como é difícil encontrar uma boa esposa! Ela vale mais do que pedras preciosas!”.
Nesse excerto, o referente “uma boa esposa” corresponde à informação nova, desconhecida do interlocutor. O uso do artigo indefinido e a colocação pós-verbal do SN- complemento atestam esse caráter de novidade informacional.
Se o referente já está na mente do interlocutor (ouvinte/leitor), por se tratar de uma informação única (num dado contexto), é chamado de disponível. Nesse caso, é um referente já arquivado na memória cultural do indivíduo, fazendo parte de seu conhecimento de mundo. Exemplos de referentes disponíveis são termos como “a lua”, “o sol”, “Pelé” ou “Petrópolis” (FURTADO DA CUNHA, 2008). Para ilustrar isso, um exemplo retirado do nosso corpus 1, em Romanos 10:1:
8 – ARC:
“Irmãos, o bom desejo do meu coração e a oração a Deus por Israel é para sua salvação”.
Nesse recorte textual, “Israel” é referente único, por se tratar da nação israelita. Para o grau de informação disponível desse referente, deve-se considerar, ainda, fatores
como o escrevente (apóstolo Paulo) e o público-alvo (judeus/não judeus convertidos em Roma), os quais compartilham o conhecimento quanto à unicidade do referente mencionado.
Um referente é chamado de inferível quando é identificado através de um processo de inferência – isto é – a partir de outras informações já conhecidas. Os referentes inferíveis geralmente são codificados com um artigo definido. A seguir, um exemplo recolhido do nosso corpus 1, em Provérbios 31:10-11:
9 – NTLH:
“Como é difícil encontrar uma boa esposa! Ela vale mais do que pedras preciosas! O seu marido confia nela e nunca ficará pobre”.
Nesse caso, embora o referente “marido” não tenha sido mencionado antes no texto, temos aí um caso de referente inferível, tendo em vista que a ideia de “esposa” implica a existência de um marido e, por isso, ele vem codificado com artigo definido e pronome possessivo “O seu marido”.
Na linguística funcional, a informatividade é tratada principalmente em termos da classificação semântica e da codificação de referentes no discurso, segundo nos assevera Furtado da Cunha et al., (2003, p. 44):
[…] o domínio que tem demonstrado mais avanço refere-se à codificação da informação nos referentes nominais [...] as tipologias de status informacional são ainda muito incompletas [...] informação velha e informação nova não cobrem todos os casos e concentram-se exclusivamente nos nomes.
Em Tomasello (1998, p. xvi) temos que, quando pessoas interagem comunicativamente, “elas estão tipicamente falando sobre alguma coisa”. O autor denomina esse fenômeno de evento referencial. Nesse sentido, essas pessoas estão compartilhando conteúdo cognitivo no qual a representação mental realiza-se por meio, principalmente, da configuração linguística. Esse pesquisador trata do cruzamento entre as funções semântica e pragmática nos eventos informativo-interacionais e os efeitos disso sobre a formatação linguística.
Como ilustração, o autor cita o caso de uma certa pessoa querer falar, por exemplo, sobre o referente “cachorro”. Esse termo possui um valor semântico, designando, prototipicamente, uma determinada categoria referencial. Entretanto, na
situação comunicativa, dependendo do grau de conhecimento partilhado entre os interlocutores, o referente pode vir codificado como “O cachorro”, ou “Aquele cachorro
que vimos ontem”, ou “Rover”, ou “Ele”, caso aponte para um cachorro específico,
menos/mais estocado na mente do interlocutor. Pode, também, vir codificado como “Um
cachorro” ou, ainda, “Cachorro”, em termos mais genéricos, e assim por diante. Isso demonstra que a forma do sintagma nominal (SN) é determinada, ao mesmo tempo, tanto por sua função semântica (ou seja, o que o falante deseja informar) como por sua função pragmática, no sentido de como o falante faz suas escolhas lexicais para codificar essa informação em decorrência do conhecimento prévio e das expectativas de seu ouvinte num dado contexto interacional específico (cf. DU BOIS, 2003, p. 65-67).
Tomasello (p. xv) estende também suas considerações para o nível da sentença e utiliza o exemplo "Alguém abriu uma porta com uma chave", em que o conteúdo proposicional (i.e., nexos semânticos) pode ser estruturado sintaticamente em função de demandas da circunstância comunicativa específica (focalização/ênfase pragmática). Assim, a sentença poderá ser organizada como “Pete abriu a porta com esta chave”, ou “Esta chave abriu a porta”, ou “Foi com esta chave que Pete abriu a porta”, ou “Foi
Pete que abriu a porta”, ou “A porta foi aberta com esta chave”, ou “A porta abriu”, entre outras alternativas.
Givón (1984), em sua abordagem sobre essa questão, diferencia a informação
proposicional (i. e., a unidade comunicativa mínima), formulada pela sentença simples,
da informação multi-proposicional (que compreende blocos informacionais maiores, i. e., uma cadeia sequencial de proposições interconectadas), para ele, o que deve ser entendido como discurso. De acordo com o teórico, tanto o primeiro tipo (a proposição) como o segundo (o discurso) são parcialmente compostos por informação velha – ancorada no conhecimento pré-existente – e informação nova, que é acumulada a essa informação recuperável, sendo estas responsáveis pela formação do sistema de coerência
discursiva (ou estrutura temática). Ainda conforme esse autor, a porção de conteúdo
conhecido (velho) associa-se à informação considerada fundo, enquanto a porção nova corresponde à informação tomada como figura.
Além disso, em Givón (1990), encontramos a afirmação de que “Quanto mais previsível/acessível for uma informação para o interlocutor, menos quantidade de forma será utilizada”. Essa ideia está intimamente relacionada ao subprincípio icônico da quantidade, a ser explicitado na seção seguinte (2.4). Para ilustrar, mais um trecho retirado do corpus 1, em Lucas 12:16-17, versão NTLH.
10 – “Então Jesus contou a seguinte parábola: — As terras de um homem rico deram uma grande colheita [v.16]. Então ele começou a pensar: “Eu não tenho lugar para guardar toda esta colheita. O que é que vou fazer? [v.17]”.
Nesse excerto, aparece, no início da parábola, o referente “um homem rico...”, codificado com mais forma linguística por se tratar de uma informação nova, necessitando de mais especificações. Em seguida, esse mesmo referente é retomado no texto com o pronome pessoal “ele”, por se tratar de informação velha.